O inferno astral são os outros

Dizem os (ênfase na ironia aqui) "entendidos" em astrologia e afins que inferno astral é o período de um mês antes do seu aniversário em que tudo dá errado. As coisas não dão certo, o universo não colabora, o pneu fura, a calça não cabe, o mês sobra pro salário, seu time perde, enfim... tudo o que você não queria que acontecesse, acontece. Esse período comumente deveria acontecer um mês antes do seu aniversário ou no mês contrário ao seu signo solar (?). Ou seja, se você é de Leão e o seu signo contrário é sei lá, Peixes, prepare-se para colocar a juba de molho (há, sacou a escolha meticulosa dos signos?) durante fevereiro e março, porque nesse mês, meu filho, o bicho vai pegar. Mas né, são convenções e convenções que nem eu que leio o meu horóscopo todo dia acredito fielmente.

Mas as vezes a gente se obriga a acreditar em alguma coisa.

Envelheci muito nos últimos dias. Lembro de um dia em especial que, saindo do trabalho, me olhei no espelho do elevador e me assustei. O elevador lá do prédio tem uma luz forte que fica bem em cima de quem se olha no espelho, então dá para ver claramente todas as marcas no rosto da pessoa. E cara... deu vontade de perguntar: "quem é esse no espelho?". Pode parecer idiota, mas me peguei observando as marcas embaixo dos olhos e pensando quando fui a última vez que madruguei por não conseguir dormir ou dormi pouco. Mas aquilo ali não era falta de sono, era algo que estava acontecendo com os olhos abertos. Era desgaste e cansaço.

Briguei muito nesses últimos dias. Discuti muito. Falei, falei, falei, falei. E claro, ouvi, ouvi, ouvi, ouvi. Falei, falei falei. Ouvi, ouvi, ouvi. A repetição é necessária pra entender a gravidade e o tamanho da coisa toda (e como não vou falar o assunto, contentem-se com a repetição e sua imaginação, HA!), e como em qualquer discussão, chegamos a um ponto em que os dois 'debatedores' chegaram a mesma dúvida, tão grande quanto a repetição: "mas, porque a gente tá brigando mesmo?".

Num desses dias de debates (parecia escolha de presidente, sério) o meu horóscopo ironicamente me jogou na cara: "as vezes tomamos decisões no calor da hora, sem pensar muito, tamanha a urgência que elas necessitam para ser tomadas... (ufa, pensei eu) ...mas (DUH!) ...não seria momento de demorar um pouco mais para pensar no que foi dito?". Se não foi isso, foi quase isso. Horóscopos são genéricos mas não fogem muito do texto básico. Na hora, pensei naquela velha história de que a gente sempre pede conselho torcendo pra ouvir o que quer ouvir. Ali estava eu, na situação inversa: pedindo (?) conselho e ouvindo o que eu não queria ouvir (relaxa, pensa, calma) mas sabendo que era o que eu precisava saber (PARA DE BATER O PÉ E TE AQUIETA!). E porra, se até o horóscopo tava me falando aquilo...

Como diria uma outra conhecida, feliz ano novo a gente diz no aniversário e não na virada do ano, porque é no aniversário que acrescentamos um novo ano à nossa vida. Não sei se ela já leu sobre astrologia e afins, mas é bem isso mesmo. O aniversário é o fim do ciclo solar, e como todo fim, tem o seu reinício logo depois. É o fim de uma jornada que culmina na celebração de mais um ano. Mas como diz o ditado, "o que importa é a jornada, e não o destino". Logo, a aproximação do aniversário é o período pra parar pra pensar no que foi feito até então, no que está errado, no que falta corrigir e claro, fazer tudo isso, pra entrar no novo ciclo solar de alma limpa e roupa branca, que nem ano novo mesmo. E sem precisar pular as sete ondinhas e perder as Havaianas (ou o celular).

Acreditar pode ser besteira, mas não custa parar pra pensar nisso de vez em quando. Fazer um balanço da vida, do que tá certo ou não tá, e tentar corrigir. As vezes até mesmo cutucar, até achar algo. Uma hora ou outra as tensões tem que dar as caras, e quando elas fazem isso no momento errado, é triste cara. É como uma bomba: quando explode, atinge só quem tá perto (e muitas vezes quem nem merecia ser atingido - frases da discussão). E fazer isso antes do aniversário é uma boa, afinal, não é bom estar brigado com alguém num período em que você quer todo mundo que você gosta perto de ti, não? Esse foi um dos principais motivos para eu tentar corrigir as coisas. Ok, EU DEMOREI HORRORES e admito na maior humildade, mas tô tentando. E espero conseguir.

(Na real, eu nem estou no inferno astral ainda, já que se for um mês antes do aniversário, o meu começa no dia 15. Mas então, que eu brigue e conserte tudo o que tenha pra brigar antes disso, entre na hibernação do inferno astral para pensar na vida e comece o ano novo centrado, pensando em mim antes de tudo. Se funcionar assim, beleza)

O inferno são os outros, dizia Sartre. Declarando isso, o filósofo francês falava da nossa costumeira ação de culpar os outros pelos nossos erros, sem considerar que nós mesmos não somos perfeitos e tão falhos quanto qualquer um. Sem o julgamento das nossas ações, colocamos a culpa na sociedade, no universo, no horóscopo e em tudo que possamos culpar pelo inferno. É mas ou menos como quando Woody Allen diz em Manhattan que o ser humano tem mania de criar neuroses e probleminhas para si só para ter algo com o que se preocupar ao invés de olhar para os problemas do universo em um contexto geral, podendo aqui ser o universo seus próprias problemas - mas os problemas de verdade.

São dois pensamentos diferentes mas complementares na ideia de que sempre tentamos adiar ou nos eximir da culpa. Mas negar isso é um passo atrás. É aceitar a ideia de que o 'inferno astral' existe e é um impossível de ser mudado. Como o mesmo Woody Allen tem que escutar no fim de Manhattan, ao saber que sua namorada colegial adolescente vai passar uma temporada na Inglaterra e morrendo de medo de que ela não vá voltar ou que volte diferente: "você tem que ter mais fé nas pessoas". O inferno astral podem ser os outros, mas nem por isso não devemos olhar pra gente na hora de tentar resolver os problemas. Se Sartre e Woody Allen falaram, quem sou eu pra negar?


"...closing time, every new beginning comes from some other beginning's end..."

Fecha a conta, passa a régua e começa de novo. Aproveita que agora é o momento.

Sam acredita em horóscopos, biscoito da sorte, borra de chá e bandas dos anos 90

"Desculpa, mas, você estuda Economia?"

Que me desculpem os normais, mas ter neuroses é fundamental.

Segunda aula do semestre. Primeira aula de 'Política e Comunicação Social' do semestre. Décimo-segundo semestre da faculdade de jornalismo. Sexto ano na UCS.

Intervalo.

Depois de viajar profundamente na primeira metade da aula e aterrissar forte na classe quando a professora disse "intervalo", fui pro bar, comprei um cappucino e um Stikadinho e voltei pro bloco para voltar pra sala. Chegando no bloco, parei para ver o painel com a propaganda do concerto sinfônico que ia ter no teatro no dia de hoje, quando um grupo de colegas que estava perto me chama.

- Ô colega... vem aqui um pouquinho.

Importante salientar. Eu não conheço ninguém dessa turma. E odeio ser chamado de colega. Acho o cúmulo da falta de intimidade, mesmo que a pessoa não me conheça. Representa uma distância formal tão grande, que as vezes prefiro que me chamem de cara ou simplesmente me cutuquem. Eu ia ver e atender do mesmo jeito, sério. É que nem chamar alguém de querido: estão te xingando. Essa é a impressão que sempre me dá. O único cara do grupo de cinco pessoas então me disse.

- Posso te fazer uma pergunta? Que curso que tu faz?
- Jornalismo - respondi
- Ah tá... errei então.

As meninas que estavam com ele saíram de perto, rindo. Terminei o meu café, joguei o copo no lixo e pedi pra ele.

- Mas porque? Quais eram as outras chances?
- Ah, tu entrou na sala e eu disse "esse cara faz Economia". Tu tem cara de quem faz economia.
- Sério?

Fiz uma imagem mental de mim mesmo na hora. Casaco cinza, colete preto de lã e camisa branca com quadriculado vermelho e preto e gravata vermelha. Sem contar os óculos austeros e sóbrios e o silêncio que entrei na sala de aula. Ok, talvez eu tenha cara de quem faz Economia mesmo.

Aquela cara de ecônomo de respeito

Voltando pra sala de aula, a persona tentou puxar assunto comigo. Descobri que ele já tinha feito alguns semestres do bendito curso, e que por isso deveria saber "como são as pessoas que fazem Economia". Quando ele disse "faz tempo que estou no curso, já tô no 7º semestre, quase me formando", eu tive que responder "isso não é parâmetro, eu tô no 12º e ainda falta um ano". Antes que eu ficasse mal-educado, voltei pra minha classe solitária e pras minhas divagações.

Fiquei a segunda metade da aula viajando nisso. É engraçado a imagem que a gente pinta da gente. Relendo o penúltimo post do blog, eu posso passar por adolescente, por fã de moda, por fã de rock and roll, por nerd, por fã alienado de Woody Allen, por um monte de coisas... mas aluno de Economia foi algo que me pegou de surpresa.

Dá até uma vontadezinha de perguntar: como você me enxerga?

Eu pessoalmente tenho sérios problemas como as pessoas me veem. É tudo uma questão de exposição, e quando você se expõe pessoalmente, na internet, em blog, Twitter, Facebook, Tumblr, dando opinião, concordando, falando besteira, tuitando bêbado... não há como prever o que as pessoas esperam de você. De repente, você é os seus links. Você é a roupa que está usando, as pessoas que está cumprimentando, o cigarro que está fumando, ou a cerveja que está bebendo.

Mas o você offline, que acorda no domingo de manhã com os cabelos horríveis, é só mais um.

Mas vai saber. De repente esse estude Economia mesmo.

Sam não faz Economia. Nem economias.