Há uma frase sobre os ateístas muito interessante que acho que expõe a questão mais essencial sobre não acreditar em religião, qualquer que seja ela: “O problema do ateísmo é que ele tira Deus da vida das pessoas, mas não coloca nada no lugar”. Essa frase, junto com a outra clássica “eu gosto de Deus, meu problema é o fã-clube dele” expressam praticamente tudo o que eu penso sobre religião.
Nesses momentos de angústia, como os citados no último post, eu constantemente me pego pensando de onde tirar forças. Normal, é natural do ser humano que já desistiu de desistir querer superar seus obstáculos. E quando parece que nada dá certo, é mais natural ainda procurar esse esforço do lado de fora, e tentar trazer um pouco dessa energia pra dentro da gente.
Muitos enfiam a cabeça no trabalho, muitos recorrem a religião, muitos recorrem a bebida... Eu pessoalmente fujo do trabalho sempre que possível, só misturo bebida com bebida (o que já faz mal o suficiente) e já deixei de acreditar numa força superiora divina faz tempo, se é que um dia já acreditei. Nessas horas de dúvida então, a quem recorrer?
Dois casos breves para contextualizar meu ecossistema familiar: minha mãe sempre foi muito religiosa, a vida toda trabalhando em escolas católicas e com uma educação senão rígida, baseada nos preceitos católicos, seguindo sempre a máxima de que “Deus tá vendo”. Os poucos momentos de dúvida que já vi dela foram sempre momentos críticos, quando as coisas realmente parecem perdidas. Mas fora isso, sua fé sempre lhe serviu bem.
Meu irmão é mais como eu. Se eu deixei de acreditar em uma força maior com o tempo (ok, eu já rezei toda noite antes de dormir) ele já cresceu acreditando cada vez menos nisso. Como nossa mãe sempre diz, “vocês acreditaram muito pouco tempo em Papai Noel”. Quem dirá em Deus então. No entanto, meu irmão é escoteiro e lá no juramento deles está em suas obrigações claramente: “servir a Deus, a pátria e ao próximo”.
Querendo ou não, Deus está ali, escondidinho, mas está. O que não quer dizer que meu irmão precise ser reverente a religião, apenas que Deus foi apresentado a ele de uma forma que não entre em conflito com suas crenças (ou não-crenças, no caso). É o caso da frase lá de cima: no lugar de Deus, há outra força maior em seu lugar. Alguém que seja mais fácil para ele acreditar.
Mas ok, e eu?
Minha força motriz sempre foi escrever. Contar histórias. Descrever o mundo ao meu redor. Apesar de ser minha diretriz básica, porém, isso não me move. Os desabafos normalmente vem depois das horas de angústia, e não durante elas. Eles são a conseqüência. E quando o bicho pega, é necessário algo pra continuar acreditando, já que de nada adianta escrever sobre a angústia se a gente não sai dela.
Se fosse para responder a pergunta do post então, o que me move basicamente é a música. E basicamente não no sentido de pouco, e sim de que não preciso muito além disso. Há poucas coisas que conseguem me arrancar o que há de mais profundo lá dentro, e a música é realmente uma delas.
O lamento nostálgico do Arcade Fire em “Wake Up” costuma dar um nó na minha garganta toda vez que eu escuto. Há um sentimento tão forte de preservação da inocência da infância naquela música que é impossível não se emocionar toda vez que você está sensível e escuta ela. Não deixa de ser uma fuga para um sentimento infantil, onde as coisas davam mais certo e eram menos angustiantes, claro. Mas não vamos julgar ninguém aqui.
Outra que sempre me emociona e me dá forças é “Give It All Back”, do Noah and the Whale. Na letra, o vocalista Charlie Fink conta a história da sua banda na época do colégio: os ensaios em casa quando os pais estavam fora, o primeiro show no colégio em que tocaram Beatles e a certeza de que fizeram as coisas do seu jeito. Confesso que já tremi na direção cantando trancado no trânsito “and I will give it all back just to do it again, turn back time, be with my friends”.
E por fim, ele. The Boss. Se para mim, música é religião, Bruce Springsteen é o meu pastor. Aliás, pastor não. Profeta. De mim e de tantos outros, claro, mas na condição de fã, posso afirmar com certeza: como é bom ser fã de Bruce Springsteen. O grande mérito de Bruce sempre foi cantar o cenário que seu fã vivia: a vida difícil em New Jersey, o espírito americano, tudo o que eu não poderia sentir aqui, muitos quilômetros de distância. Mas música é universal, e versos como a abertura de “No Surrender”, me fazem acreditar cada vez mais nisso:
“we busted out of class, had to get away from those fools
we learned more from a three minute record than we ever learned in school”
Fé é o conceito de acreditar em algo. Normalmente confundimos esse algo com religião, mas não. Há escolhas. E se até os Ramones acreditavam em milagres, não há porque não tirar suas forças de uma guitarra estridente e uma bateria barulhenta.
O que move você? Não importa. Desde que realmente mova.
Agora saia da frente desse computador e vá fazer algo!
Se Bruce Springsteen é o Boss, Sam aceita ser estagiário
O ano é novo, mas as obrigações são velhas.
Chegando o fim de ano, o universo inteiro entra em clima de 1) lista de melhores do ano 2) expectativas para o ano que vem. Li uma tira da Mafalda hoje que dizia que enquanto as pessoas esperam um ano melhor, os anos devem esperar pessoas melhores também.
O fato é que há uma certa “urgência” em querer provar pra si mesmo e para os outros (principalmente aos outros) que o ano que passou sim, valeu a pena, e que o ano que virá, se Deus quiser, será melhor. Como se dependesse de outra pessoa além de nós o rendimento do nosso ano.
O meu 2011 foi intenso. Intenso na concepção própria da palavra e em todas as suas variações silábicas: forte, bem vivido, emocionado, mas com momentos tanto “in”, introspectivos, reflexivos, momentos de parar, pensar e aprender; quanto momentos “tensos”, aqueles em que te falta ar, chão e coração.
Analisando de forma fria o espectro do ano todo, foram longos momentos de luto intercalados com situações de intensa alegria. É injusto eu deixar de lado os momentos dignos de um “FODA!” que aconteceram esse ano, mas é injusto dizer que não houveram nuvenzinhas negras, ainda mais de uns dois meses pra cá.
Mas essa reflexão toda viria tranqüila, não fosse a maldita urgência do fim de ano de ter que parar pra pensar nos últimos 12 meses e fazer um balanço final do que foi. A necessidade parece fim de cadeira de faculdade ás vezes: é como se estivesse acabando o prazo de entregar aquele relatório com o número de vezes que você perdeu a linha esse ano e quantas vezes você fez tudo o que tinha que fazer no trabalho e quantas vezes... CHEGA.
É um momento de transformação? É.
É fim de ano? É.
É uma nova chance para recomeçar? É.
Assim como todo dia que vem depois do outro. A cada 24 horas pode ser ano novo para você, mas ninguém percebe isso. E na urgência por resultados, esperamos respostas, acumulamos angústia, tomamos chá de cadeira do relógio. E está feita a depressão do fim do ano.
São notas de fim de semestre, décimo terceiro salário, definição de férias, presente de amigo secreto, perder a barriguinha pra praia... o fim do ano parece feito para fazer você correr. Todos os eventos te colocam em uma corrida contra o relógio, como se sua rotina normal já não o obrigasse a isso. Mas então, pergunte-se: em que parte do contrato diz que se você não cumprir os seus compromissos de fim de ano, 2012 não começará?
A cada 24 horas, uma nova chance para recomeçar. Tudo a seu tempo. Pense nisso.
Sam vai comemorar o ano novo hoje depois da meia-noite
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