Há uma frase sobre os ateístas muito interessante que acho que expõe a questão mais essencial sobre não acreditar em religião, qualquer que seja ela: “O problema do ateísmo é que ele tira Deus da vida das pessoas, mas não coloca nada no lugar”. Essa frase, junto com a outra clássica “eu gosto de Deus, meu problema é o fã-clube dele” expressam praticamente tudo o que eu penso sobre religião.
Nesses momentos de angústia, como os citados no último post, eu constantemente me pego pensando de onde tirar forças. Normal, é natural do ser humano que já desistiu de desistir querer superar seus obstáculos. E quando parece que nada dá certo, é mais natural ainda procurar esse esforço do lado de fora, e tentar trazer um pouco dessa energia pra dentro da gente.
Muitos enfiam a cabeça no trabalho, muitos recorrem a religião, muitos recorrem a bebida... Eu pessoalmente fujo do trabalho sempre que possível, só misturo bebida com bebida (o que já faz mal o suficiente) e já deixei de acreditar numa força superiora divina faz tempo, se é que um dia já acreditei. Nessas horas de dúvida então, a quem recorrer?
Dois casos breves para contextualizar meu ecossistema familiar: minha mãe sempre foi muito religiosa, a vida toda trabalhando em escolas católicas e com uma educação senão rígida, baseada nos preceitos católicos, seguindo sempre a máxima de que “Deus tá vendo”. Os poucos momentos de dúvida que já vi dela foram sempre momentos críticos, quando as coisas realmente parecem perdidas. Mas fora isso, sua fé sempre lhe serviu bem.
Meu irmão é mais como eu. Se eu deixei de acreditar em uma força maior com o tempo (ok, eu já rezei toda noite antes de dormir) ele já cresceu acreditando cada vez menos nisso. Como nossa mãe sempre diz, “vocês acreditaram muito pouco tempo em Papai Noel”. Quem dirá em Deus então. No entanto, meu irmão é escoteiro e lá no juramento deles está em suas obrigações claramente: “servir a Deus, a pátria e ao próximo”.
Querendo ou não, Deus está ali, escondidinho, mas está. O que não quer dizer que meu irmão precise ser reverente a religião, apenas que Deus foi apresentado a ele de uma forma que não entre em conflito com suas crenças (ou não-crenças, no caso). É o caso da frase lá de cima: no lugar de Deus, há outra força maior em seu lugar. Alguém que seja mais fácil para ele acreditar.
Mas ok, e eu?
Minha força motriz sempre foi escrever. Contar histórias. Descrever o mundo ao meu redor. Apesar de ser minha diretriz básica, porém, isso não me move. Os desabafos normalmente vem depois das horas de angústia, e não durante elas. Eles são a conseqüência. E quando o bicho pega, é necessário algo pra continuar acreditando, já que de nada adianta escrever sobre a angústia se a gente não sai dela.
Se fosse para responder a pergunta do post então, o que me move basicamente é a música. E basicamente não no sentido de pouco, e sim de que não preciso muito além disso. Há poucas coisas que conseguem me arrancar o que há de mais profundo lá dentro, e a música é realmente uma delas.
O lamento nostálgico do Arcade Fire em “Wake Up” costuma dar um nó na minha garganta toda vez que eu escuto. Há um sentimento tão forte de preservação da inocência da infância naquela música que é impossível não se emocionar toda vez que você está sensível e escuta ela. Não deixa de ser uma fuga para um sentimento infantil, onde as coisas davam mais certo e eram menos angustiantes, claro. Mas não vamos julgar ninguém aqui.
Outra que sempre me emociona e me dá forças é “Give It All Back”, do Noah and the Whale. Na letra, o vocalista Charlie Fink conta a história da sua banda na época do colégio: os ensaios em casa quando os pais estavam fora, o primeiro show no colégio em que tocaram Beatles e a certeza de que fizeram as coisas do seu jeito. Confesso que já tremi na direção cantando trancado no trânsito “and I will give it all back just to do it again, turn back time, be with my friends”.
E por fim, ele. The Boss. Se para mim, música é religião, Bruce Springsteen é o meu pastor. Aliás, pastor não. Profeta. De mim e de tantos outros, claro, mas na condição de fã, posso afirmar com certeza: como é bom ser fã de Bruce Springsteen. O grande mérito de Bruce sempre foi cantar o cenário que seu fã vivia: a vida difícil em New Jersey, o espírito americano, tudo o que eu não poderia sentir aqui, muitos quilômetros de distância. Mas música é universal, e versos como a abertura de “No Surrender”, me fazem acreditar cada vez mais nisso:
“we busted out of class, had to get away from those fools
we learned more from a three minute record than we ever learned in school”
Fé é o conceito de acreditar em algo. Normalmente confundimos esse algo com religião, mas não. Há escolhas. E se até os Ramones acreditavam em milagres, não há porque não tirar suas forças de uma guitarra estridente e uma bateria barulhenta.
O que move você? Não importa. Desde que realmente mova.
Agora saia da frente desse computador e vá fazer algo!
Se Bruce Springsteen é o Boss, Sam aceita ser estagiário
O ano é novo, mas as obrigações são velhas.
Chegando o fim de ano, o universo inteiro entra em clima de 1) lista de melhores do ano 2) expectativas para o ano que vem. Li uma tira da Mafalda hoje que dizia que enquanto as pessoas esperam um ano melhor, os anos devem esperar pessoas melhores também.
O fato é que há uma certa “urgência” em querer provar pra si mesmo e para os outros (principalmente aos outros) que o ano que passou sim, valeu a pena, e que o ano que virá, se Deus quiser, será melhor. Como se dependesse de outra pessoa além de nós o rendimento do nosso ano.
O meu 2011 foi intenso. Intenso na concepção própria da palavra e em todas as suas variações silábicas: forte, bem vivido, emocionado, mas com momentos tanto “in”, introspectivos, reflexivos, momentos de parar, pensar e aprender; quanto momentos “tensos”, aqueles em que te falta ar, chão e coração.
Analisando de forma fria o espectro do ano todo, foram longos momentos de luto intercalados com situações de intensa alegria. É injusto eu deixar de lado os momentos dignos de um “FODA!” que aconteceram esse ano, mas é injusto dizer que não houveram nuvenzinhas negras, ainda mais de uns dois meses pra cá.
Mas essa reflexão toda viria tranqüila, não fosse a maldita urgência do fim de ano de ter que parar pra pensar nos últimos 12 meses e fazer um balanço final do que foi. A necessidade parece fim de cadeira de faculdade ás vezes: é como se estivesse acabando o prazo de entregar aquele relatório com o número de vezes que você perdeu a linha esse ano e quantas vezes você fez tudo o que tinha que fazer no trabalho e quantas vezes... CHEGA.
É um momento de transformação? É.
É fim de ano? É.
É uma nova chance para recomeçar? É.
Assim como todo dia que vem depois do outro. A cada 24 horas pode ser ano novo para você, mas ninguém percebe isso. E na urgência por resultados, esperamos respostas, acumulamos angústia, tomamos chá de cadeira do relógio. E está feita a depressão do fim do ano.
São notas de fim de semestre, décimo terceiro salário, definição de férias, presente de amigo secreto, perder a barriguinha pra praia... o fim do ano parece feito para fazer você correr. Todos os eventos te colocam em uma corrida contra o relógio, como se sua rotina normal já não o obrigasse a isso. Mas então, pergunte-se: em que parte do contrato diz que se você não cumprir os seus compromissos de fim de ano, 2012 não começará?
A cada 24 horas, uma nova chance para recomeçar. Tudo a seu tempo. Pense nisso.
Sam vai comemorar o ano novo hoje depois da meia-noite
Você conhece o seu potencial?
Ao contrário do que o blog aparenta normalmente, não sou muito a favor de auto-ajuda. Acredito piamente no poder de um bom CD de jazz tocando no momento certo (tipo a coletânea do Miles Davis e do John Coltrane que escutei escrevendo isso), acho sexo essencial na felicidade do ser humano e sinto um arrepio toda vez que vejo alguém na rua carregando um livro do Augusto Cury embaixo do braço. O ser humano é essencialmente malvado, egoísta e pessimista? Sim, pode ser. Mas acredito que ainda temos salvação, sem precisar de ajuda alheia, divina ou maior do que nós.
De qualquer jeito, um ou outro conselho bom sempre vale a pena. E quando uma certa ideia fica martelando na minha cabeça por semanas, é porque ela quer sair. Então, ai vai:
Você conhece o seu potencial?
Uma das frases da minha pré-adolescência (período dos 11 aos 15 anos que hoje nem existe mais) foi um diálogo do Wolverine que li quando devia ter uns, sei lá, 12 anos. Na época, o mutante canadense era o meu herói favorito e eu comprava sua revista mensalmente. No fim do ano, em uma história de Natal junto aos X-Men, todos deveriam escrever em um mural na Mansão X seus principais objetivos para o ano que viria. Logan escreveu o seguinte:
- Ser o melhor no que faço... assim que eu descobrir o que faço.
A frase era uma corruptela de uma frase de efeito famosa do personagem, escrita por Frank Miller, na década de 70: “eu sou o melhor no que faço... mas o que faço não é nada bonito”. Na época, Wolverine era o fodão, o maioral da Marvel, o que não mudou muito de hoje em dia. Mas na minha revista, depois de escrever essa frase, Logan foi capturado por um bandido que considerava estar morto há anos, apanhou pra cacete, foi preso, e nesse meio tempo se pegou pensando nisso novamente.
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| Eu já gostei mais do Canadá do que da Irlanda |
Na época, essa frase marcou firmemente a minha cabecinha adolescente cheia de espinhas. Tanto que quando resolvi escrever sobre potencial, lembrei dela na hora, como se tivesse lido o gibi semana passada. O questionamento de Wolverine é louvável: conhecemos realmente no que somos bons? Damos o nosso melhor naquilo que ‘vendemos’ ser o nosso melhor? Afinal, eu sirvo pra alguma coisa mesmo?
Cabem aqui alguns exemplos.
Cabem aqui alguns exemplos.
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| Óculos redondos = <3 |
Pode soar piegas, mas Steve Jobs era um cara que realmente, conhecia o seu potencial. Você deve ter lido, depois da sua morte recente, todo o tipo de história, boa e ruim, sobre o gênio por trás da Apple. Sua insistência em querer sempre o melhor; seu descaso com a filha que assumiu depois de anos; sua preocupação em querer levar ao consumidor aquilo que ele não sabia que precisava ainda; as rotinas estressantes a que obrigava sua equipe a participar... Steve Jobs é a prova de que, ao contrário dos produtos da Apple que inventou, o ser humano não é totalmente branco, preto ou cromado: é essencialmente cinza. Nem bom, nem mau.
Mas há alguns pontos no trabalho de Jobs - sorry - que devem ser ressaltados. O primeiro deles foi a compra do estúdio de animação que mais tarde deu forma a Pixar. Na época, a notícia do seu investimento chegou a ser tratada como o 6º pior negócio financeiro da história. Todos acreditavam que o prejuízo era certo e que Jobs iria amargar outra derrota, logo após ter sido demitido da sua própria empresa.
E como sabemos, como sempre acontece com os grandes, a história provou-se errada. Os três Toy Story estão ai para provar que a Pixar não só foi um sucesso, como abriu portas para toda uma nova tecnologia e uma forma de pensar diferente os filmes de animação e, porque não, os filmes infantis de toda uma geração. E tudo isso graças ao 6º pior negócio financeiro da história. Você acha que se Jobs não soubesse do seu potencial para fazer de um negócio um sucesso, ele não teria se arriscado?
Outro exemplo foi revelado na ocasião da sua morte. Depois de muito insistir em não querer fazer uma cirurgia para tratar do seu câncer, já que ainda não se sentia pronto para “abrir seu corpo”, Steve Jobs submeteu-se ao procedimento, ainda que tarde demais. Na ocasião, porém, ‘encomendou’ o mapeamento genético do seu DNA e do tumor que o infectava, sendo um dos poucos seres humanos do planeta que já fizeram isso.
O processo, claro, custou muita grana, mas sabiamente, Steve Jobs tratou o câncer como mais um inimigo a ser enfrentado, mais uma barreira a ser transposta, tratou o câncer como uma pergunta tão boba quanto “porquê eu preciso de um iPad 2?”. Isso sem falar em todo o dinheiro que investiu em pesquisas, além do mapeamento citado anteriormente. Não duvido que se descobrirem uma cura para o câncer daqui a uns anos, o nome de Jobs não apareça timidamente nos créditos, assim como nas aberturas de Toy Story. Seria uma homenagem merecida.
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| Steve Jobs creditado em Toy Story |
Seguindo a linha das pessoas com SJ nas iniciais do nome, chegamos a Scarlett Johansson. A intérprete da ruivíssima Viúva Negra não nos interessa aqui, não em primeira instância, mas sim, esse cara. Christopher Chaney.
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| Christopher who? |
Esse gordinho de óculos aí foi simplesmente o responsável por vazar as fotos de Scarlett nua que chegaram a internet no maravilhoso dia 14 de setembro de 2011 (SEGUNDO MELHOR PRESENTE DE ANIVERSÁRIO DO ANO). As fotos, você certamente viu por aí: uma delas com a atriz deitada em sua cama e a outra tirada na frente de um espelho, onde a imagem do reflexo refletia sabiamente sua derriére. Ou bunda, como preferir. Bem melhor do que aquele vídeo tosco de como deixar Scarlett nua no Photoshop.
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| "Nossa... nossa... assim você me mata" (você vai cantar isso o dia inteiro) |
O nosso amigo pegou simplesmente 121 anos de cadeia, pena lamentada por todos os que aprovaram a sua façanha na internet, entre os quais eu me incluo (ainda mais sabendo que ele tinha fotos de, entre outras, Mila Kunis e da minha toda minha Dianna Agron, FUCK!). Mas o quê ele está fazendo nesse texto sobre potencial, você se pergunta, e eu respondo: você já parou para pensar como ele conseguiu as fotos?
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| Há fotos dela por aí. HÁ FOTOS DELA POR AÍ. |
Christopher teve acesso aos e-mails e telefones pessoais das celebridades e, feito isso, reprogramou os e-mails para enviarem em cópia para o seu e-mail pessoal todas as mensagens enviadas (gênio). Mas ok, e-mails e celulares normalmente são bloqueados, como ele conseguiu acesso?
Óbvio, meu caro Padawan: ele sabia a senha.
MAS COMO ELE SABIA A SENHA?
Simples. Ele adivinhou.
A-di-vi-nho-u.
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| Ruiva, na Vanity Fair de dezembro (sim, do mês que vem) |
Como um Sherlock do mundo moderno, usando simplesmente observação e dedução, o nosso amigo mártir descobriu a senha das atrizes no chute, tendo como base informações pessoais das meninas, como nome de cachorro, cidade em que nasceu, filme favorito, comida que mais gosta, apelidos de infância, coisas que elas deixam escapar em entrevistas por aí. Considerando que entrevistas com atrizes hollywoodianas não faltam, mesmo com as mais ariscas, material para estudo não faltou.
E foi assim que, de posse de uma boa memória, tempo livre para aprender coisas ‘inúteis’ e uma capacidade de observação e dedução impressionante, o nosso amigo tornou-se herói para toda uma geração. Isso é que eu chamo de conhecer o seu potencial e usa-lo ao máximo! E claro, pegar 121 anos de cadeia depois disso. Mas o tempo de cadeia não é nada perto da felicidade de saber que você é o cara que revelou Scarlett Johansson ao mundo como ela veio ao mundo e ainda criou o movimento “scarlettjohanssoning”, que varreu a internet nos dias seguintes, onde pessoas de todo o mundo divulgaram fotos suas na pose imortalizada pela atriz em frente ao espelho. Duvido que não faltariam voluntários para pegar um aninho de cadeia no lugar dele, só pela alegria que ele proporcionou.
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| "scarlettjohanssoning" bombando |
No final, é tudo uma questão de auto-conhecimento. Descobrir no que você é bom e explorar essa característica, seja você um nerd rico ou um nerd pobre como nossos exemplos (não-nerds podem tentar também). Conheça os seus limites, mas sem medo de ousar. Anote suas qualidades, no que você acha que é bom, e prove para si mesmo que é capaz. Eu vou começar a anotar as minhas agora mesmo:
- Boa memória;
- Tempo livre para aprender coisas inúteis;
- Capacidade de observação;
- ...
Opa...
Continua
Sam ainda sonha com as fotos de Dianna Agron
A Vingança de Johnny Depp contra Ricky Gervais
Primeiro assiste, depois eu explico:
Pra quem não lembra, Ricky Gervais, comediante britânico, foi apresentar do Globo de Ouro esse ano e com uma apresentação matadora, literalmente, acabou com a moral de metade de Hollywood (não que os atores americanos se prezem muito a mantê-la, claro). Ele pegou pesado em especial com Johnny Depp, que na época estava concorrendo aos prêmios pelo seu filme "O Turista", aquela bomba cinematográfica com Angelina Jolie. Entre outras asneiras tipicamente britânicas, Gervais soltou a pérola:
- E os filmes 3D foram realmente uma febre esse ano, não? Parece que todos os personagens do cinema tinham três dimensões. Menos os de "O Turista", claro.
No vídeo acima então, Johnny Depp vai ao encontro de Ricky Gervais e Stephen Merchant, ciceroneado por ninguém menos que Warwick Davis, ator anão responsável pela maioria dos personagens anões que você viu nos últimos anos no cinema. Warwick interpretou entre outros, o ewok Wicket W. Warrick em "Star Wars - O Retorno de Jedi" (e nos spin-offs envolvendo os ewoks, como a "Caravana da Coragem"), foi o corpo de Yoda no episódio I, "A Ameaça Fantasma"; foi o professor Flitwick na série Harry Potter e o andróide Marvin, em Guia do Mochileiro das Galáxias. Além é claro de Willow, onde foi o personagem principal. Pouca coisa, só no tamanho.
O vídeo, claro, é brincadeira, e faz parte da nova série escrita por Merchant e Gervais e estrelada por Warwick, chamada "Life's Too Short", que será exibida na minha, toda minha, BBC. Na série, Warwick interpretará uma versão ficcionalizada de si mesmo, que contará como é "a vida de um anão no showbiz". Veja abaixo o making-of da série, onde podemos ver alguns outros atores que farão participações especiais na série, além de Ricky Gervais contando que "tentamos procurar um ator para colocar sapatos nos joelhos e imitar um anão, mas ninguém quis interpretar, então pegamos Warwick mesmo":
Vai ser engraçado ver Warwick atuando ao lado de Liam Neeson, com 1,93m. A série ainda não tem data para estrear, mas claro, vai passar na BBC, então você não vai assistir no Brasil. E viva o YouTube. Porém, desde que a série envolva mais piadinhas como a da Helena Bonham-Carter que o Ricky Gervais fez pra cima do Johnny Depp , vale o esforço de ir atrás:
- Estou fazendo um filme novo com Tim Burton.
- É. Legal.
- Sim. Muito bom. Sabe quem é minha parceira em cena?
- Hmm... Helena Bonham-Carter?
- COMO VOCÊ SABE?
- Um chute de sorte.
Esses ingleses.
Sam acredita que a Inglaterra é tão bairrista quando o Rio Grande do Sul
Pra quem não lembra, Ricky Gervais, comediante britânico, foi apresentar do Globo de Ouro esse ano e com uma apresentação matadora, literalmente, acabou com a moral de metade de Hollywood (não que os atores americanos se prezem muito a mantê-la, claro). Ele pegou pesado em especial com Johnny Depp, que na época estava concorrendo aos prêmios pelo seu filme "O Turista", aquela bomba cinematográfica com Angelina Jolie. Entre outras asneiras tipicamente britânicas, Gervais soltou a pérola:
- E os filmes 3D foram realmente uma febre esse ano, não? Parece que todos os personagens do cinema tinham três dimensões. Menos os de "O Turista", claro.
No vídeo acima então, Johnny Depp vai ao encontro de Ricky Gervais e Stephen Merchant, ciceroneado por ninguém menos que Warwick Davis, ator anão responsável pela maioria dos personagens anões que você viu nos últimos anos no cinema. Warwick interpretou entre outros, o ewok Wicket W. Warrick em "Star Wars - O Retorno de Jedi" (e nos spin-offs envolvendo os ewoks, como a "Caravana da Coragem"), foi o corpo de Yoda no episódio I, "A Ameaça Fantasma"; foi o professor Flitwick na série Harry Potter e o andróide Marvin, em Guia do Mochileiro das Galáxias. Além é claro de Willow, onde foi o personagem principal. Pouca coisa, só no tamanho.
O vídeo, claro, é brincadeira, e faz parte da nova série escrita por Merchant e Gervais e estrelada por Warwick, chamada "Life's Too Short", que será exibida na minha, toda minha, BBC. Na série, Warwick interpretará uma versão ficcionalizada de si mesmo, que contará como é "a vida de um anão no showbiz". Veja abaixo o making-of da série, onde podemos ver alguns outros atores que farão participações especiais na série, além de Ricky Gervais contando que "tentamos procurar um ator para colocar sapatos nos joelhos e imitar um anão, mas ninguém quis interpretar, então pegamos Warwick mesmo":
Vai ser engraçado ver Warwick atuando ao lado de Liam Neeson, com 1,93m. A série ainda não tem data para estrear, mas claro, vai passar na BBC, então você não vai assistir no Brasil. E viva o YouTube. Porém, desde que a série envolva mais piadinhas como a da Helena Bonham-Carter que o Ricky Gervais fez pra cima do Johnny Depp , vale o esforço de ir atrás:
- Estou fazendo um filme novo com Tim Burton.
- É. Legal.
- Sim. Muito bom. Sabe quem é minha parceira em cena?
- Hmm... Helena Bonham-Carter?
- COMO VOCÊ SABE?
- Um chute de sorte.
Esses ingleses.
Sam acredita que a Inglaterra é tão bairrista quando o Rio Grande do Sul
Ensaio Sobre a Bobeira
Não se leve a sério. É só o que eu digo.
Recentemente vimos no Brasil um caso digno de... Brasil. Afinal, onde mais um feto poderia querer processar uma pessoa? O caso, obviamente é o super citado embate Rafinha Bastos X o mundo, se você assumir que os embaixadores do mundo nesse caso são Wanessa (ex-Camargo), seu marido e o filho dela, que não faz idéia do que está acontecendo. Até porque se ele já soubesse, já tinha criado uma conta no Twitter pra xingar muito e dar block e unfollow.
Não convém explicar o caso aqui, já que todo mundo sabe a seqüência dos fatos: piada estúpida, celebridade reclamando, desistência de patrocinadores, Rafinha fora do CQC e embates morais e éticos que não servem nem pra mesa de bar. Como o próprio comediante gaúcho postou no seu Twitter esses dias, “Desculpem. Nem eu mais agüento ouvir falar sobre mim”. O que assusta realmente no caso é o fato do feto (aliteração estranha) ter entrado no processo, junto com os seus pais.
Pelo que li, segundo os embargos jurídicos da coisa toda, o futuro Camarguinho, teve a sua integridade moral e física ameaçada, direito esse protegido pela Constituição. Sendo assim, se encontra totalmente no direito de processar o humorista, mesmo que quando ele realmente seja gente o bastante pra entender o que se passou enquanto recebia alimentos pelo cordão umbilical, Rafinha Bastos seja apenas Rafael, um gaúcho narigudo pai de família. É o ciclo se completando: um feto processando alguém é uma piada mais engraçada do que a própria piada que gerou o processo.
(Boa piada para stand-up comedy: “já contei aquela do feto que entrou no tribunal?” Todos ri.)
Pessoas que se levam a sério demais não tem graça. Ênfase no demais, já que há limites para tudo. Uma corda de guitarra retesada, bem firme e reta, é essencial para o instrumento não desafinar. Mas o que seria do blues sem o bend? Mais blues, sem dúvida, mas no sentido ruim da palavra. E já que estamos falando de música, o que seria do heavy metal se o gênero se levasse a sério demais? Seria interessante, claro. Mas o Edguy não existiria.
E nem clipes como “Holy Smoke”, do Iron Maiden. Ó, Bruce...
Engraçado que o metal é um dos primeiros gêneros que mata seus próprios ídolos porque eles se “venderam”. Que o diga o Metallica, que já passou por isso uma, duas, três vezes... Mas poxa, você já está cantando sobre seres demoníacos que irão dominar a Terra, exigir seriedade além disso já é demais.
E por fim, o campo pessoal e motivo para todo esse post. No filme “Amizade Colorida”, com Justin Timberlake e a minha toda minha Mila Kunis, o personagem de Justin, Dylan, deixa Los Angeles por Nova York, atrás de uma oportunidade de emprego melhor oferecida pela personagem de Mila. O tempo inteiro Dylan fala sobre as diferenças entre as duas cidades e de como Los Angeles era mais calma e organizada. Mas se LA é melhor, porque ele saiu de lá?
Spoilers ahead.
Lá pelas tantas, descobrimos que o pai de Dylan sofre de Alzheimer e que esse foi um dos motivos que o motivou a trocar de cidade. Sem saber mais como conviver com a condição do pai, Dylan abraça a mudança, o que ocasiona um certo choque quando ele volta para casa, lá na metade do filme. Entre outras coisas, como perda de memória, o Alzheimer faz com que o pai do personagem tenha uma certa predileção por andar... sem calças. Quase no clímax do filme, em uma das melhores cenas da comédia, Dylan perde o pai no aeroporto e quando o encontra, ele já está sentado numa mesa de um restaurante chique, esperando seu prato, e sem calças. Dylan finalmente decide encarar a condição do pai, e num ato de bondade e despreocupação, também tira as calças, o que o faz entender que toda a preocupação ao redor daquele ato não era justificada. Levar-se a sério mesmo não funcionava ali. Vamos ficar sem calças então.
Hoje faleceu em Caxias o Tio da Casquinha (ou Vô da Casquinha, ou Velho da Casquinha, como desejar). Figura lendária da cidade, ele passou a última semana no hospital, em decorrência do câncer de próstata que enfrentava há 10 anos. Além do câncer, Rui da Silva Peres, a pessoa por trás da figura do Tio da Casquinha, sofria de Alzheimer, doença diagnosticada no início do ano e que o tirou das ruas. Aliás: o arrancou das ruas, já que se fosse por escolha do próprio, ele provavelmente não teria saído, decidido do jeito que era.
O fato é que o Alzheimer é degenerativo e boa parte desse processo se deu ainda nas ruas, com o Tio da Casquinha vendendo seu produto, sempre com o boné com o gorro de Papai Noel por cima, seu velho casacão e o latão verde. Sua figura tétrica não tinha nada de irreal; era a mais sincera possível, e ele provavelmente nunca se levou muito a sério, o que não significa que nunca o tivessem levado a sério, já que o negócio sustentou a família por anos. É significante em uma cidade como Caxias do Sul, cada vez mais apegada a nomes de família, cargos importantes e posses, uma pessoa como ele ter sua morte lamentada por gente de todo tipo, pais e filhos, gerações tocadas pela presença de uma pessoa que poucos até sabiam o nome.
O Tio da Casquinha é pai do meu tio, morava na minha rua e foi figura da minha vida por um bom tempo. Quem freqüentou minha casa no ensino médio sabe que as casquinhas eram um prato típico dos ensaios na garagem nos sábados. Nos últimos tempos, as notícias rarearam, mesmo com um membro da família dele morando aqui em casa. A idéia geral era de que uma hora isso seria inevitável, ainda mais com o estado em que ele se encontrava. Segundo os meus familiares que estiveram no velório agora pela noite (eu fiquei em casa com meu irmão e minha prima, neta dele), em momento algum faltou gente no velório, das mais variadas classes e raças. Atestado de que o homem realmente tocou muita gente.
Enfim. Vai-se o ser humano, mas fica a sua história. Que descanse em paz, como merece. E fica a lição: não se leve a sério. Mesmo que isso signifique usar touca de Papai Noel o ano todo.
O jornal O Caxiense fez algumas ótimas matérias sobre os últimos dias dele, aqui e aqui. Vale ler.
Sam ainda acredita que o Tio da Casquinha era um Doctor Who perdido no tempo
Recentemente vimos no Brasil um caso digno de... Brasil. Afinal, onde mais um feto poderia querer processar uma pessoa? O caso, obviamente é o super citado embate Rafinha Bastos X o mundo, se você assumir que os embaixadores do mundo nesse caso são Wanessa (ex-Camargo), seu marido e o filho dela, que não faz idéia do que está acontecendo. Até porque se ele já soubesse, já tinha criado uma conta no Twitter pra xingar muito e dar block e unfollow.
Não convém explicar o caso aqui, já que todo mundo sabe a seqüência dos fatos: piada estúpida, celebridade reclamando, desistência de patrocinadores, Rafinha fora do CQC e embates morais e éticos que não servem nem pra mesa de bar. Como o próprio comediante gaúcho postou no seu Twitter esses dias, “Desculpem. Nem eu mais agüento ouvir falar sobre mim”. O que assusta realmente no caso é o fato do feto (aliteração estranha) ter entrado no processo, junto com os seus pais.
Pelo que li, segundo os embargos jurídicos da coisa toda, o futuro Camarguinho, teve a sua integridade moral e física ameaçada, direito esse protegido pela Constituição. Sendo assim, se encontra totalmente no direito de processar o humorista, mesmo que quando ele realmente seja gente o bastante pra entender o que se passou enquanto recebia alimentos pelo cordão umbilical, Rafinha Bastos seja apenas Rafael, um gaúcho narigudo pai de família. É o ciclo se completando: um feto processando alguém é uma piada mais engraçada do que a própria piada que gerou o processo.
(Boa piada para stand-up comedy: “já contei aquela do feto que entrou no tribunal?” Todos ri.)
Pessoas que se levam a sério demais não tem graça. Ênfase no demais, já que há limites para tudo. Uma corda de guitarra retesada, bem firme e reta, é essencial para o instrumento não desafinar. Mas o que seria do blues sem o bend? Mais blues, sem dúvida, mas no sentido ruim da palavra. E já que estamos falando de música, o que seria do heavy metal se o gênero se levasse a sério demais? Seria interessante, claro. Mas o Edguy não existiria.
E nem clipes como “Holy Smoke”, do Iron Maiden. Ó, Bruce...
Engraçado que o metal é um dos primeiros gêneros que mata seus próprios ídolos porque eles se “venderam”. Que o diga o Metallica, que já passou por isso uma, duas, três vezes... Mas poxa, você já está cantando sobre seres demoníacos que irão dominar a Terra, exigir seriedade além disso já é demais.
E por fim, o campo pessoal e motivo para todo esse post. No filme “Amizade Colorida”, com Justin Timberlake e a minha toda minha Mila Kunis, o personagem de Justin, Dylan, deixa Los Angeles por Nova York, atrás de uma oportunidade de emprego melhor oferecida pela personagem de Mila. O tempo inteiro Dylan fala sobre as diferenças entre as duas cidades e de como Los Angeles era mais calma e organizada. Mas se LA é melhor, porque ele saiu de lá?
Spoilers ahead.
Lá pelas tantas, descobrimos que o pai de Dylan sofre de Alzheimer e que esse foi um dos motivos que o motivou a trocar de cidade. Sem saber mais como conviver com a condição do pai, Dylan abraça a mudança, o que ocasiona um certo choque quando ele volta para casa, lá na metade do filme. Entre outras coisas, como perda de memória, o Alzheimer faz com que o pai do personagem tenha uma certa predileção por andar... sem calças. Quase no clímax do filme, em uma das melhores cenas da comédia, Dylan perde o pai no aeroporto e quando o encontra, ele já está sentado numa mesa de um restaurante chique, esperando seu prato, e sem calças. Dylan finalmente decide encarar a condição do pai, e num ato de bondade e despreocupação, também tira as calças, o que o faz entender que toda a preocupação ao redor daquele ato não era justificada. Levar-se a sério mesmo não funcionava ali. Vamos ficar sem calças então.
Hoje faleceu em Caxias o Tio da Casquinha (ou Vô da Casquinha, ou Velho da Casquinha, como desejar). Figura lendária da cidade, ele passou a última semana no hospital, em decorrência do câncer de próstata que enfrentava há 10 anos. Além do câncer, Rui da Silva Peres, a pessoa por trás da figura do Tio da Casquinha, sofria de Alzheimer, doença diagnosticada no início do ano e que o tirou das ruas. Aliás: o arrancou das ruas, já que se fosse por escolha do próprio, ele provavelmente não teria saído, decidido do jeito que era.
O fato é que o Alzheimer é degenerativo e boa parte desse processo se deu ainda nas ruas, com o Tio da Casquinha vendendo seu produto, sempre com o boné com o gorro de Papai Noel por cima, seu velho casacão e o latão verde. Sua figura tétrica não tinha nada de irreal; era a mais sincera possível, e ele provavelmente nunca se levou muito a sério, o que não significa que nunca o tivessem levado a sério, já que o negócio sustentou a família por anos. É significante em uma cidade como Caxias do Sul, cada vez mais apegada a nomes de família, cargos importantes e posses, uma pessoa como ele ter sua morte lamentada por gente de todo tipo, pais e filhos, gerações tocadas pela presença de uma pessoa que poucos até sabiam o nome.
O Tio da Casquinha é pai do meu tio, morava na minha rua e foi figura da minha vida por um bom tempo. Quem freqüentou minha casa no ensino médio sabe que as casquinhas eram um prato típico dos ensaios na garagem nos sábados. Nos últimos tempos, as notícias rarearam, mesmo com um membro da família dele morando aqui em casa. A idéia geral era de que uma hora isso seria inevitável, ainda mais com o estado em que ele se encontrava. Segundo os meus familiares que estiveram no velório agora pela noite (eu fiquei em casa com meu irmão e minha prima, neta dele), em momento algum faltou gente no velório, das mais variadas classes e raças. Atestado de que o homem realmente tocou muita gente.
Enfim. Vai-se o ser humano, mas fica a sua história. Que descanse em paz, como merece. E fica a lição: não se leve a sério. Mesmo que isso signifique usar touca de Papai Noel o ano todo.
O jornal O Caxiense fez algumas ótimas matérias sobre os últimos dias dele, aqui e aqui. Vale ler.
Sam ainda acredita que o Tio da Casquinha era um Doctor Who perdido no tempo
O Mundo Dá Voltas
Historinha divertida.
Só tenho vizinhos estranhos. Os moradores da casa do lado direito, que estão na casa há poucos meses, são uma velhinha que planta ervas e sente vibrações negativas nas pessoas e um grisalho cabeludão que eu já peguei tirando fotos de uma menininha em meio as plantas, em contato com a natureza. Reza a lenda que ele é ator de teatro. Eu torço pra que seja verdade.
Os do lado esquerdo já moram aqui faz tempo e desde sempre tem uma relação meio conturbada com a minha família. Começou que eles meio que foram "responsáveis" pela nossa casa nova: depois de anos mantendo o terreno baldio do lado da nossa casa, quando eles foram construir a casa deles, as mudanças no terreno abalaram as estruturas da nossa casa, ocasionando uma rachadura nos pilares da nossa área de serviço. A ideia do pessoal aqui em casa já era reformar, mas digamos que isso deu um certo 'empurrãozinho' na coisa toda.
Fora isso, reza a lenda que esse vizinho do lado mantém uns negócios escusos. Disso eu não sei de nada. Mas tirando meu irmão, meu pai e eu, a galera aqui em casa não gosta muito dele. Eu sempre tratei ele com respeito e nunca tive nada a reclamar, mesma coisa para o meu pai. Quanto ao meu irmão, toda vez que o vizinho chega junto com os amigos dele, enlameado da cabeça aos pais, dirigindo os seus jipes de fazer trilha no meio do mato, consigo ver aquela aura de "eu queria que fosse eu". Esse é meu irmão, afinal.
A característica mais marcante dos moradores dessa casa ao lado, porém, são os seus três pitbulls. Uma fêmea e dois machos. Nada contra animais - nós mesmos temos dois cachorros, não que eu faça muita questão - mas é que essa raça em especial de cães inspira... medo. Fato incontestável. Dizem que o cão reflete o dono e eu não pensaria em uma raça melhor para o meu vizinho criar. Mesmo assim, ele sempre cuidou muito bem deles, mas os cachorros sempre geraram certos atritos na vizinhança.
Primeiro porque eles são barulhentos pra caramba quando querem. Segundo, porque meses atrás, quando tínhamos uma vira-lata fêmea que conseguia ser bem barulhenta também, esse vizinho reclamou do barulho da nossa... que reclamamos do barulho dos deles... que reclamou do barulho da nossa... Enfim. Briga de vizinho, vai entender. Eu ainda não entendo porque ninguém aceita o fato de que ambas as casas tem TRÊS CACHORROS NO QUINTAL: querer silêncio é burrice.
E claro, a insegurança. Esse fator nunca tinha sido levado em conta até um pequeno caso que aconteceu essa semana. Estávamos eu e meu irmão chegando em casa da aula de noite, quando vimos nossos tios e nossa prima na sacada, olhando assustados para uma coisa mais para o fim da rua, onde ouvíamos gritos. Um casal estava parado em uma moto na frente da casa, sem ação. Minha tia fez sinal para entrarmos rápido, sinal que obedecemos logo, e fomos já conversar com eles para saber do que se tratava.
Pelos gritos que se ouviam a umas três casas de distância, pensamos que era algo sério, do tipo, gente brigando. Temos uns vizinhos meio tensos para o lado de lá da rua (depois desse post, ninguém nunca mais vai me visitar). Mas não. Logo ficamos sabendo que poucos minutos antes, quando o meu vizinho também estava chegando em casa, num descuido de atenção na hora de abrir o portão, os cachorros dele fugiram. Os três pitbulls. Eles subiram a rua até encontrar alguém, passaram pelo casal na moto, que ficou parado quando viu eles chegando, e entraram no quintal da casa em que o casal estava parado na frente.
Nesse quintal, claro, havia um cachorro. Preso pela corrente.
E os pitbulls atacaram ele. Os três.
Logo, os gritos que ouvimos eram do nosso vizinho e de outros dois homens que foram ajudar a separar a briga dos cachorros. Do pouco que ouvimos, foi tenso o suficiente. Digamos que a mídia já nos deixou bastante receosos sobre o comportamento dessa raça quando ela foge do controle, então só imaginar três pitbulls atacando um cachorro preso e indefeso já é uma cena terrível. Minutos depois, vimos o vizinho e os outros dois homens, três homens adultos e fortes, levando com dificuldade os três cães para casa. Logo depois, o cão atacado foi colocado em um carro e levado para o hospital veterinário, com ferimentos na garganta.
Ainda naquela noite e no dia seguinte, ficamos sabendo mais informações. O cão tinha sobrevivido sim e estava bem, só bastante machucado. No dia seguinte, o vizinho já tinha levado um profissional para sua casa para construir um canil. Por mim, a história já havia terminado por aí. Mas sabe como é né, nunca termina. No dia seguinte, quando meu tio encontrou o vizinho na rua, que logo comentou algo sobre os cachorros, fez o favor de proferir a seguinte frase, muito amigável:
- É, mas se um dos teus cachorros pula o muro da tua casa e ataca um dos meus, eu só quero jogar os pedaços do teu por cima do teu muro, depois de cortar todo ele com um facão afiado que eu tenho lá em casa. Tu vai só ver.
E eu me pergunto: PRA QUÊ GENTE? PRA QUÊ? O cara tem três cachorros violentos, ok; eles fugiram do controle uma vez, ok; ele se provou arrependido e já começou a tomar providências para aquilo não acontecer mais, ok; PRA QUÊ REPRIMIR O CARA AINDA MAIS? É só briga de vizinho ou é um jeito de sei lá, descarregar o ódio do dia a dia com frases de efeito? Quando eu ouvi minha tia contando para minha mãe essa história e as duas comemorando empolgadas "gostei da resposta!", meu único pensamento foi "eu não pertenço a esse lugar". Sério.
Corta para o dia de hoje. Fim da tarde. Cheguei em casa com a minha mãe depois de ir comprar umas frutas no mercado e o portão estava aberto. Logo enxerguei minha tia lá atrás, lá onde ficam os cachorros. Quando desliguei o carro, minha mãe foi lá falar com ela e eu logo ouvi a voz dela nervosa contar o que tinha acontecido: "O Panda atacou o Marley. Quase matou ele".
O Panda é um border collie, que meu irmão adotou durante uma viagem dos Escoteiros para Caravaggio e trouxe pra casa. Os cachorros dessa raça descendem dos antigos cães pastores de renas, e são extremamente inteligentes, tendo uma facilidade enorme de entender novos comandos. Eles também são extremamente energéticos e devem ser criados em espaços abertos, onde possam fazer constantes exercícios. Ou seja, tudo que ele não tem aqui em casa, ficando preso no quintal o dia inteiro. Aliás, nem sei porque estou falando tanto, já que como tudo aqui em casa que envolve os Escoteiros, o Panda tem até o próprio vídeo dele, explicando sua história:
Mais pro fim do vídeo, aparecem o Marley e a Mel. A Mel é a cadela pretinha barulhenta que estava aqui em casa um tempo atrás, mas que foi doada para alguém, já que três cachorros são demais. E o Marley é o vira-lata marrom clarinho que aparece pulando junto com os outros. Ele é pelo menos umas três vezes menor que o Panda. Imagina dentro da boca dele...
Voltando ao acontecimento, guardei o carro na garagem, fui lá em cima levar as compras e quando desci, meu tio estava chegando da rua com a minha prima, já em lágrimas pela cena que tinha presenciado do ataque dos cachorros. Ela tinha ido chamar ele na casa da mãe dele, que fica aqui na rua também. Logo pensei "mas se meu tio estava fora, quem ajudou minha tia a separar os cachorros quando eles estavam brigando?". Saí lá fora e a resposta foi óbvia.
O vizinho.
O mundo dá voltas.
Logo fiquei sabendo da cena inteira: meu tio estava fora e minha prima e minha tia estavam em casa. A minha prima foi lá fora brincar com o Marley, quando o Panda se soltou e foi direto pra cima do vira-lata. Ela gritou assustada e minha tia ouviu e foi tentar acudir. Quando chegou, o Panda já estava com o Marley na boca, balançando ele como um osso de brinquedo. Minha prima deu uma tijolada na cabeça do Panda, que não soltou. Minha tia quebrou uma vassoura em pelo menos cinco pedaços no Panda, que não soltou. Quando a esposa do vizinho viu a cena, gritou para ele ir lá ajudar. Ele puxou o Panda pelo rabo, no braço mesmo, e separou a briga.
Quando meu tio chegou depois, foi logo reforçar a corrente do cachorro junto com o vizinho. E foi possível ver claramente o desconforto dele, trabalhando junto com o cara que ele jurou cortar o cachorro dele em pedaços um dia antes. Agora era ele ali, ajudando a gente com o nosso cachorro violento e fora de controle. A minha tia cuidava do Marley, agora mais pequeno ainda e mais quieto do que nunca. Minha prima era um reflexo dele: lágrimas no rosto, tremendo, assustada. O vizinho, antes de pular para o lado dele do muro comentou "é... os meus fizeram sete buracos no cachorro que atacaram aquele dia. Sei como é." Permaneci na cena até ouvir com certeza o "obrigado" trêmulo que veio logo dos meus tios.
Quando subi para minha casa e fui falar com minha mãe, ela só sabia falar dos cachorros. "Eu fico triste, não queria que fosse assim. Eu gosto dos cachorrinhos, não queria que eles se atacassem assim, sei lá, o que fazer. Prefiro dar fim em um deles, mandar embora, pra outro lugar, ao invés de ter os dois se matando ali atrás..." Eu só conseguia pensar em como a minha mãe, uma pessoa tão preocupada sempre com a questão humana das coisas, só conseguia pensar no cachorro. Como ela não tinha se ligado de que o cara que ela sempre fala mal, tinha acabado de ajudar ela.
Eu, claro, falei isso. "O que eu acho engraçado é que ontem o meu tio ameaçou o cachorro dele, e hoje tava ele ali ajudando". Ela me respondeu: "é, o teu tio e tua tia falam muito mal dele, sempre... isso daí é pra eles aprenderem". Ai subi nos tamancos. "Tu também fala, né mãe! Por favor". Ela disse "Sim. Eu sei. Mas vou deixar bem claro: eu não separaria ele dos cachorros dele". Ela deu a entender que não separaria porque os cachorros são fortes, mas claro... eu conheço ela faz tempo. Consigo ler nas entrelinhas já.
De lição de tudo isso fica o que falei ali em cima antes. O mundo dá voltas. Num dia tu promete matar o cachorro do vizinho caso ele faça alguma coisa com o teu; no outro dia o vizinho tá te ajudando a cuidar do teu cachorro, que quase matou o próprio companheiro de quintal. Eu pelo menos nunca vi os pitbulls brigando (pelo contrário, quando cheguei em casa um dos dois machos tava montado na fêmea bem na frente da casa, feliz da vida). Acredito que o vizinho fez isso na bondade mesmo, porque viu a situação e porque gosta de cachorros, e não pra dar nos dedos do meu tio. Mas se foi pra causar algo, foi bem feito também.
Só sei que opiniões definitivas me assustam.
E border collies, a partir de hoje, também.
Sam só terá um cachorro se puder chamá-lo de Chewie
Só tenho vizinhos estranhos. Os moradores da casa do lado direito, que estão na casa há poucos meses, são uma velhinha que planta ervas e sente vibrações negativas nas pessoas e um grisalho cabeludão que eu já peguei tirando fotos de uma menininha em meio as plantas, em contato com a natureza. Reza a lenda que ele é ator de teatro. Eu torço pra que seja verdade.
Os do lado esquerdo já moram aqui faz tempo e desde sempre tem uma relação meio conturbada com a minha família. Começou que eles meio que foram "responsáveis" pela nossa casa nova: depois de anos mantendo o terreno baldio do lado da nossa casa, quando eles foram construir a casa deles, as mudanças no terreno abalaram as estruturas da nossa casa, ocasionando uma rachadura nos pilares da nossa área de serviço. A ideia do pessoal aqui em casa já era reformar, mas digamos que isso deu um certo 'empurrãozinho' na coisa toda.
Fora isso, reza a lenda que esse vizinho do lado mantém uns negócios escusos. Disso eu não sei de nada. Mas tirando meu irmão, meu pai e eu, a galera aqui em casa não gosta muito dele. Eu sempre tratei ele com respeito e nunca tive nada a reclamar, mesma coisa para o meu pai. Quanto ao meu irmão, toda vez que o vizinho chega junto com os amigos dele, enlameado da cabeça aos pais, dirigindo os seus jipes de fazer trilha no meio do mato, consigo ver aquela aura de "eu queria que fosse eu". Esse é meu irmão, afinal.
A característica mais marcante dos moradores dessa casa ao lado, porém, são os seus três pitbulls. Uma fêmea e dois machos. Nada contra animais - nós mesmos temos dois cachorros, não que eu faça muita questão - mas é que essa raça em especial de cães inspira... medo. Fato incontestável. Dizem que o cão reflete o dono e eu não pensaria em uma raça melhor para o meu vizinho criar. Mesmo assim, ele sempre cuidou muito bem deles, mas os cachorros sempre geraram certos atritos na vizinhança.
Primeiro porque eles são barulhentos pra caramba quando querem. Segundo, porque meses atrás, quando tínhamos uma vira-lata fêmea que conseguia ser bem barulhenta também, esse vizinho reclamou do barulho da nossa... que reclamamos do barulho dos deles... que reclamou do barulho da nossa... Enfim. Briga de vizinho, vai entender. Eu ainda não entendo porque ninguém aceita o fato de que ambas as casas tem TRÊS CACHORROS NO QUINTAL: querer silêncio é burrice.
E claro, a insegurança. Esse fator nunca tinha sido levado em conta até um pequeno caso que aconteceu essa semana. Estávamos eu e meu irmão chegando em casa da aula de noite, quando vimos nossos tios e nossa prima na sacada, olhando assustados para uma coisa mais para o fim da rua, onde ouvíamos gritos. Um casal estava parado em uma moto na frente da casa, sem ação. Minha tia fez sinal para entrarmos rápido, sinal que obedecemos logo, e fomos já conversar com eles para saber do que se tratava.
Pelos gritos que se ouviam a umas três casas de distância, pensamos que era algo sério, do tipo, gente brigando. Temos uns vizinhos meio tensos para o lado de lá da rua (depois desse post, ninguém nunca mais vai me visitar). Mas não. Logo ficamos sabendo que poucos minutos antes, quando o meu vizinho também estava chegando em casa, num descuido de atenção na hora de abrir o portão, os cachorros dele fugiram. Os três pitbulls. Eles subiram a rua até encontrar alguém, passaram pelo casal na moto, que ficou parado quando viu eles chegando, e entraram no quintal da casa em que o casal estava parado na frente.
Nesse quintal, claro, havia um cachorro. Preso pela corrente.
E os pitbulls atacaram ele. Os três.
Logo, os gritos que ouvimos eram do nosso vizinho e de outros dois homens que foram ajudar a separar a briga dos cachorros. Do pouco que ouvimos, foi tenso o suficiente. Digamos que a mídia já nos deixou bastante receosos sobre o comportamento dessa raça quando ela foge do controle, então só imaginar três pitbulls atacando um cachorro preso e indefeso já é uma cena terrível. Minutos depois, vimos o vizinho e os outros dois homens, três homens adultos e fortes, levando com dificuldade os três cães para casa. Logo depois, o cão atacado foi colocado em um carro e levado para o hospital veterinário, com ferimentos na garganta.
Ainda naquela noite e no dia seguinte, ficamos sabendo mais informações. O cão tinha sobrevivido sim e estava bem, só bastante machucado. No dia seguinte, o vizinho já tinha levado um profissional para sua casa para construir um canil. Por mim, a história já havia terminado por aí. Mas sabe como é né, nunca termina. No dia seguinte, quando meu tio encontrou o vizinho na rua, que logo comentou algo sobre os cachorros, fez o favor de proferir a seguinte frase, muito amigável:
- É, mas se um dos teus cachorros pula o muro da tua casa e ataca um dos meus, eu só quero jogar os pedaços do teu por cima do teu muro, depois de cortar todo ele com um facão afiado que eu tenho lá em casa. Tu vai só ver.
E eu me pergunto: PRA QUÊ GENTE? PRA QUÊ? O cara tem três cachorros violentos, ok; eles fugiram do controle uma vez, ok; ele se provou arrependido e já começou a tomar providências para aquilo não acontecer mais, ok; PRA QUÊ REPRIMIR O CARA AINDA MAIS? É só briga de vizinho ou é um jeito de sei lá, descarregar o ódio do dia a dia com frases de efeito? Quando eu ouvi minha tia contando para minha mãe essa história e as duas comemorando empolgadas "gostei da resposta!", meu único pensamento foi "eu não pertenço a esse lugar". Sério.
Corta para o dia de hoje. Fim da tarde. Cheguei em casa com a minha mãe depois de ir comprar umas frutas no mercado e o portão estava aberto. Logo enxerguei minha tia lá atrás, lá onde ficam os cachorros. Quando desliguei o carro, minha mãe foi lá falar com ela e eu logo ouvi a voz dela nervosa contar o que tinha acontecido: "O Panda atacou o Marley. Quase matou ele".
O Panda é um border collie, que meu irmão adotou durante uma viagem dos Escoteiros para Caravaggio e trouxe pra casa. Os cachorros dessa raça descendem dos antigos cães pastores de renas, e são extremamente inteligentes, tendo uma facilidade enorme de entender novos comandos. Eles também são extremamente energéticos e devem ser criados em espaços abertos, onde possam fazer constantes exercícios. Ou seja, tudo que ele não tem aqui em casa, ficando preso no quintal o dia inteiro. Aliás, nem sei porque estou falando tanto, já que como tudo aqui em casa que envolve os Escoteiros, o Panda tem até o próprio vídeo dele, explicando sua história:
Mais pro fim do vídeo, aparecem o Marley e a Mel. A Mel é a cadela pretinha barulhenta que estava aqui em casa um tempo atrás, mas que foi doada para alguém, já que três cachorros são demais. E o Marley é o vira-lata marrom clarinho que aparece pulando junto com os outros. Ele é pelo menos umas três vezes menor que o Panda. Imagina dentro da boca dele...
Voltando ao acontecimento, guardei o carro na garagem, fui lá em cima levar as compras e quando desci, meu tio estava chegando da rua com a minha prima, já em lágrimas pela cena que tinha presenciado do ataque dos cachorros. Ela tinha ido chamar ele na casa da mãe dele, que fica aqui na rua também. Logo pensei "mas se meu tio estava fora, quem ajudou minha tia a separar os cachorros quando eles estavam brigando?". Saí lá fora e a resposta foi óbvia.
O vizinho.
O mundo dá voltas.
Logo fiquei sabendo da cena inteira: meu tio estava fora e minha prima e minha tia estavam em casa. A minha prima foi lá fora brincar com o Marley, quando o Panda se soltou e foi direto pra cima do vira-lata. Ela gritou assustada e minha tia ouviu e foi tentar acudir. Quando chegou, o Panda já estava com o Marley na boca, balançando ele como um osso de brinquedo. Minha prima deu uma tijolada na cabeça do Panda, que não soltou. Minha tia quebrou uma vassoura em pelo menos cinco pedaços no Panda, que não soltou. Quando a esposa do vizinho viu a cena, gritou para ele ir lá ajudar. Ele puxou o Panda pelo rabo, no braço mesmo, e separou a briga.
Quando meu tio chegou depois, foi logo reforçar a corrente do cachorro junto com o vizinho. E foi possível ver claramente o desconforto dele, trabalhando junto com o cara que ele jurou cortar o cachorro dele em pedaços um dia antes. Agora era ele ali, ajudando a gente com o nosso cachorro violento e fora de controle. A minha tia cuidava do Marley, agora mais pequeno ainda e mais quieto do que nunca. Minha prima era um reflexo dele: lágrimas no rosto, tremendo, assustada. O vizinho, antes de pular para o lado dele do muro comentou "é... os meus fizeram sete buracos no cachorro que atacaram aquele dia. Sei como é." Permaneci na cena até ouvir com certeza o "obrigado" trêmulo que veio logo dos meus tios.
Quando subi para minha casa e fui falar com minha mãe, ela só sabia falar dos cachorros. "Eu fico triste, não queria que fosse assim. Eu gosto dos cachorrinhos, não queria que eles se atacassem assim, sei lá, o que fazer. Prefiro dar fim em um deles, mandar embora, pra outro lugar, ao invés de ter os dois se matando ali atrás..." Eu só conseguia pensar em como a minha mãe, uma pessoa tão preocupada sempre com a questão humana das coisas, só conseguia pensar no cachorro. Como ela não tinha se ligado de que o cara que ela sempre fala mal, tinha acabado de ajudar ela.
Eu, claro, falei isso. "O que eu acho engraçado é que ontem o meu tio ameaçou o cachorro dele, e hoje tava ele ali ajudando". Ela me respondeu: "é, o teu tio e tua tia falam muito mal dele, sempre... isso daí é pra eles aprenderem". Ai subi nos tamancos. "Tu também fala, né mãe! Por favor". Ela disse "Sim. Eu sei. Mas vou deixar bem claro: eu não separaria ele dos cachorros dele". Ela deu a entender que não separaria porque os cachorros são fortes, mas claro... eu conheço ela faz tempo. Consigo ler nas entrelinhas já.
De lição de tudo isso fica o que falei ali em cima antes. O mundo dá voltas. Num dia tu promete matar o cachorro do vizinho caso ele faça alguma coisa com o teu; no outro dia o vizinho tá te ajudando a cuidar do teu cachorro, que quase matou o próprio companheiro de quintal. Eu pelo menos nunca vi os pitbulls brigando (pelo contrário, quando cheguei em casa um dos dois machos tava montado na fêmea bem na frente da casa, feliz da vida). Acredito que o vizinho fez isso na bondade mesmo, porque viu a situação e porque gosta de cachorros, e não pra dar nos dedos do meu tio. Mas se foi pra causar algo, foi bem feito também.
Só sei que opiniões definitivas me assustam.
E border collies, a partir de hoje, também.
Sam só terá um cachorro se puder chamá-lo de Chewie
Declaração de Falência
Uma histórinha sobre o que fazer e o que não fazer quando se tem dinheiro
Esse post é enorme e cansativo. Se não quiser ir até o fim, apenas me deseje boa sorte e tente, acima de tudo, me compreender caso eu suma.
Essa é a minha declaração de falência.
Lembro até hoje do meu primeiro aumento. Não sei se foi o primeiro, na verdade, não lembro, mas ficou marcado por um comentário do meu chefe que não esqueço. Assim que a minha chefe anunciou para mim e para minha colega que iria aumentar os nossos salários, ele comemorou junto conosco: "aeeee, viva, mais um carnê!!!". Olhamos para ele e demos uma risadinha meio amarela, já que, por mais 'engraçadinho' que tenha sido o comentário, era verdade. Naquela época, meu salário era algo em torno de R$ 350. Foi para R$ 400. Uns quatro anos atrás.
Corta para 2010, outubro. Outra lembrança clara: eu tuitando em alguma aula com computadores na universidade: "Paul, seu lindo, eu não tenho dinheiro pra te assistir, mas eu vou te assistir!". Se não me engano, foi a primeira vez que usei o termo "seu lindo" no Twitter, porque tinha recém lido alguém escrevendo. Mas o que importa é que o tweet foi muito verdade: eu não tinha a disposição R$ 650 pra assistir o show no Gramado Premium como eu queria, mas o fiz mesmo assim. Como eu já comentei muitas vezes aqui no blog, quando se é novo é preciso colecionar experiências e ver um dos meus ídolos a poucos mais de 20m de distância foi "a" experiência. Nos meses seguintes, comentava ironicamente "o show foi ótimo. E o ingresso estou pagando ainda! Hehehe". É... amarga ironia.
Corta para hoje, 18 de outubro de 2011. Saldo da minha conta no banco: R$ 3.848,28... negativo. O limite da minha conta é de R$ 3.100, então isso quer dizer que eu estou R$ 748,28 negativo além do meu cheque especial. É... tá punk o negócio.
Contar como o salário modesto (e mínimo) de R$ 350 virou uma dívida de quase 4 mil reais é uma história cheia de altos e baixos. Envolve pelo menos mais uns dois shows, algumas fatalidades e claro, muitas roupas. Quem me conhece sabe que nos últimos anos eu mudei bastante em relação ao vestuário e claro, mesmo que a grande mudança tenha sido "saber comprar roupas" ainda envolve "comprar roupas". Mas o maior culpado de tudo isso com certeza foi a minha falta de organização em relação as finanças e acho que esse é o maior motivo do post.
Assumir a dívida do Paul foi um risco, mas era um risco 'controlável' (se é que existem riscos assim). Fiquei com um arranhão na conta bancária que teria que esperar o mês seguinte para ser sanado e iria consumir um pouco de dinheiro que ia sobrar, mas ok. Mas naquela época eu estava recém começando a pagar o carro novo que ganhei em setembro, que consumia metade do meu salário. Mais o meu celular. Mais a internet. Mais duas lojas de roupas. Mais os meus gastos para sair. Mais os gastos para abastecer o carro. Mais o Paul McCartney. Tá dando pra sentir o drama?
Agora imagina eu recebendo o meu salário, depositando no banco e tirando aos pouquinhos para pagar as contas, sem nem notar o quanto ficou lá para os juros, para os pagamentos no cartão, para os cheques que iam entrar... Por um tempo, minha mãe me fazia todo mês sentar do lado dela para checar como andavam as coisas. Meu estômago entrava em parafuso, tamanho nervosismo que eu sentia ao ver aqueles papeizinhos amarelos do banco. Foi assim até o momento em que ela disse "Ok, cansei de tentar te organizar. Tu se vira a partir de hoje, eu abro mão." E lá veio o estrago.
Continuei com a minha política de "depositei, tá tudo tranquilo". Nos últimos casos, quando precisava cobrir um cheque, fazia um empréstimo no banco mesmo, daqueles que parecem inofensivos e extremamente parceláveis... Mal sabia eu do buraco que aos poucos me enfiava. E assim foram, com saídas, cinemas, barzinhos, ida a praia em fevereiro. Sem contar o namoro claro, que ANTES QUE ME APEDREJEM, economiza nas saídas mas cobra em presentes e jantares e afins. Mas tudo tranquilo; o importante era eu não ter que confrontar minha mãe com os canhotos dos cheques. O cometa estava nas nuvens.
Daí, em um certo mês, o dinheiro do Paul fez sua falta presente e eu tive que atrasar uma prestação do carro. Então começou a novela de pagar o boleto sempre atrasado, arcando com os juros. Errado, muito errado. Importante citar que nesse momento (e até hoje), a prestação do carro ocupa metade do meu salário (façam as contas os curiosos), então da outra metade eu tenho que fazer sair o pagamento de todas as outras contas MAIS os gastos 'supérfluos'. A essa altura do baile eu já estava entregue a sorte.
E então veio o último golpe (ou o mais recente, diriam os pessimistas): certo dia, fui tirar um novo talão de cheques para abastecer o carro e o banco simplesmente... recusou. Não estava disponível. Erro na conta, whatever, algo assim. Não dei bola, abasteci de algum outro jeito e deixei passar. Fiquei de checar o porque e demorei, demorei, demorei, demorei... Quando eu vi, apareceu um recadinho no meu extrato: "circular 1528". E quando percebi, nada mais na minha conta funcionava: cheque, empréstimos, nada. Não sabia o que era, mas coisa boa não podia ser. Quando olhei mais pra baixo no extrato, vi o que não queria ver, a trinca maldita: "Cheque compensado. Cheque estornado. Cheque devolvido." Fudeu. Hora de voltar aos malditos canhotos.
O complicado é que, como tudo na vida que eu desgosto, eu tenho frescuras bloqueios. E eu demoro pra resolver as coisas. Mas ok, recebi o meu salário do mês de outubro, descontei a parte do carro (que não teve juros por causa da greve dos Correios) e fiquei com o resto para resolver o problema do cheque. Era simples: recuperar o cheque, pagar ele em dinheiro, ir no banco e pagar a taxa do cheque devolvido para colocar a minha situação em dia. Mas ai começaram os outros problemas:
1) eu não poderia depositar o dinheiro que sobrou do meu salário no banco, porque ele ia cobrir as dívidas pós-limites e eu não ia poder sacar mais;
2) eu teria que descobrir de quanto era o cheque, do que que era e onde buscá-lo (o que fica meio complicado com a minha nova rotina de obedecer o livro ponto no trabalho);
3) os malditos bancos estão EM GREVE; mesmo que eu recuperasse o cheque, não tinha como regularizar minha situação no banco;
Depois de uns dois dias pra deduzir e pensar em como resolver tudo isso, o esperado acontece: os outros dois cheques, os meus dois ÚLTIMOS cheques, voltaram por falta de fundos. Antes eu não tinha como regularizar a minha situação no banco; agora eu não tenho dinheiro para recuperar os três cheques e mesmo que eu tenha, eu não tenho dinheiro para pagar a taxa no banco para devolver eles; e mesmo que eu tenha, o meu banco AINDA ESTÁ EM GREVE, então não tenho ninguém para me atender. Massa né?
Essa é definitivamente a maior sinuca-de-bico financeira em que já me encontrei na vida. E definitivamente já refletiu nos meus hábitos: faz muito tempo que não saio para ir a bares, jogar RPG com os guris tem se provado um ótimo programa quando não se tem dinheiro e estou até engolindo meu orgulho e aceitando caronas (!), já que, claro, quem abastece o carro é minha mãe e qualquer meio de economizar é bem-vindo. Aliás, nessa altura do campeonato já estou pagando somente o celular e o carro, mas mesmo assim, dar a volta vai ser complicado. Sem contar que em momento algum eu citei a faculdade, que é minha mãe que paga.
Minha mãe já me disse em tempos atrás, quando minha dívida era mais branda, que se arrepende de não ter sentado mais (ainda) do meu lado, para me puxar mais na questão financeira. Eu digo que não, a culpa foi minha mesmo, da falta de organização, das facilidades de compras e da falta de limites. Eu não compro nada que não uso (minhas roupas e meus livros tão aí pra provar isso), mas tem certos momentos em que um freio é importante.
Esse post fica com o final em aberto, assim como essa história. Ainda não fui atrás do 'paitrocínio', estou tentando resolver o máximo possível de coisas sozinho sem precisar envolver meus pais, afinal, eles tem as dívidas deles e eu já tenho 23 anos na cara, tá na hora de virar ADULTO. Eu preferia estar aprendendo outras coisas da vida adulta, como fazer churrasco ou consertar um chuveiro, mas a gente tem que encarar o que vem pela frente, sem escolher demais. Uma hora ou outra eu vou recorrer a eles e levar a mijada da vida, mas quero chegar nesse momento sabendo que fiz tudo o que pude pelo menos.
E é isso. Esse foi o post mais auto-biográfico e sincero que já escrevi na vida. Acho que me abri aqui mais do que em todas as vezes que abri meu coração pra falar de sentimentos. Irônico. Repito aqui então o recado que deixei lá em cima, caso você tenha encarado o texto até o fim: me deseje boa sorte e compreenda caso eu suma, não saia por um bom tempo ou me recuse a programas que não sejam de graça. Depois vocês não entendem porque gosto tanto de orquestras e shows de jazz e filmes cults franceses a R$ 2...
Acima de tudo, não repitam os mesmos erros que os meus. Mas sejam felizes.
Sam curte o fato do Blogger ser de graça
É Chegada a Hora Noturna!
Uma análise sobre R & J de Shakespeare – Juventude Interrompida
Antes de começar o primeiro ato, há algo que merece ser citado. A última vez que estive presente em uma montagem teatral foi na minha 3ª série, no Colégio Leonardo da Vinci. A peça em questão era “O Patinho Feio”. E eu não estava no público: eu era o Patinho Feio. A menos que minha memória falhe (o que ela não costuma fazer), nesses 23 anos de vida compareci a muitas exposições, concertos de música clássica, jazz, salsa, pré-estréias de filmes, palestras... mas nunca havia ido em um teatro.
Corrigi esse erro ontem. E não podia ter começado de maneira melhor.
“R & J de Shakespeare” tem origem em um texto da década de 80 escrito por Joe Calarco, e foi trazido ao Brasil pelo diretor da peça, João Fonseca, e um dos atores principais, Pablo Sanábio. Completam o elenco Rodrigo Pandolfo, João Gabriel Vasconcelos e Felipe Lima. A idéia original da peça foi mantida em todas as montagens feitas desde então: quatro alunos, homens, encenando Shakespeare à sua maneira. Os personagens da peça são revezados pelos quatro, com cada ator interpretando de três a quatro personagens nas duas horas de espetáculo.
A peça começa com os quatro alunos na sala de aula do colégio interno. Através de um palco montado de forma circular, com as carteiras escolares uma em cada canto da peça, somos introduzidos ao ritual diário de aprendizado dos quatro e suas aulas de matemática e ética e moral. Mas é quando o sinal toca e a aula termina que começa o verdadeiro ritual: com o grito de É CHEGADA A HORA NOTURNA, os atores-alunos viram alunos-personagens e começam a encenar a peça, dentro da peça.
Aliás, a metalinguagem é um dos grandes toques da peça. Afinal, são atores interpretando alunos que interpretam personagens. Ou seja, um teatro dentro de um teatro. Essa sacada rende bons momentos de humor no primeiro ato da peça, quando depois de interpretarem uma cena, os quatro gritam “FIM DE CENA!” e comentam entre eles (e com o público) o que acabamos de assistir no palco.
A primeira metade da peça é permeada por muito bom humor. O monólogo de Romeu na janela de Julieta, aquele em que ele deseja ser suas luvas apenas para tocar em seu belo rosto, é interpretado com uma naturalidade ímpar. Destaque também para a cena do casamento, em que em uma homenagem ao filme de Baz Luhrmann, com Leonardo DiCaprio e Claire Danes, são entoadas uma seqüência de canções românticas, de Beatles a Elton John. Além é claro, do tema de Romeu e Julieta na peça, a canção "Hawkmoon 269", do U2
Ato 2 – E que venha o drama
A segunda metade da peça deixa a metalinguagem de lado e coloca o espectador no palco, junto com os atores. Não há mais os comentários ao fim de cada cena, já que a própria urgência do texto não deixa mais espaço para isso. Mas o verdadeiro drama foi proporcionado pela Universidade de Caxias do Sul, já que a passagem do primeiro para o segundo ato foi ironicamente dividida por uma queda de luz geral que deixou o teatro às escuras. Felizmente, o público compreensivo e o elenco competente não deixaram o clima ficar chato e após uma pequena pausa, a peça foi reiniciada. Bola fora da UCS, onde essas quedas de luz já estão virando rotina.
O único suspiro da segunda metade da peça é, até onde me lembro, a primeira noite de Romeu e Julieta, novamente encenada de forma incrível. A química entre os atores João Gabriel Vasconcelos (Romeu) e o “gaúcho de alma” Rodrigo Pandolfo (Julieta) chega a um nível em que você torce pelo amor dos dois, de tão natural que ele é interpretado. O fato de Romeu ter quase 2m de altura e ‘o’ Julieta ser pequeninho só ressalta a sensação de comprometimento do grande Romeu em proteger a frágil Julieta. É impossível não ser apaixonar pelos dois em cena.
Aliás, Rodrigo Pandolfo é o grande trunfo da peça. O elenco inteiro é espetacular, mas ao contrário do seu principal par de cena, João Gabriel, que interpreta na maior parte do tempo apenas Romeu, Rodrigo se divide entre pelo menos cinco personagens, além de cantar, dançar e tocar gaita. A cena em que Julieta toma o líquido que a deixará desmorta por 42 horas, um monólogo com a trilha sonora feita por ele mesmo na gaita, é incrível. É compreensível que Romeu apenas faça Romeu a peça toda, já que é um personagem que exige uma interpretação forte, que o faça acreditar que ele cruzará mundos pelo seu amor; e também é de se admirar a versatilidade dos dois personagens de “suporte” que interpretam todos os outros personagens (a mãe de Julieta, a ama, o Padre, o primo...); mas Rodrigo Pandolfo o faz acreditar em cena que Julieta pode ser interpretada por um homem tão bem quanto uma mulher. Você torce por ela, você quase a deseja como amiga.
Sem falar que ele é a cara do Howard, do “The Big Bang Theory”. Sério.
Ato 3 – O Comprometimento
É difícil julgar algo que "consumi" pela primeira vez. Sinto-me julgando o primeiro casal da Dança dos Famosos do dia, já que nunca tinha assistido outra peça de teatro para comparar com essa, se é melhor ou pior. Mas do meu ponto de vista, todo trabalho em equipe é resultado e mérito de todos os envolvidos. Da qualidade de Shakespeare, o mais envolvido de todos, não há o que duvidar. Por isso, vou me focar na qualidade da equipe envolvida. E a palavra que melhor descreve é, sem dúvida, comprometimento.
Depois da peça, os quatro atores voltaram ao palco para um rápido bate-papo com os espectadores que ficaram depois da apresentação. Depois de contar sobre a história da peça e como o texto foi adquirido, abriram o espaço para perguntas. E vieram poucas perguntas... mas muitos elogios. Posso afirmar, estando na plateia e depois no bate-papo que a sensação geral do (pouco) público era de satisfação e arrebatamento. E acho que esse é o maior trunfo do artista.
Aliás, quarta-feira de noite, ingressos a 1 Kg de alimento para alunos da UCS e comerciários, R$ 10 para professores e R$ 20 para público em geral, eu esperava casa cheia. Mas não foi dessa vez que um evento cultural de Caxias me surpreendeu (não que eu não tenha culpa - como eu disse foi a primeira vez que fui ao teatro). É a segunda passagem da peça na cidade, e a segunda turnê pelo país, e eu espero sinceramente que eles voltem novamente, pra mim arrastar mais gente para ir. Porque valeu muito a pena.
Se Shakespeare inventou o lead jornalístico com Romeu e Julieta (piada interna de jornalista, nem dá bola), para mim ele acaba de inventar o teatro. E que venham outros.
Sam também curte Shakesbeer e seu clássico "to beer or not to beer"
Se Shakespeare inventou o lead jornalístico com Romeu e Julieta (piada interna de jornalista, nem dá bola), para mim ele acaba de inventar o teatro. E que venham outros.
Sam também curte Shakesbeer e seu clássico "to beer or not to beer"
Uma Despedida
Cada fim é um novo começo. Acho que junto com “independência financeira” e “começar a ouvir jazz”, aprender isso está no meu top 3 de “Dicas que Daria para Alguém Começar a Aproveitar a Sua Vida de Forma Plena”. Mas né, nem eu sei direito isso, então deixa pra lá.
Fato é que às vezes deixamos certas ‘existências’ entrarem em nossas vidas, como quem não quer nada, e quando percebemos, já não sabemos como elas foram parar ali. “Nossa, parece que eu conheço você a vida inteira!”. Essa frase já me assustou muito, mas quando eu me peguei pensando nisso em relação a outrem, fez muito sentido para mim. Muito.
E quando você menos percebe, ela está ali, adequada fielmente ao cenário diário das nossas vidas. Como se estivesse sempre disponível, pronta para você, como aquela música que sempre vem na hora certa ou aquele raio de sol que teima em entrar no quarto justamente quando você está deprimido. Basta abrir a janela.
Mas como tudo o que adequamos à nossa rotina, às vezes insistimos em esquecer de algo. Sabe quando alguém vai agradecer em uma premiação e ao invés de puxar um papelzinho diz “não vou começar a citar nomes porque senão vou esquecer de alguém?”. Mais ou menos assim. Só que as vezes precisamos lembrar desse alguém.
A gente nunca sabe o dia de amanhã.
É preciso dar valor a tudo, como se não houvesse uma outra chance para isso. Como diz aquela música do Elbow, “kiss me like we die tonight”. E sempre, sempre, há tempo para um sorriso a mais, um elogio, uma menção que fará você dormir com a cabeça tranqüila no travesseiro à noite pensando “Hoje fui especial. Hoje eu marquei alguém”.
Importante citar: menção offline, não Mention no Twitter, ok? Estamos falando daquele tipo de elogio e lembrança que não dá pra dar RT ou simplesmente Curtir. As vezes a distância atrapalha e a internet é uma mão na roda, ok, mas ainda não inventaram pessoas que descartem um bom abraço e um sorriso sincero.
Por isso, aproveite cada momento com quem você ama. Seja brega, seja cafona, seja o que for preciso para demonstrar seus sentimentos, mas demonstre. Brinque, sorria, fuja de casa no domingo para conviver com quem você ama por alguns instantes. Acredite no carma, que o que você deseja para alguém voltará para você. E deseje felicidade.
Porque quando você menos imagina, você inocentemente deixa a janela aberta...
...e o seu balão do Homem-Aranha não está mais em casa quando você volta à noite.
Eu sei, você foi conquistar sua liberdade. Seja feliz. Eu achei que aracnídeos e ruivos tinham um histórico de boa relação, mas pelo visto estava errado. Quem sabe, um dia... Mas foi bom enquanto durou. Eu chegava em casa e você estava ali, me lembrando que o céu era o limite, me dizendo para mirar alto. É triste... mas eu vou superar. Sei que vou. Boa sorte para você no Céu dos Balões.
Sam suspeita do Duende Verde
Perséfone Voltou
Perséfone era a filha de Zeus, deus supremo da Grécia antiga, com a sua irmã e deusa Deméter, mãe da agricultura. Era uma moça linda, de belos cabelos, que passeava pelos campos da Grécia Antiga, protegida pela sua mãe. Zeus a protegia de todos e todas, tamanha era a sua beleza. Até que um dia, Hades, senhor dos mortos, a viu.
Sem hesitar, o irmão de Zeus que governava o mundo subterrâneo, a raptou e a levou ao seu lar. Estava apaixonado, arrebatado por tamanha beleza. Deméter ficou desesperada. Procurou em claro por nove dias e nove noites e nada. Neste período, as terras que protegia ficaram secas, estéreis, e nada floresceu na Grécia enquanto a mãe não achasse a sua filha.
Até que um dia, alguém teve pistas do paradeiro de Perséfone. Uns dizem que foi Hermes, outros dizem que foi o próprio Zeus. Mas não importa, agora todos sabiam que a filha de Deméter estava no recanto sombrio de Hades. Zeus e Deméter foram até o submundo resgatar Perséfone das garras do terrível Hades, mas ao chegarem lá, surpreenderam-se.
Perséfone gostava de ficar lá.
Por já ter ingerido uma semente de romã, a moça já havia selado o seu compromisso no submundo. A partir de agora, ela era esposa de Hades. E o matrimônio, por mais desrespeitado que tenha sido na Grécia Antiga dos deuses, raramente era desfeito. Assim, a partir de agora, Perséfone teria que honrar o seu papel de filha e de esposa.
Mas como fazer isso? Simples. De agora em diante, ela passaria seis meses no mundo superior, com sua mãe, e seis meses no mundo inferior, com o seu marido. Nos meses em que passava com sua mãe, as flores cresciam, as árvores davam fruto, as sementes germinavam. Nos meses em que passava com seu marido, a terra ficava seca e fria.
Os gregos sabiam como contar uma bela história. Com um simples conto da filha virginal e rebelde que se apaixona pelo cara errado e foge da mãe superprotetora, eles simplesmente contaram a origem das quatro estações. Os seis meses que Perséfone passam com Hades são o outono e o inverno, e os seis meses que Perséfone passa com sua mãe são a primavera e o verão. A primavera, por sinal, é o retorno de Perséfone ao mundo dos vivos. Hoje.
Perséfone voltou.
Mais do que ficar imaginando essa história no mundo real (para mim Hades tem uma banda e Perséfone é interpretada pela Evan Rachel Wood (ela já namorou o Marilyn Manson!)), o importante é não ignorar o fator de mudança presente nela. A primavera vem aí e com ela, promessas de que algo vai mudar. Mesmo que você não queira mudar, esteja de birra com o mundo, achando que não importa o que você faça tudo vai dar errado, o mundo vai se transformar ao seu redor com ou sem você e é burrice não pegar carona com ele. Se te falta coragem, vontade ou motivos, preste atenção no colorido que as árvores vão ganhar aos poucos, nos dias com cada vez mais sol e no clima mais convidativo a viver. Acima de tudo, permita-se mudar.
Aliás, a maioria dos relacionamentos começa na primavera, sabia?
Esteja aberto a mudanças. Hades representa a morte, e assim como em qualquer cultura, a morte não é o fim, e sim uma transformação. Perséfone certamente não teria descido ao submundo se tivesse escolha, mas uma vez que estava lá, abraçou o que viu e gostou. Na continuação de sua lenda, dizem que ela certa vez transformou a ninfa Mentéia em menta odorífera e a ninfa Leuce em álamo branco, depois de ambas terem sido cortejadas por Hades. Essas duas puladas de cerca são uma alegoria para representar o uso de ervas odoríferas nos cadáveres para esconder o cheiro forte quando as pessoas morrem. Mas para mim, significam apenas que Perséfone, assim como uma moça que eu conheci esses dias, era do tipo de pessoa que “fazia acontecer”.
Taí. Uma boa dica: faça acontecer. E boa primavera.
Sam teria uma séria paixão por Perséfone
Discurso de Formatura
(As luzes se apagam. Começa a tocar a música do formando. Ele entra, todos aplaudem. Baixam o volume da música. Os convidados sentam. Ele pega o microfone e começa a falar.)
Antes de tudo, eu tenho que dizer que todas as vezes que eu me imaginei entrando no salão pra dar início à formatura, todas as vezes em que eu fiz mentalmente essa cena na minha cabeça… eu tropeçava na porta de entrada. O fato de eu não ter caído já me deixa muito feliz! (risos)
Então… há mais ou menos um ano, no início de setembro, eu fui em duas formaturas seguidas, um findi depois do outro, e comecei a pensar na minha. Quando eu percebi, aquilo virou meio que uma obsessão: que música entrar, que roupa usar, que modo agir, que pessoas convidar... tudo o que eu pensava parecia vir de encontro a minha futura formatura. Mas cada corrente de pensamento acabava na mesma ideia: "quê quê... falta um século pra mim me formar."
Nesse ano que se passou, eu descobri: um século passa rápido.
E descobri também que a gente não dá valor para o tempo e para o que ele pode fazer com a gente. A gente espera pelo fim do semestre, pelo fim do expediente, pelo fim do dia. Mas reclama do fim do prazo, do fim do salário, do fim da música. E é tudo culpa do tempo. Pobre relógio... mal sabe o que faz. Se ele pudesse se defender, provavelmente diria "Mas eu sou só engrenagens! Posso ser adiantado, atrasado... quem controla o tempo é vocês!".
Eu daria razão para o relógio. E olha que eu já quis que o prazo do trabalho durasse mais, já quis que a festa não acabasse. Mas eu acho que a gente amadurece quando entende que o tempo não deve ser desafiado, e sim tratado como um bom amigo. Por exemplo, troquem na frase a seguir "tempo" por "amigo": 'afinal, trabalhando com tempo e planejando as coisas com tempo, a gente sempre consegue tomar uma cerveja com tempo no fim do dia'.
Fechou direitinho, né?
Nós criamos diariamente ao nosso redor probleminhas de mentirinha para não encararmos os nossos problemas de verdade. Sim, isso é de um filme do Woody Allen, vocês não acham que eu ia fazer um discurso de formatura sem citar ele né! (risos) Mas tem uma frase de um primeiro-ministro britânico que eu aprendi nos meus últimos dias de universidade e que eu vou levar pra vida que diz assim: “a vida é muito curta pra ser pequena”. E é bem isso.
Não percam seu tempo com ‘picuinhas’, como diria meu chefe. Não é que as coisas pequenas não façam sentido, mas a graça é perceber que as coisas grandes fazem muito mais sentido! Essa frase é da Lili, óbvio né gente. Por isso, pensem grande. Não procurem milhares de motivos para viver grandes sentimentos; vivam grandes sentimentos que não precisam de milhares de motivos para existir. ESSE é o grande motivo deles existirem. Não se constroem grandes prédios sem bons pilares, mas não se constroem bons pilares sem uma boa intenção por trás... tá dando pra entender?
Tá, eu paro.
Talvez vocês todos já saibam disso, mas sabem né, eu com microfone e plateia, vou loooonge… Nunca deem um microfone para um baterista. A gente adora.
Tá, eu paro.
Talvez vocês todos já saibam disso, mas sabem né, eu com microfone e plateia, vou loooonge… Nunca deem um microfone para um baterista. A gente adora.
Por isso, depois desse grande discurso grande, tudo o que eu tenho a dizer é que espero que todos tenhamos uma grande noite, uma grande festa e que ela acabe com todos nós numa grande cama redonda, com um grande espelho no teto!
Muito obrigado e boa festa pra nós!
(Aplausos. O formando abraça a família. Começa o vídeo com os melhores momentos. A festa continua.)
Sam não vê a hora de se formar.
O inferno astral são os outros
Dizem os (ênfase na ironia aqui) "entendidos" em astrologia e afins que inferno astral é o período de um mês antes do seu aniversário em que tudo dá errado. As coisas não dão certo, o universo não colabora, o pneu fura, a calça não cabe, o mês sobra pro salário, seu time perde, enfim... tudo o que você não queria que acontecesse, acontece. Esse período comumente deveria acontecer um mês antes do seu aniversário ou no mês contrário ao seu signo solar (?). Ou seja, se você é de Leão e o seu signo contrário é sei lá, Peixes, prepare-se para colocar a juba de molho (há, sacou a escolha meticulosa dos signos?) durante fevereiro e março, porque nesse mês, meu filho, o bicho vai pegar. Mas né, são convenções e convenções que nem eu que leio o meu horóscopo todo dia acredito fielmente.
Mas as vezes a gente se obriga a acreditar em alguma coisa.
Envelheci muito nos últimos dias. Lembro de um dia em especial que, saindo do trabalho, me olhei no espelho do elevador e me assustei. O elevador lá do prédio tem uma luz forte que fica bem em cima de quem se olha no espelho, então dá para ver claramente todas as marcas no rosto da pessoa. E cara... deu vontade de perguntar: "quem é esse no espelho?". Pode parecer idiota, mas me peguei observando as marcas embaixo dos olhos e pensando quando fui a última vez que madruguei por não conseguir dormir ou dormi pouco. Mas aquilo ali não era falta de sono, era algo que estava acontecendo com os olhos abertos. Era desgaste e cansaço.
Briguei muito nesses últimos dias. Discuti muito. Falei, falei, falei, falei. E claro, ouvi, ouvi, ouvi, ouvi. Falei, falei falei. Ouvi, ouvi, ouvi. A repetição é necessária pra entender a gravidade e o tamanho da coisa toda (e como não vou falar o assunto, contentem-se com a repetição e sua imaginação, HA!), e como em qualquer discussão, chegamos a um ponto em que os dois 'debatedores' chegaram a mesma dúvida, tão grande quanto a repetição: "mas, porque a gente tá brigando mesmo?".
Num desses dias de debates (parecia escolha de presidente, sério) o meu horóscopo ironicamente me jogou na cara: "as vezes tomamos decisões no calor da hora, sem pensar muito, tamanha a urgência que elas necessitam para ser tomadas... (ufa, pensei eu) ...mas (DUH!) ...não seria momento de demorar um pouco mais para pensar no que foi dito?". Se não foi isso, foi quase isso. Horóscopos são genéricos mas não fogem muito do texto básico. Na hora, pensei naquela velha história de que a gente sempre pede conselho torcendo pra ouvir o que quer ouvir. Ali estava eu, na situação inversa: pedindo (?) conselho e ouvindo o que eu não queria ouvir (relaxa, pensa, calma) mas sabendo que era o que eu precisava saber (PARA DE BATER O PÉ E TE AQUIETA!). E porra, se até o horóscopo tava me falando aquilo...
Como diria uma outra conhecida, feliz ano novo a gente diz no aniversário e não na virada do ano, porque é no aniversário que acrescentamos um novo ano à nossa vida. Não sei se ela já leu sobre astrologia e afins, mas é bem isso mesmo. O aniversário é o fim do ciclo solar, e como todo fim, tem o seu reinício logo depois. É o fim de uma jornada que culmina na celebração de mais um ano. Mas como diz o ditado, "o que importa é a jornada, e não o destino". Logo, a aproximação do aniversário é o período pra parar pra pensar no que foi feito até então, no que está errado, no que falta corrigir e claro, fazer tudo isso, pra entrar no novo ciclo solar de alma limpa e roupa branca, que nem ano novo mesmo. E sem precisar pular as sete ondinhas e perder as Havaianas (ou o celular).
Acreditar pode ser besteira, mas não custa parar pra pensar nisso de vez em quando. Fazer um balanço da vida, do que tá certo ou não tá, e tentar corrigir. As vezes até mesmo cutucar, até achar algo. Uma hora ou outra as tensões tem que dar as caras, e quando elas fazem isso no momento errado, é triste cara. É como uma bomba: quando explode, atinge só quem tá perto (e muitas vezes quem nem merecia ser atingido - frases da discussão). E fazer isso antes do aniversário é uma boa, afinal, não é bom estar brigado com alguém num período em que você quer todo mundo que você gosta perto de ti, não? Esse foi um dos principais motivos para eu tentar corrigir as coisas. Ok, EU DEMOREI HORRORES e admito na maior humildade, mas tô tentando. E espero conseguir.
(Na real, eu nem estou no inferno astral ainda, já que se for um mês antes do aniversário, o meu começa no dia 15. Mas então, que eu brigue e conserte tudo o que tenha pra brigar antes disso, entre na hibernação do inferno astral para pensar na vida e comece o ano novo centrado, pensando em mim antes de tudo. Se funcionar assim, beleza)
O inferno são os outros, dizia Sartre. Declarando isso, o filósofo francês falava da nossa costumeira ação de culpar os outros pelos nossos erros, sem considerar que nós mesmos não somos perfeitos e tão falhos quanto qualquer um. Sem o julgamento das nossas ações, colocamos a culpa na sociedade, no universo, no horóscopo e em tudo que possamos culpar pelo inferno. É mas ou menos como quando Woody Allen diz em Manhattan que o ser humano tem mania de criar neuroses e probleminhas para si só para ter algo com o que se preocupar ao invés de olhar para os problemas do universo em um contexto geral, podendo aqui ser o universo seus próprias problemas - mas os problemas de verdade.
São dois pensamentos diferentes mas complementares na ideia de que sempre tentamos adiar ou nos eximir da culpa. Mas negar isso é um passo atrás. É aceitar a ideia de que o 'inferno astral' existe e é um impossível de ser mudado. Como o mesmo Woody Allen tem que escutar no fim de Manhattan, ao saber que sua namorada colegial adolescente vai passar uma temporada na Inglaterra e morrendo de medo de que ela não vá voltar ou que volte diferente: "você tem que ter mais fé nas pessoas". O inferno astral podem ser os outros, mas nem por isso não devemos olhar pra gente na hora de tentar resolver os problemas. Se Sartre e Woody Allen falaram, quem sou eu pra negar?
"...closing time, every new beginning comes from some other beginning's end..."
Fecha a conta, passa a régua e começa de novo. Aproveita que agora é o momento.
Sam acredita em horóscopos, biscoito da sorte, borra de chá e bandas dos anos 90
Mas as vezes a gente se obriga a acreditar em alguma coisa.
Envelheci muito nos últimos dias. Lembro de um dia em especial que, saindo do trabalho, me olhei no espelho do elevador e me assustei. O elevador lá do prédio tem uma luz forte que fica bem em cima de quem se olha no espelho, então dá para ver claramente todas as marcas no rosto da pessoa. E cara... deu vontade de perguntar: "quem é esse no espelho?". Pode parecer idiota, mas me peguei observando as marcas embaixo dos olhos e pensando quando fui a última vez que madruguei por não conseguir dormir ou dormi pouco. Mas aquilo ali não era falta de sono, era algo que estava acontecendo com os olhos abertos. Era desgaste e cansaço.
Briguei muito nesses últimos dias. Discuti muito. Falei, falei, falei, falei. E claro, ouvi, ouvi, ouvi, ouvi. Falei, falei falei. Ouvi, ouvi, ouvi. A repetição é necessária pra entender a gravidade e o tamanho da coisa toda (e como não vou falar o assunto, contentem-se com a repetição e sua imaginação, HA!), e como em qualquer discussão, chegamos a um ponto em que os dois 'debatedores' chegaram a mesma dúvida, tão grande quanto a repetição: "mas, porque a gente tá brigando mesmo?".
Num desses dias de debates (parecia escolha de presidente, sério) o meu horóscopo ironicamente me jogou na cara: "as vezes tomamos decisões no calor da hora, sem pensar muito, tamanha a urgência que elas necessitam para ser tomadas... (ufa, pensei eu) ...mas (DUH!) ...não seria momento de demorar um pouco mais para pensar no que foi dito?". Se não foi isso, foi quase isso. Horóscopos são genéricos mas não fogem muito do texto básico. Na hora, pensei naquela velha história de que a gente sempre pede conselho torcendo pra ouvir o que quer ouvir. Ali estava eu, na situação inversa: pedindo (?) conselho e ouvindo o que eu não queria ouvir (relaxa, pensa, calma) mas sabendo que era o que eu precisava saber (PARA DE BATER O PÉ E TE AQUIETA!). E porra, se até o horóscopo tava me falando aquilo...
Como diria uma outra conhecida, feliz ano novo a gente diz no aniversário e não na virada do ano, porque é no aniversário que acrescentamos um novo ano à nossa vida. Não sei se ela já leu sobre astrologia e afins, mas é bem isso mesmo. O aniversário é o fim do ciclo solar, e como todo fim, tem o seu reinício logo depois. É o fim de uma jornada que culmina na celebração de mais um ano. Mas como diz o ditado, "o que importa é a jornada, e não o destino". Logo, a aproximação do aniversário é o período pra parar pra pensar no que foi feito até então, no que está errado, no que falta corrigir e claro, fazer tudo isso, pra entrar no novo ciclo solar de alma limpa e roupa branca, que nem ano novo mesmo. E sem precisar pular as sete ondinhas e perder as Havaianas (ou o celular).
Acreditar pode ser besteira, mas não custa parar pra pensar nisso de vez em quando. Fazer um balanço da vida, do que tá certo ou não tá, e tentar corrigir. As vezes até mesmo cutucar, até achar algo. Uma hora ou outra as tensões tem que dar as caras, e quando elas fazem isso no momento errado, é triste cara. É como uma bomba: quando explode, atinge só quem tá perto (e muitas vezes quem nem merecia ser atingido - frases da discussão). E fazer isso antes do aniversário é uma boa, afinal, não é bom estar brigado com alguém num período em que você quer todo mundo que você gosta perto de ti, não? Esse foi um dos principais motivos para eu tentar corrigir as coisas. Ok, EU DEMOREI HORRORES e admito na maior humildade, mas tô tentando. E espero conseguir.
(Na real, eu nem estou no inferno astral ainda, já que se for um mês antes do aniversário, o meu começa no dia 15. Mas então, que eu brigue e conserte tudo o que tenha pra brigar antes disso, entre na hibernação do inferno astral para pensar na vida e comece o ano novo centrado, pensando em mim antes de tudo. Se funcionar assim, beleza)
O inferno são os outros, dizia Sartre. Declarando isso, o filósofo francês falava da nossa costumeira ação de culpar os outros pelos nossos erros, sem considerar que nós mesmos não somos perfeitos e tão falhos quanto qualquer um. Sem o julgamento das nossas ações, colocamos a culpa na sociedade, no universo, no horóscopo e em tudo que possamos culpar pelo inferno. É mas ou menos como quando Woody Allen diz em Manhattan que o ser humano tem mania de criar neuroses e probleminhas para si só para ter algo com o que se preocupar ao invés de olhar para os problemas do universo em um contexto geral, podendo aqui ser o universo seus próprias problemas - mas os problemas de verdade.
São dois pensamentos diferentes mas complementares na ideia de que sempre tentamos adiar ou nos eximir da culpa. Mas negar isso é um passo atrás. É aceitar a ideia de que o 'inferno astral' existe e é um impossível de ser mudado. Como o mesmo Woody Allen tem que escutar no fim de Manhattan, ao saber que sua namorada colegial adolescente vai passar uma temporada na Inglaterra e morrendo de medo de que ela não vá voltar ou que volte diferente: "você tem que ter mais fé nas pessoas". O inferno astral podem ser os outros, mas nem por isso não devemos olhar pra gente na hora de tentar resolver os problemas. Se Sartre e Woody Allen falaram, quem sou eu pra negar?
"...closing time, every new beginning comes from some other beginning's end..."
Fecha a conta, passa a régua e começa de novo. Aproveita que agora é o momento.
Sam acredita em horóscopos, biscoito da sorte, borra de chá e bandas dos anos 90
"Desculpa, mas, você estuda Economia?"
Que me desculpem os normais, mas ter neuroses é fundamental.
Segunda aula do semestre. Primeira aula de 'Política e Comunicação Social' do semestre. Décimo-segundo semestre da faculdade de jornalismo. Sexto ano na UCS.
Intervalo.
Depois de viajar profundamente na primeira metade da aula e aterrissar forte na classe quando a professora disse "intervalo", fui pro bar, comprei um cappucino e um Stikadinho e voltei pro bloco para voltar pra sala. Chegando no bloco, parei para ver o painel com a propaganda do concerto sinfônico que ia ter no teatro no dia de hoje, quando um grupo de colegas que estava perto me chama.
- Ô colega... vem aqui um pouquinho.
Importante salientar. Eu não conheço ninguém dessa turma. E odeio ser chamado de colega. Acho o cúmulo da falta de intimidade, mesmo que a pessoa não me conheça. Representa uma distância formal tão grande, que as vezes prefiro que me chamem de cara ou simplesmente me cutuquem. Eu ia ver e atender do mesmo jeito, sério. É que nem chamar alguém de querido: estão te xingando. Essa é a impressão que sempre me dá. O único cara do grupo de cinco pessoas então me disse.
- Posso te fazer uma pergunta? Que curso que tu faz?
- Jornalismo - respondi
- Ah tá... errei então.
As meninas que estavam com ele saíram de perto, rindo. Terminei o meu café, joguei o copo no lixo e pedi pra ele.
- Mas porque? Quais eram as outras chances?
- Ah, tu entrou na sala e eu disse "esse cara faz Economia". Tu tem cara de quem faz economia.
- Sério?
Fiz uma imagem mental de mim mesmo na hora. Casaco cinza, colete preto de lã e camisa branca com quadriculado vermelho e preto e gravata vermelha. Sem contar os óculos austeros e sóbrios e o silêncio que entrei na sala de aula. Ok, talvez eu tenha cara de quem faz Economia mesmo.
Voltando pra sala de aula, a persona tentou puxar assunto comigo. Descobri que ele já tinha feito alguns semestres do bendito curso, e que por isso deveria saber "como são as pessoas que fazem Economia". Quando ele disse "faz tempo que estou no curso, já tô no 7º semestre, quase me formando", eu tive que responder "isso não é parâmetro, eu tô no 12º e ainda falta um ano". Antes que eu ficasse mal-educado, voltei pra minha classe solitária e pras minhas divagações.
Fiquei a segunda metade da aula viajando nisso. É engraçado a imagem que a gente pinta da gente. Relendo o penúltimo post do blog, eu posso passar por adolescente, por fã de moda, por fã de rock and roll, por nerd, por fã alienado de Woody Allen, por um monte de coisas... mas aluno de Economia foi algo que me pegou de surpresa.
Dá até uma vontadezinha de perguntar: como você me enxerga?
Eu pessoalmente tenho sérios problemas como as pessoas me veem. É tudo uma questão de exposição, e quando você se expõe pessoalmente, na internet, em blog, Twitter, Facebook, Tumblr, dando opinião, concordando, falando besteira, tuitando bêbado... não há como prever o que as pessoas esperam de você. De repente, você é os seus links. Você é a roupa que está usando, as pessoas que está cumprimentando, o cigarro que está fumando, ou a cerveja que está bebendo.
Mas o você offline, que acorda no domingo de manhã com os cabelos horríveis, é só mais um.
Mas vai saber. De repente esse estude Economia mesmo.
Sam não faz Economia. Nem economias.
Segunda aula do semestre. Primeira aula de 'Política e Comunicação Social' do semestre. Décimo-segundo semestre da faculdade de jornalismo. Sexto ano na UCS.
Intervalo.
Depois de viajar profundamente na primeira metade da aula e aterrissar forte na classe quando a professora disse "intervalo", fui pro bar, comprei um cappucino e um Stikadinho e voltei pro bloco para voltar pra sala. Chegando no bloco, parei para ver o painel com a propaganda do concerto sinfônico que ia ter no teatro no dia de hoje, quando um grupo de colegas que estava perto me chama.
- Ô colega... vem aqui um pouquinho.
Importante salientar. Eu não conheço ninguém dessa turma. E odeio ser chamado de colega. Acho o cúmulo da falta de intimidade, mesmo que a pessoa não me conheça. Representa uma distância formal tão grande, que as vezes prefiro que me chamem de cara ou simplesmente me cutuquem. Eu ia ver e atender do mesmo jeito, sério. É que nem chamar alguém de querido: estão te xingando. Essa é a impressão que sempre me dá. O único cara do grupo de cinco pessoas então me disse.
- Posso te fazer uma pergunta? Que curso que tu faz?
- Jornalismo - respondi
- Ah tá... errei então.
As meninas que estavam com ele saíram de perto, rindo. Terminei o meu café, joguei o copo no lixo e pedi pra ele.
- Mas porque? Quais eram as outras chances?
- Ah, tu entrou na sala e eu disse "esse cara faz Economia". Tu tem cara de quem faz economia.
- Sério?
Fiz uma imagem mental de mim mesmo na hora. Casaco cinza, colete preto de lã e camisa branca com quadriculado vermelho e preto e gravata vermelha. Sem contar os óculos austeros e sóbrios e o silêncio que entrei na sala de aula. Ok, talvez eu tenha cara de quem faz Economia mesmo.
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| Aquela cara de ecônomo de respeito |
Voltando pra sala de aula, a persona tentou puxar assunto comigo. Descobri que ele já tinha feito alguns semestres do bendito curso, e que por isso deveria saber "como são as pessoas que fazem Economia". Quando ele disse "faz tempo que estou no curso, já tô no 7º semestre, quase me formando", eu tive que responder "isso não é parâmetro, eu tô no 12º e ainda falta um ano". Antes que eu ficasse mal-educado, voltei pra minha classe solitária e pras minhas divagações.
Fiquei a segunda metade da aula viajando nisso. É engraçado a imagem que a gente pinta da gente. Relendo o penúltimo post do blog, eu posso passar por adolescente, por fã de moda, por fã de rock and roll, por nerd, por fã alienado de Woody Allen, por um monte de coisas... mas aluno de Economia foi algo que me pegou de surpresa.
Dá até uma vontadezinha de perguntar: como você me enxerga?
Eu pessoalmente tenho sérios problemas como as pessoas me veem. É tudo uma questão de exposição, e quando você se expõe pessoalmente, na internet, em blog, Twitter, Facebook, Tumblr, dando opinião, concordando, falando besteira, tuitando bêbado... não há como prever o que as pessoas esperam de você. De repente, você é os seus links. Você é a roupa que está usando, as pessoas que está cumprimentando, o cigarro que está fumando, ou a cerveja que está bebendo.
Mas o você offline, que acorda no domingo de manhã com os cabelos horríveis, é só mais um.
Mas vai saber. De repente esse estude Economia mesmo.
Sam não faz Economia. Nem economias.
Meia-Noite em Paris, Meia-Noite em Casa
Sexta-feira tensa. Festa de aniversário, com algumas pessoas que eu tenho dúvida se sei conviver ainda. Outras, em compensação, adicionam cada vez mais camadas e camadas sobre elas mesmas, e ainda assim eu sinto aquela velha vontade de as descobrir, pouco a pouco. Esse ‘verniz’ que as pessoas colocam sobre si... eu as admiro. Faça bom uso do seu verniz. Seja interessante.
Depois disso, festa. Aqui não vale se prolongar muito, mas vale dizer o que é importante ser dito: ah, como eu queria dançar. E como eu dancei. Impressionante notar um dia depois que gastei apenas R$ 21 e bebi muito. Achei que tomei muito de todos. Tomei suas bebidas, tomei suas atenções, mesmo que por instantes. E acho que tive minha atenção tomada por todos, por instantes também. Eu adoro gente. Que vício.
Sábado de manhã lesado, acordar depois do almoço, minha mãe na porta “pode continuar dormindo, o almoço ta na mesa pra quando tu quiser levantar, só esquentar”. Eu adoro esse momento de dúvida: será que ela ta braba comigo, ou está sendo sincera? Esses dias várias pessoas falaram pra ela, no mesmo dia, que ela era superprotetora em relação aos filhos, que devia deixar eles voarem. Seria a terapia funcionando?
Almocei tarde, arrependido, devia ter partido para o chá. Mais poético; combina mais com ressaca. Agradeci imensamente ao universo por colocar o desenho do Batman no exato horário em que eu acordo de ressaca no sábado, é uma diversão imensa. Assisti em inglês, como sempre faço. É mais divertido, parece mais natural. Fui buscar minha mãe no centro, voltei para a casa, lavei a minha louça e em meia hora, estava na cama de novo.
Esses sábados atravessados são interessantes, eles te ajudam a colocar em perspectiva o que mais importa para você. Eu poderia assistir TV, ver o DVD lacrado que está na minha estante faz tempo, ler o livro também fechado que está ali, ler as muitas revistas que estão sendo consumidas aos poucos, escrever, tentar produzir... mas quando o seu corpo te joga instintivamente na cama, você deve aceitar. Alguém dentro de você quer descansar.
Quando acordei, horas depois, meu irmão estava no quarto dormindo (por sinal, não o vi hoje), meu pai estava roncando na sala e minha mãe havia saído para uma formatura, deixando para mim a tarefa de trocar uma calça em uma loja do shopping. O plano geral ficou claro para mim no momento: cinema. Depois de muito pestanejar, agarrei o celular e disparei as mensagens. “Capitão América, hoje?”. Parti pro banho.
As respostas demoraram a vir, e quando vieram, o fizeram sem muita empolgação. A primeira convidada já tinha assistido, a segunda não se pronunciou, e blá blá blá, a escolha parecia óbvia. “Meia-Noite em Paris”. Woody Allen na tela grande. Estava com o estômago atravessado, almocei tarde, não jantei, cheguei a tirar um copo da estante para tomar água antes de sair, mas nem isso fiz. Deixei em cima da pia. Meu corpo me levou ao meu carro.
No shopping, apenas uma troca inocente de calça me separava de ver Woody Allen na tela grande. Estacionei longe demais e quando cheguei na loja, depois de pegar chuva na cabeça, percebi que não tinha trazido a nota do produto. Tentei conversar na loja para ver se não conseguia trocar só com a etiqueta, mas isso não era possível. E ainda faltava mais de 1h para o filme. A pressa é a inimiga da perfeição, já dizia um Power Point qualquer.
Engraçado que nessa hora tudo parece vir ao mesmo tempo, todas as indecisões da noite, que agora pareciam muito mais fáceis de decidir. Porque não convidei outras pessoas para assistir Capitão América? Porque não voltei para casa para pegar a nota, antes de ter que pagar estacionamento? Porque não deixei para ir no cinema e na loja outro dia? PORQUE NÃO CHEQUEI A NOTA ANTES DE SAIR DE CASA? Dúvidas em maiúsculo, sempre.
Mas né. Acontece. Woody Allen estava me esperando. Depois da indecisão, há sempre um filme esperando. Larguei a sacola calmamente no carro, estacionei ele mais perto, fui comprar o ingresso, encontrei uma amiga de longa data (“vamos combinar alguma coisa essa hora, tô com saudade de vocês!”), comi um brigadeiro para alimentar a lombriga – não tinha jantado, lembra – e fui assistir o filme. Poltrona F13, sessão cheia.
E que filme lindo. Descrevi tudo o que aconteceu até agora para agora tentar descrever o choque que foi o início do filme. Sabe a sensação de estar em casa? Aquele aconchego? Eu nunca estive em Paris, óbvio, mas o jeito que Woody Allen a retrata no início do filme, da mesma maneira como ele fez com Nova York em óbvio, “Manhattan”, me faz acreditar que Woody Allen poderia ser um guia turístico tão bom quanto cineasta.
Depois da introdução característica, nos dizendo que “a história acontece aqui”, vem os créditos, no início do filme, com o áudio do casal principal (até o momento) discutindo. Se antes era “a história acontece aqui”, agora era “a história acontece com eles”. Ela, fútil, vazia, histérica, e obviamente, linda. Ele, nervoso, inseguro, perdido, Woody Allen. Era o segundo aconchego da noite: era um filme com um dos meus melhores amigos, de novo.
Dali pra frente, é como se te colocassem um cobertor sobre as pernas e entregassem uma xícara de chocolate quente. A história se desenvolve fácil, como a sinopse dela entrega facilmente: ao badalar da meia-noite, o escritor Gil Pender embarca em um táxi que o leva a Paris dos anos 20, onde ele encontre os seus ídolos, uma nova musa, e acima de tudo, significado para sua vida indecisa.
Woody Allen é mestre em tudo. Sua descrição dos personagens os deixa críveis, tão críveis que é perfeitamente possível de aceitar que um escritor do “milênio seguinte”, como ele mesmo se descreve, consiga conviver nas madrugadas com personagens da década de 20 tão singulares, como Scott Fitzgerald, Cole Porter e Salvador Dali. Afinal, à noite, tudo pode acontecer, não?
Aos poucos, Gil começa a trazer para a sua vida real os ensinamentos da década de 20, provando que verdadeiramente, as respostas para as nossas dúvidas estão sempre dentro de nós, basta prestar atenção. É a teoria da ‘espada do amor-próprio’, de Scott Pilgrim, a última arma que encontramos dentro de nós para resolver tudo. Quem disse que quadrinhos não ensinam nada?
Secretamente torcemos para que ele seja feliz e que consiga viver plenamente ao lado dos seus heróis. Mas sabemos que o certo é ele viver plenamente com ele mesmo, no seu tempo. Como em qualquer filme de Woody Allen, desilusão vira um recomeço, uma nova chance para começar aplicando o que aprendeu do último fim. E quando o personagem principal acaba o filme sorrindo, sentimos aquele aconchego bom outra vez.
A vida é dura e cheia de percalços. Ás vezes você passa um sábado atravessado, não dorme direito, come mal, esquece as coisas, mas tem que se apegar ao que é bom e faz de melhor. Ao que faz de você “singular”. Ao seu “verniz”, suas camadas. Se você se veste com coletes de lã que o deixam bem mais velho do que é, mas ainda assim, o faz com graça... faça! Não há nada mais bonito do que um charme só seu, que ninguém pode copiar.
Voltei para casa com um sorriso no rosto. Nem liguei o rádio no carro, só para deixar soando na minha cabeça a trilha sonora do filme, que todos saíram assobiando no final. Essa é a maior bilheteria de Woody Allen até hoje. Depois de alguns filmes irregulares, o diretor acertou a mão novamente, e já está gravando o próximo filme, onde novamente vai atuar. Será que teremos dois Woody Allens em “Bop Decameron”? Seria bom demais.
Cheguei em casa, minha mãe não havia voltado ainda e meu pai e irmão já estavam dormindo. Abri a geladeira e peguei a garrafa de vinho branco que já estava no fim. Despejei o conteúdo no copo que abandonei em cima da pia, antes de fugir para o cinema. Com o vinho no estômago vazio, li o jornal até a cabeça tontear. Era hora de escrever. Fazer o que se faz de bom. O meu táxi da meia-noite estava passando.
E passar a meia-noite em Paris com Woody Allen é passar a meia-noite se sentindo em casa.
Sam ainda vai conhecer Paris à meia-noite
Depois disso, festa. Aqui não vale se prolongar muito, mas vale dizer o que é importante ser dito: ah, como eu queria dançar. E como eu dancei. Impressionante notar um dia depois que gastei apenas R$ 21 e bebi muito. Achei que tomei muito de todos. Tomei suas bebidas, tomei suas atenções, mesmo que por instantes. E acho que tive minha atenção tomada por todos, por instantes também. Eu adoro gente. Que vício.
Sábado de manhã lesado, acordar depois do almoço, minha mãe na porta “pode continuar dormindo, o almoço ta na mesa pra quando tu quiser levantar, só esquentar”. Eu adoro esse momento de dúvida: será que ela ta braba comigo, ou está sendo sincera? Esses dias várias pessoas falaram pra ela, no mesmo dia, que ela era superprotetora em relação aos filhos, que devia deixar eles voarem. Seria a terapia funcionando?
Almocei tarde, arrependido, devia ter partido para o chá. Mais poético; combina mais com ressaca. Agradeci imensamente ao universo por colocar o desenho do Batman no exato horário em que eu acordo de ressaca no sábado, é uma diversão imensa. Assisti em inglês, como sempre faço. É mais divertido, parece mais natural. Fui buscar minha mãe no centro, voltei para a casa, lavei a minha louça e em meia hora, estava na cama de novo.
Esses sábados atravessados são interessantes, eles te ajudam a colocar em perspectiva o que mais importa para você. Eu poderia assistir TV, ver o DVD lacrado que está na minha estante faz tempo, ler o livro também fechado que está ali, ler as muitas revistas que estão sendo consumidas aos poucos, escrever, tentar produzir... mas quando o seu corpo te joga instintivamente na cama, você deve aceitar. Alguém dentro de você quer descansar.
Quando acordei, horas depois, meu irmão estava no quarto dormindo (por sinal, não o vi hoje), meu pai estava roncando na sala e minha mãe havia saído para uma formatura, deixando para mim a tarefa de trocar uma calça em uma loja do shopping. O plano geral ficou claro para mim no momento: cinema. Depois de muito pestanejar, agarrei o celular e disparei as mensagens. “Capitão América, hoje?”. Parti pro banho.
As respostas demoraram a vir, e quando vieram, o fizeram sem muita empolgação. A primeira convidada já tinha assistido, a segunda não se pronunciou, e blá blá blá, a escolha parecia óbvia. “Meia-Noite em Paris”. Woody Allen na tela grande. Estava com o estômago atravessado, almocei tarde, não jantei, cheguei a tirar um copo da estante para tomar água antes de sair, mas nem isso fiz. Deixei em cima da pia. Meu corpo me levou ao meu carro.
No shopping, apenas uma troca inocente de calça me separava de ver Woody Allen na tela grande. Estacionei longe demais e quando cheguei na loja, depois de pegar chuva na cabeça, percebi que não tinha trazido a nota do produto. Tentei conversar na loja para ver se não conseguia trocar só com a etiqueta, mas isso não era possível. E ainda faltava mais de 1h para o filme. A pressa é a inimiga da perfeição, já dizia um Power Point qualquer.
Engraçado que nessa hora tudo parece vir ao mesmo tempo, todas as indecisões da noite, que agora pareciam muito mais fáceis de decidir. Porque não convidei outras pessoas para assistir Capitão América? Porque não voltei para casa para pegar a nota, antes de ter que pagar estacionamento? Porque não deixei para ir no cinema e na loja outro dia? PORQUE NÃO CHEQUEI A NOTA ANTES DE SAIR DE CASA? Dúvidas em maiúsculo, sempre.
Mas né. Acontece. Woody Allen estava me esperando. Depois da indecisão, há sempre um filme esperando. Larguei a sacola calmamente no carro, estacionei ele mais perto, fui comprar o ingresso, encontrei uma amiga de longa data (“vamos combinar alguma coisa essa hora, tô com saudade de vocês!”), comi um brigadeiro para alimentar a lombriga – não tinha jantado, lembra – e fui assistir o filme. Poltrona F13, sessão cheia.
E que filme lindo. Descrevi tudo o que aconteceu até agora para agora tentar descrever o choque que foi o início do filme. Sabe a sensação de estar em casa? Aquele aconchego? Eu nunca estive em Paris, óbvio, mas o jeito que Woody Allen a retrata no início do filme, da mesma maneira como ele fez com Nova York em óbvio, “Manhattan”, me faz acreditar que Woody Allen poderia ser um guia turístico tão bom quanto cineasta.
Depois da introdução característica, nos dizendo que “a história acontece aqui”, vem os créditos, no início do filme, com o áudio do casal principal (até o momento) discutindo. Se antes era “a história acontece aqui”, agora era “a história acontece com eles”. Ela, fútil, vazia, histérica, e obviamente, linda. Ele, nervoso, inseguro, perdido, Woody Allen. Era o segundo aconchego da noite: era um filme com um dos meus melhores amigos, de novo.
Dali pra frente, é como se te colocassem um cobertor sobre as pernas e entregassem uma xícara de chocolate quente. A história se desenvolve fácil, como a sinopse dela entrega facilmente: ao badalar da meia-noite, o escritor Gil Pender embarca em um táxi que o leva a Paris dos anos 20, onde ele encontre os seus ídolos, uma nova musa, e acima de tudo, significado para sua vida indecisa.
Woody Allen é mestre em tudo. Sua descrição dos personagens os deixa críveis, tão críveis que é perfeitamente possível de aceitar que um escritor do “milênio seguinte”, como ele mesmo se descreve, consiga conviver nas madrugadas com personagens da década de 20 tão singulares, como Scott Fitzgerald, Cole Porter e Salvador Dali. Afinal, à noite, tudo pode acontecer, não?
Aos poucos, Gil começa a trazer para a sua vida real os ensinamentos da década de 20, provando que verdadeiramente, as respostas para as nossas dúvidas estão sempre dentro de nós, basta prestar atenção. É a teoria da ‘espada do amor-próprio’, de Scott Pilgrim, a última arma que encontramos dentro de nós para resolver tudo. Quem disse que quadrinhos não ensinam nada?
Secretamente torcemos para que ele seja feliz e que consiga viver plenamente ao lado dos seus heróis. Mas sabemos que o certo é ele viver plenamente com ele mesmo, no seu tempo. Como em qualquer filme de Woody Allen, desilusão vira um recomeço, uma nova chance para começar aplicando o que aprendeu do último fim. E quando o personagem principal acaba o filme sorrindo, sentimos aquele aconchego bom outra vez.
A vida é dura e cheia de percalços. Ás vezes você passa um sábado atravessado, não dorme direito, come mal, esquece as coisas, mas tem que se apegar ao que é bom e faz de melhor. Ao que faz de você “singular”. Ao seu “verniz”, suas camadas. Se você se veste com coletes de lã que o deixam bem mais velho do que é, mas ainda assim, o faz com graça... faça! Não há nada mais bonito do que um charme só seu, que ninguém pode copiar.
Voltei para casa com um sorriso no rosto. Nem liguei o rádio no carro, só para deixar soando na minha cabeça a trilha sonora do filme, que todos saíram assobiando no final. Essa é a maior bilheteria de Woody Allen até hoje. Depois de alguns filmes irregulares, o diretor acertou a mão novamente, e já está gravando o próximo filme, onde novamente vai atuar. Será que teremos dois Woody Allens em “Bop Decameron”? Seria bom demais.
Cheguei em casa, minha mãe não havia voltado ainda e meu pai e irmão já estavam dormindo. Abri a geladeira e peguei a garrafa de vinho branco que já estava no fim. Despejei o conteúdo no copo que abandonei em cima da pia, antes de fugir para o cinema. Com o vinho no estômago vazio, li o jornal até a cabeça tontear. Era hora de escrever. Fazer o que se faz de bom. O meu táxi da meia-noite estava passando.
E passar a meia-noite em Paris com Woody Allen é passar a meia-noite se sentindo em casa.
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| A musa Adriana (Marion Cotillard) e Gil (Owen Wilson) |
Sam ainda vai conhecer Paris à meia-noite
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