"Estão no meu trator."
(...)
"Eu não tenho ferramentas!"
Essa cena, do episódio 8 da 10ª temporada de "Friends", "The One With The Late Thanksgiving", resume aquilo que uma obra deve ter de mais importante em relação ao seu espectador, leitor, consumidor: identificação.
"Friends" durou 10 anos, sendo exibida de 1994 a 2004. Agora, em 2014, depois de 10 anos do fim da série e depois de 20 anos do estreia (sim, é óbvio, mas é só pra reiterar quanto nós estamos velhos), "Friends" voltou a ser citada nas rodinhas de conversa, ainda mais devido ao fim de "How I Met Your Mother", outra série com uma dinâmica parecida (amigos nos seus 20 e poucos anos, um bar e um apartamento como cenários principais) que assumiu o vácuo deixado por "Friends" e durou tanto tempo quanto.
Mas "Friends" nunca deixou de ser relevante, você pensa. Claro que não. Eu só acho que devia ser muito mais.
Uma das principais características de uma obra, como eu disse acima, é a identificação que o seu consumidor pode ter em relação a ela. Independente do cenário, seja em uma comédia romântica ou um filme épico, o que importa é que cada pessoa possa se colocar no lugar de um ou mais personagens e se ver ali, naquela situação, criando assim simpatia pelo que acontece com o personagem na tela. Entramos nus na história, procurando saber o que está acontecendo, da mesma maneira que muitos personagens entram nas suas próprias histórias sem saber nada ("Harry Potter" e "Guerra nas Estrelas" me vem a cabeça imediatamente) e acabamos enfrentando os mesmos dilemas que eles, mesmo que na nossa proporção: quando enfrentar Estrelas da Morte e bruxos do mal viram dificuldades da nossa vida, o autor conseguiu o que queria.
Seriados como "Friends" e "How I Met..." conseguem essa identificação mais rapidamente, porque afinal, todo mundo já teve 20 e poucos anos, desventuras amorosas e amigos em um bar. As frases prontas, as piadas, as dificuldades em arranjar emprego, em formar família, em lidar com os pais, cada cena em cada episódio pode ser remetida a você ou a um amigo ou a um chefe ou a um parente. Todo mundo tem um Joey na turma que não divide comida, ou uma Phoebe que é mais louquinha do que o normal, ou uma Monica com TOC de limpeza, ou um Ross eternamente apaixonado por uma Rachel que não dá atenção para ele.
E os Chandlers... os Chandlers são casos a parte. Meu ensino médio inteiro foi trabalhado em cima de fazer piadas parecidas com as de Chandler e hoje somos todos adultos sem ferramentas. A geração 1994-2004 absorveu como ninguém o sarcasmo, a ironia e a autodepreciação do personagem de Matthew Perry como ninguém. Não haveria Chapolin Sincero ou Gina Indelicada hoje em dia sem Chandler Bing. O personagem, que começa a série como o vizinho mal-humorado que faz piadinhas, em um emprego que ninguém sabe descrever, termina a série como pai de gêmeos, casado com a irmã do melhor amigo, e trabalhando em uma agência de publicidade. A única coisa que se manteve foram as piadinhas. E nós nem queríamos mesmo.
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| Divo |
O crescimento do personagem é o mais fácil de ser percebido. Depois de 10 anos, Joey termina a série sendo um ator medíocre e sem dividir comida (tanto que continuou esse personagem na sua própria série); Phoebe termina casada e ainda fora da casinha; Ross e Rachel terminam da mesma maneira que começaram a série, tentando ficar juntos mais uma vez (e nada garante que conseguiram!); e Monica termina tornando-se mãe de gêmeos junto com Chandler. Mas como o próprio Chandler diz para a mãe dos filhos que eles adotarão, "eu vou me tornar um ótimo pai; Monica já é uma ótima mãe". Ao fim do ciclo de 10 anos da série, muitos acabam tornando-se aquilo que estavam destinados a ser. Mas não tem como assistir o primeiro episódio da série e descobrir como Chandler terminaria.
Essa evolução nas histórias dos personagens e de Chandler em especial, na minha opinião, é o que faz "Friends" e seriados como ele serem tão especiais. Você provavelmente sabe mais sobre os seis amigos do Café Central Perk do que muitos parentes seus (eu tenho certeza que sim). Você se importa com eles. Você se torna amigo do personagem. Eu sei que senti orgulho de Chandler quando vi ele virando pai na última semana do seriado que está passando na TV agora. Orgulho de um personagem fictício. É a última fronteira que o criador sonha em ultrapassar: criar alguém tão real quanto o ator que interpreta o personagem na tela.
Enquanto isso, em uma comparação tosca mas válida, nas novelas tudo continua igual. Enquanto ainda houver opções como "Friends" e similares na telinha, podemos nos livrar de ter que comentar a nova traição na novela das oito, o novo incesto, a nova mulher louca, a nova empregada faladeira, o novo marido cafajeste, a nova questão social que vai ser logo soterrada pelo núcleo do humor ou os dramas do núcleo do Leblon, que com certeza são a coisa mais distante possível do telespectador que o assiste. Enquanto o público de novela almeja em ser o que vê na tela, o público de seriados é.
E Friends ainda importa por causa disso: é o tipo de arte que faz você se importar com o próximo.
"Friends" passa de segunda a sexta na Warner, as 12h e as 12h30min, e tem sido a diversão minha e do meu irmão no horário do almoço nas últimas semanas. Pelas nossas contas, hoje as 12h passa o último episódio da última temporada e, se a Warner for esperta, as 12h30min deve passar o primeiro da primeira. Por isso, corra logo pra casa, assista com os amigos, faça como se fosse 1994 mais uma vez.
Eles estarão lá por você.
Sam prefere Friends a How I Met Your Mother
