Era Uma Vez, na 8ª série... - Parte III

No último post...

"Ela ficou com minha agenda!" era tudo o que vinha na mente de Sam naquele momento. A melhor coincidência que ele poderia pedir de presente aos deuses. Agora, era só questão de marcar um encontro.

Marcar um encontro. O tipo de expressão que não existe no dicionário de vocábulos de um nerd na 8ª série. O tipo de coisa que faz canelas finas tremerem, corações palpitarem e borboletas voarem no estômago. O tipo de sensação que Sam iria ter que experimentar agora.

Depois daquela ligação, eles conversaram quase todo dia. Ela ligava para ele ou ele ligava para ela. E era sempre o mesmo esquema: ele dava um toque no celular dela. Se ela respondia, era porque podia falar. As vezes era ela quem dava o toque e ele respondia. Assim que o toque era respondido, os dois já iam para o lado do telefone fixo em casa, afinal, não há nada mais assustador do que falar com aquele monstro chamado "família".

Decidiram ir ao cinema. Então, na primeira terça-feira disponível (pessoas da 8ª série não tem renda fixa, lembrem-se) lá foram eles assistir "Stuart Little 2". Pela escolha do filme, era visto que o último critério na escolha realmente foi a qualidade. Sam não podia ir sozinho. B. Eddy (lembram dele?) foi a escolha mais sensata: era amigo de Sam, era amigo dela, o mundo era colorido e cheio de duendes fofinhos e tudo ia dar certo.

(Sam lembra-se até hoje da cena: prestes a sair da casa do amigo para ir pegar o ônibus e ir ao shopping, Sam pediu se B. Eddy tinha pego tudo, dinheiro, celular, enfim.... B. Eddy voltou para dentro do apartamento e voltou de lá com uma vela nas mãos. Nerds também fazem piada)

E naturalmente, nerds também se atrasam. O filme ia começar em uns 20min e lá estavam os dois, chegando na parada de ônibus para esperar o maldito azulzinho. Sam estava ficando p*** da cara, pensando em quem pôr a culpa e como explicar o atraso para ela, até que o ônibus chegou. Os dois entraram logo. Pensando na cara dela quando visse os dois chegando atrasado, Sam mal percebeu quando uma bela moça de bochechas rosadas e cabelo encaracolado entrou na próxima parada do azulzinho:

- Oi!
- Oi! Tudo bem? (DEUSDOCÉU, ISSO É MUITA COINCIDÊNCIA)
- Me atrasei!
- Pois é, a gente quase! (NÓS TAMBÉM NOS ATRASAMOS, mas claro, você não precisa saber disso...)
- E ainda nos encontramos no ônibus! Que coisa não?
- Pois é... Engraçado! (STUART LITTLE 2 vai entrar pra história depois dessa)

Minutos depois, estavam os três no cinema. Ela na esquerda, Sam no meio e B. Eddy na direita. Mas não. No momento em que ela deitou a cabeça no ombro dele, estavam só os dois ali. O resto tinha sumido: B. Eddy, o resto do pessoal no cinema, o rato maldito na tela e até o Dr. House. Naquele momento, eram só os dois.

(Engraçado como você pode se perder em um meio a um monte de gente e mesmo assim se sentir seguro se tem por perto a pessoa que precisa. Assim como pode estar no meio de uma multidão e se sentir sozinho se ela não está ali...)

Acabou o filme. Os dois levantam e se dão por conta que não, não estão sozinhos. Ela ajeita o cabelo. Ele volta à terra. B. Eddy pede licença. Eles dão licença. Óbvio.

Eles decidem ir passear no shopping um pouco. Mais uma cena icônica então acontece, que permanece na mente (e nas histórias de mesa de bar) de Sam até hoje: ele e ela andando juntinhos - sem mãos dadas e sem abraço, mas juntinhos - e B. Eddy, alguns passos na frente, andando e lendo um Scientific American, totalmente em outro mundo. Nerd é nerd não importa o ambiente!

Depois de muitos papos e sorrisos, momento Teletubbies: é hora de dar tchau. Os pais dela ligam e avisam que tão vindo (é, Sam convive com isso faz teeeeempo...). Eles então resolvem se despedir antes que os pais dela cheguem. Segurança em primeiro lugar. Vão para a saída da Renner, onde os pais dela estavam se dirigindo. B. Eddy dá tchau e sai na frente em direção a parada de ônibus...

(DETALHE: os dois podiam ter se despedido dentro do shopping e ter ido cada um pro seu lado lá mesmo, ao invés de ir ATÉ a Renner para depois ir ATÉ o Carrefour pegar o ônibus, totalmente do outro lado. Mas a gente não pensa muito nessas situações mesmo...)

...enquanto Sam ficava se despedindo.

Taquicardia. Gastrite. Pernas tremendo. Eles se abraçaram:

- Sabe... - ele disse - ...eu consigo sentir teu coração batendo.
- Sim, eu também sinto o teu - ela respondeu - e tá bem acelerado.
- (...)
- (...)
- Posso te pedir uma coisa? - Sam perguntou inocentemente
- Sim - disse ela
- A gente... "ficou"?

Ela olhou para ele e sorriu. Talvez pela sua inocência, talvez pela sua burrice mesmo, talvez por que ele tava tentando manter um sorriso amarelo na cara, meio que prevendo uma resposta desagradável da sua pergunta estúpida. Eles passaram o dia inteiro juntos, se gostavam muito, sentiam o coração um do outro bater a distância, mas claro, faltou "aquele" detalhe. Ela então respondeu:

- Não, a gente não ficou. Mas foi bom! - e sorriu.
- Ahhh... - Sam não sabia o que fazer. Fez o mais sensato - Também gostei. Vou indo. Teus pais devem tá chegando.
- Sim, sim. A gente se fala?
- Sim, a gente se fala. - beijou o rosto dela e saiu - Tchau.

Sam sentia-se o maior loser da história. E talvez, naquele momento, ele realmente fosse.

Continua...

Era Uma Vez, na 8ª série... - Parte II

No último post...

Sam havia enviado todas as letras de música que havia escrito para a última pessoa que ele queria que as lesse. Na verdade, ele queria muito que ela soubesse de certas coisas, mas não sabia como dizer aquilo. E as músicas desempenhavam esse papel de modo perfeito: falavam tudo sem que Sam precisasse abrir a boca para nada. E no meio daquelas canções estava aquela, na qual ele se declarava pra ela.

E lá estavam os dois. Sam olhou para ela e perguntou:

- E então... leu as letras que eu te enviei?

Ela olhou para ele, sorriu e respondeu:

- Não, não li! Não deu tempo! Eu nem consegui olhar o meu e-mail hoje. Mas hoje de noite quando eu chegar em casa de repente eu olho.

Sam passou por todo o espectro de cores: amarelo, vermelho, roxo e degradê. Depois de respirar fundo, enfim respondeu:

- Ah... tudo bem! Daí depois tu me fala o que achou - e sorriu.

A noite continuou ótima. A janta estava boa, o spaghetti com molho branco estava delicioso. Depois de uma sessão de guerra de almofadas na salinha da TV ao som de Bad Religion - 8ª série, lembra? - resolveram assistir alguns filmes. Sam pediu PORFAVOR para pegarem filmes variados e não de temas parecidos, como filmes de carro por exemplo. Foram locados dois lançamentos da época: "60 Segundos" e "Velozes e Furiosos". 2002 foi um ano realmente difícil para o cinema nerd.

Ao fim da noite, cada um foi pra sua casa. Cada fim de encontro naquele fim de ano era uma despedida, já que quase ninguém ia pra aula (e todos ali não eram do tipo que precisava de nota) e quase todos já estavam com seu destino decidido em 2003. A grande maioria ia mudar de colégio, mas era algo como 10 pessoas que continuariam sendo colegas no ensino médio e Sam indo sozinho para outro colégio, onde não conhecia ninguém.

Mesmo assim, no outro dia, 7h30 da manhã, Sam estava na sala de aula. Quando ela chegou, ele se lembrou porque tinha acordado cedo aquele dia. Ela estava com aquele sorriso de quem sabia demais, o mesmo do dia anterior. Mas agora parecia REALMENTE que ela sabia de algo a mais.

- Oi.
- Oi.
- E então... leu as letras?
- Sim.
- Eeeeeee...
- ...e a gente precisa conversar.
- (Sam degradê MODE ON) Uhm... ótimo!

Os três primeiros períodos foram os maiores da vida de Sam. Aqueles 150 minutos pareciam que não iam acabar nunca. Então, finalmente, 10h. Recreio. Ele olhou para ela: "vamos aonde?". Ela respondeu: "Biblioteca, pode ser?". Ótimo. Excelente.

A biblioteca estava vazia. Se ela já era um deserto durante o ano, no fim do ano era quase um cenário pós-apocalíptico. Os dois sentaram na mesa mais longe da porta para ninguém escutar. Corpo inclinado pra frente, cotovelos apoiados nas pernas, mãos segurando o queixo. Ela começou:

- Então. Eu li o que tu me mandou. E preciso te pedir uma coisa.
- Sim. Peça.
- Uhm... tu... tá gostando de alguém?
- Uhm... sim.
- E... esse alguém... sou eu?
- Uhmmm... (a gastrite de Sam começou aí)... Sim, é tu.
- Olha... que bom. Porque eu também gosto de ti.

A 8ª série de repente era o máximo.

Eles provavelmente gazearam o último período e ficaram lá embaixo, no pátio, juntos. Conversando, se olhando, curtindo os silêncios e os suspiros. Aquilo não era nada perto do que eles podiam conseguir juntos, mas já era o suficiente praquele momento. No final da aula, perto do meio-dia, os dois foram para o portão do colégio. Sentados lá, ela começou a folhear a agenda dele, para ver o que Sam tinha escrito nos últimos dias. Tinham mais alguns alunos junto com eles (alunos do tipo que precisavam de nota no fim do ano) e o clima de férias já rolava solto. E então, no horário de sempre, a mãe dela chegou para buscá-la.

Ela deu tchau para ele, o abraçou (importante ressaltar, foi "Ô" abraço, daqueles que todo mundo sabe que já recebeu um de alguém especial) e foi embora. Sam ficou ali mais alguns minutos e resolveu ir embora. Começou a ajeitar suas coisas. Sua mochila estava aberta. Ele tinha aberto antes para pegar alguma coisa para mostrar para ela. Tentou se lembrar o que era, quando deu falta de alguma coisa. Ela tinha levado a...

- MINHA AGENDA! Ela levou a minha agenda! De novo!
- E isso é ruim? - perguntou um colega dele que estava perto - Tipo, tá acabando o ano já, tu não vai precisar mais dela.
- Se isso é ruim? Não, isso é bom! Isso É ÓTIMO! Agora eu preciso ver ela pra pegar a minha agenda de volta!

Sam estava adorando aquela situação toda, até que se lembrou que não tinha mais garantia de ver ela. Tinha ido para a aula naquela manhã porque sabia com certeza que ela ia, mas não sabia mais se ela ia no colégio e ele mesmo não sabia se continuaria indo. Só sabia que tinha que passar em algum dia dali a um tempo pegar o boletim. Mas não tinha idéia de como falar com ela.

Foi para casa pensando no assunto. Pensando MUITO no assunto. Chegou em casa, largou as coisas em cima da cama, como sempre, tirou o uniforme do colégio e almoçou. Jogou-se no sofá e ligou na MTV. Curtiu o ócio por alguns momentos, não viu nada de interessante na TV e ligou o computador para entrar na internet. Quando estava pronto para conectar, o telefone tocou. "É a última ligação da tarde", disse pra si mesmo, já que com a internet discada (2002, lembra?) o telefone ia ficar ocupado a tarde toda. Atendeu meio a contragosto:

- Alô?

A voz suave e agradável do outro lado respondeu:

- Eu... acho que fiquei com a tua agenda.

Sam sorriu. Ela também.

Continua...