Era Uma Vez, na 8ª série... - Parte I

Senta aí que o titio Cometa vai contar uma história.

E ela começa mais ou menos assim...

Era primavera, provavelmente setembro ou outubro de 2002. As flores desabrochavam, os pintassilgos cantavam e os nerds iam bem nas provas. A 8ª série estava mais divertida do que nunca.

Sam e seu grande amigo Big Eddy (que chamaremos daqui pra frente de B. Eddy) sentavam nas duas primeiras classes da segunda fila vindo da janela. Sempre bem nas notas, jogando videogame nos fins de semana e mantendo seus pobrezinhos corações longe de qualquer paixão, os dois nerds viviam felizes. Eles, seus Gameboys e suas cartas de Magic.

Porém, era primavera. E com ela vinha o pólen, os jardins floridos... e os feromônios. E foi assim que uma série de paixões se sucedeu, naquela primavera de 2002, mudando a vida dos nossos personagens... para sempre.

1- Skid Row e Symphony X

Sam e B. Eddy sentavam ao lado de um colega cabeludo e estranho que tocava baixo. A coisa mais rock and roll que os dois escutavam na época era Linkin Park e Limp Bizkit. Era o auge do new metal e os dois não tinham muita culpa: Sam passava o dia inteiro assistindo MTV e B. Eddy tinha o dinheiro para comprar os CDs que Sam sugeria, logo, era isso que eles escutavam e ponto final. Sam ainda tinha recentemente comprado o primeiro CD do Gorillaz, mas porque era desenho animado, e a esta altura, assim como todos os seus semelhantes, os dois já deviam ter o CD com a trilha sonora do Pokémon. Ah, e os dois ouviam Nirvana. Eca.

Foi quando o colega que sentava ao lado deles sugeriu outras bandas para eles escutarem. Os dois já conheciam por cima algo de Led Zeppelin, AC/DC, Ramones, mas não tinham se puxado para aprender ainda. Então de repente foram questionados: "vocês já ouviram Skid Row e Symphony X"? Os dois não conheciam direito (Sam disse que já tinha ouvido falar, mas Sam mentia muito) e foram atrás. E o mais impressionante foi que os dois gostaram. E melhor ainda: Sam se apaixonou pelo metal progressivo do Symphony X, enquanto B. Eddy adorou o hard rock do Skid Row. Hoje é exatamente o contrário, o que é engraçado. Mas o importante é que ali tinha sido plantada a sementinha do rock and roll nos dois. Os dois meninos, que sabiam imitar direitinho o Mike Shinoda e o Chester Bennington do Linkin Park, finalmente estavam ouvindo algo decente.

Mais ou menos nessa época também, uma outra banda surgiu na vida de Sam. Foi assistindo a reprise de um VMA (eu já disse que ele passava o dia inteiro vendo MTV?) que ele viu a banda que seria modelo de vida para ele. A música pesada. A postura nerd. As roupas. Aquele W enorme no fundo, com jatos de fogo cortando o palco. E, acima de tudo, o detalhe que fez Sam se identificar com aqueles quatro meninos em cima do palco de uma maneira nunca antes vista...

Eles usavam óculos.

E foi assim que Sam começou a ouvir Weezer (calculem o efeito disso na cabeça de um menino de 14 anos. Foi FODA!)

Porém, a vida na 8ª série não é só rosas. Há provas, colegas chatos, aulas de educação física, e claro... há as trocas de lugares.

2- Meninas? BUUUUUU!

E foi assim que aconteceu: em um certo dia, numa manhã de quinta ou sexta, não importa, uma professora conselheira resolveu trocar a turma de lugar. E Sam saiu da primeira classe e foi parar na última, na segunda fila vindo da parede. Simplesmente inverteram totalmente a sua posição na sala. E Sam foi parar em meio a um monte de... meninas.

Sam não sabe em que momento que aconteceu, mas quando viu, estava se dando bem com as meninas. Especialmente aquela mocinha do seu lado, de cabelos encaracolados e pele branquinha (mas que corava quando ficava envergonhada ou ria demais). E os seus olhos. Ah... quão belos eram! Mas claro, Sam não sabia que pensava em tudo aquilo quando via ela. Para Sam, era só uma menina.

Talvez... tenha sido quando Sam escreveu um texto enorme pra aula de literatura. Isso, acho que foi. Enquanto muitos penaram para preencher uma página, Sam tinha escrito cinco ou seis páginas com uma história que envolvia uma festa de formatura, um assassinato e letras do Green Day e do Guns And Roses. Ele era maluco. Ficou realmente empolgado com a história, queria que todos da sala a escutassem, mas tinha vergonha de ler ela. Foi aí que a menina ao seu lado disse "deixa que eu leio".

(Na verdade ela disse: "Ah é, tu não vai ler? Então daqui que eu leio!" - e arrancou o caderno da mão de Sam. Ele sempre gostou de meninas de fibra, não adianta...)

Logo, ela elogiu Sam pela sua escrita. Sam gostou da agenda dela. Ela disse que tinha uma agenda nova todo ano. Sam começou a perceber que agendas eram algo importante. Ele se apresentou: "Meu nome é Sam". Ela também: "Meu nome é Bárbara". =)

Mas claro, Sam tinha outras amigas meninas, que ele conhecia há mais tempo. Havia uma certa galera rock and roll dentro da turma que ouvia Ramones. MUITO Ramones. Sam ainda não estava nesse nível de punk (ele ouvia Green Day) mas gostava daquela coisa toda barulhenta e do it yourself. Foi quando uma das meninas sugeriu "Tu gosta de escrever? Já tentou escrever músicas?".

Aquilo foi o início de uma nova aventura para Sam. Rimas, melodia, música, como ele nunca pensou nisso antes?! Sam começou a compor letras (ou o quer que fossem aquelas rimas estranhas que ele fazia) diariamente, em todo lugar, em cima de qualquer idéia. Logo, eram cadernos espalhados pelo quarto, na cabeceira da cama, sempre acompanhados de uma caneta para o momento em que a inspiração viesse.

E claro, Sam as vezes pensava nela. E escrevia sobre isso.

3- Festinha na Cobertura

Sam começou a ter um grande repertório de letras. Algumas mais melosas, outras não, mas tudo girando em torno de música, festa e garotas. Ele estava escrevendo rock and roll poxa, não tinha como fugir disso. Muitas delas surgiam em rascunhos que acabavam por tomar um destino qualquer, como a parte de cima da estante, a parte de baixo da cama, ou a parte interna da pasta de Sam.

Sam havia escrito uma "música" na qual declarava a sua paixão a uma "musa inspiradora". E essa canção foi uma das que foi parar dentro de sua mochila. Então, numa bela aula de geografia do fim do ano, daquelas em que tem apenas cinco alunos e a professora na sala de aula, a "musa inspiradora" resolveu mexer na pasta de Sam, já que ninguém tinha nada para fazer.

Medo. Muito medo.

Sam não sabia o que fazer! Ela ia descobrir tudo! Vai que ela gostasse dele também e eles acabassem tendo um final realmente feliz?! Isso não podia acontecer! Ele tinha que esconder aquela letra de alguma maneira!

(Já perceberam que ao invés de fazer a coisa mais fácil, a gente vai sempre pelo caminho mais díficil, só pra fazer um drama todo e voltar ao início? Pensem nisso...)

Sam então arrancou a pasta da mão dela, catou a letra lá dentro, a amassou e devolveu a pasta. Ela pediu "o que tu separou aí?" e ele "nada... só... algo". "Algo que pode mudar a nossa relação pra sempre", Sam devia ter pensado. Bocó.

Ela olhou as letras dele e achou o máximo. Ok, ela pode ter sido educada, mas ela realmente gostou. Ela pediu para Sam mandar as letras dele para ela, assim ela poderia ler todas. "Todas as letras?" pediu Sam. "Sim" disse ela. "Todas as letras."

Sam passou aquela tarde trancado em casa digitando todas as letras que só possuía escritas a mão e revisando as que já estavam digitadas no computador. Colocou um comentário ao lado de cada uma delas, explicando o porque da canção, a idéia atrás dela, a inspiração e detalhes assim. Quando acabou todas, só faltava uma a ser colocada no arquivo: "aquela" canção, na qual ele se declarava para ela. Deveria ele colocar? Não seria arriscado demais? O que ele deveria fazer?

O combinado foi que Sam iria escrever todas e mandar para ela por e-mail. A noite eles iriam se encontrar na casa de um amigo em comum que tinha uma cobertura com piscina (bons tempos de 8ª série). Eles iam jantar, conversar e assistir filmes, só a turminha dos mais chegados. B. Eddy também estaria lá. E ela estava com a agenda de Sam, que acabou levando para casa para escrever e fazer desenhos, mais ou menos como na agenda dela. Lembra que Sam descobriu que agendas eram importantes?

Ele pôs a letra no arquivo. Na última página. Como se fosse para ela não ser lida nunca. E como comentário, não pôs nada, apenas escreveu "essa é a letra que eu não te mostrei hoje de manhã, não sei porque..." e deixou assim. Enviou por e-mail para ela.

A noite enfim chegou. Eles se encontraram na casa do amigo em comum. B. Eddy logo chegou com o CD novo do Weezer que tinha sido acabado de lançar e que comprou naquela tarde, o "Maladroit", que Sam prontamente surrupiou para pôr no CD Player e logo preencher o ambiente com rock and roll nerd. Então, de repente, ela chegou.

Sam corou. Lá estava ela, lindíssima, com sua agenda embaixo do braço. Ele a cumprimentou, timidamente. Era como se mesmo com a sua camiseta nova do Led Zeppelin estivesse nu, como se ela pudesse enxergar através dele. Poxa, ela havia acabado de ler todas as suas anotações mais íntimas dos últimos tempos, ela realmente PODIA enxergar através dele.

Ela olhou para ele com aqueles olhos de quem sabia demais. Será que ela havia lido o que ele escreveu? Será que ela já sabia de tudo? O que será que ela pensava dele? Sam era só dúvidas naquele momento. Então, na primeira chance que teve em que ficaram juntos, sem muita gente por perto, Sam resolveu perguntar. Era agora ou nunca:

- E então... leu as letras que eu te enviei?

Ela olhou para ele, sorriu e respondeu.

Continua...

Paulicéia Desvairada - Parte II

(Sabe né... Kill Bill 2 não é nada sem Kill Bill 1. Então leia o texto anterior antes de ler esse, ok?)

Sozinhos em São Paulo, na sexta-feira a noite, sem (muita) grana, com fome e longe de casa. Comofas?

Depois de alguns segundos de dúvida, resolvemos ir comprar algo no mercado e ir pra casa. Paramos em um mercado da rede Extra, do tipo grande e cheio de gente. Inclusive, esse monte de gente incluía um cachorro querendo entrar no mercado. Devíamos ter parado por aí. Mas somos caxienses e não desistimos nunca!

Depois de sofrermos com os preços da sessão de doces, fomos para a sessão de frios. Pensamos no básico: um pacote de pão de forma, presunto, queijo e já eras. Só que tínhamos que comer tudo no dia, já que não teríamos como guardar. Optamos por cada um pegar o que quisesse. A Gabi e a Liange pegaram Cup Noodles, eu e a Raquel pegamos sanduíches frios e a maldição sírio-libanesa: um pão que certamente, se o diabo amassou, não quis comer depois.

(Na fila do supermercado, eu e a Raquel prontos para sermos atendidos, um tiozinho baixinho, gordinho e careca de terno pede se a gente não quer passar antes na fila. Como estávamos esperando a Liange e a Gabi ainda, falamos que não tínhamos pressa, ele podia ir antes. Ao que ele fala: "Eu também não tenho pressa. Aliás, não sei pra que pressa, se no final o destino de todo mundo é a morte mesmo". Medo. Esqueci de olhar o obituário do jornal dominical pra ver se ele não tava lá)

Era a coisa mais sem gosto do mundo. Sério. O tiozinho poderia ter cometido suicídio com um daqueles malditos pãezinhos. Uma hora depois fomos descobrir, graças a Liange, a especialista em pães da galera (ela que decifrou o sanduíche do vôo de vinda), que aquele pão era pra ser comido com misturas e tals, não puro. Não salvou a nossa breve indignação com ele. Aquecemos ele no microondas da recepção do hotel e nos sobrecarregamos de mostarda, ketchup e maionese para ver se aquela coisa criava algum gosto. Compramos um pacote de bolacha integral de trigo para acompanhar (ou para substituir os pães, caso eles não tivessem gosto).

Acabei comendo três dos quatro pães sem gosto que comprei. A refeição foi complementada pelas bolachas integrais de trigo e uma Heineken que àquela altura já tava quente. Ficamos os quatro no quarto, cara amarrada, assistindo "Meninas Malvadas" na TV. Me senti mal. Eu conhecia todas as cenas, inclusive a hora da coreografia que eles davam um tapa na coxa. E olha que eu só assisti aquele filme poucas vezes. Umas três ou... esquece.

Sexta a noite, em plena São Paulo, comendo três derivados de trigo. Se deu bem, hein campeão?

Decidimos que o sábado seria mais tranquilo. Começaria mais tranquilo, pelo menos. Tomamos café no hotel, nos empanturramos de pedaços de bolo, encontramos alguns gaúchos reclamando que não tinha água quente pro chimarrão e surrupiamos algumas maçãs para guardar para mais tarde. Somos jovens, podemos fazer esse tipo de coisa. Depois de praticamente almoçar, fomos em direção ao Pixel Show, o motivo pelo qual fizemos a viagem toda.

Metrô pego, chegamos no fim da linha. E andamos. E andamos. E andamos. E tinha morro. E eu só conseguia pensar que no domingo a gente teria que ir para lá com as malas. Mas tudo bem. O destino seria valioso.

E foi. Eu adoro esse tipo de convenção maluca porque é um lugar onde posso ver gente tão ou mais estranha que eu, vestindo-se de forma tão ou mais estranha do que eu. Isso aconteceu no Anime Extreme que eu tinha ido em Porto Alegre, esse ano ainda (eu acho). Coincidentemente, uma das pessoas que esperávamos encontrar por lá era justamente o Felipi, que também estava no Anime Extreme e que eu já tinha reencontrado em outras ocasiões porque ele foi colega da Celli. Ele tinha ido lá convidado pela Gabi, que já conhecia ele do trabalho.

(Eu encontrar o Felipi lá, aliado ao fato da Raquel conhecer todas as pessoas de Farroupilha que eu conheço e a Liange conhecer o Renato, vocalista da minha banda, me fez crer que mesmo em São Paulo, Caxias me persegue. O mundo é realmente pequeno. E estou sendo perseguido... Õ.o)

Não convém muito eu falar das palestras e do evento aqui. Os estandes de vendas eram o máximo, com painéis com idéias super criativas, principalmente para camisetas. Havia um grande quadro branco e um logo da MTV para serem cobertos de desenhos e uma loja de art decó que tinha um baú-banco com a cara do Mac e do Eduardo da Mansão Foster. Coisas que deixam a casa de qualquer um ultra-cool e modernosa.

As palestras também foram o máximo. São Paulo é outro mundo, com outras cabeças. Volta e meia eu me pegava pensando em algo do tipo "nossa, eu queria muito ter um Photoshop agora, nesse momento". Isso NUNCA acontece! Sem contar a minha inveja de todas as pessoas com notebooks e iPhones, que twittavam do lugar, já que tinha internet wireless liberada. Inveja, maldita inveja. Maldita inclusão digital.

Mais tarde, tivemos a palestra com a maravilhosa, belíssima e sensual Molly Crabapple. Ok, nem tanto assim, mas ela é o máximo. A palestra tinha até tradução simultânea, mas eu deixei os fones de lado em função dos meus ouvidos e fiquei realmente feliz que entendia as piadas antes. O importante da coisa toda porém, foi a Escola de Anti-Arte do Dr. Sketchy's, a qual eu comento depois.

Depois da palestra dela tivemos uma palestra com o pessoal da Digital Domain. Pra mim, valeu pra ver o Spock e o Kirk, já que foi a empresa que fez os efeitos especiais do último filme. Pra muita gente, valeu pela apresentação dos efeitos especiais do Benjamin Button, que renderam um Oscar a empresa. E pra mulherada, valeu para ver David Rosenbaum, o cara que deu a palestra, que segundo o que foi comentado, era um "gatinho". Considerando que a maioria dos homens lá presentes eram nerds gordos, orientais depravados ou simplesmente paulistas, não me admiro com tamanha admiração pela designer gringo.

Depois, tivemos uma sessão Anti-Arte do Dr. Sketchy's. Pra quem não entendeu porra nenhuma do que eu tô falando, isso funciona mais ou menos assim: sabe aquelas aulas de desenho que a gente normalmente vê em filme gringo, em que as pessoas ficam desenhando alguém nu parado no meio da sala? Pois é. É mais ou menos assim. Só que a pessoa não fica parada: ela fica fazendo poses variadas, provocativas. E ela não está nua: ela normalmente está vestida como uma dançarina de cabaré ou algo mais sexy. E claro há o terceiro elemento primordial: álcool.

Logo, estávamos todos ao redor de salgadinhos e puffs coloridos, tomando drinks com whisky e energético deliciosamente distribuídos de graça, desenhando uma modelo vestida de Mulher-Gato que pouco a pouco capturava alguém da platéia e parava em uma pose provocativa, instigando todos a desenhar. Dança burlesca + desenho + álcool: isso é a Escola de Anti-Arte do Dr. Sketchy's. Sério. Foi o máximo.

No banheiro do Pixel Show, 21h30min

"- Oi amor! (sotaque paulista MODE ON). Sou eu! Então... acabô de terminar os sorteios dos brindes. Eu vou ficar aqui mais um pouco conversando com o pessoal... Eu te pego na casa da tua tia depois? Não amor, não fica braba... Não... Tem um pessoal super bacana aqui, eles tão servindo uns drinks, a gente vai conversar um pouco... não amor, não desliga! Amor... amor... Ai, saco... (Tuuuuuuuuuu...) Oi amor! Então... Eu vou ficar mais um pouco aqui, tem uma americana aqui que eu quero falar com ela. Uma inglesa, isso. Eu quero falar com ela. Posso passar que horas aí? 22h? Tá, tudo bem, 22h eu passo aí. Não fica braba. 'Cê sabe que pode confiar em mim. 22h combinado então? Tá certo. Derepenteeumeatrasetá? Beijinho! 'Cê sabe que eu te amo!"

Saímos de lá e fomos pra casa de carona, com a intenção de sair mais tarde. Era sábado ou nunca. Largamos as coisas, trocamos de roupa e se bandeamo pra Augusta. De metrô. As 22h e pouco. Mas como eu disse, era agora ou nunca.

E foi bom pra caramba.

A Augusta é o celeiro jovem da noite paulistana. E quando eu digo celeiro, imagine algo do tipo "festa estranha com gente esquisita". E isso só na rua! A gente acabou não entrando em barzinho nenhum, afinal, estávamos atrás de algum lugar pra comer (perceberam que as nossas escolhas sempre envolvem comida?). Depois de muito andar e observar, achamos uma pizzaria com um lugarzinho guardado a dedo pra nós e um DVD do Queen rodando como trilha sonora perfeita. Só faltou a Polar que a gente pediu só pra sacanear o garçom, o que fez ele achar que a gente era catarinense ¬¬''. Mas tudo bem. Como diria a Lili, não tinha juízo, tomei Bohemia.

(Um pequeno e indignado parentêses: São Paulo tem muuuuuuuuuuuuuito GAY! Nada contra, mas do jeito que eles falam do Rio Grande do Sul, eles tinham que se enxergar primeiro! Era comum nos barzinhos da Augusta ver os casaizinhos super bem vestidos e descolados, um olhando fundo no olho um do outro, super concentrados no que o outro tá falando, super íntimos! E o pior: NÃO TAVAM NEM BEBENDO! Claro, a gente tava na Augusta, onde todos pegam todos, tinha muita guria junta de mão dada também, mas enfim: paulistas, não tirem sarro da gente. Nós temos Pelotas mas vocês tem Campinas, não esqueçam.)

Pizza devorada, voltamos pra casa com um taxista de Poços de Caldas que não, não fica em São Paulo. Apesar de tudo, ele era um grande conhecedor do vinho gaúcho. E foi aí que percebemos que todo não-gaúcho em geral gosta de ter e de contar uma pequena relação com o RS, seja o garçom que trabalhou um mês em Flores da Cunha ou a moça no metrô que nasceu em Caxias do Sul e tem os tios espalhados por todo o estado, mas mora em SP. Eles enxergam o povo gaúcho como trabalhador. Como eu tava lá pra provar o contrário, seguimos viagem.

Última noite no hotel, montamos as malas (ou melhor, enfiamos do jeito que deu - o pobre Yoshi ficou perpétuamente encaixotado até chegar em Caxias) e fomos deitar. Era um dia longo que vinha pela frente.

No domingo pela manhã, fizemos o check-out e renegamos o café do hotel, saindo em busca do café do tiozinho dos salgadões baratos de dois dias antes. Tava fechado =/. Andamos um pouco até catar a Cafeteria Camila, que tinha alguns dos doces mais baratos que já vi na vida! Sério! Sério mesmo! Ok, não lembro os preços, mas era bom pra caramba.

Novamente, paulistas empolgados com o fato de sermos gaúchos. Tiramos fotos com eles também. E descobrimos um fato engraçado: lá eles tem como gíria "explicar pra nordestino" quando querem contar algo detalhado, difícil de entender. Mais ou menos como este blog.

Fomos para o Pixel com as nossas malas. Medo. Sofremos com o morro e as malas virando a cada instante, mas enfim chegamos. Vimos mais algumas palestras fodas e saímos para almoçar. Visitamos o MASP (eu, em especial, visitei a Feira de Antiguidades embaixo do MASP e a Feira de Artesanato do outro lado da rua - o MASP em si ficou pra próxima). Inclusive, na Feira de Antiguidades tinha um colete meio indígena com os bolsos detalhados em tigrado e o emblema da Harley-Davidson nas costas pelo qual eu fiquei realmente tentado, mas... ficou pra próxima.

Almoçamos no Bob's ("pediram Triplooooo X"), um verdadeiro fast-food, já que a comida veio em menos de cinco minutos e saindo de lá fomos pra Casa de Criadores, um espaço brechó-chic localizado perto do MASP. Foi lá que finalmente encontrei os coletes que queria, ao simbólico preço de R$ 70,00. BRECHÓ-O-CARALEO. Olhamos os cachorrinhos fofíssimos para adoção, reclamamos do cheiro deles, demos dinheiro pra dois artistas de rua (o cara tocava bateria e gaita de boca, mereceu meus R$ 0,30) e voltamos ao Pixel.

Pegamos a palestra no fim mas o lanche do início e, tenho que dizer, era o melhor lanche pra esse tipo de evento em que você tem que ficar acordado: salgadinho barato, barras de cereais variadas e muito, mas muito Red Bull. Nunca prestei tanta atenção em algo. E tudo de graça, claro.

A última palestra do dia foi com os portugueses da Musa Worklab, que fizeram duas piadinhas comprovando que português não serve só como alvo de gozação. Depois de alguns sorteios de mais alguns prêmios fodas e caríssimos (como eu ganhei alguns adesivos e porta-copos no primeiro dia, não concorri a mais nada no segundo ¬¬''), foi dado por encerrado o Pixel Show. Foi aí que informaram que o mesmo evento ocorrerá no primeiro semestre do ano que vem em Porto Alegre. Um grupo de cinco fiasquentos ergueu os braços e gritou no meio da galera toda. Adivinha quem eram?

Evento terminado, despedidas feitas, tínhamos que ir pro aeroporto. E agora, comofas? Metrô com as malas não dava e ainda tinha chance de atrasar a gente. O jeito era táxi. Consultamos um taxista que tava perto e ele disse que ia dar em torno de R$ 50,00. Surtamos. Resolvemos pedir outra opinião. Foi aí que enxergamos um táxi com uma mulher no volante...

- Saaaaammmm... vai lá... usa o teu charme com ela.
- Eu? Mas vou dizer o quê?
- Pede quanto que demora e quanto que custa pra ir até lá!
- E não esquece de dizer "boa noite" quando for falar com ela. Seja educado.
- Sim! Vocês querem que eu mostre o decote da minha blusa também?!

Não, eu não tava de decote. Mas teria sido engraçado. Cheguei na janela do carro e vi que a motorista tava digitando algo no celular. Foi mais ou menos isso que aconteceu:

- Uhmmm... Boa noite...
- AAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHH!!!!!!! - celular sai voando da mão dela - que susto que 'cê me deu moço!
- Desculpa!!!!! Quer dizer... Uhmmmm... perdão, moça. Eu queria saber quanto que custa pra ir daqui até o aeroporto de Congonhas.
- Daqui até Congonhas? Uns R$ 32, por aí eu acho.
- SÓ?!!!! Uhmmmm, quer dizer... só?
- Sim, sim. Acabei de vim de lá, dá uns 20 minutinhos, vai dar por aí.

E foi assim que adentramos no táxi da dona Walkyria, a taxista mais afudê de SP. Ao longo de poucos mais de uns 10min, não sei, foi tudo muito rápido, aprendemos mais sobre São Paulo do quem em três dias. Talvez tenha sido pela ênfase que foi dada aos assuntos (ela repetia tudo três vezes e sempre terminava com "entendeu?" e aí de quem não tivesse entendido!), mas depois da viagem com dona Walkyria, descobrimos que São Paulo é a cidade das tretas, mas os moradores não se importam se cada um fizer sua treta dentro do seu próprio táxi. Descobrimos que o trânsito se cria porque tem um espacinho pra andar e as pessoas não andam!!! Ficamos sabendo que a melhor maneira de xingar alguém no trânsito de SP é mostrando o dedo indicador, não o do meio, porque o indicador não incomoda. E se quiser incomodar, mostra a canetinha, porque é mais fininha e incomoda mais! E acima de tudo, descobrimos a lição mais valiosa de todas, que foi imortalizada pela Liange no recadinho que ela deu pra gente no avião depois e que foi guardado por todos:

- Vocês vê, nessa cidade todo mundo quer correr... quer chegar antes dos outros... mas pra que pressa? Se todo mundo for na mesma velocidade, todo mundo chega! Mas não adianta tem uns que querem sempre passar na frente dos outros... Esses motoqueiro idiota aí. As vezes eles passam e a gente pára, daí eles não vão parar embaixo dos pneu do táxi... Mas as vezes o breque não funciona... 'cê entendeu?

Entendemos, dona Walkyria. E vamos levar pelo resto da vida. A lição e o desconto de dois reais que você deu, só pra ficar os R$ 32,00 que você tinha prometido. Desculpa. A gente não tinha muita grana mesmo.

Check-in feito. Malas despachadas. Última ida ao banheiro. Detector de metais. Lázaro Ramos.

(Vocês realmente não acham que a gente ficou quatro dias em SP sem encontrar ninguém famoso né?)

Só vi quando a Gabi olhou pra trás meio surtando e disse apontando pra um cara de costas que ia mais pra frente "ÉOLÁZARORAMOS!". Entramos numa livraria pra disfarçar que não estávamos indo atrás dele (engraçado, ele que é o famoso e a gente que disfarça...) mas logo o vimos comprando pão de queijo. E em todo lugar que o pobre coitado parava, alguém parava ele pra tirar foto... Tadinho. Era óbvio que a gente ia fazer o mesmo.

Abordamos ele no meio do caminho. Fui eu que tirei a foto, por isso não apareci nela e não foi nem na minha câmera, por isso não tenho ela aqui, mas digamos que foi mais ou menos assim que a foto ficou:

=) xD =| :D
(Raquel - Gabi - Lázaro - Liange)

Sério... pelo sorriso amarelo que ele deu, ser famoso deve ser um saco.

Logo chegou a hora de ir pro avião e voltar pra casa. As coisas vão ficando mais rápidas a medida que a viagem tá acabando. Quando eu percebi, já estávamos no ar e o serviço de bordo já tava sendo realizado. Na hora de aceitar a bebida, aquela dúvida: será que peço cerveja? Tínhamos conversado antes sobre isso e a Li disse que, nas alturas, as drogas tem efeitos mais pesados. Mas quando que eu ia poder fazer isso de novo! Na hora de falar com o garçom, pedi pra ela novamente:

- Tu acha perigoso eu pedir cerveja?
- Não sei... mas pede... tô curiosa pra saber o que pode acontecer!

Tinha Sol e Xingú. Peguei a última, claro. A janta da volta era Festival de Hamburgueres. Cerveja preta e hamburguer nas alturas. Sério. Certas coisas TEM que ser feitas.

Só sei que falei MUITO com a Raquel na volta, como sempre acontece quando bebo. Eu falo, falo e falo (inclusive ela já tinha percebido isso na noite de sábado no Pixel: "Cara, tu fica muito mais legal quando tu bebe! Mantenha-se assim!"). Falei de músicas, bandas, lugares que já toquei, enfim... É como se eu pegasse o Cometa Diário e enfiasse pelo ouvido de alguém até chegar no cérebro. Ninguém nunca mais vai voar do meu lado depois disso.

Porto Alegre estava chuvosa. Malas encontradas, fomos pro estacionamento, onde o pai da Gabi já esperava a gente. Revezamos breves cochilos com histórias de serviço e da viagem e ligações pra casa na volta até Caxias. Passei pela Churrascaria Tigrão e Motel Tigresa novamente (ou o contrário, não lembro). 2h depois, Caxias do Sul. De volta, enfim.

Cheguei, acordei minha mãe pra dar oi e dizer que cheguei (primeira pergunta dela: "tu não vai sair amanhã né?"), dei oi pro meu irmão, troquei de roupa e fui no banheiro. Enquanto tava lá, minha mãe levanta: "Tu tá acordado ainda? Vai dormir! Ah, tu já abriu a mala... vou aproveitar que tô em pé mesmo e vou olhar..."

Medo. Medo mortal.

Foi tranquilo até ela pegar o Yoshi. Ela viu as camisetas e tudo mais, mas quando pegou o dinossaurinho na mão, pediu "Tu deve ter pago uma nota por isso, não?". Diminui o valor em uns R$ 30,00. Converti pro câmbio do estado, sabe? Ela achou caro. Imagina se eu tivesse dito o valor original...

Mala pra desarrumar, quarto pra ajeitar, umas 15 revistas pra ler, muita história pra contar e uns dois posts enormes no blog que acabam aqui. Já fazem quase 15 dias que isso tudo aconteceu e eu ainda tô aqui falando sobre isso. É o tipo de experiência que se leva pra vida toda. Fiquei feliz, deixei os outros felizes (bottons são os melhores presentes, a Lili, a Isa e o meu irmão podem afirmar isso...) e como bem disse a Liange, "a gente sempre volta diferente de uma viagem". E voltei mesmo.

No dia seguinte, passei a tarde com o meu irmão e um atlas geográfico. Cada um selecionou 20 países que gostaria de visitar. Batemos as duas listas pra ver os países em comum e começamos a fazer a nossa rota. Primeiro destino: Argentina.

O importante é nunca parar. Keep walking.

Paulicéia Desvairada - Parte I

Não faz muito sentido. Mas é fato.

Recentemente, tenho tentado abraçar muita coisa. Não tem como ser só um e tentar tocar uma banda pra frente, se dedicar ao trabalho, a quatro disciplinas na faculdade e ainda tentar ser uma pessoa normal nos intervalos. Normalmente, isso leva a uma condição de surto-psicológico-punk (o qual eu já passei - e não é legal) e leva a pessoa a se auto-diagnosticar estressada. É altamente recomendável parar, rever alguns conceitos, e de repente até tirar alguns dias de folga, descansar, numa casa de campo talvez, longe de tudo, onde o barulho e a preocupação do mundo moderno não pudessem atrapalhar.

Eu fui pra São Paulo

(Eu disse que não fazia sentido)

Claro que a real intenção da coisa toda não foi ir pra SP pra descansar. Nós quatro - eu, a Gabi, a Liange e a Raquel, tirando a Gabi todo mundo se conhecendo na viagem - fomos para a capital paulista para participarmos do Pixel Show, evento de design que aconteceu dias 10 e 11. Porém, fomos na quinta para conhecermos a cidade, passearmos, faltarmos trabalho, e claro... fazer compras! Mas antes do estrago feito aos nossos bolsos que se iniciou na 25 de Março, a viagem começou beeeem antes.

Yeah... I'm gonna have to move on...

Acordar as 4h da manhã não é tão difícil. Acordar as 4h da manhã num dia frio e chuvoso, depois de ir dormir a 0h30min, logo depois de ter feito a mala e a barba com os olhos caindo de sono, é bem diferente. Estrago feito, 4h45min de quinta-feira estava eu saindo de casa com a mãe em uma sacada e a tia na outra, sob recomendações mil de como me portar em São Paulo:

- Se cuida! Olha os assaltos! Andem junto! Tá levando roupa o bastante?!
- Olha os outros na rua! Cuidado pra não se perderem! Se cuida no avião!
- VÃO DORMIR AS DUAS! TÁ 5º GRAUS E VOCÊS DUAS DE MADRUGADA BERRANDO DE PIJAMA NA RUA! VÃO ACORDAR OS VIZINHOS! EU ME CUIDO! TCHAU!

Depois dessa maravilhosa demonstração de educação, fui pra rodoviária.

Cheguei a tempo pra pegar o ônibus das 5h30min, o primeiro do dia. Aguardamos um pouquinho chegar toda a galera, tinha até conhecidos no ônibus, e então, partimos. Mal acreditei quando percebi: olhei para os dois lados do ônibus e vi que ele estava completamente cheio, exceto... o banco ao lado do meu. Bendito nº 17. Fones no ouvido (Muse, "New Born"), lá vamos nós.

(Importante citar: nesse momento o motorista foi até os passageiros, como de costume, e falou algumas palavras. Como eu tava com os fones de ouvido, só deu tempo de ouvir ele falando "... tenham uma boa viagem." Ele pode tanto ter dito "Espero que estejam confortáveis e tenham uma boa viagem" como "Eu sou depressivo, tenho tendências suicidas, mas tenham uma boa viagem", não importa. O que importa é que eu teria uma boa viagem)

Devo dizer nesse momento que Caxias, com uma névoa básica e com aquele silêncio do início da manhã, é bem bonita. Eu até teria tirado algumas fotos, caso não fosse tosco tirar fotos da própria cidade as 5h da manhã.

A viagem seguiu tranqüila. Adorei a hora que tocou no meu celular "Move On", do Jet, melhor música de viagem da história. O momento mais emocionante da ida, porém, foi aquele em que eu sempre percebo que estou chegando em Porto Alegre: o Motel "20 Ver". Gosto de pessoas otimistas, que buscam criatividade até na hora de se fuder. Logo passamos pelos já clássicos motéis "Xangai", "Camelot" e "Portal" (respectivamente, chinês, medieval e esqueci o outro) e logo pelo "Motel Urora", antigo "Aurora", até o momento em que o "A" inicial do luminoso perdeu a força (teria ele broxado?) e não acendeu mais. Tão triste. Manter um motel hoje em dia é literalmente foda.

Mais pra frente, novidades! Do lado do Motel Tigresa, temos a churrascaria do Tigrão! Realmente, um casal de estabelecimentos lindos, que sempre ficam juntos na hora de comer, não importando de que sentido da palavra estamos falando. Cheguei em Porto Alegre assim que acabaram as piadas de duplo sentido com motéis. Próxima parada: aeroporto!

The Great Gig In The Sky

Ainda na rodoviária, meio perdido, prestes a ligar para alguém pra ver se me acham, vem uma moça simpática na minha direção e fala "Oi! Tu que é o Sam?". Primeiro: adoro que me conheçam por Sam. Segundo: eu adoro mesmo que me conheçam por Sam. Me lembro de dar as coordenadas pra Gabi pra Raquel me encontrar na rodoviária: "quando ela ver alguém ruivo, verde e xadrez, pode ter certeza que é eu". Poderia ser uma toalha de pic-nic irlandesa voando ao vento também. Mas naquele momento era eu. Pegamos um táxi e fomos para o aeroporto.

Em instantes, estávamos os quatro reunidos. Check-in feito, andamos um pouco pra matar tempo até a hora de ir. Chegado o momento, passamos pelo detector de metais. Fui o último. Tirei a chave, o celular e fui. BLEEEEMMM!!! Tirei a chave, o celular e a carteira. BLEEEEMMM!!! Tirei a chave, o celular, a carteira e a jaqueta. BLEEEEMMM!!! Tirei a chave, o celular, a carteira, a jaqueta e o CINTO. PLIM! Passei tranquilo. Sentindo-me nu, mas tranquilo.

Depois de alguns minutos tendo de aguentar a Ana Maria Braga, embarcamos. Os comissários de bordo tentaram nos ensinar as manobras de segurança e blá blá blá, mas não, a gente queria mesmo era voar! Eles oferecem balinhas, conversam contigo, tudo enquanto o avião começa a andar, pra tu nem perceber. Mas os quatro "voadores" de primeira viagem queriam era mesmo ganhar os céus. O avião começou a pegar embalo. A cena que eu já vi mil vezes na janela do trabalho tava acontecendo, comigo dentro. Comecei a bater com os punhos fechados nos joelhos falando baixinho "vai, vai, vai, vai!" e então de repente... ele sobe.

As casinhas ficam menores ainda. As nuvens surgem. O tapete branco de algodão então se estende, deixando claro que sim, você está no ar. Realmente: voar é o máximo.

E ainda tem comida de graça.

Feliz Aniversário! Envelheço na cidade!

São Paulo é foda. A 5ª maior cidade do mundo (segundo meu irmão) se resume do alto a prédios e cinza, muito cinza. Mas é lá embaixo que o bicho pega. Beeeem lá embaixo.

Chegamos no aeroporto e logo pegamos um táxi pra ir pro hotel. Devidamente instalados, saímos de lá, comemos esfihas ali perto e nos dirigimos a 25 de Março para começar os serviços financeiros. E claro, para andar em SP, nada melhor que o metrô.

A começar pelo atendente, que deu informações sorridente pra caramba (tinha acabado de vender R$ 40 em bilhetes, tinha mais é que sorrir mesmo), até a limpeza do lugar e as pinturas e obras artísticas (!) espalhadas, não há como não dizer que o metrô paulista é uma obra e tanto. Senti invejinha naquele momento.

Outra coisa muito bacana são as escadas rolantes. Há um aviso em todas que diz "Quem fica a direita deixa a escada livre para locomoção". Eu nunca soube que tinha escada rolante com duas pistas, mas em SP tem. E depois de ficar muito no meio da escada rolante (e de ouvir muito "com licença, por favor") vimos que realmente, as pessoas sem pressa ficam a direita e as pessoas com pressa descem ou sobem correndo pela esquerda. Idéia genial.

Chegamos ao nosso tão comentado destino. E foi aí que percebi mais uma vez a grandeza de São Paulo. É como se em algum momento da história do universo, alguém tivesse pego a Rua da Praia em Porto Alegre, posto ela num caldeirão com uma poção de aumento e multiplicasse ela por 10. Essa é a 25 de março: preços baixos, variedade de produtos e muita, mas MUITA gente.

(Pensamento de gaúcho: de onde que sai TANTA GENTE as 16h! Esse povo não trabalha!)

Compras feitas (pelas garotas), fomos até Bom Retiro, um reduto muito mais conceituado do que o camelozão que é a 25. Lá fiz a primeira compra da viagem, uma camiseta do Einstein indicada pelas gurias. Catei uma gravata daquelas fininhas e tentei enxergar algum colete, mas não encontrei. Ficou pra próxima.

Metrô, hotel e shopping jantar. O escolhido da noite foi o Pátio Paulista, na Avenida Paulista, que com o seu piso branco parece um hotel de luxo. Além de lojas lindonas e uma livraria gigantesca, o shopping ainda tem um restaurante estilo fifties, onde os atendentes usam um uniformezinho bem da época, estilo "De Volta para o Futuro". Felizmente, a gente só viu depois de comer, porque devia ser meio carinho. Depois da janta com uma cervejinha pra acompanhar, fomos pra casa.

Like you imagined when you... were young...

Ao som de "When You Were Young", que virou o despertador do quarto em São Paulo em detrimento ao meu tradicional despertador irish-punk dos Dropkick Murphys, acordamos na manhã de quinta e partimos em direção ao bairro oriental da Liberdade. E chegando lá, eu tenho que dizer: era como se o Brandon tivesse cantando só pra mim (desejo nada secreto de muita amiga minha) que o bairro da Liberdade era exatamente "like you imagined when you were young" e lia sobre ele e seus infindáveis bonequinhos e gibis e mangás nas saudosas revistas Herói e Heróis do Futuro. Bons tempos.

O Bradesco tem uma fachada oriental. O McDonalds tem uma fachada oriental. Até o hot-dog prensado a R$ 1,50, que devia ser uma delícia, era oriental. Nossa primeira parada foi num mercadinho - oriental, claro - onde entramos com a câmera na mão tirando fotos dos produtos tri emocionados, parecendo turistas japoneses, enquanto os donos do mercado provavelmente riam da gente. Mais ou menos como a gente faz quando eles tiram foto de algo tosco pra nós. Malditos orientais: vocês ensinaram sua sabedoria, nós ensinamos nossa ironia. Maldita inclusão digital.

Logo, fiz meu primeiro grande estrago financeiro: depois de muito pensar, comprei um boneco do Shaka de Virgem ("ele não abria os olhos no desenho, né?", disse o vendedor), um boneco do Maes Hughes, do Full Metal Alchemist (o cara mais legal do desenho - maldito episódio 25!) e uma pelúcia do melhor amigo do homem (se ele for italiano e encanador), Yoshi! Não vou citar o quanto gastei aqui, mas foi uma prévia para um Dia da Criança beeem feliz.

Lá pelas 14h e pouco, fomos almoçar. Depois de andar muito, paramos num restaurante meio escondido, daqueles que tem uma casa de gueixas nos fundos e são constantemente atacados pela Yakuza. Mas ao invés de coreanos raivosos de cabelos brancos, encontramos... Seu Agnaldo, o japa mais legal da história!

(Detalhe: ele provavelmente era nordestino.)

Na dúvida entre comida japonesa e chinesa (sim, tinha as duas cozinhas no mesmo lugar), optamos pela chinesa e pedimos Yakisoba. Pedimos uma porção para uma pessoa eu e uma a Raquel, enquanto a Gabi e a Liange pediram uma porção para duas pessoas cada uma. Na hora da bebida, nos chamou atenção um tal de "ban-chá". Gostamos dele porque custava míseros R$ 2,00, mas a curiosidade ajudou bastante. E foi aí que o seu Agnaldo começou a ganhar pontos com os caxienses:

- Tem gosto de que esse ban-chá?
- Olha... vocês querem saber mesmo?
- Sim, a gente quer!
- Então... (paulista fala muito então...) Sendo bem sincero com vocês... não tem gosto de nada. É só uma água quente, bem de leve que ajuda na digestão.
- E é bom?
- É, é bem bom sim. Faz assim, eu trago pra vocês experimentarem, pode ser?

Levantamos para ir lavar as mãos e as gurias foram ver no balcão os salmões. Voltamos a mesa e fomos servidos de ban-chá. E era delicioso. Além do fato de ser uma chaleira que dava muito bem para quatro pessoas (ele é tomado naquelas cumbuquinhas orientais), ele tinha um aroma de - segurem-se - "terra-molhada-de-fazenda-embaixo-da-árvore-com-aroma-do-jardim-da-vó" ou o que quer que seja similar a isso. Mas era bom. Ponto pro seu Agnaldo.

Logo veio o yakisoba. Ao contrário do que pedimos, veio uma porção pra duas pessoas e mais uma para uma pessoa. Falamos para o seu Agnaldo que veio errado, mas na sua calma oriental-nordestina, ele apenas disse "Não, acho que tá bom pra vocês isso. Se precisarem daí vocês pedem mais depois". E deu na medida certa, não sobrou nem faltou. Planejamento Estratégico Alimentar do seu Agnaldo: Yes, we can.

Mas é claro, estávamos apanhando dos hashis (os pauzinhos pra comer) e claro, chamamos o seu Agnaldo pra trazer talheres ocidentais chatos. Mas não tema, com seu Agnaldo não tem problema! Ele logo nos explicou a técnica de prender uma borrachinha no canto dos hashis e então, "voi lá!", estávamos comendo com pauzinhos! Mais pontos para o seu Agnaldo!

E então, como se já não estivesse bom o bastante, talvez por causa da vibe zen do lugar, ou talvez por inveja do seu Agnaldo mesmo, os carinhas da cozinha que as gurias falaram antes enviaram a nossa mesa um prato chiquérrimo de salmão pra gente experimentar, totalmente de cortesia. Era como se Buda tivesse aparecido e dito "atendam bem a mesa 12". Ok, Buda é indiano e não tem nada a ver com a história toda, mas teria curtido um salmãozinho também.

Na hora de sair, foto com toda a galera da cozinha. Pagamos a conta, com direito a desconto do Sr. Miyagi (sim, tinha UM japa na birosca toda) e nos deparamos com a maravilha verde-radiotiva do bairro da Liberdade: Melona! Não vou dizer o que é, mas vale a pena conhecer a Liberdade só por causa dele.

Ah, eu esqueci de citar, mas a gente começou o dia na Starbucks! Tomei o café preto de lá e ele é... exatamente igual a um café preto normal. Só bem mais caro. Como só pedimos as bebidas pra ganharmos os copinhos, completamos o nosso café com salgadões de R$ 1,30 numa padaria perto. Poupar é o que há.

Saindo da Liberdade, fomos pra Galeria do Rock. Não há muito o que falar de lá, a não ser: COMPRE MUITAS CAMISETAS. A variedade é imensa e elas são super baratas (eu comprei três). Sem falar dos bottons, que são baratíssimos (adoooro!). E olha que a gente só viu um andar da galeria toda. Mas ela é fácil de imaginar: All-Stars, couro, jeans e xadrez. E muita gurizada. Essa é a Galeria do Rock.

Foi nesse momento que percebi que só tinha R$ 70,00 pra passar dois dias.

Saí de lá torcendo pra não achar nada legal na nossa próxima parada.

Madalena, Madalena...

Como era de se esperar, eu me enganei.

Primeiro, a Vila Madalena é longe. E pareceu mais longe ainda considerando o lugar onde a gente tava. Eu não sei o quanto a gente andou, mas chegou um momento em que eu pensei "nunca mais vou reclamar de andar horrores em Porto Alegre".

A primeira grata surpresa da Vila Madá, como eles chamam, foi a King 55, com sua belíssima parede amarela com um desenho de uma menina escrevendo "FUCK". E a loja é foda. E cara. Caríssima. Digamos que estabeleci um novo parâmetro de camisetas caras: R$ 98,00. Felizmente, eu não tinha mais dinheiro. Saí de lá com revistas distribuídas de graça e, claro... bottons.

(Ah, sem contar a cena gay com a bolsa do David Bowie. Mas essa eu conto pra quem me encontrar ao vivo, porque eu tenho que encenar. Mas poxa... era o Bowie gente. Vocês me entendem.)

Mais pra frente, meio que seguindo um caminho invisible, meio perdidos, passamos por uma banca de camisetas que humildemente chamava-se "Banca de Camisetas". E tudo aquilo que eu procurei e não achei na Galeria do Rock encontrei ali em uma camiseta: "Quem Twitta o rabo espicha". Sério... sofri muito por não ter grana. Sofri tanto que falei pra moça que atendia "deixa eu ver os bottons que é a única coisa que eu tenho dinheiro pra comprar". Ela deve ter ficado com pena e disse "ah, pode levar um!". Sam ficou feliz.

Pedimos informação para seguir o nosso rumo e finalmente, algumas quadras depois, chegamos a maldita loja do Ronaldo Fraga. Foi uma cena comovente: enquanto as garotas saíam correndo em direção ao totem vermelho com os tradicionais óculos marca registrada do estilista, eu ia para o outro lado da rua em direção a uma placa que dizia "O Melhor Bolo de Chocolate do Mundo". Gostos são gostos, homens são homens e é assim que o mundo funciona.

Saímos de lá meio decepcionados - a loja era cara e não dava pra tirar foto, e "O Melhor Bolo..." era só o nome da loja - e pensamos em tentar sair na sexta ainda. Mas a idéia mais urgente era sair da Vila Madá e ir pra casa. Pedimos informação novamente de como ir para o metrô e foi mais ou menos isso que escutamos:

- Assim, cê pega essa rua e segue reto toda vida! Quando chegar no final, vira a esquerda e tá lá!

Aí vem a questão primordial: onde acaba o segue reto toda vida? É meio relativo, saca? Só sei que passamos por muitas ruas e vielas e muros com grafites fodas até que uma hora, não sei como, chegamos ao fim do segue reto toda vida. Eu achei que tava em Caxias já, de tanto que andei.

Chegamos ao metrô e logo ao hotel. Depois de muito discutir o que fazer, decidimos ir pela Paulista no melhor estilo "segue reto toda vida" até encontrar um bareco com comida e bebida. Só que saímos meio tarde de casa. Mas fomos. E a medida que a gente tava indo, os bares iam fechando com a gente. Já era umas 22h30min. E a gente com fome. Muita fome.

23h. A gente já tinha passado até por uma loja do Baú da Felicidade, mas não tinha parado pra comer ainda. E tinha que voltar a pé pra casa, porque metrô não rolava e táxi menos ainda. E tava com fome.

No meio da Avenida Paulista, longe do hotel e muito mais longe de casa, sem grana e com fome, as 23h e pouco da noite e São Paulo acontecendo ao nosso redor. E agora, comofas?

(Ok, péssimo gancho... mas continua)