Trocando o Elevador pela Escada

Amanhã, último dia de outubro, completo um mês subindo as escadas do prédio. Foram 119 degraus cada subida, 238 degraus por dia, totalizando 5236 degraus o mês todo. Esse é o número apenas da subida, já que as vezes eu descia de elevador. Lembro de ter queimado uma subida em um dia, por um motivo qualquer, mas ter subido três vezes em outro dia, ou seja, estou de consciência limpa.

A bendita

O motivo pelo qual comecei essa função toda não foi nada aeróbico. Obviamente, 5236 degraus depois eu sinto a diferença: estou muito mais cansado do que no início. Mas é interessante notar que depois de alguns dias nessa rotina, você nem nota os sete andares. As vezes eu subia concentrado, lendo alguma coisa, pensando besteira, e quando percebia olha lá, o sexto andar. Sabe aquelas viagens que duram horas e na volta parecem que passam em minutos? Então. Mesma sensação.

O motivo também não foi social, apesar de que notei essa diferença também, principalmente nas descidas. Trabalhar no 7º andar compreende às vezes pegar o elevador vazio e parar de andar em andar buscando as pessoas. Chegar no térreo é um alívio. Descer de escadas é descer tranqüilamente, sem pausas na caminhada, às vezes chegando até antes dos que não se preocuparam com o elevador cheio.

Outra mudança na interação social que notei foram as conversas na espera pelo elevador. Momentos como o ritual de sair ao meio-dia e dar bom dia para o pessoal da sala da frente (coisa que nunca fiz), ouvir todo mundo falar que está com fome, entrar no elevador cheio e ouvir alguém comentar “pelo menos a gente vai descer mais rápido! Hehehe” não fazem falta alguma. Claro, as vezes você quer comentar algo com alguém ou perde alguma fofoca, mas no final, o que são fofocas perto da calmaria de não ter que ouvir “será que chove”?

O motivo principal pelo qual troquei o elevador pelas escadas foi um teste. Um teste para ver se eu conseguiria abraçar algo por um mês sem desistir. Um teste para ver se eu conseguiria colocar foco em uma tarefa e exerce-la sem medo, todo dia, com regularidade e disciplina. E se há algo que as minhas pernas cansadas (mas ~malhadas) me confirmam, é que sim, eu consegui.

Disciplina e regularidade são as duas faces de qualquer tarefa contínua bem realizada. Talvez para entender isso, seja mais prático obrigar-se a colocar em prática uma tarefa, por isso uma atividade física ajuda bastante. Ao longo do ano, tentei ler todos os dias, escrever qualquer coisa que seja todos os dias, assistir pelo menos um episódio dos inúmeros seriados que assisto todo dia, mas não consegui. O pulo foi sempre maior que a perna. Mas felizmente, saio do mês pensando que sim, consigo me disciplinar a fazer algo diariamente e posso mais.

Vou continuar subindo as escadas, naturalmente. Vicia. O corpo pode cansar, mas é uma provação boa. Por isso, fica a dica: tente trocar o elevador pelas escadas por um mês. Ignore o elevador, imagine uma parede no lugar, quando enxergar ele, passe reto e vá direto para as escadas. Agora com o clima esquentando é uma boa pedida: escadarias costumam ser fresquinhas, vá devagarzinho para não suar e aproveite. Quem sabe role até uma vontade súbita de fazer academia, que tal? (Eu vou continuar com as escadas, fato).

Minha missão agora é descobrir outra tarefa mensal para começar em novembro. De repente voltarei as antigas, como ver seriados, ler ou escrever diariamente. Posso também planejar tarefas semanais: assistir um filme dos inúmeros que ainda quero ver por semana; ouvir um álbum de um artista diferente por semana acompanhando as letras das músicas; usar todas as camisetas do armário que nunca uso; caminhar ao ar livre uma vez por semana.

Provavelmente vou tentar eliminar o conteúdo parado que há na minha vida. Tenho muitos livros a serem lidos e muitas coisas emprestadas a serem consumidas. Taí, um bom plano: vou tentar consumir tudo o que tenho emprestado esse mês. Se você tem algo emprestado comigo, receberá de volta até o fim do mês. Se não receber, é porque nunca mais receberá. Sorry. Mas eu cuidarei bem. Prometo. Você será lembrado por mim com carinho a vida inteira.

O importante é saber que eu posso. O planejamento mensal é ideal para não dar um pulo maior do que a perna e o mês ta começando, cheio de coisas novas para fazer todo dia. Que tal? Regularidade e disciplina dão mais resultado do que qualquer outra coisa. Vai por mim e depois me conta como foi.

Sam já descobriu que não consegue prometer manter o blog atualizado

O Assalto

Aconteceu tudo muito rápido. Fui no shopping, estacionei, paguei minhas contas, voltei ao carro, abri a porta e entrei. Tirei o carnê pago do bolso, larguei no banco do carona, tirei o celular do outro bolso, coloquei no espaço embaixo do rádio, tirei a carteira e comecei a contar o dinheiro que havia sobrado depois das contas pagas. Foi quando ouvi uma voz de comando vindo do banco de trás e senti o cano gelado da arma no flanco direito da minha nuca. Ele falou apenas uma vez: era um assalto.

Soltei a carteira, o dinheiro e a respiração. A última inspiração podia ter sido a última da minha vida. Se soubesse, teria enchido mais os pulmões, como um atleta antes do fim da prova. Eu realmente estava em uma prova que poderia chegar ao seu fim logo, mas definitivamente, não era um atleta. Sou um cara de cabeça, não de corpo, por isso a única prova em que me daria bem era de paciência, e foi que fiz. Como reagir não estava entre os planos, esperei. Tomei ar por três segundos para arranjar coragem e deixei ele falar.

Com o cano da arma ainda imóvel no mesmo lugar na minha cabeça e uma respiração muito mais tranqüila do que a minha, ele pareceu ponderar sobre o que falar e quais as melhores palavras para usar. Quando resolveu quebrar o silêncio, falou tranqüilamente, palavra por palavra. Disse que estava lá porque queria o que mais me importava, queria o que mais me faria falta, queria o que eu tinha de mais valioso na minha vida.

O assaltante queria a minha felicidade.

Encarei aquela frase como se tivesse tomado o tiro que ameaçava a minha cabeça. Como assim, a minha felicidade? Porque ele queria minha felicidade? O que iria fazer com a minha felicidade? Poderia eu entregar minha felicidade para ele? Como eu faria isso? E o principal: teria eu felicidade na minha vida para entregar a ele?

Esperei mais alguns segundos, em choque, ver se ele iria se pronunciar mais alguma vez. Pedir outra coisa, o carro talvez, o celular, o dinheiro que viu eu tirar da carteira. Não. O assaltante só desejava a minha felicidade. Não tinha interesse nos meus bens materiais, no meu carro, dinheiro, celular. Para ele, aquilo não era mais importante do que a minha felicidade. Será que eu não estava percebendo alguma coisa aqui?

Segurei a voz embargada e pedi desculpas. Que tipo de idiota pede desculpas para um assaltante? Não sei. Mas pedi. Disse para ele que ia ter que me perdoar, porque não sabia se teria felicidade para dar para ele. Ele ficou brabo. Pressionou o cano da arma contra a minha cabeça e retrucou. Como não? Eu tinha carro, casa, família, emprego, oportunidades, saúde... como não teria felicidade? Notei que ele falava calmamente, como se tivesse muita certeza do que estava fazendo. Com o pouco que ele sabia da minha vida, podia afirmar com certeza que eu tinha felicidade. Eu não tinha tanta certeza.

Sempre brinquei de colocar as coisas em perspectiva para ver o que mais me importa na vida. É uma brincadeira mórbida, mas eu explico. Imaginava-me tendo um acidente. Iria para o hospital, nada grave, ficar uma semana. Quem iria me visitar? De quem eu sentiria mais saudade? Quem iria me surpreender, quem seria aquela pessoa que eu não vejo faz séculos, mas que compadecida da minha situação, iria atrás de mim, para saber da minha saúde, do meu estado, da minha vida? É uma brincadeira egoísta, mas sempre que pensava nas pessoas tristes por mim, me sentia triste por elas e isso me ajudava a entender de quem eu gostava e precisava mesmo.

Mas isso não era uma simulação. Não era um acidente besta criado na minha mente. Isso era realidade. Era um assaltante com uma arma na minha cabeça, um parco conhecimento da minha vida e uma exigência de algo que eu não sabia se poderia dar a ele, mesmo ele tendo certeza que eu tinha. Ou que tinha todos os pré-requisitos para ter. E o safado não parecia nem nervoso. Falava calmamente, com uma oratória quase professoral, e uma certeza nas palavras que lembrava outra pessoa, alguém que conhecia muito bem antigamente.

Coloquei as coisas em perspectiva novamente sobre a minha ótica egoísta e me senti um desnaturado pelo fato de que podia morrer porque não tinha felicidade na minha vida. Imaginei os outros no meu velório. Olha lá, lá se vai aquele que morreu porque não tinha felicidade para dar aos outros. Será que não podia prover felicidade porque não era feliz? Eles nunca saberiam. Num misto de coragem e desespero, me agarrei no volante do carro, com lágrimas nos olhos, e implorei. Pedi por favor, que não levasse minha vida, mas que eu realmente não tinha a felicidade que ele queria que eu tivesse.

Com a mesma calma e certeza de sempre, o assaltante me respondeu. Disse que não levaria a minha vida. Afinal, minha vida sem felicidade não valia nada.

Enquanto estava deitado no volante, num misto de desespero e humilhação, ele simplesmente saiu, tão misteriosamente quanto entrou. Não cheguei a ver seu rosto. Parece loucura dizer isso, resultado do choque de ser assaltado, talvez, mas depois de um tempo, me dei por conta de quem ele me lembrava. Seu jeito de falar, a entonação em sua voz, suas palavras certeiras, tudo isso lembrava uma pessoa que eu havia conhecido há muito tempo atrás, alguém que tinha todo direito de exigir felicidade na minha vida: eu.

Fiquei alguns minutos deitado sobre o volante até arranjar coragem para ligar o carro e ir embora. Voltei para casa revivendo a cena e pensando o que as pessoas ao meu redor fariam se soubesse o que aconteceu. Quem iria correndo para minha casa saber como estou? Quem iria subitamente expressar uma preocupação enorme por mim? A curiosidade era grande, mas eu sabia que essas pessoas iam estar preocupadas com a minha vida, o que talvez não fosse importante agora. Decidi então, que ao invés de esperar pela opinião dos outros, iria ouvir a opinião do assaltante, e garantir que a próxima vez que ele me encontrasse, eu tivesse felicidade na minha vida. Porque realmente, mesmo que eu ficasse vivo com muitas pessoas ao meu redor, a minha vida sem felicidade, não valeria nada.

2.4

24 anos. A idade em que o segundo número é o dobro do primeiro, significando que no momento, eu sou ainda metade de tudo que eu posso me tornar a ser.

Ou só uma boa desculpa pra eu não falar 23B.

19

20

21

22

23

24

Sam queria dos Vingadores. Mas ficou no tema.

Parabéns Neil Peart. E obrigado.

Sabe quando você se sente tão próximo de um artista que passa a considerá-lo parte da família?

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Não sei ao certo precisar o momento em que conheci Rush. Deve ter sido em algum programa de TV que falava sobre "Tom Sawyer", clássico do álbum "Moving Pictures", ter sido trilha do programa do Macgyver na Rede Globo, o "Profissão Perigo", que normalmente é o que a televisão mais lembra do Rush. Sei que o momento em que conheci, bateu aquele brilho no olho e eu logo repetia pra quem quisesse e não quisesse ouvir: "essa banda, o Rush... essa é minha banda".


Minha, do Cartman, do Kyle, do Stan e do Kenny

Claro, eu devo ter umas 12 "minhas" bandas, uma pra cada dia da semana, uma pra cada humor, uma pra cada lua... mas o Rush cara... o Rush combina. Porque né. Rush é nerd. Rush é excluir-se por vontade própria porque o lado excluído é muito mais legal. Rush é aceitar gostar de uma banda que pouquíssimas pessoas vão amar junto com você, mas aqueles que amam... você achou um amigo para toda vida.

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E muito dessa "aura mágica" do Rush deve-se aos temas das suas músicas, que vão desde análises muito inteligentes do comportamento humano até histórias épicas de ficção científica, do tipo que os seus fãs devoram em todos os detalhes. E muito, pra não dizer tudo, dessa parte sci-fi do Rush deve-se ao seu baterista, Neil Peart.

Baterista, aliás, é pouco. Além do "Profissão Perigo", a outra coisa pelo qual o Rush é sempre lembrado é a qualidade técnica dos seus membros e principalmente de Neil Peart. O cara ganhou sete vezes seguidas o prêmio anual de melhor baterista da revista Modern Drummer. SETE. E depois tiraram ele da competição porque ele já era hors-councours e porque né, outras pessoas tinham que ganhar. Foda.

Só falar do lado baterista de Neil já é o suficiente pra admirar o cara. Mas ele é mais foda ainda. Neil é o principal letrista da banda, e letrista de uma banda como Rush não é pouca coisa. Desde o primeiro álbum da banda que participou, "Fly By Night", de 1975, Neil já exibia os traços épicos que usaria pra roteirizar as músicas do Rush durante a carreira. Foi na música "By-Tor & the Snow Dog", que conta a história de uma batalha entre um guerreiro Snow Dog e o malvado By-Tor


By-Tor & the Snow Dog

No próximo álbum, "Caress of Steel", de 1975, a epicidade continua. "Fountain of Lamneth", o primeiro épico do Rush a retratar o tema que depois viraria recorrente nas canções da banda, sobre o homem incapaz enfrentando o sistema para provar suas ideias. Com seus mais de 20 minutos, a canção é um clássico de 7 partes. Apesar disso, minha música favorita do álbum é "Bastille Day", uma aula de história sobre a Queda da Bastilha.


Bastille Day

Ainda no álbum "Caress of Steel", na música "The Necromancer", Neil traria de volta o vilão By-Tor da canção do álbum anterior (dessa vez como herói!), transformando isso em um pequeno easter egg para os fãs da banda que curtiam suas letras. Mas o melhor ainda estava por vir: fã da escritora Ayn Rand, Neil utilizaria um livro seu para dar vida ao álbum mais clássico da banda e que formaria o caráter de muitos air drummers, air bassists e air guitars da história. Senhoras e senhores: "2112".


A abertura de "2112", na "intimidade"

A música, que depois da introdução matadora aí de cima começa descrevendo os Sacerdotes do Templo de Syrinx e termina com uma voz mecânica anunciando "ATTENTION ALL PLANETS OF THE SOLAR FEDERATION: WE ARE ASSUMING CONTROL" é um clássico não só do hard rock progressivo como da ficção científica. Eu não sei como ela não virou um filme até hoje. Ou um episódio de Doctor Who. Eu já tentei transformar ela em RPG umas cinco vezes e sempre que posso copio alguma ideia da sua história pras minhas.

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Então nesse momento, temos um baterista, letrista, fã de ficção científica. Eu seria fã de Neil se ele tivesse apenas uma dessas características; imagina as três. Veio então a melhor parte: pesquisando sobre a vida da banda, fui olhar a data de nascimento de Neil Peart. DOZE DE SETEMBRO.

Baterista, letrista, fã de ficção científica e virginiano.

Lembro de ter anotado na minha agenda do colégio a data de aniversário de Neil Peart. Era algo que ia definir para sempre minha relação com os artistas: descobrir os seus signos para me identificar com eles. Eu desde o início me identifiquei com Neil, em todas as suas funções, e descobrir que ele era virginiano só corroborava essa identificação. Não foram poucos os momentos em que pensei "eu posso ser como esse cara".

(só pra constar, Elvis Costello também é outro virginiano que eu sou apaixonado)

Desde então, Neil fez parte da minha vida e eu fiz parte da vida dele. Sofri junto com ele ao reler as histórias sobre a morte de sua esposa e filha; sobre o seu exílio de motocicleta em que cruzou 88.000km sozinho (esses bateristas que gostam de ficar sozinhos...); sobre o livro que escreveu na volta. Me emocionei ao descobrir que no meio dos anos 90, no auge da fase hard rock do Rush, Neil tirou um tempo para FAZER AULAS DE BATERIA e se reinventar com o baterista Freddie Gruber. Porra, quem ganha sete vezes consecutivas o prêmio de melhor baterista do mundo e vai fazer aulas depois? É muita humildade.


"you can have a beautiful body and look marvelous, but if you're not breathing... it's not a life"
Freddie Gruber, baterista de jazz, Yoda das baquetas e gênio
Cena do documentário "Beyond the Lighted Stage"


O bacana de ficar fã AMIGO de um artista é que de repente você tem uma vida inteira de lições para aprender e foi exatamente isso que aconteceu comigo em relação ao baterista do Rush. Entendi sua dor, suas motivações, sua timidez, seus gostos literários, e de quebra, ainda tinha sua MÚSICA. Algumas noites eu passei com o rádio ligado na cabeceira da cama, a coletânea do Rush tocando e eu tocando minha bateria imaginária, mimetizando o que eu conseguia daquele mestre que eu tinha recém ganhado.

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Hoje, Neil Peart está completando 60 anos. E tocando mais bateria do que eu tocaria em toda a minha vida. Lançou com o Rush recentemente o 19º álbum da banda "Clockwork Angels", um álbum-conceito que eu ainda não tive chance de viver com toda sua intensidade e está lançando um romance sobre o álbum, juntamente com o escritor e amigo de longa data Kevin J. Anderson.

Neil Peart é uma daquelas pessoas que simplesmente faz tudo o que eu quero fazer da minha vida. Ele começou com 22, eu estou a dois dias de completar 24, mas mesmo assim, vale o exemplo dele de que tudo é possível. Basta olhar para a carinha serena que ele apresenta aos 60 anos pra ter certeza de que estar em harmonia com si mesmo é parte importante no processo de alcançar seus objetivos e ser feliz. Se eu chegar aos 60 metade do que ele é, fico feliz. Mas tenho certeza que ele me diria: você pode ser muito mais.

Parabéns Neil Peart. E obrigado.


1min9s: EU ENTENDO COMO ELES SE SENTEM

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Sam está tocando Rush no ar nesse momento

PLAYLIST - Morando Sozinho

O rock and roll sempre serve de voz para muitos sentimentos do seu público, assim como qualquer estilo de música. Normalmente, claro, o rock dá voz a rebeldia e não tem sonho de independência maior do que morar sozinho. Ok, talvez um carro, uma viagem, poder escolher o emprego que quiser, acordar a hora que quiser... mas morar sozinho é algo muito desejado! Fazer festa, incomodar os vizinhos, acordar e ver a casa destruída. Quem nunca?

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Tom Petty já falou sobre isso em "The Apartment Song", em que falava sobre os vizinhos batendo na porta e aquele sentimento de solidão que bate as vezes em quem conseguiu morar sozinho. Há uma versão dessa música com a Stevie Nicks também. Passe longe dessa.


"Oh yeah, I'm alright
I just feel a little lonely tonight"

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Quando foram gravar o primeiro álbum, "Room On The Third Floor", o McFly se mudou para um apartamento onde pudessem gravar o CD em paz enquanto moravam juntos. Mas se o apartamento que eles foram morar foi que nem o que eles descreveram na faixa-título do álbum, com uma cama quebrada, o ar condicionado travado no quente e os vizinhos de cima reclamando do volume muito alto, eu acho que eles podiam ter gastado mais um tempo procurando outro apê.


"Room on the third floor
Not what we asked for
And I'm not tired enough to sleep"

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Claro, as vezes a gente encontra um apê legal, decente, que dê pra levar a banda, ensaiar, arrasar a cidade, fazer umas festinhas... é exatamente sobre isso que fala "NW Apartment", do Band Of Horses. E claro, sem esquecer daquele sentimento comum de quem faz festinhas em casa: alguém dormiu na minha cama?


"In the morning I wake up I'm ready for the night time to begin
And what's that over there on my pillow
Someone sleeping in my bed"

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E as vezes, a relação com o próprio apê pode ser tão doentia que a pessoa fica mal quando tem que sair dele visitar alguém. Desapega amigo! Não faça que nem o Young The Giant. Se bem que um uivo dentro de mim as vezes não é agonia, é só fome. Fica a dica.



"After leaving my apartment
I feel this cold inside
It howls away all through the market
It calls your name"

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No final, ironicamente, quem detalha melhor o clima de festa enquanto tá morando sozinho não é nenhuma banda de rock não, e sim um um prazer culposo que eu adoro cantar. Faz tempo que eu penso que o sertanejo é o único que consegue transportar o clima festivo do início do rock and roll pras letras de hoje em dia (ou me diz uma banda NOVA que fale primariamente sobre fazer festa, beber e ir atrás de mulher?). Essa música do João Neto & Frederico atinge direitinho o público-alvo deles, os universitários que tão saindo da casa dos pais agora e mais preocupado em fazer um lê-lê-lê do que passar na faculdade. A parte de pedir uma grana em casa é muito verdadeira. Mas vai dizer: essa música é mais fácil de guardar do que as datas da reunião do condomínio.



"Agora eu tô sossegado, tô na farra e não nego
Ninguém manda em mim, eu faço tudo o que eu quero"

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O Playlist é um espaço semanal onde eu aponto meia dúzia de músicas sobre o mesmo assunto que ocupam o meu vasto HD. Sugestões de assunto? Comente!

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Sam ainda não sabe quando vai morar sozinho

Acelera e Vai

Começa com um passo simples. "Vamos ver onde que vai dar". Mas nunca acaba onde você espera. Sempre adiante. E melhor.

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Fui atrás de uma fonte para uma reportagem. Dia ensolarado, quente, vento batendo displicentemente no rosto pela janela do carro, mais dengoso que casal de namorados recém-formado. Fui até o bairro onde encontraria a fonte, dei três voltas em busca dela e não encontrei o que queria. Segui uma rua, peguei outra, virei a direita em outra, segui reto... quando me dei por conta, já estava longe demais do início do bairro. De repente, uma longa estrada entre um caminho arborizado abriu a minha frente.

"Hm. Vamos vendo onde que vai dar."

Ai minha gasolina.

Foi aqui que deu. Mas até chegar aqui...

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Dirigi ininterruptamente por um tempo indeterminado. Dirigi durante 8 músicas. Aos poucos, ia checando as condições da viagem: a gasolina, a hora, a temperatura, o lugar, a gasolina, mensagens de texto, a gasolina... Mas foi quando eu estava subindo uma estrada na encosta de algumas videiras cantando "I Ain't the Same" do Alabama Shakes que eu resolvi admitir.

"Estou perdido. Oba."


"No, you ain’t gonna find me
Oh no, cause I’m not who I used to be"


Nesse ponto da viagem eu realmente não fazia ideia de onde estava. Mas tudo tranquilo, eu tinha gasolina e a vontade de continuar e ver onde ia dar era mais forte. A cada entrada de chácara e terreno que me permitia fazer a volta eu pensava "ah, na próxima eu faço o retorno". Não houve próxima, claro.

De repente, uma bifurcação. Esquerda ou direita? Estrada troll. Segui pela esquerda e percebi que ali já conhecia de outras viagens, mas tinha chegado lá por outra estrada, não a que peguei dessa vez. Estranho. Segui a esquerda da bifurcação e passei por uma vinícola, para logo em seguida chegar em uma igreja que eu já conhecia. Ao lado dela, um grande salão de festas e um cemitério. Ao lado disso tudo, em um terreno desnivelado, um campo de futebol. Eu não sei onde estava, mas era onde a ação acontecia.

O campo mal utilizado

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Ou onde DEVERIA acontecer, claro, afinal, eu era o único ser humano em um raio de muitos quilometros. Eu só ouvia ao longe as cabritas fazendo barulho (e confesso que entendi um pouco aqueles gaudérios velhos que carcam as cabritas - eles devem ser muito solitários; mas não tive nenhuma ideia nem vontade, ok?). Os cavalos também se pronunciavam no meio da baderna sonora. Eram tantos sons diferentes da natureza ao redor que o único som que não achava eco era a batida oca da porta metálica do meu carro. Sentei em um dos banquinhos cor de rosa que serviam para a torcida assistir o jogo e lá fiquei.

O banquinho rosa

Para descrever o que aconteceu depois disso seriam necessários uns três parágrafos em branco, porque foi exatamente isso que aconteceu: longos quinze minutos de um longo NADA. E sinceridade aqui: há quanto tempo eu estava precisando de um longo nada naminha vida. Really. Me instalei naquele banquinho rosa e me permiti fazer parte daquele cenário bucólico que eu nunca conheci antes. Fiz companhia para as cabras, os cavalos, os mosquitos e os mortos do cemitério atrás de mim. Ignorei onde eu estava, quem eu era e o que devia fazer. E fiquei feliz.

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O fim da tarde foi aos poucos chegando e a agonia por ter de deixar aquele lugar de extrema paz aumentava. Resolvi então voltar a estrada e pegar o por-do-sol dirigindo. Liguei o rádio, passei a música e começou a tocar "Sleep Forever", do Portugal The Man. Tudo o que eu queria ouvir.


Bem nessas...

A música durou exatamente o tempo do sol sumir. A música acabou, o clima esfriou, as pessoas começaram a surgir de todos os lados e eu juro que a viagem de volta durou 5min. Cheguei a conclusão que o tempo de viagem é proporcional a sua expectativa pelo destino: quanto menos você sabe onde vai chegar, mais demora. Mas vale a pena.

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Por isso, quando o nó na garganta apertar, fuja. Fuja o mais rápido que puder, como se sua sanidade mental dependesse disso. Provavelmente ela não depende, mas colocar ela como prioridade ajuda a manter as coisas em perspectiva e descobrir o que é mais importante. O inconsequente as vezes se faz necessário.


"if you don't know where you're going, any road will take you there"


Sam realmente NÃO SABE onde foi parar

PLAYLIST - Kill the DJ!

O Green Day está lançando aos pouquinhos os singles da sua nova trilogia de álbuns ¡Uno!, ¡Dos! e ¡Tré!, que serão lançados em setembro, novembro e janeiro, respectivamente. A última música lançada foi a homicida "Kill the DJ", que dá pra ouvir aí embaixo, com uma batida dançante bem diferente do esperado do Green Day e o Billie Joe falando palavrões a vontade, bem perto do esperado do Green Day.


"someone kill the DJ, shoot the fuckin' DJ
hold him underwater till the motherfucker drowns"

A música claro é arriação pura, já que até o riff dela é BEM parecido com "Robot Rock", do Daft Punk, que no final das contas, são dois DJs, e ela até serve muito bem pra ser remixada e ir parar na pista de dança. Até original ela pode ser tocada. Mas de qualquer jeito, vale a pergunta: apesar das pessoas preferirem cada vez mais festas do que shows de bandas, quem nunca quis matar o DJ?

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O Jet expressa um pouco dessa raiva em "Rollover DJ". Confesso que antes de discotecar a visão que eu tinha de DJs era parecida com a deles; depois de começar a discotecar, eu tive certeza.


"I wanna move but I don't feel right
'Cause you've been playing other people's songs all night"


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O Cobra Starship é mais direto ainda: não culpe o mundo, a culpa é do DJ. Claro.


"don't blame the world, it's the DJ's fault"

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Pelo menos o R.E.M. salva um pouco a pele dos DJs. Mas só porque a música é narrada por um DJ... morrendo? Aliás, bela música, diferente do R.E.M. mais conhecido, vale a pena ouvir.


"if death it's pretty final, i'm collecting vynil
i'm gonna DJ at the end of the world!"

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De qualquer jeito, tendo experiência dos dois lados, posso afirmar que DJ não é muito diferente de banda: eles só querem tocar aquilo que eles gostam... e que normalmente, só umas 10 pessoas conhecem, entre elas, outros DJs, família, namorada e aquele cara que acessa o mesmo blog obscuro que ele. E fazer isso enquanto alguém vem na cabine dizer "TOCA KUDURO" ou "TU NÃO VAI TOCAR A MINHA MÚSICA DA FLORENCE?" pode ser bem difícil. Por isso, tenha paciência com eles.

No final, você pode até cantar Robbie Williams junto com ele, que tal?


"I don't wanna rock, DJ
but you're making me feel so nice"

Só não tire a roupa. Nem a pele. Por favor.

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Vou tentar fazer disso uma nova sessão no blog, pra não perder aquela vontade de falar de música dos bons tempos de Cometa Hits: a Playlist vai ir ao ar toda semana, provavelmente na terça, sempre com meia dúzia de músicas do meu vasto HD falando sobre algum assunto.  Semana que vem, músicas que falam sobre morar sozinho. Sugestões de assunto e de música? Comenta ai!

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Sam ainda não mudou sua opinião sobre DJs

O Dia em que Conheci Ophelia

Disciplina é a base do sucesso.

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Sexta-feira, dia 10 de agosto, dois fins-de-semana atrás. Agência vazia, com a maioria dos presentes marcando presença em evento fora da cidade. Eu tinha uma lista de umas 5 ou 6 coisas pra fazer. E não fiz praticamente NADA. Mas assim... NADA. Digo isso sem nem ficar vermelho, porque para mim não fazer nada é simples; foco não é o meu forte, ainda mais no trabalho, ainda mais sem ninguém por perto, ainda mais com o Facebook aberto e com o mouse na mão. Quem já me viu na internet, sabe como é. Quando eu não sinto o universo correspondendo na necessidade de trabalhar ao redor, eu simplesmente não funciono. Abri arquivos várias vezes na tarde, só pra fechar eles depois e voltar a minha lista de coisas a fazer para ver se não tinha aparecido nada mais atraente. Mas o que era atraente só aparecia ali, na tela do computador, dentro da moldura do monitor, em cores chamativas e berrantes e links atrativos e epiléticos. Uma tarde quase jogada fora.

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Passei o fim de semana tranqüilo, fazendo festa, jogando RPG, e ignorando sumariamente o número de obrigações que deixei para trás. Eventualmente, porém, chegou aquela que é a única tão inevitável quanto a morte: a manhã da segunda-feira.

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Segunda-feira, 13 de agosto. Cheguei no trabalho na hora. Em ponto. 8h30min travado. Só conseguia pensar na sexta-feira e na lista de trabalhos que quando eu cheguei no trabalho me olhou que nem ex-mulher cobrando pensão. Fosse outra a ocasião, eu teria desviado que nem malandro carioca de novela das 20h e aberto a internet. Mas até malandro carioca às vezes tem que pagar pensão (tenho assistido “Cheias de Charme” demais), então resolvi me mexer.

Foi assim que começou a operação “ Internet Tele-Sena”.

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Internet, naquela manhã, só de hora em hora. Anotei em um papel “9h – 10h – 11h”. A ideia era marcar cada um dos pontos como uma conquista. Fossem outros tempos, nem daria bola. Mas o medo racional de me queimar por alguma das coisas não feitas me assustou. Era a consciência de que o que estava atrasado era culpa inteiramente minha. Há boatos que isso se chama “preocupações da vida adulta”, mas não tenho certeza ainda. De qualquer jeito, fechei a internet, respirei fundo e fui trabalhar.

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Fiz um X embaixo da marquinha das 9h no papel que ficava na frente do teclado. Abri a pasta de músicas, o Windows Media Player (não, eu não uso o iTunes; sim, chocante), e coloquei lá dentro tudo o que poderia me fazer companhia naquela manhã. Dei preferência por rock clássico e ainda, por discos que eu não costumo escutar do rock clássico. Joguei no balaio David Bowie, Pink Floyd, Bob Dylan, Beatles, Led Zeppelin, Rolling Stones, The Who, Jethro Tull, e claro, Bruce Springsteen e Elvis Costello. Porque não seria uma história minha sem Bruce e Elvis.

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Trabalhei vigorosamente até as 10h, sempre com um olho no relógio e outro na porta. Um esperava pelo momento em que algum das autoridades – os chefes – chegasse pela porta e visse em que pé andava o trabalho. O outro olho verificava a autoridade maior – o tempo – e quanto tempo faltava para as 10h. A abstinência é mais difícil no início. Mas a gente supera.

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As 10h então chegaram. Iei! O segundo marco conquistado! Abri o Google Chrome as 10 horas e 5 minutos – o viciado sempre tenta mentir que não é viciado demais – e abri o Gmail e o Facebook. Chequei algumas atualizações, postei uma música no perfil do DJs & Dragons (“Welcome to the Working Week”, Elvis Costello, eu sendo irônico comigo mesmo) e fui olhar os meus e-mails. “Olha, um e-mail novo para responder! Vou contar a história do meu regime de internet, responder o que me pediram, falar do meu fim de semana e depois só abrir de novo as 11h! Nossa, como isso está dando certo!”.


O "meu" Elvis

Comecei a responder o e-mail as 10h5min. Terminei as 10h30min.

Maldita capacidade e necessidade de detalhar TUDO o que acontece no fim de semana.

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Fechei o navegador e voltei a ativa. Hora de voltar ao ritmo normal. Terminei um dos trabalhos, salvei, fechei o arquivo e deixei de lado para mostrar para um dos meus chefes quando eles chegassem. Até o momento, nada. Aos poucos, aquela risadinha no fundo do meu cérebro começava a soar, e aquela voz corneteira da minha consciência gritava aos quatro cantos: “HAHA, VOCÊ VAI FAZER TUDO CORRENDO E NENHUM DELES VAI VIR DE MANHÔ. Mas para que serve a consciência senão para ser calada, não? Aumentei o volume dos fones e continuei na abstinência.

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11h10min. Abri o navegador novamente. Mesma coisa: Facebook, notificações, um link, uma lista de 10 mais, uma nova gostosa moça de respeito no Egotastic; Gmail, deletei alguns e-mails, abri uma newsletter, li uma webcomic e respondi o e-mail da conversa das 10h. Felizmente minha interlocutora entendeu perfeitamente a minha ausência e colaborou no regime. Tenho bons amigos, sabe? Respondi o que tinha que responder, fechei a internet e aceitei o fato: nenhum chefe meu chegaria naquela manhã. Acontece.

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Fui para casa 12h, voltei perto da 13h20min, abri a internet por alguns minutos e fui trabalhar. Finalmente, a porta abriu e adentrou um dos chefes. Deu “boa tarde” para todos, largou as coisas na mesa, e antes que ele chegasse perto da mesa, respondi orgulhoso, de peito mais estufado que peru de natal: “TÁ TUDO PRONTO”. Falei aquilo com uma convicção tamanha de que realmente, tinha feito tudo o que podia para exercer o trabalho da melhor maneira possível, que teria me permitido ficar a tarde inteira com o navegador da internet aberto, tal qual um prêmio, uma conquista, um espólio da minha batalha pela disciplina contra a internet!

Então meu chefe passou a tarde inteira LONGE da mesa dele, usando o computador que fica exatamente... do meu lado.

Alegria de pobre dura pouco, gente.

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Saí para minha aula no vespertino às 16h, satisfeito comigo. É estranho, porque, para mim, acessar a internet e ficar vidrado naquilo ali é tão natural quanto dirigir e tão perigoso quanto falar no telefone dirigindo. Eu sei que faz mal, mas faço. No final, sou um péssimo motorista em ambos os casos, mas a endorfina liberada quando percebi a minha concentração e meu esmero em terminar um trabalho valeu a pena. Deu até pra suportar a mãozinha tremendo, querendo pegar o mouse e conectar-se ao mundo. Esse foi o lado bom do desafio: é bom saber do que eu sou capaz. 

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O outro lado bom foi escutar MUITA música diferente. É bom fugir dos eternos Aqualung, Ziggy Stardust, Sgt. Peppers e ouvir um Songs From the Wood, um Hunky Dory, um Revolver... mas apesar de toda a minha insistência em querer ouvir coisas diferentes, o Windows Media Player teve preferência por uma coletânea de uma banda em especial, a banda das bandas, e tocou mais músicas dela do que de qualquer outra banda. E isso foi o que mais me marcou nesse dia especial: foi nele que eu conheci Ophelia.

E agora eu só consigo pensar: como é que eu vivi sem conhecer Ophelia antes?


Levon Helm, o melhor baterista e vocalista da história

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Essa semana, o desafio é tentar diminuir o ritmo de uso da internet e continuar ouvindo música boa. Um deles eu tenho certeza que consigo.

Sam declara que, para fins trabalhísticos e de RH, esse texto nunca existiu.

Ao vencedor, as batatas. E os sovadinhos. E os legumes.

Demorou. Mas finalmente, aconteceu.

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Sábado pela manhã, 10h, o relógio biológico ligou seu despertador e me fez levantar. Depois de uma madrugada em claro assistindo desenho animado e seriados e escrevendo e procrastinando a vida, resolvi ignorar o sono e pagar de consciente: não voltei a dormir. Lavei o rosto, abri o quarto, arrumei a cama, e quando estava pronto para continuar a procrastinação livro - seriado - escrever, minha mãe me chamou na cozinha.

- Tu já tá em pé? Que bom. Vem cá conversar comigo um pouco. E aproveita e traz um papel e uma caneta. Tu vai ir no mercado pra mim hoje de tarde.


Essa música começou a tocar automaticamente na minha cabeça

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Eu não sei ao certo quantos dias compreendem uma vida de quase 24 anos, mas sei que dá MUITOS dias. E mesmo com MUITOS dias de experiência nesse plano astral, nunca fui designado a "ir no mercado sozinho". Nossa, quando eu vou com os amigos (definição de sozinho = longe da família), eu já fico de lado, aparecendo como personagem coadjuvante de luxo só na hora de pagar no caixa! Quem dirá ir sozinho. Eram compras simples, ok, mas agradeci pela confiança e abracei a tarefa como um verdadeiro herói.

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Mais tarde eu descobri, claro, que não há nada de heróico em ir no mercado sozinho. Mas para mim, que me gabava (para mim mesmo) que "eu já fui pra praia sozinho" (de novo, sozinho = longe da família), "já viajei pra outros cidades de carro sozinho", "já fiz coisas complicadíssimas sozinho" (pra simplificar), ir no mercado era algo que eu já devia ter feito mil vezes. Mas demorou quase 24 anos para essa tarefa acontecer. A minha suíte "Zona de Conforto" no Hotel dos McQueen tá precisando de umas férias de mim.

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Claro, a lista de compras era pequena, não foi algo do tipo, "NOSSA, ELE FEZ UM RANCHO PARA ALIMENTAR A FAMÍLIA INTEIRA POR UM MÊS," mas dá pra citar algumas coisas interessantes:

PONTOS ALTOS: quem imaginaria que escolher laranjas do céu seria TÃO divertido! Analisar a consistência de cada uma, qual tava mais madura, qual tava com uma cara melhor. Foi bem divertido. Levei até uma meio feia, só pra não cometer bullying.

PONTOS BAIXOS: eu não sei se o sistema de som estava ligado em uma rádio interna ou uma FM qualquer, mas o playlist de Rihanna, Luan Santana e afins não agradou tanto quanto eu esperava, mesmo estando no mercado. De qualquer jeito, dancei muito quando tocou ABBA no corredor dos papéis higiênicos.


"you can dance... you can ji-i-ive..."

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No final, voltei pra casa satisfeito. Me dei até o luxo de comprar maçãs verdes que não estavam na lista, só porque eu estava satisfeito comigo mesmo e porque, enfim, são maçãs verdes, WHY NOT? No domingo, minha mãe repetiu a função comigo, dessa vez indo na padaria para comprar algumas coisas rápidas, para café e afins. No corredor dos bolos, me indagou "se eu te pedisse pra tu comprar alguma coisa doce pra mim, alguma cuca, o que tu compraria?". "Uma cuca, mãe". "E se eu pedisse pra tu comprar um bolinho, o que tu compraria?" "Um bolinho, mãe". Eu não sei que tipo de treinamento ela tá me dando, mas ela citou pelo menos três vezes que "eu tenho que aprender essas coisas pra quando eu tiver que fazer sozinho". Eu não sei se ela tem o mesmo conceito que eu de "sozinho", mas achei um comentário bem válido.

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De resto, tem que enxergar valor nas pequenas coisas. Acabei a noite de sábado na casa de um amigo assistindo How I Met Your Mother, e como disse o personagem principal no fim do episódio 3, "as vezes acabamos indo em um lugar onde não imaginávamos ir e no final dar tudo errado. Mas o importante é trazer uma boa história de lá." E é isso. Um belo mantra.

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Valorizar as pequenas coisas e viver pelas boas histórias. Mesmo que seja como você dançou ABBA enquanto comprava papel higiênico num sábado de tarde. Eu sei. Vocês nunca mais vão conseguir me olhar do mesmo jeito sem imaginar essa cena.


Ainda vou chegar nesse nível, prometo.

Sam aceita dicas de como escolher tomates

Os Cachorros de Madame e os Vira-Latas

Naquelas dicas de construção de histórias da Pixar que chegaram à internet alguns meses atrás, uma dica era muito válida para qualquer coisa na vida: "Quando não souber para onde sua história for, anote todos os caminhos óbvios que você consegue pensar que ela irá seguir. Talvez assim você saberá para onde ela NÃO deve ir e o seu caminho certo será naturalmente o único que você não pensou". Simples assim.

Sendo assim, quando estiver trancado na vida, numa sinuca de bico, e não souber pra que lado ir ou o que fazer, pense em tudo o que você faria normalmente. Talvez o caminho certo não seja nenhum deles.

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Seguindo então essa linha de pensamento, comecei a divagar na seguinte questão: o que você é? Fazendo essa pergunta a mim mesmo, não pude resistir e apliquei a regra da Pixar, alterando a pergunta. A questão então é "o que você não é". E assim começa a reflexão.

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Você não é suas roupas.
Você não é seu carro.
Você não é o seu time.
Você não é o seu seriado favorito.

Você não é o seu livro favorito.
Você não é sua banda favorita.
Você não é a sua banda de garagem.
Você não é uma música.

Você não é layout.
Você não é seus amigos no Facebook.
Você não é a pessoa que os outros encontram no trabalho.
Você não é o colega de faculdade dos seus colegas.

Você não é filho.
Você não é pai.
Você não é irmão.
Voce não é namorado.

Você não é o que os outros pensam de você.
Você não é o que os outros ESPERAM de você.
Você não é as atitudes que querem que você tome.
Você não é a sua foto sorridente e sempre alegre do seu avatar.

Você não é a pessoa que diz sim.

Você de verdade é a pessoa que diz não.

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Porque dizer sim normalmente implica que você está concordando com alguém ou algum ponto de vista. E para isso acontecer, deve haver uma outra pessoa, com uma proposta mais atraente ou uma desculpa mais confiável. E independente da proposta ou da desculpa, se você está concordando com ela, esse sim é mais dela do que seu. Então você é verdadeiramente você quando diz não.

Você de verdade é aquela pessoa que pensa sem culpa: "vou ficar em casa porque não quero ver ninguém hoje" e que logo depois se assusta com esse pensamento. "Nossa, como eu sou capaz de dar as costas pra todo mundo e pensar assim dessa maneira, desejar tão avidamente ficar sozinho e não ver ninguém?". Você é capaz. E por 5 segundos, você foi essa pessoa, sem culpa na consciência.

Você é verdadeiramente você quando vai dormir. Quando não há time, livro, seriado, roupa, notificação, obrigação ou opinião alheia que irá definir o que você é. Quando o mundo não atinge você, quando ninguém irá conseguir se intrometer na sua escolha, quando a administração dos seus atos parte de você e somente você, quando você deita a cabeça no travesseiro a noite, orgulhoso ou pesaroso do que fez ou deixou fazer... ali você é você mesmo.

O resto é besteira. É fake. É uma imagem. Não é você.

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Aquela corrente de pensamentos, que você põe pra fora as vezes, aquele fluxo de consciência em que os dedos voam pelo teclado sem se preocupar com pontuação e apenas correndo contra o tempo e contra a sua mente querendo expor a sua opinião como se os outros estivessem correndo atrás de você com o dedo apontando para o Backspace prontos para apagar tudo e não deixar você GRITAR... esse é você.

Agora respire fundo, pare e pense.

O quanto de você está sufocado e o quanto de você está saindo para passear?

Não seja cachorro de madame, que sempre anda no colo. Seja vira-lata.

Porque vocês acham que eles abanam o rabo o tempo inteiro?



Sam curte cachorros metafóricos

A Boa e Velha Terceira Idade

Domingo passei o dia na produção de um documentário para a disciplina de Rádio na faculdade sobre bailes de terceira idade.E por mais que eu abomine o jornalismo na maior parte do tempo, eu tenho que admitir que as vezes nós realmente nos deparamos com histórias que, não fosse o jornalismo, não haveria outra maneira de elas chegarem até nós.

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Assim como diz a máxima na televisão que as piores coisas a serem utilizadas em uma gravação são crianças e animais, acho que a melhor coisa que acontece na produção de uma matéria é entrevistar ou ter a chance de entrevistar velhinhos. Nunca irá lhe faltar assunto e ao contrário de fontes que normalmente estão apressadas com os seus afazeres ou cheias de coisa na cabeça para fazer, os idosos sempre terão toda a paciência do mundo para falar com você, afinal, o que eles mais querem na maior parte do tempo é simplesmente isso: atenção.

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“Não pode se deixar frustrar” disse a senhora de 65 anos que escolhemos para sentar na mesa com a gente. Alta, loira, com pose de quem já teve pose em outra época de sua vida e, principalmente, sozinha. Acho que esse foi o principal detalhe que me chamou atenção nela: em um baile onde a maioria vai para arranjar alguma companhia ou curtir algumas momentos com pessoas da sua mesma idade, ela era categórica ao dizer que não ia lá para arranjar companhia. Que na idade em que se encontrava, já tinha conquistado o direito de dizer “não”. E que era feliz assim.

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Os olhos fundos ainda vivos denunciavam que aquela outrora grande senhora foi alguém que sofreu bastante na vida. Mas antes que a gente pudesse tentar descobrir mais alguma coisa apenas observando seu jeito de ser, foi àquela pequena oportunidade de ter um pouco de atenção que permitiu a ela desvelar uma série de histórias sobre sua vida. Inclusive, aquela de frustração.

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Ela pediu a nossa idade e que curso fazíamos, somente para falar que tinha um neto que estava se formando e outro que estava na Bologna estudando. Aí, vimos mais um contraste na vida dela: netos abastados, estudando fora, e ela um baile da terceira idade, sozinha, num domingo à tarde. A cada pequeno detalhe que ela revelava sobre sua vida, mais camadas nós conseguíamos adicionar a pessoa que estava na nossa frente.

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Mas ela logo contou a sua história de frustração (que na verdade nem era sua, importante citar): o neto, não o de Bologna, mas que ela também morria de orgulho, tinha tudo para dar errado, desde pequeno. O pai ele não conheceu; matou-se na frente da mãe quando ela estava grávida dele. A mãe, com 17 anos, contou principalmente com a ajuda da avó para criar o filho. Resultado mais do que esperado: a vó virou pai, mãe, e avó.

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A vó então criou a criança como um filho, sendo que a própria mãe da criança era tão filha ainda quanto o seu próprio bebê. E tendo criado o filho/neto com o maior apreço do mundo, a vó tomava todas as dores, independente de quão grande seria. E foi justamente de uma dessas dores que ela contou. Uma história de amor quase impossível envolvendo internet, Arkansas e um acampamento evangélico (não tinha como dar certo, convenhamos).

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Anos atrás, o neto, em um acampamento evangélico, conheceu essa moça do Arkansas, pela qual se apaixonou. Apaixonou-se perdidamente. Acabou o acampamento, ela voltou para os Estados Unidos e os dois continuaram falando pela internet. Completamente apaixonados. Bom lembrar que os dois eram evangélicos: um relacionamento, como a própria vó disse, que não era baseado em beijo e abraço – e que metade de nós nem consideraria relacionamento. Porém, um tipo de relacionamento perfeito para durar pela internet.

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Os dois continuaram se falando, até que o filho/neto começou a tomar as providências para ir atrás dela. Matriculou-se em uma escola de inglês, para aperfeiçoar o idioma estrangeiro quando fosse viajar. Comprou a passagem para o Arkansas, caríssima, cheia de escalas. E foi sozinho até o Rio de Janeiro para conseguir um visto para os EUA. E lá tirou um visto de – juro – DEZ ANOS.

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Cada vez que ela falava que a história do neto era sobre lutar contra a frustração, eu só pensava o quão mentirosa aquela senhora poderia ser. Ela podia jurar que era ex-mulher de um milionário, que foi uma famosa dançarina de cabaret quando nova, qualquer coisa eu iria acreditar. Mas acreditar que o neto ficaria feliz depois de todo esse esforço atrás de alguém muito longe e que ele realmente investiu tudo isso nesse sonho... era pedir pra acreditar demais. Continuando...

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Hitchcock dizia que melhor do que preparar o espectador para algo que ele não sabe que irá acontecer, é mostrar a bomba no início do filme e deixar quem está assistindo nervoso até o desfecho da história. E era mais ou menos assim que eu me sentia com a idosa (e mais ou menos como esse texto está se desenrolando – sorry). Eu sabia que ia dar merda em algum momento. Foi quando ela disse que, 20 dias antes de o rapaz viajar para o Arkansas, o pai da menina cortou totalmente a internet e os meios de contato dela para falar com o garoto.

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Eu logo pensei “ok, estúpida, mil lan houses ao redor do mundo e você preocupada com isso?”. E também, se o pai dela cortou os contatos dela com o Brasil e ele ficou sabendo aqui, ALGUÉM entrou em contato com ele, certo? Mas ok, não quis mexer no roteiro já escrito e a senhora logo respondeu minhas dúvidas. Não respondeu, mas me fez pensar: independente do que aconteceu, o fato do pai da menina ter cortado os meios de contato quer dizer que ele tinha um grande motivo para que o garoto não viajasse. Como disse a senhora, as vezes uma pedra se coloca no caminho para evitar mais cinco na frente. Eu imaginei o neto dela chegando no Arkansas e levando cinco pedradas na cabeça quando chegasse na casa da garota. Foi mais forte do que eu, desculpa.

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E essa era a história de frustração do garoto. Ele não iria encontrar o amor da vida dele; ele tinha que se conformar com a idéia de que seria muito rejeitado; ele não tinha como vender a passagem porque o Arkansas é um lugar pouco visitado nos EUA; ele literalmente se fudeu. Se a expectativa é a mãe da merda, esse garoto é a definição perfeita dessa expressão. Ele então pagou uma multa de R$ 500 para cancelar a viagem e remarcou uma viagem para NY ainda esse ano.

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O mundo é cruel, o mundo é sacana, o mundo te dá rasteiras... mas você não pode se deixar frustrar. Deixar-se abater. Ficar triste. Isso é uma escolha sua. Esse foi o ensinamento que a senhora tentou nos passar e que parecia exprimir exatamente o que ela sentia sobre a sua própria vida – e o que a maioria dos idosos que entrevistamos hoje pensava também. Eles podiam estar em casa, quietos, sozinhos, parados, deprimidos, chorando durante 15 anos pelo viúvo (o que uma senhora – hoje namorando – disse pra gente também), mas não! Eles estão lá, sendo felizes. Vivendo a escolha deles. Sendo ativos, mas não dançando e cantando por recomendação médica: fazendo isso porque eles, quase no fim da vida, tem a autonomia para saberem o que é melhor para eles. E vão lá viver isso.

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E a gente aqui, querendo ficar sozinho em casa para entrar no Facebook em paz.

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Tudo é resultado das nossas escolhas. E se nós escolhermos não nos abater, não nos frustrarmos e sermos felizes, com certeza seremos. Se funciona com os velhinhos, funciona com a gente. Eu só espero não ter que entrevistar tantos velhinhos assim na minha vida acadêmica para aprender isso de uma vez por todas.

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E caso interesse, depois de se acostumar que a garota do Arkansas seria eternamente a garota do Arkansas e não mais a garota da sua vida, o filho/neto dela apaixonou-se por outra garota... da Argentina. Esse não tem jeito mesmo.

Sam não dançou com nenhuma velhinha

As Cortinas Azuis

Há uma piadinha no 9gag que diz mais ou menos o seguinte: o sujeito, fazendo a prova de literatura, se depara com a pergunta “o que o autor quis representar quando citou as cortinas azuis na página 39?”. As alternativas de resposta são: a) a perda da inocência por parte do protagonista b) os sonhos inalcançáveis do antagonista da história c) as frustrações do próprio autor inseridas no contexto. O personagem da piada olha para a prova então e, puto da cara, desabafa: “citando as cortinas azuis o autor quis representar A PORRA DAS CORTINAS AZUIS!”

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Vindo do trabalho pra casa hoje, coloquei tocar John Mayer. John Mayer é meio que uma opção segura pra quando eu estou dirigindo sozinho, porque é o tipo de coisa que o meu irmão trocaria ao mínimo sinal de uma música que lhe desse sono (a menos que fosse “Say” – ele gosta dessa). John Mayer também seria uma boa opção pra ouvir acompanhado de uma menina no carro – pelo menos todas as que eu conheci até hoje que curtem John Mayer sempre foram gentes finérrimas, elegantes e cheirosas. Mas nunca dei caronas pra ela também. Enfim, era John Mayer tocando e a música era “3x5”.

Clipe com fotos: quem nunca?

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Lá pelas tantas em “3x5”, nosso querido John fala sobre “tryin’ to fit the world inside a picture frame”, ou em bom português do Google Tradutor, “tentar encaixar o mundo dentro da moldura de um quadro”. O legítimo “tentando abraçar o mundo com as mãos”, pensei eu, ouvindo a música e tentando interpretar o que raios ela dizia. É uma bela figura de linguagem. Do tipo que eu nunca escreveria. Foi quando eu parei pra pensar em quanto sou ruim de poesia e figuras de linguagem.

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Não é que eu seja ruim “mesmo”, mas é algo que me incomoda. Outro exemplo, do almoço de hoje, fresquinho ainda; assistindo o Top 10 MTV, ou Disk MTV, ou como raios o “paradão” é chamado hoje em dia, em 1º lugar estava um clipe do Teatro Mágico. Primeiro, DESDE QUANDO TEATRO MÁGICO TOCA NA MTV? Eles sempre foram o tipo de banda que, salvo meia dúzia de gatos pingados que conheciam e os cultuavam, eu achei que fosse famosa somente na internet. De qualquer jeito, logo que o clipe começou, com aquela trupe circense na praia cantando sobre um amor de verão cheio de figuras de linguagem que comparavam a paixão a mais fenômenos da natureza do que canções de pop sertanejo, eu logo virei a cara pra TV e pensei “que droga é essa”.

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Detalhe que eu não me dei ao trabalho de ouvir a letra da canção. Quer dizer, ouvi, mas não prestei atenção. Tal qual um velho rabugento, logo que ela começou despejei as minhas frases clichês sobre o assunto: “eu não entendo essas letras filosóficas ou pseudo-cults, que se propõem a dizer mais falando mais ainda”. Provavelmente eu xinguei os “segredos de liquidificador” do Cazuza na hora, outra que me incomoda até hoje. Assim como Engenheiros do Hawaii. E Cidadão Quem. Nem preciso falar do Pouca Vogal né?

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Mas talvez o problema seja eu. Meu irmão provavelmente concordaria com essa frase caso eu a tivesse pronunciado, mas mediante minhas reclamações a única coisa que ele se propôs a dizer foi que o que o incomodava mais no Teatro Mágico era que eles adotavam posturas: posturas políticas, de apoiar fulano, posturas ecológicas, bla bla bla... se isso incomodava ele, imagina eu, e olha que ele realmente gosta de Teatro Mágico. O clipe logo acabou, logo apareceu a Shakira rebolando em “Addicted To You” e eu fiquei feliz. Mas como se percebe, o assunto não saiu da minha cabeça.

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Para mim, falar menos é falar mais. Apesar de estar digitando ininterruptamente já fazem alguns minutos e ser capaz de falar horas sobre certos assuntos (quem já pegou meus rompantes dialéticos sobre Os Vingadores ou os discursos de “como vocês deveriam parar de assistir os seriados que vocês gostam e começar a assistir os seriados que EU gosto” sabe como é), eu acredito que saber ouvir é mais saber. Isso era inclusive o trecho de uma música do Daniel, o cantor sertanejo (segunda citação sertaneja no texto – hm), de MUITOS anos atrás, mas que eu realmente nunca esqueci. Interessante.

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Esses dias, num xis amigável entre amigos (não é uma redundância: o contrário pode acontecer, acredite) alguém elogiou minha boa memória e disse que, mais importante do que lembrar, foi o fato de eu estar prestando atenção no momento em que tal coisa foi dita e tal fato ocorreu, o que é verdade. E provavelmente se eu estava prestando atenção, eu estava quietinho, no meu canto, ouvindo. Ouve momentos em que gritei, óbvio, mas tenho plena certeza que maior parte da minha vida escutei pacientemente os outros falarem.

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Lembro inclusive de um caso clássico na primeira van que eu pegava para ir ao colégio, em que um menino me xingava porque eu cantava TODAS as músicas que tocava na rádio. Não sei se o problema dele era comigo cantando – talvez – ou com o fato de eu cantar todas as músicas sem distinção – talvez – ou se o problema era ele – SEM DÚVIDA – mas isso foi algo que sempre lembrei quando alguém me pergunta porque eu gosto de tantos estilos diferentes ou, a questão favorita de todo mundo, PORQUE RAIOS VOCÊ GOSTA DE MICHEL TELÓ? (p.s.: o show tava tri massa). Ora, eu penso e (não) respondo, “e porque raios eu haveria de não gostar?”

Adoro essa música, mas alguém dá um cartão de celular pra ele, por favor.

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O errado na concepção geral da humanidade é que é virtualmente impossível eu não entender o que Cazuza quis dizer com “segredos de liquidificador” ou o que o Teatro Mágico canta e ser capaz de me divertir com a minha humilde residência. Hoje eu estava ouvindo Lady Gaga no carro (sim senhor eu gosto muito obrigado até mais) e pensei “como seria legal ir em um show dela!”. No exato fim do pensamento uma voz, que na verdade não era uma voz e sim várias, soou pesada sobre minha cabeça dizendo “COMO VOCÊ É CAPAZ DE QUERER IR EM UM SHOW DA LADY GAGA E NÃO FOI NO THE WALL DO ROGER WATERS?”. Sai pra lá, consciência.

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Essa seria uma questão que provavelmente eu teria que responder, senão para os outros, para mim mesmo. E desde já vou elaborar uma resposta pra ela: não há elitização do pensamento ou obrigação cultural que me faça pensar que só porque tenho “cara de Vagão”, como um entrevistado me disse esses dias, que eu tenha que relevar tudo o que não corresponde a minha cara. Porque às vezes, o que você entende como “a sua cara”, na verdade é apenas a máscara que você mais usa.

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CARALHO FIZ UMA FIGURA DE LINGUAGEM! Vou montar uma banda cover de Teatro Mágico, agora!

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Assim como tudo que é exagero para o corpo é ruim, tudo o que é obrigação para a alma é um peso, algo que não é necessário. Por mais que às vezes eu queira entender mais do que o John Mayer quer dizer com tentar colocar o mundo na moldura de um quadro, na maior parte do tempo eu só quero aceitar que cortinas azuis... são cortinas azuis. Simples.

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Aceitar que as vezes o que alguém quer dizer é EXATAMENTE o que alguém quer dizer é uma das coisas que eu estou tentando aplicar na minha vida agora; deixar pra trás alguns excessos de pensamentos e cortar a gordura mental. E é mais ou menos o que eu pretendo fazer no blog daqui pra frente também: falar, falar e falar. Emagrecer um pouco aqui a gordura mental do dia (“say what you need to say”, cantaria John Mayer pra mim). Se vai dar certo, não sei. Mas se eu dormir mais leve hoje, já ta valendo.

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E outra hora eu explico dos asteriscos. Continua!

Sam já colocou a Megan Fox na moldura de um quadro.

O Dia em que Eu Embarquei Meu Irmão pra Fora do País


Parece título de filme infantil da Sessão da Tarde, mas aconteceu ontem, dia 10 de janeiro. Em uma viagem que vai de Buenos Aires para Montevídeo, de Montevídeo para Colônia, de Colônia para Buenos Aires e de Buenos Aires para Mar Del Plata, tive a honra de levar meu irmãozinho mais novo até o avião junto com o resto da família, numa viagem que foi mais aventura do que a própria viagem que ele estava prestes a realizar.

A viagem não é tão longa (como ele mesmo disse pra minha mãe quando entrou no portão de embarque, todo sensível “que que, é só uns dias...”), mas o maior simbolismo na verdade vem da data. 10 de janeiro. 10/01.

Você pode não notar, mas tem uma ruiva nessa foto
Eu sempre enxerguei essa data como um abre e fecha de novas oportunidades, de iniciativas, novas fases. O próprio desenho da data me lembra isso, com sua simetria bonita. Acho que o ano se inicia muito melhor no 10 de janeiro do que no próprio dia 01. E eu tenho muitas histórias relacionadas com esse dia.

No dia 10, minha tia mais próxima está de aniversário. Isso já seria o suficiente pra data me marcar, mas outros acontecimentos marcaram tanto quanto. Em 10 de janeiro de 2004, eu tive meu primeiro ensaio, o primeiro protótipo de banda. Já devo ter falado dele alguma vezes aqui no blog, mas até hoje pra mim esse dia foi o início de algo especial.

Anos depois daquele 2004, mais especificamente em 2009, em uma reunião d’Os Valdos, minha banda, nós compusemos a nossa primeira canção. Esse outro fato já foi intensamente relatado aqui, em post em que inclusive falei do significado dessa data pra mim novamente. Foi o início de outro momento da minha vida que definia muito do que eu era.


Há quatro anos... (que mais parecem um século)

Agora, em 2012, o evento não tem a ver diretamente comigo e nem com música, mas mesmo assim, tem o mesmo gostinho. Viajar sempre foi o sonho do meu irmão e depois de algumas tentativas meio frustradas, finalmente ele virou realidade, mesmo que aos trancos e barrancos. A nossa aventura de hoje é prova disso – imprimir documentos de último hora, taxistas loucos, viagem Caxias – POA de 3h... Tive apenas um breve contato com ele depois da viagem, mas imagino ele com um sorriso de ponta a ponta no rosto.

A Espera
O que assemelha pra mim esse momento da viagem com os outros é que os três se configuram como momentos do tipo “ih, fudeu... agora foi”. Foram pontapés iniciais que vieram para provar que sim, esses sonhos eram possíveis. Seja ter uma banda, seja compor músicas, seja sair do país. E mesmo que seja o meu irmão que está em outro país agora, é um sonho que compartilho com ele e o fato dele ter conseguido só me deixa mais perto de saber que eu consigo também. 

E essa viagem solitária dele não é só um avanço para ele como para minha família também. Ela não só será um belo exercício de desapego do meu irmão em relação ao “luxo” da segurança da família como também será um exercício de desapego da minha mãe em relação a ele, tendo que confiar na habilidade do filho em abrir suas asas e descobrir seu próprio caminho. Não preciso dizer que eles foram brigando o caminho inteiro né? Eu só dizia para o meu irmão “calma... ela vai ficar sem brigar contigo por 15 dias... relaxa”.

E será para mim um exercício de acreditar na minha coragem de que eu faria o mesmo. Lá pelas tantas, já na volta, minha mãe pediu “tu acha que se fosse tu viajando, tu ia ser desorganizado como ele?”. Eu respondi que achava que seria mais organizado, mas não sei se seria ousado o suficiente pra programar algo tão grande sozinho, em um lugar em que se fala outra língua, dependendo muito do acaso...

(motivos pelos quais as viagens envolvendo eu e ele normalmente dão certo – a ousadia e o bom senso andam bem juntos...)

Mas sabe... assim como organização, ousadia é questão de hábito. E não mata ninguém. E se meu irmão tem que desapegar do luxo e minha mãe desapegar do filho, eu tenho que desapegar da comodidade. Simplesmente, mexer a bunda e ir. É fácil falar isso na frente da tela do computador, mas é algo que eu tenho que aceitar na vida. De nada adianta meu irmão colecionar carimbos no passaporte e eu colecionar insígnias no Pokémon. É a legítima inveja construtiva.

Aerolineas Argentinas!
No primeiro fim de semana de 2012, passei o sábado trabalhando e o domingo com 39 de febre, devido a uma intoxicação alimentar ainda sendo resolvida. Mal “desapeguei” de 2011 e o ano novo já tá ai, dando na cara. Então, que venha! Vou fazer dois belos passeios de carro nas próximas semanas – Porto Alegre e praia – daqueles em que você se diz criança só pra gritar bem alto “SEM ADULTOS! UHU!”. E depois, só o tempo dirá. Mas vamos lá. Tô começando o ano por baixo mesmo, o que vier é lucro.

E quanto as viagens, como diz o refrão de “You`re a Tourist”, do Death Cab For Cutie:

“...and if you feel just like a tourist
in the city you we’re born
then it’s time to go...



E eu já tô me sentindo turista faz tempo.

Sam espera que seu irmão escreva um post com esse título ainda.

Pra Você que Usou Branco no Ano Novo

Usar branco no ano novo normalmente significa um pedido de paz (a menos que você seja uma modelo da Victoria`s Secret e conheça outros significados, claro...) Mas paz... pra quê? Pra quem? De que forma? Toda virada de ano, milhares de pessoas ao redor do mundo usa branco, mas isso realmente muda alguma coisa?


Eu usei branco no ano novo. E tomei champagne em taça de vinho.

Esperar pela paz usando uma camiseta branca na virada do ano parece "passivo" demais para mim. É como se você estivesse colaborando com uma força universal maior, um Genki-Dama em que ao invés de levantar a mão, basta apenas unir-se ao coro de cosplayers de pai-de-santo que se cria no último dia de ano e... feito! O ano seguinte será uma torrente de calmaria. E todo mundo sabe que nunca é.

Paz normalmente lembra guerra, e em 2011 realmente tivemos o "fim" de muitas guerras, com o fim das ditaduras no Oriente Médio e tudo o mais... Se aquilo tudo foi obra da paz, ótimo! Mas uma pá de gente morreu nessas campanhas pelas paz. Incluindo alguns próprios ditadores, de maneira nada pacífica. Eu não sei... parece que há algo de muito errado nisso tudo.

Num campo mais pessoal, menos macro e mais micro, as nossas vidas nunca são uma corrente de paz e calmaria também. Mas quero ver alguém reclamar disso! Tire os frios da barriga, os nervosismos, as ansiedades e o que sobra? Um peixe nadando de acordo com a maré. Porque acredite, se você não estiver movimento o mundo ao seu redor, alguém vai estar fazendo isso por você.

Por isso, não encare a passividade da camiseta branca como sinal de que tudo vai estar bem. Não estará. Eu diria até para não dar a mínima para a roupa que vai usar na virada, na real, mas cada um com suas crenças. O que proponho é um remake, um reboot do uso da camiseta branca na virada do ano. Pense assim esse ano (e se chegarmos ao fim de 2012, pense assim na próxima virada).

Pense na camiseta branca como uma alegoria para uma folha em branco. Uma folha em que você poderá escrever o seu ano, de forma "ativa", tendo poder de decisão sobre ele, e não esperando que o fato da sua camiseta ser branca irá mudar a sua vida. Pense em sua roupa como uma folha em branco e escreva a sua história. Não vá pela maré dos outros. Em 2012, aja!

E Feliz Ano Novo.