Primeiro assiste, depois eu explico:
Pra quem não lembra, Ricky Gervais, comediante britânico, foi apresentar do Globo de Ouro esse ano e com uma apresentação matadora, literalmente, acabou com a moral de metade de Hollywood (não que os atores americanos se prezem muito a mantê-la, claro). Ele pegou pesado em especial com Johnny Depp, que na época estava concorrendo aos prêmios pelo seu filme "O Turista", aquela bomba cinematográfica com Angelina Jolie. Entre outras asneiras tipicamente britânicas, Gervais soltou a pérola:
- E os filmes 3D foram realmente uma febre esse ano, não? Parece que todos os personagens do cinema tinham três dimensões. Menos os de "O Turista", claro.
No vídeo acima então, Johnny Depp vai ao encontro de Ricky Gervais e Stephen Merchant, ciceroneado por ninguém menos que Warwick Davis, ator anão responsável pela maioria dos personagens anões que você viu nos últimos anos no cinema. Warwick interpretou entre outros, o ewok Wicket W. Warrick em "Star Wars - O Retorno de Jedi" (e nos spin-offs envolvendo os ewoks, como a "Caravana da Coragem"), foi o corpo de Yoda no episódio I, "A Ameaça Fantasma"; foi o professor Flitwick na série Harry Potter e o andróide Marvin, em Guia do Mochileiro das Galáxias. Além é claro de Willow, onde foi o personagem principal. Pouca coisa, só no tamanho.
O vídeo, claro, é brincadeira, e faz parte da nova série escrita por Merchant e Gervais e estrelada por Warwick, chamada "Life's Too Short", que será exibida na minha, toda minha, BBC. Na série, Warwick interpretará uma versão ficcionalizada de si mesmo, que contará como é "a vida de um anão no showbiz". Veja abaixo o making-of da série, onde podemos ver alguns outros atores que farão participações especiais na série, além de Ricky Gervais contando que "tentamos procurar um ator para colocar sapatos nos joelhos e imitar um anão, mas ninguém quis interpretar, então pegamos Warwick mesmo":
Vai ser engraçado ver Warwick atuando ao lado de Liam Neeson, com 1,93m. A série ainda não tem data para estrear, mas claro, vai passar na BBC, então você não vai assistir no Brasil. E viva o YouTube. Porém, desde que a série envolva mais piadinhas como a da Helena Bonham-Carter que o Ricky Gervais fez pra cima do Johnny Depp , vale o esforço de ir atrás:
- Estou fazendo um filme novo com Tim Burton.
- É. Legal.
- Sim. Muito bom. Sabe quem é minha parceira em cena?
- Hmm... Helena Bonham-Carter?
- COMO VOCÊ SABE?
- Um chute de sorte.
Esses ingleses.
Sam acredita que a Inglaterra é tão bairrista quando o Rio Grande do Sul
Ensaio Sobre a Bobeira
Não se leve a sério. É só o que eu digo.
Recentemente vimos no Brasil um caso digno de... Brasil. Afinal, onde mais um feto poderia querer processar uma pessoa? O caso, obviamente é o super citado embate Rafinha Bastos X o mundo, se você assumir que os embaixadores do mundo nesse caso são Wanessa (ex-Camargo), seu marido e o filho dela, que não faz idéia do que está acontecendo. Até porque se ele já soubesse, já tinha criado uma conta no Twitter pra xingar muito e dar block e unfollow.
Não convém explicar o caso aqui, já que todo mundo sabe a seqüência dos fatos: piada estúpida, celebridade reclamando, desistência de patrocinadores, Rafinha fora do CQC e embates morais e éticos que não servem nem pra mesa de bar. Como o próprio comediante gaúcho postou no seu Twitter esses dias, “Desculpem. Nem eu mais agüento ouvir falar sobre mim”. O que assusta realmente no caso é o fato do feto (aliteração estranha) ter entrado no processo, junto com os seus pais.
Pelo que li, segundo os embargos jurídicos da coisa toda, o futuro Camarguinho, teve a sua integridade moral e física ameaçada, direito esse protegido pela Constituição. Sendo assim, se encontra totalmente no direito de processar o humorista, mesmo que quando ele realmente seja gente o bastante pra entender o que se passou enquanto recebia alimentos pelo cordão umbilical, Rafinha Bastos seja apenas Rafael, um gaúcho narigudo pai de família. É o ciclo se completando: um feto processando alguém é uma piada mais engraçada do que a própria piada que gerou o processo.
(Boa piada para stand-up comedy: “já contei aquela do feto que entrou no tribunal?” Todos ri.)
Pessoas que se levam a sério demais não tem graça. Ênfase no demais, já que há limites para tudo. Uma corda de guitarra retesada, bem firme e reta, é essencial para o instrumento não desafinar. Mas o que seria do blues sem o bend? Mais blues, sem dúvida, mas no sentido ruim da palavra. E já que estamos falando de música, o que seria do heavy metal se o gênero se levasse a sério demais? Seria interessante, claro. Mas o Edguy não existiria.
E nem clipes como “Holy Smoke”, do Iron Maiden. Ó, Bruce...
Engraçado que o metal é um dos primeiros gêneros que mata seus próprios ídolos porque eles se “venderam”. Que o diga o Metallica, que já passou por isso uma, duas, três vezes... Mas poxa, você já está cantando sobre seres demoníacos que irão dominar a Terra, exigir seriedade além disso já é demais.
E por fim, o campo pessoal e motivo para todo esse post. No filme “Amizade Colorida”, com Justin Timberlake e a minha toda minha Mila Kunis, o personagem de Justin, Dylan, deixa Los Angeles por Nova York, atrás de uma oportunidade de emprego melhor oferecida pela personagem de Mila. O tempo inteiro Dylan fala sobre as diferenças entre as duas cidades e de como Los Angeles era mais calma e organizada. Mas se LA é melhor, porque ele saiu de lá?
Spoilers ahead.
Lá pelas tantas, descobrimos que o pai de Dylan sofre de Alzheimer e que esse foi um dos motivos que o motivou a trocar de cidade. Sem saber mais como conviver com a condição do pai, Dylan abraça a mudança, o que ocasiona um certo choque quando ele volta para casa, lá na metade do filme. Entre outras coisas, como perda de memória, o Alzheimer faz com que o pai do personagem tenha uma certa predileção por andar... sem calças. Quase no clímax do filme, em uma das melhores cenas da comédia, Dylan perde o pai no aeroporto e quando o encontra, ele já está sentado numa mesa de um restaurante chique, esperando seu prato, e sem calças. Dylan finalmente decide encarar a condição do pai, e num ato de bondade e despreocupação, também tira as calças, o que o faz entender que toda a preocupação ao redor daquele ato não era justificada. Levar-se a sério mesmo não funcionava ali. Vamos ficar sem calças então.
Hoje faleceu em Caxias o Tio da Casquinha (ou Vô da Casquinha, ou Velho da Casquinha, como desejar). Figura lendária da cidade, ele passou a última semana no hospital, em decorrência do câncer de próstata que enfrentava há 10 anos. Além do câncer, Rui da Silva Peres, a pessoa por trás da figura do Tio da Casquinha, sofria de Alzheimer, doença diagnosticada no início do ano e que o tirou das ruas. Aliás: o arrancou das ruas, já que se fosse por escolha do próprio, ele provavelmente não teria saído, decidido do jeito que era.
O fato é que o Alzheimer é degenerativo e boa parte desse processo se deu ainda nas ruas, com o Tio da Casquinha vendendo seu produto, sempre com o boné com o gorro de Papai Noel por cima, seu velho casacão e o latão verde. Sua figura tétrica não tinha nada de irreal; era a mais sincera possível, e ele provavelmente nunca se levou muito a sério, o que não significa que nunca o tivessem levado a sério, já que o negócio sustentou a família por anos. É significante em uma cidade como Caxias do Sul, cada vez mais apegada a nomes de família, cargos importantes e posses, uma pessoa como ele ter sua morte lamentada por gente de todo tipo, pais e filhos, gerações tocadas pela presença de uma pessoa que poucos até sabiam o nome.
O Tio da Casquinha é pai do meu tio, morava na minha rua e foi figura da minha vida por um bom tempo. Quem freqüentou minha casa no ensino médio sabe que as casquinhas eram um prato típico dos ensaios na garagem nos sábados. Nos últimos tempos, as notícias rarearam, mesmo com um membro da família dele morando aqui em casa. A idéia geral era de que uma hora isso seria inevitável, ainda mais com o estado em que ele se encontrava. Segundo os meus familiares que estiveram no velório agora pela noite (eu fiquei em casa com meu irmão e minha prima, neta dele), em momento algum faltou gente no velório, das mais variadas classes e raças. Atestado de que o homem realmente tocou muita gente.
Enfim. Vai-se o ser humano, mas fica a sua história. Que descanse em paz, como merece. E fica a lição: não se leve a sério. Mesmo que isso signifique usar touca de Papai Noel o ano todo.
O jornal O Caxiense fez algumas ótimas matérias sobre os últimos dias dele, aqui e aqui. Vale ler.
Sam ainda acredita que o Tio da Casquinha era um Doctor Who perdido no tempo
Recentemente vimos no Brasil um caso digno de... Brasil. Afinal, onde mais um feto poderia querer processar uma pessoa? O caso, obviamente é o super citado embate Rafinha Bastos X o mundo, se você assumir que os embaixadores do mundo nesse caso são Wanessa (ex-Camargo), seu marido e o filho dela, que não faz idéia do que está acontecendo. Até porque se ele já soubesse, já tinha criado uma conta no Twitter pra xingar muito e dar block e unfollow.
Não convém explicar o caso aqui, já que todo mundo sabe a seqüência dos fatos: piada estúpida, celebridade reclamando, desistência de patrocinadores, Rafinha fora do CQC e embates morais e éticos que não servem nem pra mesa de bar. Como o próprio comediante gaúcho postou no seu Twitter esses dias, “Desculpem. Nem eu mais agüento ouvir falar sobre mim”. O que assusta realmente no caso é o fato do feto (aliteração estranha) ter entrado no processo, junto com os seus pais.
Pelo que li, segundo os embargos jurídicos da coisa toda, o futuro Camarguinho, teve a sua integridade moral e física ameaçada, direito esse protegido pela Constituição. Sendo assim, se encontra totalmente no direito de processar o humorista, mesmo que quando ele realmente seja gente o bastante pra entender o que se passou enquanto recebia alimentos pelo cordão umbilical, Rafinha Bastos seja apenas Rafael, um gaúcho narigudo pai de família. É o ciclo se completando: um feto processando alguém é uma piada mais engraçada do que a própria piada que gerou o processo.
(Boa piada para stand-up comedy: “já contei aquela do feto que entrou no tribunal?” Todos ri.)
Pessoas que se levam a sério demais não tem graça. Ênfase no demais, já que há limites para tudo. Uma corda de guitarra retesada, bem firme e reta, é essencial para o instrumento não desafinar. Mas o que seria do blues sem o bend? Mais blues, sem dúvida, mas no sentido ruim da palavra. E já que estamos falando de música, o que seria do heavy metal se o gênero se levasse a sério demais? Seria interessante, claro. Mas o Edguy não existiria.
E nem clipes como “Holy Smoke”, do Iron Maiden. Ó, Bruce...
Engraçado que o metal é um dos primeiros gêneros que mata seus próprios ídolos porque eles se “venderam”. Que o diga o Metallica, que já passou por isso uma, duas, três vezes... Mas poxa, você já está cantando sobre seres demoníacos que irão dominar a Terra, exigir seriedade além disso já é demais.
E por fim, o campo pessoal e motivo para todo esse post. No filme “Amizade Colorida”, com Justin Timberlake e a minha toda minha Mila Kunis, o personagem de Justin, Dylan, deixa Los Angeles por Nova York, atrás de uma oportunidade de emprego melhor oferecida pela personagem de Mila. O tempo inteiro Dylan fala sobre as diferenças entre as duas cidades e de como Los Angeles era mais calma e organizada. Mas se LA é melhor, porque ele saiu de lá?
Spoilers ahead.
Lá pelas tantas, descobrimos que o pai de Dylan sofre de Alzheimer e que esse foi um dos motivos que o motivou a trocar de cidade. Sem saber mais como conviver com a condição do pai, Dylan abraça a mudança, o que ocasiona um certo choque quando ele volta para casa, lá na metade do filme. Entre outras coisas, como perda de memória, o Alzheimer faz com que o pai do personagem tenha uma certa predileção por andar... sem calças. Quase no clímax do filme, em uma das melhores cenas da comédia, Dylan perde o pai no aeroporto e quando o encontra, ele já está sentado numa mesa de um restaurante chique, esperando seu prato, e sem calças. Dylan finalmente decide encarar a condição do pai, e num ato de bondade e despreocupação, também tira as calças, o que o faz entender que toda a preocupação ao redor daquele ato não era justificada. Levar-se a sério mesmo não funcionava ali. Vamos ficar sem calças então.
Hoje faleceu em Caxias o Tio da Casquinha (ou Vô da Casquinha, ou Velho da Casquinha, como desejar). Figura lendária da cidade, ele passou a última semana no hospital, em decorrência do câncer de próstata que enfrentava há 10 anos. Além do câncer, Rui da Silva Peres, a pessoa por trás da figura do Tio da Casquinha, sofria de Alzheimer, doença diagnosticada no início do ano e que o tirou das ruas. Aliás: o arrancou das ruas, já que se fosse por escolha do próprio, ele provavelmente não teria saído, decidido do jeito que era.
O fato é que o Alzheimer é degenerativo e boa parte desse processo se deu ainda nas ruas, com o Tio da Casquinha vendendo seu produto, sempre com o boné com o gorro de Papai Noel por cima, seu velho casacão e o latão verde. Sua figura tétrica não tinha nada de irreal; era a mais sincera possível, e ele provavelmente nunca se levou muito a sério, o que não significa que nunca o tivessem levado a sério, já que o negócio sustentou a família por anos. É significante em uma cidade como Caxias do Sul, cada vez mais apegada a nomes de família, cargos importantes e posses, uma pessoa como ele ter sua morte lamentada por gente de todo tipo, pais e filhos, gerações tocadas pela presença de uma pessoa que poucos até sabiam o nome.
O Tio da Casquinha é pai do meu tio, morava na minha rua e foi figura da minha vida por um bom tempo. Quem freqüentou minha casa no ensino médio sabe que as casquinhas eram um prato típico dos ensaios na garagem nos sábados. Nos últimos tempos, as notícias rarearam, mesmo com um membro da família dele morando aqui em casa. A idéia geral era de que uma hora isso seria inevitável, ainda mais com o estado em que ele se encontrava. Segundo os meus familiares que estiveram no velório agora pela noite (eu fiquei em casa com meu irmão e minha prima, neta dele), em momento algum faltou gente no velório, das mais variadas classes e raças. Atestado de que o homem realmente tocou muita gente.
Enfim. Vai-se o ser humano, mas fica a sua história. Que descanse em paz, como merece. E fica a lição: não se leve a sério. Mesmo que isso signifique usar touca de Papai Noel o ano todo.
O jornal O Caxiense fez algumas ótimas matérias sobre os últimos dias dele, aqui e aqui. Vale ler.
Sam ainda acredita que o Tio da Casquinha era um Doctor Who perdido no tempo
O Mundo Dá Voltas
Historinha divertida.
Só tenho vizinhos estranhos. Os moradores da casa do lado direito, que estão na casa há poucos meses, são uma velhinha que planta ervas e sente vibrações negativas nas pessoas e um grisalho cabeludão que eu já peguei tirando fotos de uma menininha em meio as plantas, em contato com a natureza. Reza a lenda que ele é ator de teatro. Eu torço pra que seja verdade.
Os do lado esquerdo já moram aqui faz tempo e desde sempre tem uma relação meio conturbada com a minha família. Começou que eles meio que foram "responsáveis" pela nossa casa nova: depois de anos mantendo o terreno baldio do lado da nossa casa, quando eles foram construir a casa deles, as mudanças no terreno abalaram as estruturas da nossa casa, ocasionando uma rachadura nos pilares da nossa área de serviço. A ideia do pessoal aqui em casa já era reformar, mas digamos que isso deu um certo 'empurrãozinho' na coisa toda.
Fora isso, reza a lenda que esse vizinho do lado mantém uns negócios escusos. Disso eu não sei de nada. Mas tirando meu irmão, meu pai e eu, a galera aqui em casa não gosta muito dele. Eu sempre tratei ele com respeito e nunca tive nada a reclamar, mesma coisa para o meu pai. Quanto ao meu irmão, toda vez que o vizinho chega junto com os amigos dele, enlameado da cabeça aos pais, dirigindo os seus jipes de fazer trilha no meio do mato, consigo ver aquela aura de "eu queria que fosse eu". Esse é meu irmão, afinal.
A característica mais marcante dos moradores dessa casa ao lado, porém, são os seus três pitbulls. Uma fêmea e dois machos. Nada contra animais - nós mesmos temos dois cachorros, não que eu faça muita questão - mas é que essa raça em especial de cães inspira... medo. Fato incontestável. Dizem que o cão reflete o dono e eu não pensaria em uma raça melhor para o meu vizinho criar. Mesmo assim, ele sempre cuidou muito bem deles, mas os cachorros sempre geraram certos atritos na vizinhança.
Primeiro porque eles são barulhentos pra caramba quando querem. Segundo, porque meses atrás, quando tínhamos uma vira-lata fêmea que conseguia ser bem barulhenta também, esse vizinho reclamou do barulho da nossa... que reclamamos do barulho dos deles... que reclamou do barulho da nossa... Enfim. Briga de vizinho, vai entender. Eu ainda não entendo porque ninguém aceita o fato de que ambas as casas tem TRÊS CACHORROS NO QUINTAL: querer silêncio é burrice.
E claro, a insegurança. Esse fator nunca tinha sido levado em conta até um pequeno caso que aconteceu essa semana. Estávamos eu e meu irmão chegando em casa da aula de noite, quando vimos nossos tios e nossa prima na sacada, olhando assustados para uma coisa mais para o fim da rua, onde ouvíamos gritos. Um casal estava parado em uma moto na frente da casa, sem ação. Minha tia fez sinal para entrarmos rápido, sinal que obedecemos logo, e fomos já conversar com eles para saber do que se tratava.
Pelos gritos que se ouviam a umas três casas de distância, pensamos que era algo sério, do tipo, gente brigando. Temos uns vizinhos meio tensos para o lado de lá da rua (depois desse post, ninguém nunca mais vai me visitar). Mas não. Logo ficamos sabendo que poucos minutos antes, quando o meu vizinho também estava chegando em casa, num descuido de atenção na hora de abrir o portão, os cachorros dele fugiram. Os três pitbulls. Eles subiram a rua até encontrar alguém, passaram pelo casal na moto, que ficou parado quando viu eles chegando, e entraram no quintal da casa em que o casal estava parado na frente.
Nesse quintal, claro, havia um cachorro. Preso pela corrente.
E os pitbulls atacaram ele. Os três.
Logo, os gritos que ouvimos eram do nosso vizinho e de outros dois homens que foram ajudar a separar a briga dos cachorros. Do pouco que ouvimos, foi tenso o suficiente. Digamos que a mídia já nos deixou bastante receosos sobre o comportamento dessa raça quando ela foge do controle, então só imaginar três pitbulls atacando um cachorro preso e indefeso já é uma cena terrível. Minutos depois, vimos o vizinho e os outros dois homens, três homens adultos e fortes, levando com dificuldade os três cães para casa. Logo depois, o cão atacado foi colocado em um carro e levado para o hospital veterinário, com ferimentos na garganta.
Ainda naquela noite e no dia seguinte, ficamos sabendo mais informações. O cão tinha sobrevivido sim e estava bem, só bastante machucado. No dia seguinte, o vizinho já tinha levado um profissional para sua casa para construir um canil. Por mim, a história já havia terminado por aí. Mas sabe como é né, nunca termina. No dia seguinte, quando meu tio encontrou o vizinho na rua, que logo comentou algo sobre os cachorros, fez o favor de proferir a seguinte frase, muito amigável:
- É, mas se um dos teus cachorros pula o muro da tua casa e ataca um dos meus, eu só quero jogar os pedaços do teu por cima do teu muro, depois de cortar todo ele com um facão afiado que eu tenho lá em casa. Tu vai só ver.
E eu me pergunto: PRA QUÊ GENTE? PRA QUÊ? O cara tem três cachorros violentos, ok; eles fugiram do controle uma vez, ok; ele se provou arrependido e já começou a tomar providências para aquilo não acontecer mais, ok; PRA QUÊ REPRIMIR O CARA AINDA MAIS? É só briga de vizinho ou é um jeito de sei lá, descarregar o ódio do dia a dia com frases de efeito? Quando eu ouvi minha tia contando para minha mãe essa história e as duas comemorando empolgadas "gostei da resposta!", meu único pensamento foi "eu não pertenço a esse lugar". Sério.
Corta para o dia de hoje. Fim da tarde. Cheguei em casa com a minha mãe depois de ir comprar umas frutas no mercado e o portão estava aberto. Logo enxerguei minha tia lá atrás, lá onde ficam os cachorros. Quando desliguei o carro, minha mãe foi lá falar com ela e eu logo ouvi a voz dela nervosa contar o que tinha acontecido: "O Panda atacou o Marley. Quase matou ele".
O Panda é um border collie, que meu irmão adotou durante uma viagem dos Escoteiros para Caravaggio e trouxe pra casa. Os cachorros dessa raça descendem dos antigos cães pastores de renas, e são extremamente inteligentes, tendo uma facilidade enorme de entender novos comandos. Eles também são extremamente energéticos e devem ser criados em espaços abertos, onde possam fazer constantes exercícios. Ou seja, tudo que ele não tem aqui em casa, ficando preso no quintal o dia inteiro. Aliás, nem sei porque estou falando tanto, já que como tudo aqui em casa que envolve os Escoteiros, o Panda tem até o próprio vídeo dele, explicando sua história:
Mais pro fim do vídeo, aparecem o Marley e a Mel. A Mel é a cadela pretinha barulhenta que estava aqui em casa um tempo atrás, mas que foi doada para alguém, já que três cachorros são demais. E o Marley é o vira-lata marrom clarinho que aparece pulando junto com os outros. Ele é pelo menos umas três vezes menor que o Panda. Imagina dentro da boca dele...
Voltando ao acontecimento, guardei o carro na garagem, fui lá em cima levar as compras e quando desci, meu tio estava chegando da rua com a minha prima, já em lágrimas pela cena que tinha presenciado do ataque dos cachorros. Ela tinha ido chamar ele na casa da mãe dele, que fica aqui na rua também. Logo pensei "mas se meu tio estava fora, quem ajudou minha tia a separar os cachorros quando eles estavam brigando?". Saí lá fora e a resposta foi óbvia.
O vizinho.
O mundo dá voltas.
Logo fiquei sabendo da cena inteira: meu tio estava fora e minha prima e minha tia estavam em casa. A minha prima foi lá fora brincar com o Marley, quando o Panda se soltou e foi direto pra cima do vira-lata. Ela gritou assustada e minha tia ouviu e foi tentar acudir. Quando chegou, o Panda já estava com o Marley na boca, balançando ele como um osso de brinquedo. Minha prima deu uma tijolada na cabeça do Panda, que não soltou. Minha tia quebrou uma vassoura em pelo menos cinco pedaços no Panda, que não soltou. Quando a esposa do vizinho viu a cena, gritou para ele ir lá ajudar. Ele puxou o Panda pelo rabo, no braço mesmo, e separou a briga.
Quando meu tio chegou depois, foi logo reforçar a corrente do cachorro junto com o vizinho. E foi possível ver claramente o desconforto dele, trabalhando junto com o cara que ele jurou cortar o cachorro dele em pedaços um dia antes. Agora era ele ali, ajudando a gente com o nosso cachorro violento e fora de controle. A minha tia cuidava do Marley, agora mais pequeno ainda e mais quieto do que nunca. Minha prima era um reflexo dele: lágrimas no rosto, tremendo, assustada. O vizinho, antes de pular para o lado dele do muro comentou "é... os meus fizeram sete buracos no cachorro que atacaram aquele dia. Sei como é." Permaneci na cena até ouvir com certeza o "obrigado" trêmulo que veio logo dos meus tios.
Quando subi para minha casa e fui falar com minha mãe, ela só sabia falar dos cachorros. "Eu fico triste, não queria que fosse assim. Eu gosto dos cachorrinhos, não queria que eles se atacassem assim, sei lá, o que fazer. Prefiro dar fim em um deles, mandar embora, pra outro lugar, ao invés de ter os dois se matando ali atrás..." Eu só conseguia pensar em como a minha mãe, uma pessoa tão preocupada sempre com a questão humana das coisas, só conseguia pensar no cachorro. Como ela não tinha se ligado de que o cara que ela sempre fala mal, tinha acabado de ajudar ela.
Eu, claro, falei isso. "O que eu acho engraçado é que ontem o meu tio ameaçou o cachorro dele, e hoje tava ele ali ajudando". Ela me respondeu: "é, o teu tio e tua tia falam muito mal dele, sempre... isso daí é pra eles aprenderem". Ai subi nos tamancos. "Tu também fala, né mãe! Por favor". Ela disse "Sim. Eu sei. Mas vou deixar bem claro: eu não separaria ele dos cachorros dele". Ela deu a entender que não separaria porque os cachorros são fortes, mas claro... eu conheço ela faz tempo. Consigo ler nas entrelinhas já.
De lição de tudo isso fica o que falei ali em cima antes. O mundo dá voltas. Num dia tu promete matar o cachorro do vizinho caso ele faça alguma coisa com o teu; no outro dia o vizinho tá te ajudando a cuidar do teu cachorro, que quase matou o próprio companheiro de quintal. Eu pelo menos nunca vi os pitbulls brigando (pelo contrário, quando cheguei em casa um dos dois machos tava montado na fêmea bem na frente da casa, feliz da vida). Acredito que o vizinho fez isso na bondade mesmo, porque viu a situação e porque gosta de cachorros, e não pra dar nos dedos do meu tio. Mas se foi pra causar algo, foi bem feito também.
Só sei que opiniões definitivas me assustam.
E border collies, a partir de hoje, também.
Sam só terá um cachorro se puder chamá-lo de Chewie
Só tenho vizinhos estranhos. Os moradores da casa do lado direito, que estão na casa há poucos meses, são uma velhinha que planta ervas e sente vibrações negativas nas pessoas e um grisalho cabeludão que eu já peguei tirando fotos de uma menininha em meio as plantas, em contato com a natureza. Reza a lenda que ele é ator de teatro. Eu torço pra que seja verdade.
Os do lado esquerdo já moram aqui faz tempo e desde sempre tem uma relação meio conturbada com a minha família. Começou que eles meio que foram "responsáveis" pela nossa casa nova: depois de anos mantendo o terreno baldio do lado da nossa casa, quando eles foram construir a casa deles, as mudanças no terreno abalaram as estruturas da nossa casa, ocasionando uma rachadura nos pilares da nossa área de serviço. A ideia do pessoal aqui em casa já era reformar, mas digamos que isso deu um certo 'empurrãozinho' na coisa toda.
Fora isso, reza a lenda que esse vizinho do lado mantém uns negócios escusos. Disso eu não sei de nada. Mas tirando meu irmão, meu pai e eu, a galera aqui em casa não gosta muito dele. Eu sempre tratei ele com respeito e nunca tive nada a reclamar, mesma coisa para o meu pai. Quanto ao meu irmão, toda vez que o vizinho chega junto com os amigos dele, enlameado da cabeça aos pais, dirigindo os seus jipes de fazer trilha no meio do mato, consigo ver aquela aura de "eu queria que fosse eu". Esse é meu irmão, afinal.
A característica mais marcante dos moradores dessa casa ao lado, porém, são os seus três pitbulls. Uma fêmea e dois machos. Nada contra animais - nós mesmos temos dois cachorros, não que eu faça muita questão - mas é que essa raça em especial de cães inspira... medo. Fato incontestável. Dizem que o cão reflete o dono e eu não pensaria em uma raça melhor para o meu vizinho criar. Mesmo assim, ele sempre cuidou muito bem deles, mas os cachorros sempre geraram certos atritos na vizinhança.
Primeiro porque eles são barulhentos pra caramba quando querem. Segundo, porque meses atrás, quando tínhamos uma vira-lata fêmea que conseguia ser bem barulhenta também, esse vizinho reclamou do barulho da nossa... que reclamamos do barulho dos deles... que reclamou do barulho da nossa... Enfim. Briga de vizinho, vai entender. Eu ainda não entendo porque ninguém aceita o fato de que ambas as casas tem TRÊS CACHORROS NO QUINTAL: querer silêncio é burrice.
E claro, a insegurança. Esse fator nunca tinha sido levado em conta até um pequeno caso que aconteceu essa semana. Estávamos eu e meu irmão chegando em casa da aula de noite, quando vimos nossos tios e nossa prima na sacada, olhando assustados para uma coisa mais para o fim da rua, onde ouvíamos gritos. Um casal estava parado em uma moto na frente da casa, sem ação. Minha tia fez sinal para entrarmos rápido, sinal que obedecemos logo, e fomos já conversar com eles para saber do que se tratava.
Pelos gritos que se ouviam a umas três casas de distância, pensamos que era algo sério, do tipo, gente brigando. Temos uns vizinhos meio tensos para o lado de lá da rua (depois desse post, ninguém nunca mais vai me visitar). Mas não. Logo ficamos sabendo que poucos minutos antes, quando o meu vizinho também estava chegando em casa, num descuido de atenção na hora de abrir o portão, os cachorros dele fugiram. Os três pitbulls. Eles subiram a rua até encontrar alguém, passaram pelo casal na moto, que ficou parado quando viu eles chegando, e entraram no quintal da casa em que o casal estava parado na frente.
Nesse quintal, claro, havia um cachorro. Preso pela corrente.
E os pitbulls atacaram ele. Os três.
Logo, os gritos que ouvimos eram do nosso vizinho e de outros dois homens que foram ajudar a separar a briga dos cachorros. Do pouco que ouvimos, foi tenso o suficiente. Digamos que a mídia já nos deixou bastante receosos sobre o comportamento dessa raça quando ela foge do controle, então só imaginar três pitbulls atacando um cachorro preso e indefeso já é uma cena terrível. Minutos depois, vimos o vizinho e os outros dois homens, três homens adultos e fortes, levando com dificuldade os três cães para casa. Logo depois, o cão atacado foi colocado em um carro e levado para o hospital veterinário, com ferimentos na garganta.
Ainda naquela noite e no dia seguinte, ficamos sabendo mais informações. O cão tinha sobrevivido sim e estava bem, só bastante machucado. No dia seguinte, o vizinho já tinha levado um profissional para sua casa para construir um canil. Por mim, a história já havia terminado por aí. Mas sabe como é né, nunca termina. No dia seguinte, quando meu tio encontrou o vizinho na rua, que logo comentou algo sobre os cachorros, fez o favor de proferir a seguinte frase, muito amigável:
- É, mas se um dos teus cachorros pula o muro da tua casa e ataca um dos meus, eu só quero jogar os pedaços do teu por cima do teu muro, depois de cortar todo ele com um facão afiado que eu tenho lá em casa. Tu vai só ver.
E eu me pergunto: PRA QUÊ GENTE? PRA QUÊ? O cara tem três cachorros violentos, ok; eles fugiram do controle uma vez, ok; ele se provou arrependido e já começou a tomar providências para aquilo não acontecer mais, ok; PRA QUÊ REPRIMIR O CARA AINDA MAIS? É só briga de vizinho ou é um jeito de sei lá, descarregar o ódio do dia a dia com frases de efeito? Quando eu ouvi minha tia contando para minha mãe essa história e as duas comemorando empolgadas "gostei da resposta!", meu único pensamento foi "eu não pertenço a esse lugar". Sério.
Corta para o dia de hoje. Fim da tarde. Cheguei em casa com a minha mãe depois de ir comprar umas frutas no mercado e o portão estava aberto. Logo enxerguei minha tia lá atrás, lá onde ficam os cachorros. Quando desliguei o carro, minha mãe foi lá falar com ela e eu logo ouvi a voz dela nervosa contar o que tinha acontecido: "O Panda atacou o Marley. Quase matou ele".
O Panda é um border collie, que meu irmão adotou durante uma viagem dos Escoteiros para Caravaggio e trouxe pra casa. Os cachorros dessa raça descendem dos antigos cães pastores de renas, e são extremamente inteligentes, tendo uma facilidade enorme de entender novos comandos. Eles também são extremamente energéticos e devem ser criados em espaços abertos, onde possam fazer constantes exercícios. Ou seja, tudo que ele não tem aqui em casa, ficando preso no quintal o dia inteiro. Aliás, nem sei porque estou falando tanto, já que como tudo aqui em casa que envolve os Escoteiros, o Panda tem até o próprio vídeo dele, explicando sua história:
Mais pro fim do vídeo, aparecem o Marley e a Mel. A Mel é a cadela pretinha barulhenta que estava aqui em casa um tempo atrás, mas que foi doada para alguém, já que três cachorros são demais. E o Marley é o vira-lata marrom clarinho que aparece pulando junto com os outros. Ele é pelo menos umas três vezes menor que o Panda. Imagina dentro da boca dele...
Voltando ao acontecimento, guardei o carro na garagem, fui lá em cima levar as compras e quando desci, meu tio estava chegando da rua com a minha prima, já em lágrimas pela cena que tinha presenciado do ataque dos cachorros. Ela tinha ido chamar ele na casa da mãe dele, que fica aqui na rua também. Logo pensei "mas se meu tio estava fora, quem ajudou minha tia a separar os cachorros quando eles estavam brigando?". Saí lá fora e a resposta foi óbvia.
O vizinho.
O mundo dá voltas.
Logo fiquei sabendo da cena inteira: meu tio estava fora e minha prima e minha tia estavam em casa. A minha prima foi lá fora brincar com o Marley, quando o Panda se soltou e foi direto pra cima do vira-lata. Ela gritou assustada e minha tia ouviu e foi tentar acudir. Quando chegou, o Panda já estava com o Marley na boca, balançando ele como um osso de brinquedo. Minha prima deu uma tijolada na cabeça do Panda, que não soltou. Minha tia quebrou uma vassoura em pelo menos cinco pedaços no Panda, que não soltou. Quando a esposa do vizinho viu a cena, gritou para ele ir lá ajudar. Ele puxou o Panda pelo rabo, no braço mesmo, e separou a briga.
Quando meu tio chegou depois, foi logo reforçar a corrente do cachorro junto com o vizinho. E foi possível ver claramente o desconforto dele, trabalhando junto com o cara que ele jurou cortar o cachorro dele em pedaços um dia antes. Agora era ele ali, ajudando a gente com o nosso cachorro violento e fora de controle. A minha tia cuidava do Marley, agora mais pequeno ainda e mais quieto do que nunca. Minha prima era um reflexo dele: lágrimas no rosto, tremendo, assustada. O vizinho, antes de pular para o lado dele do muro comentou "é... os meus fizeram sete buracos no cachorro que atacaram aquele dia. Sei como é." Permaneci na cena até ouvir com certeza o "obrigado" trêmulo que veio logo dos meus tios.
Quando subi para minha casa e fui falar com minha mãe, ela só sabia falar dos cachorros. "Eu fico triste, não queria que fosse assim. Eu gosto dos cachorrinhos, não queria que eles se atacassem assim, sei lá, o que fazer. Prefiro dar fim em um deles, mandar embora, pra outro lugar, ao invés de ter os dois se matando ali atrás..." Eu só conseguia pensar em como a minha mãe, uma pessoa tão preocupada sempre com a questão humana das coisas, só conseguia pensar no cachorro. Como ela não tinha se ligado de que o cara que ela sempre fala mal, tinha acabado de ajudar ela.
Eu, claro, falei isso. "O que eu acho engraçado é que ontem o meu tio ameaçou o cachorro dele, e hoje tava ele ali ajudando". Ela me respondeu: "é, o teu tio e tua tia falam muito mal dele, sempre... isso daí é pra eles aprenderem". Ai subi nos tamancos. "Tu também fala, né mãe! Por favor". Ela disse "Sim. Eu sei. Mas vou deixar bem claro: eu não separaria ele dos cachorros dele". Ela deu a entender que não separaria porque os cachorros são fortes, mas claro... eu conheço ela faz tempo. Consigo ler nas entrelinhas já.
De lição de tudo isso fica o que falei ali em cima antes. O mundo dá voltas. Num dia tu promete matar o cachorro do vizinho caso ele faça alguma coisa com o teu; no outro dia o vizinho tá te ajudando a cuidar do teu cachorro, que quase matou o próprio companheiro de quintal. Eu pelo menos nunca vi os pitbulls brigando (pelo contrário, quando cheguei em casa um dos dois machos tava montado na fêmea bem na frente da casa, feliz da vida). Acredito que o vizinho fez isso na bondade mesmo, porque viu a situação e porque gosta de cachorros, e não pra dar nos dedos do meu tio. Mas se foi pra causar algo, foi bem feito também.
Só sei que opiniões definitivas me assustam.
E border collies, a partir de hoje, também.
Sam só terá um cachorro se puder chamá-lo de Chewie
Declaração de Falência
Uma histórinha sobre o que fazer e o que não fazer quando se tem dinheiro
Esse post é enorme e cansativo. Se não quiser ir até o fim, apenas me deseje boa sorte e tente, acima de tudo, me compreender caso eu suma.
Essa é a minha declaração de falência.
Lembro até hoje do meu primeiro aumento. Não sei se foi o primeiro, na verdade, não lembro, mas ficou marcado por um comentário do meu chefe que não esqueço. Assim que a minha chefe anunciou para mim e para minha colega que iria aumentar os nossos salários, ele comemorou junto conosco: "aeeee, viva, mais um carnê!!!". Olhamos para ele e demos uma risadinha meio amarela, já que, por mais 'engraçadinho' que tenha sido o comentário, era verdade. Naquela época, meu salário era algo em torno de R$ 350. Foi para R$ 400. Uns quatro anos atrás.
Corta para 2010, outubro. Outra lembrança clara: eu tuitando em alguma aula com computadores na universidade: "Paul, seu lindo, eu não tenho dinheiro pra te assistir, mas eu vou te assistir!". Se não me engano, foi a primeira vez que usei o termo "seu lindo" no Twitter, porque tinha recém lido alguém escrevendo. Mas o que importa é que o tweet foi muito verdade: eu não tinha a disposição R$ 650 pra assistir o show no Gramado Premium como eu queria, mas o fiz mesmo assim. Como eu já comentei muitas vezes aqui no blog, quando se é novo é preciso colecionar experiências e ver um dos meus ídolos a poucos mais de 20m de distância foi "a" experiência. Nos meses seguintes, comentava ironicamente "o show foi ótimo. E o ingresso estou pagando ainda! Hehehe". É... amarga ironia.
Corta para hoje, 18 de outubro de 2011. Saldo da minha conta no banco: R$ 3.848,28... negativo. O limite da minha conta é de R$ 3.100, então isso quer dizer que eu estou R$ 748,28 negativo além do meu cheque especial. É... tá punk o negócio.
Contar como o salário modesto (e mínimo) de R$ 350 virou uma dívida de quase 4 mil reais é uma história cheia de altos e baixos. Envolve pelo menos mais uns dois shows, algumas fatalidades e claro, muitas roupas. Quem me conhece sabe que nos últimos anos eu mudei bastante em relação ao vestuário e claro, mesmo que a grande mudança tenha sido "saber comprar roupas" ainda envolve "comprar roupas". Mas o maior culpado de tudo isso com certeza foi a minha falta de organização em relação as finanças e acho que esse é o maior motivo do post.
Assumir a dívida do Paul foi um risco, mas era um risco 'controlável' (se é que existem riscos assim). Fiquei com um arranhão na conta bancária que teria que esperar o mês seguinte para ser sanado e iria consumir um pouco de dinheiro que ia sobrar, mas ok. Mas naquela época eu estava recém começando a pagar o carro novo que ganhei em setembro, que consumia metade do meu salário. Mais o meu celular. Mais a internet. Mais duas lojas de roupas. Mais os meus gastos para sair. Mais os gastos para abastecer o carro. Mais o Paul McCartney. Tá dando pra sentir o drama?
Agora imagina eu recebendo o meu salário, depositando no banco e tirando aos pouquinhos para pagar as contas, sem nem notar o quanto ficou lá para os juros, para os pagamentos no cartão, para os cheques que iam entrar... Por um tempo, minha mãe me fazia todo mês sentar do lado dela para checar como andavam as coisas. Meu estômago entrava em parafuso, tamanho nervosismo que eu sentia ao ver aqueles papeizinhos amarelos do banco. Foi assim até o momento em que ela disse "Ok, cansei de tentar te organizar. Tu se vira a partir de hoje, eu abro mão." E lá veio o estrago.
Continuei com a minha política de "depositei, tá tudo tranquilo". Nos últimos casos, quando precisava cobrir um cheque, fazia um empréstimo no banco mesmo, daqueles que parecem inofensivos e extremamente parceláveis... Mal sabia eu do buraco que aos poucos me enfiava. E assim foram, com saídas, cinemas, barzinhos, ida a praia em fevereiro. Sem contar o namoro claro, que ANTES QUE ME APEDREJEM, economiza nas saídas mas cobra em presentes e jantares e afins. Mas tudo tranquilo; o importante era eu não ter que confrontar minha mãe com os canhotos dos cheques. O cometa estava nas nuvens.
Daí, em um certo mês, o dinheiro do Paul fez sua falta presente e eu tive que atrasar uma prestação do carro. Então começou a novela de pagar o boleto sempre atrasado, arcando com os juros. Errado, muito errado. Importante citar que nesse momento (e até hoje), a prestação do carro ocupa metade do meu salário (façam as contas os curiosos), então da outra metade eu tenho que fazer sair o pagamento de todas as outras contas MAIS os gastos 'supérfluos'. A essa altura do baile eu já estava entregue a sorte.
E então veio o último golpe (ou o mais recente, diriam os pessimistas): certo dia, fui tirar um novo talão de cheques para abastecer o carro e o banco simplesmente... recusou. Não estava disponível. Erro na conta, whatever, algo assim. Não dei bola, abasteci de algum outro jeito e deixei passar. Fiquei de checar o porque e demorei, demorei, demorei, demorei... Quando eu vi, apareceu um recadinho no meu extrato: "circular 1528". E quando percebi, nada mais na minha conta funcionava: cheque, empréstimos, nada. Não sabia o que era, mas coisa boa não podia ser. Quando olhei mais pra baixo no extrato, vi o que não queria ver, a trinca maldita: "Cheque compensado. Cheque estornado. Cheque devolvido." Fudeu. Hora de voltar aos malditos canhotos.
O complicado é que, como tudo na vida que eu desgosto, eu tenho frescuras bloqueios. E eu demoro pra resolver as coisas. Mas ok, recebi o meu salário do mês de outubro, descontei a parte do carro (que não teve juros por causa da greve dos Correios) e fiquei com o resto para resolver o problema do cheque. Era simples: recuperar o cheque, pagar ele em dinheiro, ir no banco e pagar a taxa do cheque devolvido para colocar a minha situação em dia. Mas ai começaram os outros problemas:
1) eu não poderia depositar o dinheiro que sobrou do meu salário no banco, porque ele ia cobrir as dívidas pós-limites e eu não ia poder sacar mais;
2) eu teria que descobrir de quanto era o cheque, do que que era e onde buscá-lo (o que fica meio complicado com a minha nova rotina de obedecer o livro ponto no trabalho);
3) os malditos bancos estão EM GREVE; mesmo que eu recuperasse o cheque, não tinha como regularizar minha situação no banco;
Depois de uns dois dias pra deduzir e pensar em como resolver tudo isso, o esperado acontece: os outros dois cheques, os meus dois ÚLTIMOS cheques, voltaram por falta de fundos. Antes eu não tinha como regularizar a minha situação no banco; agora eu não tenho dinheiro para recuperar os três cheques e mesmo que eu tenha, eu não tenho dinheiro para pagar a taxa no banco para devolver eles; e mesmo que eu tenha, o meu banco AINDA ESTÁ EM GREVE, então não tenho ninguém para me atender. Massa né?
Essa é definitivamente a maior sinuca-de-bico financeira em que já me encontrei na vida. E definitivamente já refletiu nos meus hábitos: faz muito tempo que não saio para ir a bares, jogar RPG com os guris tem se provado um ótimo programa quando não se tem dinheiro e estou até engolindo meu orgulho e aceitando caronas (!), já que, claro, quem abastece o carro é minha mãe e qualquer meio de economizar é bem-vindo. Aliás, nessa altura do campeonato já estou pagando somente o celular e o carro, mas mesmo assim, dar a volta vai ser complicado. Sem contar que em momento algum eu citei a faculdade, que é minha mãe que paga.
Minha mãe já me disse em tempos atrás, quando minha dívida era mais branda, que se arrepende de não ter sentado mais (ainda) do meu lado, para me puxar mais na questão financeira. Eu digo que não, a culpa foi minha mesmo, da falta de organização, das facilidades de compras e da falta de limites. Eu não compro nada que não uso (minhas roupas e meus livros tão aí pra provar isso), mas tem certos momentos em que um freio é importante.
Esse post fica com o final em aberto, assim como essa história. Ainda não fui atrás do 'paitrocínio', estou tentando resolver o máximo possível de coisas sozinho sem precisar envolver meus pais, afinal, eles tem as dívidas deles e eu já tenho 23 anos na cara, tá na hora de virar ADULTO. Eu preferia estar aprendendo outras coisas da vida adulta, como fazer churrasco ou consertar um chuveiro, mas a gente tem que encarar o que vem pela frente, sem escolher demais. Uma hora ou outra eu vou recorrer a eles e levar a mijada da vida, mas quero chegar nesse momento sabendo que fiz tudo o que pude pelo menos.
E é isso. Esse foi o post mais auto-biográfico e sincero que já escrevi na vida. Acho que me abri aqui mais do que em todas as vezes que abri meu coração pra falar de sentimentos. Irônico. Repito aqui então o recado que deixei lá em cima, caso você tenha encarado o texto até o fim: me deseje boa sorte e compreenda caso eu suma, não saia por um bom tempo ou me recuse a programas que não sejam de graça. Depois vocês não entendem porque gosto tanto de orquestras e shows de jazz e filmes cults franceses a R$ 2...
Acima de tudo, não repitam os mesmos erros que os meus. Mas sejam felizes.
Sam curte o fato do Blogger ser de graça
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