Troco Coração Por Fígado

São 03h29min da madrugada de sábado pra domingo. 'Bora aproveitar o pouco de álcool que ainda me resta no sangue e escrever algumas sinceridades aqui. Desculpas antecipadas pela falta de coerência, ok?

Existe uma coisa chamada distância. E a distância é a medida de lugar mais variável que existe. E a mais sacana. Assim como o tempo, que pode ser medido tanto em segundos e minutos como "aquela tarde que passou correndo de tão boa que foi" ou "a última hora de trabalho da sexta-feira que durou o dia inteiro", a distância pode ser medida em centímetros, metros e quilômetros, mas também pode ser mensurada por palavras, ações e olhares.

E então, você está do lado de alguém que adora você e que você adora, mas cujo olhar perdido dos dois denuncia um deserto que ambos estão tentando atravessar pra conseguir chegar a um oásis que sirva de ponto comum. Você tira a areia da cara, lembra-se de dar um passo depois do outro e torce pra que o outro chegue antes no óasis e faça sinal pra você saber pra onde andar. Afinal, pra que engolir o orgulho, se o outro pode puxar papo antes? Quem tem interesse na conversa é ele, não tu! Eu tô bem sozinho, ele que tá super afim de conversar, morrendo de saudade... Pffff... Fraco. Deixa ele se virar, eu tô bem.

(Oi. Fala comigo, por favor?)

Ou senão, as palavras que mudam tudo. Maldito ser humano que inventou os apelidos! Quando você vê, tem um apelido para cada situação. Quando você fez algo louvável, você é o "mestre". Quando você serve de chacota, você é o "vermelho". Quando você é o rockstar, você é o "cara". Mas quando você faz algo de errado, você é simplesmente "você". E todos os apelidos vão por água abaixo quando você ouve "Samuel, porque tu fez isso?". Dói. Nossa, como dói. É como colocar uma tonelada de culpa em cima de todos os apelidos pra dizer "Você errou aqui. Perdeu a chance de ser chamado de apelidos. Assuma a culpa você mesmo, não ponha a culpa nos outros". Mas você vai lá e diz "Não, eu não errei. E é o Samuel assumindo a culpa pelas suas próprias ações."

(Mas por favor, volta a me chamar de Muca, please?)

E então vem a última distância a ser percorrida. A do coração. Eu pessoalmente acredito que Darwin errou. O ápice da escala evolutiva humana será quando pudermos trocar nosso coração por um fígado novo, já que ele é o único órgão capaz de suplantar as funções do coração. Como bom virginiano que sou, racional que é um cão, eu sei que o coração tá ali só pra bombear sangue. Essa coisa de coração apaixonado vem da nossa cultura. Quem comanda tudo é nossa cabeça, nosso cérebro. E como confiar num troço que tem que organizar nosso dia, nosso trabalho, nossos estudos e nossas paixões? Uma hora ele mistura tudo. E a tendência é sempre dar merda.

Somos seres humanos imperfeitos, passíveis de erro toda hora. Somos seres globalizados, hipermídias, bipolares, exagerados. O mundo é tão rápido e tão maluco que conseguimos errar em vários campos ao mesmo tempo. Um pré-julgamento errado em uma área consegue embaralhar tudo. É um troço meio surreal.

(Chegando ao ponto que não sei mais o que falar. Cerveja batendo. Troco coração por fígado.)

Nossas palavras não tem limites. Atingimos o quarto ao lado, o vizinho, países a distância com ela. E parece que as vezes, as pessoas mais distantes são as que melhor te entendem. Analisando com um pouco mais de racionalidade, faz até sentido: contar uma história para alguém de muito longe, que só irá ouvir o teu ponto de vista, normalmente resultará nela concordar contigo, já que tu não vai contar algo dizendo "eu acho que é isso, mas na verdade o certo é isso". Logo, deduzimos que comentários que vem de muito longe são furados porque só analisam o teu lado da verdade.

(Mas deixa eu me iludir, ok? Tchau consciência, vai dormir.)

[Atualização sóbria do domingo: as vezes alguém que tá muito longe te entende melhor do que alguém que tá do teu lado. Foi isso que tentei dizer aí em cima. Sorry =]

No campo das relações, isso é muito mais punk. Eu queria muito me iludir, muito mesmo (ainda vendo meu coração por um fígado, não esqueçam), mas é foda perceber que aquela pessoa que tava ali, do teu lado o tempo inteiro, mesmo quando distante, de repente tá tão longe que tu nem reconhece ela mais. Posso tá me passando por emo iludido nesse comentário, mas foda-se, todo mundo já passou por isso. Tu abraçava ela. Tu beijava ela. E agora ela tem medo de ti. Tá distante. Longe. Longe...

Mas claro, essa humanidade desesperada em busca de algo que lhe dê conforto e lhe tire do sufoco, acaba te proporcionando novas chances de afogar as mágoas com outras pessoas. Novas experiências. Hm. É gostosa essa sensação, sabe? Mas você sabe quando não serve pra coisa. É legal por um tempo, os teus amigos te dão um tapinha no ombro e te falam "mazahhh, grande guri!", mas é algo vazio. Tapinhas nas costas e beijos alheios não substituem alguém.

Mas como cantaria Janis Joplin:

Don't you know
When you're loving anybody baby
You're taking a gamble on a little sorrow
But then, who cares baby?
Cause we may not be here tomorrow
And if anybody should come along
He gonna give you any love and affection
I'd say get it while you can
Don't you turn your back on love
(Get It While You Can)

Bom se fosse simples assim, titia Janis, só se entregar pra coisa toda. Mas são muitas coisas envolvidas. Quando você quer, os outros não querem. Quando os outros querem, você não quer. Quando você quer e os outros querem, não pode, é proibido. Quando ninguém quer nada, a gente inventa sentimentos por alguém, só pra se sentir confortável, com a desculpa de que precisamos "suprir nossas necessidades de sentir necessidade de alguém". E no final, pessoas substituem pessoas que substituem pessoas que substituem pessoas...

E no final da noite, tudo cheira a cigarro, chocolate e cerveja.

=(

Sam promete tentar não postar mais sob efeito de álcool.

A Premissa É Uma Promessa

Ou "como atrasar um post por quatro semanas muda TUDO"

Esse aí em cima é o culpado de tudo.

Esse semestre peguei duas cadeiras de redação. Nada mais do que escrever, escrever e escrever, tudo que eu sempre disse que "é a única coisa que eu sei fazer e é o que eu quero fazer pra vida inteira e blá blá blá...". Mais uma vez a turma foi recebida por aquele papo de "não existe inspiração, é tudo fórmula", eu fiquei puto da cara e no final das contas, percebi mais uma vez que é verdade.

Sim, eu admito, não existe inspiração. Somos treinados pra escrever de forma mecânica sem coração. Ao invés da foca, o símbolo do jornalismo devia ser o Homem de Lata do Mágico de Oz.

Lá pelas tantas, como numa aula de física, adicionamos novas variáveis à nossa fórmula mágica de escrever. A novidade agora era a premissa. Esse novo X da equação seria o assunto ao qual nos propomos tratar no início do texto, abordar durante ele e retomar no final, deixando o assunto bem claro. Seria o motivo pelo qual o leitor está lendo o texto, e, como o cliente tem sempre a razão, ele deveria entender no final. Naturalmente, não é sempre assim: o leitor sempre lê o texto esperando entender tudo no final, o que nem sempre acontece, por vários motivos. Logo, a premissa nada mais é do que uma promessa de que o final será feliz, o que nem sempre pode acontecer.

(A minha premissa nesse texto, caso não tenha ficado clara, foi simplesmente confundir vocês. É a premissa mais fácil de cumprir. Mais uma regra para o livrinho de redação dos leitores do Cometa Diário)

Mas, como eu ia dizendo, aquela fotinho lá no início do post é a culpada de tudo isso. Não é a culpada pelo post; quando eu digo tudo é TUDO mesmo. Vamos lá que eu explico.

(Sim, essa era a verdadeira premissa. Droga, vocês me pegaram!)

Aquele troféu (sim, é um troféu, apesar de não ter nada indicando isso) foi ganho por mim quando eu cursava a mágica 1ª série, no finado porém querido Colégio Leonardo da Vinci. Naquele longínquo ano de 1995, eu tive a honra de ganhar o troféu de 1º lugar no Concurso Literário. Ali se iniciava na minha vida uma longa relação com a escrita.

(O tema da redação, curiosamente, era o instrumento da escrita: o lápis. Metalinguagem pouca é bobagem.)

A partir daí... não ganhei mais nenhum troféu. Lembro que o da 2ª série ficou com o Casali (o B. Eddy lá do "Era Uma Vez na 8ª Série...) e o da 3ª série ficou com uma colega minha que desenhava bem. Marina, Mariana, algo assim... Pensando bem agora, a Turma da Mônica tem uma Marina que gosta de desenhar, que foi inspirada na filha do próprio Mauricio de Sousa. Uhm...

Fato é que não foi a falta de trófeus que me fez parar de escrever. Minhas redações de "Minhas Férias" no início do ano eram sempre ótimas e até hoje guardo no meu quarto um caderno de redação minhas da 3ª série, cheio de pérolas ("Eu gosto muito da minha tia. Só não gosto que ela fuma") e coisas do gênero. Depois no La Salle continuei com as redações gigantescas e comecei a escrever músicas (que me renderam algumas histórias e cinco posts gigantescos, como vocês bem sabem) e no São Carlos, com o RPG, isso só continuou.

(Nessa confusão de backup e computador novo aqui em casa, descobri que tinha 60 MB de arquivos de Word na minha pasta. 60. Mega. Bytes. Microsoft. Word. Calcula.)

Enfim chegou a faculdade ("oi, meu nome é Samuel e eu entrei em jornalismo porque gosto de ler e escrever"), as aulas de redação e o blog. Com o tempo, a condição de "diário" do Cometa Diário deixou de ser por causa da sua periodicidade e sim diário porque guardava confissões e histórias. Porém, de um jeito ou de outro, ele sempre serviu ao propósito de prática para escrever. Logo vieram também o blog da banda e o novíssimo blog de contos (sim, novidades!) que só serviram pra escrever mais ainda. E eu nem vou citar o Twitter.

Voltemos a premissa (maldito senso jornalístico). Não lembro quando o meu blog passou a ser mais "elaborado", (hoje em dia, por exemplo, eu não postaria isso - pelo tamanho e porque se refere tanto a mim que chega a ser inútil - nem isso, porque é tão profundo que caberia num tweet) mas lembro de alguns posts bem elogiados que devem ter marcado essa mudança.

Algo que me chamava muito a atenção era a Celli dizendo que eu ia me dar muito bem na tão temida disciplina de redação II. Na verdade, começou aqui, quando eu reclamava da frase "isso não é inspiração" e a Celli já profetizava "tu vai reclamar, mas vai acabar gostando". Depois lembro desse e depois desse e quando eu vi eu já escrevia pensando em quem ia ler, nos comentários e morrendo de vontade de fazer essa maldita cadeira de redação II.

(hoje a Celli só diz: "quem te viu, quem te vê..." xD)

E enfim chegou a cadeira, junto com a cadeira de edição, que é basicamente escrever também. Comecei o semestre bailando na curva, mas depois de uns textos peguei o jeito. Textos que eu entreguei morrendo de medo vieram com um ótimo. Os primeiros textos com nota, que o professor disse "se vocês tiraram 8,5, que foram poucos, considere-se satisfeitos" vieram com notas 9 e 9,6 (e algumas brincadeirinhas - hehehe). A primeira reportagem, que morri fazendo, entreguei atrasado e achei que tava péssima, veio cheia de risadinhas, "hehehe...", "rsssss...", muitos "muito bom" e "ótimos" e um comentário no final dela que me deixou estarrecido.

"MUITO LEGAL a reportagem, Samuel. Deu gosto de ler e também ri muito com o texto e as fontes que você desencantou. Muito bom mesmo. Fossem textos sempre assim, poderíamos também fundar um jornal no curso (um periódio quinzenal, por exemplo). VALEU!!!"

Aí nesse ponto, eu morri. Desencarnei, voltei a terra e lembrei que tinha que acabar um perfil dum cara loucão praquela aula, um texto que eu tava apanhando desde a noite anterior. Fui fazer, fiz do meu jeito, que é o único que eu sei a fórmula de cor, e acabei ficando por último na sala, só eu e o professor. Lá pelas tantas ele veio falar comigo. E eu achei que tinha acabado no comentário do texto o flagelo:

- Samuel, no que tu trabalha?
- Numa agência de propaganda.
- E o que tu faz lá? Redação?
- Ah, faço de tudo, redação, criação, web, atendo cliente...
- Ah, tu é do tipo escravigiário então? (risos)
- É, um pouco sim. (risadinhas sem graça) Mas trabalho lá faz tempo, carteira assinada e tals...
- Ah, então tu já tá colocado no mercado, ganha bem então.
- É, dá pra se dizer que sim. Tô bem até. Mas porque?
- Ah, tu sabe que tua redação é ótima né? Muito boa cara, sério! Se fosse pra escolher uma reportagem daqui da sala hoje pra publicar num jornal, a tua se encaixava bem certinha, só dá umas aparadas e tava ótima. E tu sabe que O Caxiense é um bom canal pra esse tipo de texto hoje em dia. Nunca pensou em trabalhar lá?
- Não, não, nunca pensei. Mas eles tão contratando gente?
- Não, eles nunca tão contratando gente. Jornal tu sabe como é né... (risos) Mas o chefão da redação lá quando começou me pediu: "tu tem algum aluno bom de texto aí pra indicar" e daí eu indiquei a tua colega que tá lá, porque tinha um texto muito bom. E o teu texto tá ótimo também, dá pra publicar já. Mas tu nunca tentou porque não quis ou tinha algum outro motivo?
- Ah, nunca tentei porque acabei crescendo no meu trabalho e fui ganhando bem. E sempre separei jornalismo como hobby, propaganda como trabalho. Dai acabei nunca tentando.
- E o Pioneiro, aqueles concursos que tem, tu nunca tentou?
- Também não. Nunca tive interesse por trabalhar lá. (#modeeeeeesto)
- Tu sabe que com esse teu texto tu ia emplacar no Pioneiro? Duvido que eles fossem ficar contigo só por seis meses (nesse momento, desencarnei de novo). Mas vou deixar tu acabar o teu texto aí. Era só pra ti saber disso mesmo.

O resumo da conversa na minha cabeça ficou mais ou menos assim:
"Olá Samuel. Aqui quem fala são seus três novos amigos, Ego, Superego e ID. O temido professor de redação disse que tu é bom o suficiente pra trabalhar num jornal. Escute ele. BU! Tchau."

A partir dali me perdi nas fichas. Atualizei minha frase para "oi, meu nome é Samuel, eu entrei no jornalismo porque gosto de ler e escrever e o professor de redação concorda comigo". Comecei a rever meus posts, minhas atitudes, MINHA VIDA. Meu emprego, minhas oportunidades, minhas palavras. E cheguei a conclusão de que precisava de terapia.

Logo, vim blogar.

Então, sei lá... a minha premissa de confundir vocês acabou me confundindo. Desculpem, sou um péssimo jornalista, apesar do que dizem por aí. A única conclusão que tirei foi que eu não teria o mesmo prazer que eu tenho escrevendo as vezes, do que eu gosto, escrevendo todo dia, sobre o que a pauta manda.

Eu não sirvo pra Homem de Lata.

Eu sou só um cara que tem um blog.

Sam dedica esse post ao dia do jornalista, comemorado dia 07 de abril. Parabéns colegas!