Trocando o Elevador pela Escada

Amanhã, último dia de outubro, completo um mês subindo as escadas do prédio. Foram 119 degraus cada subida, 238 degraus por dia, totalizando 5236 degraus o mês todo. Esse é o número apenas da subida, já que as vezes eu descia de elevador. Lembro de ter queimado uma subida em um dia, por um motivo qualquer, mas ter subido três vezes em outro dia, ou seja, estou de consciência limpa.

A bendita

O motivo pelo qual comecei essa função toda não foi nada aeróbico. Obviamente, 5236 degraus depois eu sinto a diferença: estou muito mais cansado do que no início. Mas é interessante notar que depois de alguns dias nessa rotina, você nem nota os sete andares. As vezes eu subia concentrado, lendo alguma coisa, pensando besteira, e quando percebia olha lá, o sexto andar. Sabe aquelas viagens que duram horas e na volta parecem que passam em minutos? Então. Mesma sensação.

O motivo também não foi social, apesar de que notei essa diferença também, principalmente nas descidas. Trabalhar no 7º andar compreende às vezes pegar o elevador vazio e parar de andar em andar buscando as pessoas. Chegar no térreo é um alívio. Descer de escadas é descer tranqüilamente, sem pausas na caminhada, às vezes chegando até antes dos que não se preocuparam com o elevador cheio.

Outra mudança na interação social que notei foram as conversas na espera pelo elevador. Momentos como o ritual de sair ao meio-dia e dar bom dia para o pessoal da sala da frente (coisa que nunca fiz), ouvir todo mundo falar que está com fome, entrar no elevador cheio e ouvir alguém comentar “pelo menos a gente vai descer mais rápido! Hehehe” não fazem falta alguma. Claro, as vezes você quer comentar algo com alguém ou perde alguma fofoca, mas no final, o que são fofocas perto da calmaria de não ter que ouvir “será que chove”?

O motivo principal pelo qual troquei o elevador pelas escadas foi um teste. Um teste para ver se eu conseguiria abraçar algo por um mês sem desistir. Um teste para ver se eu conseguiria colocar foco em uma tarefa e exerce-la sem medo, todo dia, com regularidade e disciplina. E se há algo que as minhas pernas cansadas (mas ~malhadas) me confirmam, é que sim, eu consegui.

Disciplina e regularidade são as duas faces de qualquer tarefa contínua bem realizada. Talvez para entender isso, seja mais prático obrigar-se a colocar em prática uma tarefa, por isso uma atividade física ajuda bastante. Ao longo do ano, tentei ler todos os dias, escrever qualquer coisa que seja todos os dias, assistir pelo menos um episódio dos inúmeros seriados que assisto todo dia, mas não consegui. O pulo foi sempre maior que a perna. Mas felizmente, saio do mês pensando que sim, consigo me disciplinar a fazer algo diariamente e posso mais.

Vou continuar subindo as escadas, naturalmente. Vicia. O corpo pode cansar, mas é uma provação boa. Por isso, fica a dica: tente trocar o elevador pelas escadas por um mês. Ignore o elevador, imagine uma parede no lugar, quando enxergar ele, passe reto e vá direto para as escadas. Agora com o clima esquentando é uma boa pedida: escadarias costumam ser fresquinhas, vá devagarzinho para não suar e aproveite. Quem sabe role até uma vontade súbita de fazer academia, que tal? (Eu vou continuar com as escadas, fato).

Minha missão agora é descobrir outra tarefa mensal para começar em novembro. De repente voltarei as antigas, como ver seriados, ler ou escrever diariamente. Posso também planejar tarefas semanais: assistir um filme dos inúmeros que ainda quero ver por semana; ouvir um álbum de um artista diferente por semana acompanhando as letras das músicas; usar todas as camisetas do armário que nunca uso; caminhar ao ar livre uma vez por semana.

Provavelmente vou tentar eliminar o conteúdo parado que há na minha vida. Tenho muitos livros a serem lidos e muitas coisas emprestadas a serem consumidas. Taí, um bom plano: vou tentar consumir tudo o que tenho emprestado esse mês. Se você tem algo emprestado comigo, receberá de volta até o fim do mês. Se não receber, é porque nunca mais receberá. Sorry. Mas eu cuidarei bem. Prometo. Você será lembrado por mim com carinho a vida inteira.

O importante é saber que eu posso. O planejamento mensal é ideal para não dar um pulo maior do que a perna e o mês ta começando, cheio de coisas novas para fazer todo dia. Que tal? Regularidade e disciplina dão mais resultado do que qualquer outra coisa. Vai por mim e depois me conta como foi.

Sam já descobriu que não consegue prometer manter o blog atualizado

O Assalto

Aconteceu tudo muito rápido. Fui no shopping, estacionei, paguei minhas contas, voltei ao carro, abri a porta e entrei. Tirei o carnê pago do bolso, larguei no banco do carona, tirei o celular do outro bolso, coloquei no espaço embaixo do rádio, tirei a carteira e comecei a contar o dinheiro que havia sobrado depois das contas pagas. Foi quando ouvi uma voz de comando vindo do banco de trás e senti o cano gelado da arma no flanco direito da minha nuca. Ele falou apenas uma vez: era um assalto.

Soltei a carteira, o dinheiro e a respiração. A última inspiração podia ter sido a última da minha vida. Se soubesse, teria enchido mais os pulmões, como um atleta antes do fim da prova. Eu realmente estava em uma prova que poderia chegar ao seu fim logo, mas definitivamente, não era um atleta. Sou um cara de cabeça, não de corpo, por isso a única prova em que me daria bem era de paciência, e foi que fiz. Como reagir não estava entre os planos, esperei. Tomei ar por três segundos para arranjar coragem e deixei ele falar.

Com o cano da arma ainda imóvel no mesmo lugar na minha cabeça e uma respiração muito mais tranqüila do que a minha, ele pareceu ponderar sobre o que falar e quais as melhores palavras para usar. Quando resolveu quebrar o silêncio, falou tranqüilamente, palavra por palavra. Disse que estava lá porque queria o que mais me importava, queria o que mais me faria falta, queria o que eu tinha de mais valioso na minha vida.

O assaltante queria a minha felicidade.

Encarei aquela frase como se tivesse tomado o tiro que ameaçava a minha cabeça. Como assim, a minha felicidade? Porque ele queria minha felicidade? O que iria fazer com a minha felicidade? Poderia eu entregar minha felicidade para ele? Como eu faria isso? E o principal: teria eu felicidade na minha vida para entregar a ele?

Esperei mais alguns segundos, em choque, ver se ele iria se pronunciar mais alguma vez. Pedir outra coisa, o carro talvez, o celular, o dinheiro que viu eu tirar da carteira. Não. O assaltante só desejava a minha felicidade. Não tinha interesse nos meus bens materiais, no meu carro, dinheiro, celular. Para ele, aquilo não era mais importante do que a minha felicidade. Será que eu não estava percebendo alguma coisa aqui?

Segurei a voz embargada e pedi desculpas. Que tipo de idiota pede desculpas para um assaltante? Não sei. Mas pedi. Disse para ele que ia ter que me perdoar, porque não sabia se teria felicidade para dar para ele. Ele ficou brabo. Pressionou o cano da arma contra a minha cabeça e retrucou. Como não? Eu tinha carro, casa, família, emprego, oportunidades, saúde... como não teria felicidade? Notei que ele falava calmamente, como se tivesse muita certeza do que estava fazendo. Com o pouco que ele sabia da minha vida, podia afirmar com certeza que eu tinha felicidade. Eu não tinha tanta certeza.

Sempre brinquei de colocar as coisas em perspectiva para ver o que mais me importa na vida. É uma brincadeira mórbida, mas eu explico. Imaginava-me tendo um acidente. Iria para o hospital, nada grave, ficar uma semana. Quem iria me visitar? De quem eu sentiria mais saudade? Quem iria me surpreender, quem seria aquela pessoa que eu não vejo faz séculos, mas que compadecida da minha situação, iria atrás de mim, para saber da minha saúde, do meu estado, da minha vida? É uma brincadeira egoísta, mas sempre que pensava nas pessoas tristes por mim, me sentia triste por elas e isso me ajudava a entender de quem eu gostava e precisava mesmo.

Mas isso não era uma simulação. Não era um acidente besta criado na minha mente. Isso era realidade. Era um assaltante com uma arma na minha cabeça, um parco conhecimento da minha vida e uma exigência de algo que eu não sabia se poderia dar a ele, mesmo ele tendo certeza que eu tinha. Ou que tinha todos os pré-requisitos para ter. E o safado não parecia nem nervoso. Falava calmamente, com uma oratória quase professoral, e uma certeza nas palavras que lembrava outra pessoa, alguém que conhecia muito bem antigamente.

Coloquei as coisas em perspectiva novamente sobre a minha ótica egoísta e me senti um desnaturado pelo fato de que podia morrer porque não tinha felicidade na minha vida. Imaginei os outros no meu velório. Olha lá, lá se vai aquele que morreu porque não tinha felicidade para dar aos outros. Será que não podia prover felicidade porque não era feliz? Eles nunca saberiam. Num misto de coragem e desespero, me agarrei no volante do carro, com lágrimas nos olhos, e implorei. Pedi por favor, que não levasse minha vida, mas que eu realmente não tinha a felicidade que ele queria que eu tivesse.

Com a mesma calma e certeza de sempre, o assaltante me respondeu. Disse que não levaria a minha vida. Afinal, minha vida sem felicidade não valia nada.

Enquanto estava deitado no volante, num misto de desespero e humilhação, ele simplesmente saiu, tão misteriosamente quanto entrou. Não cheguei a ver seu rosto. Parece loucura dizer isso, resultado do choque de ser assaltado, talvez, mas depois de um tempo, me dei por conta de quem ele me lembrava. Seu jeito de falar, a entonação em sua voz, suas palavras certeiras, tudo isso lembrava uma pessoa que eu havia conhecido há muito tempo atrás, alguém que tinha todo direito de exigir felicidade na minha vida: eu.

Fiquei alguns minutos deitado sobre o volante até arranjar coragem para ligar o carro e ir embora. Voltei para casa revivendo a cena e pensando o que as pessoas ao meu redor fariam se soubesse o que aconteceu. Quem iria correndo para minha casa saber como estou? Quem iria subitamente expressar uma preocupação enorme por mim? A curiosidade era grande, mas eu sabia que essas pessoas iam estar preocupadas com a minha vida, o que talvez não fosse importante agora. Decidi então, que ao invés de esperar pela opinião dos outros, iria ouvir a opinião do assaltante, e garantir que a próxima vez que ele me encontrasse, eu tivesse felicidade na minha vida. Porque realmente, mesmo que eu ficasse vivo com muitas pessoas ao meu redor, a minha vida sem felicidade, não valeria nada.