O Dia em que Eu Embarquei Meu Irmão pra Fora do País


Parece título de filme infantil da Sessão da Tarde, mas aconteceu ontem, dia 10 de janeiro. Em uma viagem que vai de Buenos Aires para Montevídeo, de Montevídeo para Colônia, de Colônia para Buenos Aires e de Buenos Aires para Mar Del Plata, tive a honra de levar meu irmãozinho mais novo até o avião junto com o resto da família, numa viagem que foi mais aventura do que a própria viagem que ele estava prestes a realizar.

A viagem não é tão longa (como ele mesmo disse pra minha mãe quando entrou no portão de embarque, todo sensível “que que, é só uns dias...”), mas o maior simbolismo na verdade vem da data. 10 de janeiro. 10/01.

Você pode não notar, mas tem uma ruiva nessa foto
Eu sempre enxerguei essa data como um abre e fecha de novas oportunidades, de iniciativas, novas fases. O próprio desenho da data me lembra isso, com sua simetria bonita. Acho que o ano se inicia muito melhor no 10 de janeiro do que no próprio dia 01. E eu tenho muitas histórias relacionadas com esse dia.

No dia 10, minha tia mais próxima está de aniversário. Isso já seria o suficiente pra data me marcar, mas outros acontecimentos marcaram tanto quanto. Em 10 de janeiro de 2004, eu tive meu primeiro ensaio, o primeiro protótipo de banda. Já devo ter falado dele alguma vezes aqui no blog, mas até hoje pra mim esse dia foi o início de algo especial.

Anos depois daquele 2004, mais especificamente em 2009, em uma reunião d’Os Valdos, minha banda, nós compusemos a nossa primeira canção. Esse outro fato já foi intensamente relatado aqui, em post em que inclusive falei do significado dessa data pra mim novamente. Foi o início de outro momento da minha vida que definia muito do que eu era.


Há quatro anos... (que mais parecem um século)

Agora, em 2012, o evento não tem a ver diretamente comigo e nem com música, mas mesmo assim, tem o mesmo gostinho. Viajar sempre foi o sonho do meu irmão e depois de algumas tentativas meio frustradas, finalmente ele virou realidade, mesmo que aos trancos e barrancos. A nossa aventura de hoje é prova disso – imprimir documentos de último hora, taxistas loucos, viagem Caxias – POA de 3h... Tive apenas um breve contato com ele depois da viagem, mas imagino ele com um sorriso de ponta a ponta no rosto.

A Espera
O que assemelha pra mim esse momento da viagem com os outros é que os três se configuram como momentos do tipo “ih, fudeu... agora foi”. Foram pontapés iniciais que vieram para provar que sim, esses sonhos eram possíveis. Seja ter uma banda, seja compor músicas, seja sair do país. E mesmo que seja o meu irmão que está em outro país agora, é um sonho que compartilho com ele e o fato dele ter conseguido só me deixa mais perto de saber que eu consigo também. 

E essa viagem solitária dele não é só um avanço para ele como para minha família também. Ela não só será um belo exercício de desapego do meu irmão em relação ao “luxo” da segurança da família como também será um exercício de desapego da minha mãe em relação a ele, tendo que confiar na habilidade do filho em abrir suas asas e descobrir seu próprio caminho. Não preciso dizer que eles foram brigando o caminho inteiro né? Eu só dizia para o meu irmão “calma... ela vai ficar sem brigar contigo por 15 dias... relaxa”.

E será para mim um exercício de acreditar na minha coragem de que eu faria o mesmo. Lá pelas tantas, já na volta, minha mãe pediu “tu acha que se fosse tu viajando, tu ia ser desorganizado como ele?”. Eu respondi que achava que seria mais organizado, mas não sei se seria ousado o suficiente pra programar algo tão grande sozinho, em um lugar em que se fala outra língua, dependendo muito do acaso...

(motivos pelos quais as viagens envolvendo eu e ele normalmente dão certo – a ousadia e o bom senso andam bem juntos...)

Mas sabe... assim como organização, ousadia é questão de hábito. E não mata ninguém. E se meu irmão tem que desapegar do luxo e minha mãe desapegar do filho, eu tenho que desapegar da comodidade. Simplesmente, mexer a bunda e ir. É fácil falar isso na frente da tela do computador, mas é algo que eu tenho que aceitar na vida. De nada adianta meu irmão colecionar carimbos no passaporte e eu colecionar insígnias no Pokémon. É a legítima inveja construtiva.

Aerolineas Argentinas!
No primeiro fim de semana de 2012, passei o sábado trabalhando e o domingo com 39 de febre, devido a uma intoxicação alimentar ainda sendo resolvida. Mal “desapeguei” de 2011 e o ano novo já tá ai, dando na cara. Então, que venha! Vou fazer dois belos passeios de carro nas próximas semanas – Porto Alegre e praia – daqueles em que você se diz criança só pra gritar bem alto “SEM ADULTOS! UHU!”. E depois, só o tempo dirá. Mas vamos lá. Tô começando o ano por baixo mesmo, o que vier é lucro.

E quanto as viagens, como diz o refrão de “You`re a Tourist”, do Death Cab For Cutie:

“...and if you feel just like a tourist
in the city you we’re born
then it’s time to go...



E eu já tô me sentindo turista faz tempo.

Sam espera que seu irmão escreva um post com esse título ainda.

Pra Você que Usou Branco no Ano Novo

Usar branco no ano novo normalmente significa um pedido de paz (a menos que você seja uma modelo da Victoria`s Secret e conheça outros significados, claro...) Mas paz... pra quê? Pra quem? De que forma? Toda virada de ano, milhares de pessoas ao redor do mundo usa branco, mas isso realmente muda alguma coisa?


Eu usei branco no ano novo. E tomei champagne em taça de vinho.

Esperar pela paz usando uma camiseta branca na virada do ano parece "passivo" demais para mim. É como se você estivesse colaborando com uma força universal maior, um Genki-Dama em que ao invés de levantar a mão, basta apenas unir-se ao coro de cosplayers de pai-de-santo que se cria no último dia de ano e... feito! O ano seguinte será uma torrente de calmaria. E todo mundo sabe que nunca é.

Paz normalmente lembra guerra, e em 2011 realmente tivemos o "fim" de muitas guerras, com o fim das ditaduras no Oriente Médio e tudo o mais... Se aquilo tudo foi obra da paz, ótimo! Mas uma pá de gente morreu nessas campanhas pelas paz. Incluindo alguns próprios ditadores, de maneira nada pacífica. Eu não sei... parece que há algo de muito errado nisso tudo.

Num campo mais pessoal, menos macro e mais micro, as nossas vidas nunca são uma corrente de paz e calmaria também. Mas quero ver alguém reclamar disso! Tire os frios da barriga, os nervosismos, as ansiedades e o que sobra? Um peixe nadando de acordo com a maré. Porque acredite, se você não estiver movimento o mundo ao seu redor, alguém vai estar fazendo isso por você.

Por isso, não encare a passividade da camiseta branca como sinal de que tudo vai estar bem. Não estará. Eu diria até para não dar a mínima para a roupa que vai usar na virada, na real, mas cada um com suas crenças. O que proponho é um remake, um reboot do uso da camiseta branca na virada do ano. Pense assim esse ano (e se chegarmos ao fim de 2012, pense assim na próxima virada).

Pense na camiseta branca como uma alegoria para uma folha em branco. Uma folha em que você poderá escrever o seu ano, de forma "ativa", tendo poder de decisão sobre ele, e não esperando que o fato da sua camiseta ser branca irá mudar a sua vida. Pense em sua roupa como uma folha em branco e escreva a sua história. Não vá pela maré dos outros. Em 2012, aja!

E Feliz Ano Novo.