O Não-Dia do Blog

No dia 31 de agosto é comemorado o dia do blog. Segundo o site do Jimmy Wales (o Wikipédia, saca...), esse dia foi escolhido porque sua grafia lembra a da palavra blog.

Claro. Toda pessoa em sã consciência enxerga BLOG em 3108.

(Blogueiros não são pessoas em sã consciência, que isso fique bem claro)

Estamos bem longe do dia 31 de agosto. Lembro que na respectiva data, esse ano, fiz o mesmo comentário estúpido acima no Twitter. No Twitter sim, aquele passarinho azul que aos poucos tá matando o blog (junto com seu parceiro sacana Tumblr, o rei da putaria). Já falei aqui isso antes, mas de vez em quando me lembro de certos posts que hoje não daria nem sequer um tweet. Hoje lembrei nostálgico desses dois aqui, singelamente chamados "Highway To Hell" e "Stairway To Heaven", falando sobre a minha prova da auto-escola. Postei os dois no mesmo dia, na empolgação, na ida e na volta da prova. Na época, geraram 7 comentários. Hoje, provavelmente passariam desapercebidos no meio da enxurrada de tweets que temos todos os dias.

Mas voltando ao assunto principal, o que me leva a discutir o dia do blog hoje, em 29 de novembro é que, como já escrevi aqui no blog, tenho um certo horror a datas comemorativas, no estilo "Dia do..." (como o inesquecível post do "Dia do Orgulho Nerd"). Essa coisa de "hoje é Dia do Pintor de Rodapé, vamos todos olhar nossos rodapés e valorizar essa profissão tão querida" me incomoda. Nós não deveríamos ter uma data em especial para aprender a valorizar algo, deveríamos fazer isso automaticamente! Por exemplo, o "Dia do Doador de Sangue" não deveria ser incentivo para todos doarem, deveria ser um dia para escutarmos "If You Want Blood (You've Got It)" em alto volume na rua! Doar sangue seria muito mais divertido.



O tipo sanguíneo de Bon Scott era "A-peritivo" Tu-dum-tssss!

No caso dos blogueiros, a situação é mais radical. Acompanhem o raciocínio: segundo o Wikipédia, no Dia do Blog, cada blogueiro deveria deixar uma mensagem em seu site indicando outros blogs para serem lidos. Isso é uma prática corriqueira dessa ferramenta, seja indicando, seja colocando na barra de rolagem do site... Ou seja, é levemente descartável. E hoje em dia as coisas giram ao redor do Twitter meu bem... quem consegue integrar as duas plataformas (e não ser irritante) tem uma mina de ouro e de leitores em suas mãos.

E o ponto de crucial: o blogueiro não pode ter o "seu" dia. Quem tem blog sabe como é: a gente posta justamente quando "não é" o nosso dia. Quando tudo dá errado. Quando tu se molha na chuva. Quando o pneu fura. Quando tu não dorme por causa dos vizinhos. Quando a festa é terrível e tu acaba num bareco as 5h da manhã. Tal qual os desaniversários da Alice, os "não-dias" do blogueiro são justamente aqueles em que ele vai tirar de uma experiência terrível um aprendizado imenso. E com certeza, a primeira coisa que ele vai pensar é: "NOSSA... eu preciso postar isso, logo!".


XKCD e as verdades da (minha) vida (clica que vale a pena)

A angústia é a alma do negócio. Li um livro para a faculdade esses dias (um dos poucos - e bons - que já li nesses cinco anos) que identificava todo o fazer jornalístico com a angústia, esse sentimento tão mal visto. Mas assim como blogs não são algo específico do jornalismo, tão pouco a angústia pertence a nossa classe também (mas cai bem em nós, confesso). Músicos, escritores, todo tipo de pessoa que se envolve em criação já sentiu isso, essa urgência em falar de algo que precisa sair antes que exploda nossa mente. É exagerado mas é bem assim.

Logo, não tem como planejar algo que vai explodir a nossa mente para ser lembrado em um dia específico do ano. Imagina guardar essa angústia para ser lembrada só no fim de agosto? As pessoas na rua comentando "hoje é Dia do Blog, muitas pessoas irão se livrar de suas angústias hoje, já que é dia delas..." Hãn hãn...

Abaixo o Dia do Blog. Comemoremos nossa angústia em todos os nossos não-dias.

Nós merecemos.

Sam estava angustiado para escrever esse post.

Fórmula

"Aqui você escreve alguma frase engraçadinha em itálico de algum autor desconhecido ou uma letra de música"

No primeiro parágrafo você viaja. É o tradicional nariz-de-cera jornalístico. Se o assunto do texto é sobre os malefícios da vida moderna, você começa falando sobre a sopa que comeu no fim de semana. Se o assunto é a sopa que comeu no fim da semana, você fala sobre a última vez que jogou videogame. Se o assunto é videogame... o post vai ser enorme, cuidado.

Mais ou menos no segundo parágrafo o seu leitor ainda estará perdido. Aos poucos então você vai definindo o assunto do texto, dando os parâmetros sobre o que será abordado. Provavelmente uma frase começará com “Enfim...”. É quando você cansa de enrolar o leitor e começa a finalmente falar o que interessa. Enfim...

No terceiro parágrafo, enfim, a contextualização. O leitor então descobrirá que o assunto que leu já é corriqueiro no blog. É no terceiro parágrafo que você citará algo que com o leitor possa se identificar, seja em sua vida pessoal ou na vida do blogueiro que escreve (ou seja, é mais ou menos aqui que você começa a falar da difícil relação que tem com sua mãe). O leitor acabará esse parágrafo com a sensação de “eu já li sobre isso, mas vamos lá, já li três parágrafos mesmo”.

(Então você escreve algo em itálico e entre parênteses, como se estivesse falando algo que o leitor não pudesse saber, mas mesmo assim, você conta. O que é uma atitude idiota, já que isso é um blog público e você é megalomaníaco e deseja secretamente que ele atinja o maior número de pessoas possíveis para que todos saibam da sua vida. Você não é assim? Ok, então além de megalomaníaco é mentiroso...)

A essa altura, você já chegou a uma conclusão junto com o leitor, daquelas que você pontua a certeza com um simples “fato” no final da frase. Fato. Caso ele ainda esteja lendo, dê parabéns a ele, você tem um leitor fiel. Caso ele não esteja lendo e seja tão disperso quanto você, você realmente deve... ESQUILO!

Já estamos quase no fim do post. Não se prolongue: se você ainda não entregou o que o leitor quer ler, basta somente um CTRL + T no teclado para uma nova aba do navegador se abrir, pronta para mostrar o maravilhoso mundo da internet, onde os posts acontecem mais rápido e as pessoas não se enrolam tanto. Aliás, de enrolação você entende: você foi capaz de fazer um post inteiro mostrando que o seu blog segue o mesmo estilo de texto sempre, uma fórmula, e que é exatamente isso que faz com que o leitor volte a ler ele. Personalidade.

Aqui você sorri por dentro quando percebeu que, mesmo sem querer, chegou onde queria chegar desde o início: tanto você, leitor, como eu, blogueiro, sabemos exatamente como escrever no Cometa Diário. E sim, você ainda consegue escrever um post em pouco mais de 20 minutos sobre um assunto mundano e não tinha desculpa por ficar tanto tempo sem postar.

Realmente, não existe inspiração. Apenas uma boa e velha fórmula a ser seguida.

Aqui você começa a postar frases curtas e em escadinha.

O importante é ser sempre menor que a de antes.

E então, conclui com uma carinha feliz.

=)

Sam escreve algo em itálico e na 3ª pessoa aqui.

Pela Cadeira de Noção

(Uma "ode ufanista" ao jornalismo escrita para o nosso informativo da cadeira de Redação Jornalística III e que vai abrir a página 2. Além dela, o jornalzinho vai ter mais duas matérias minhas, sobre intercâmbio e escotismo. Não sei se concordo com tudo o que disse, mas não adianta chorar sobre os caracteres digitados né... ;-)

Me lembro uma vez de uma comunidade do Orkut chamada "pela cadeira de noção". Como era bem explicado no perfil da comunidade, ela apoiava a instauração de uma cadeira de "noção" na faculdade, para tentar dar um pouco de bom senso a certas pessoas que entram no ensino superior com a mentalidade do ensino médio e acabam complicando a vida dos colegas em trabalhos em grupo, convivência pessoal e relacionamentos.

Depois de quase cinco anos no curso de Jornalismo, sou categórico em afirmar: sou a favor da cadeira de noção. Mas não no curso de Jornalismo. O motivo é simples: ela simplesmente destruiria o próposito do curso com todas suas forças e faltariam comunicadores no nosso dia a dia, dos fazedores de grandes reportagens aos operadores de TP. 

Por que isso? Convenhamos: quem, com um mínimo de noção, tornaria-se jornalista? Encarar madrugadas a fio escrevendo, investigando, checando fontes, tudo na base da cafeína? Encarar a cobertura de um comício político tendo que escolher entre ficar no frio da bancada da imprensa, que corre o risco de cair com tantas câmeras em cima, ou ficar no calor do povo, escapando das bandeiradas?

(Aliás, se for para dar sugestão, que instaurem cadeiras no jornalismo que sejam integradas com Educação Física. Seriam muito mais úteis pras nossas formas rotundas de falta de exercício e cervejadas no happy hour)

Espremer-se entre outros jornalistas para conseguir a melhor foto. Esquecer da possibilidade da multa em troca da possibilidade do furo. Encarar nosso salário. Enfrentar nossa jornada de trabalho. Esquecer do nosso diploma... chega uma altura do campeonato em que você pensa: por que mesmo eu não fiz Engenharia?

A resposta é simples: porque você gosta de jornalismo.

Essa é uma conclusão que a gente só sente na pele. Só sente quando aquele crachá escrito "Imprensa" pesa no pescoço. Quando o Chatô pesa no ombro. Quando nosso vídeo é exibido na tela. Quando o nosso nome tá escrito no jornal. Por isso, reafirmo: instaurem a cadeira de noção. Mas não no jornalismo.

Nós não temos nenhuma noção.

E gostamos disso.

Sam não tem noção.