Cuida de mim

Começou tudo numa noite de primavera.
Meu marido estava passando por dificuldades financeiras já havia algum tempo, mas as coisas só pareciam piorar. Eu não acreditava naquela hipótese de que depois de chegar no fundo do poço o único caminho era pra cima, porque o infeliz parecia ter talento de escavador: cada vez só mais e mais para baixo.
As crianças já estavam dormindo naquela noite e insisti para ele ficar um pouco mais acordado, mesmo com sono, para ficar comigo conversando. Sentariámos na sala, colocaríamos qualquer besteira na TV e ficaríamos lá, que nem namorados, ele no meu colo e eu alisando o seu cabelo, como antigamente. Mesmo contra sua vontade ele topou.
No final, fiquei sozinha trocando os canais por um bom tempo. Pensando em talvez vender a casa para pagar as dívidas, ele começou a fuçar em umas caixas antigas procurando a escritura do terreno. Não sei o que ele achou, mas demorou mais tempo do que devia. Os canais acabaram e a minha paciência também. Antes de dormir, passei no escritório e vi ele com a cara enfiada em um papéis velhos. Só dei boa noite e fui para cama.
Meia hora depois ele foi para a cama. Ainda não tinha conseguido fechar os olhos de preocupação, por isso escutei quando ele se aproximou. A noite estava fria, mas o infeliz teve a brilhante ideia de abrir a janela. Não entendi porque. Ele trocou de roupa e deitou na cama do meu lado. Eu estava pronta para levantar e fechar a janela quando ouvi ele falando bem baixinho.
- Eu não tô bem, amor. Me abraça.
Sua voz era sofrida. Estava acostumada a ouvir ele falar sozinho durante a noite, mas isso acontecia normalmente depois de uma noite de bebedeira ou de comer pudim demais antes de dormir, duas coisas que fazia tempo que não aconteciam. Ele começou a respirar forte e pesado. Ignorei a janela aberta e puxei a coberta pra cima de nós. Abracei ele e encostei minha cabeça no seu ombro. Ele começou a respirar de forma mais tranquila. Fiquei mais aliviada e logo nós pegamos no sono.

No dia seguinte, ele acordou antes de mim, como de costume. As crianças estavam quase acordando, por isso ficamos pouco tempo juntos sozinhos na cozinha para conversar. Não quis jogar aquela dúvida como uma bomba no colo dele aquela hora da manhã, então só pedi se ele tinha dormido bem. Ele falou que sim e me pediu se eu também tinha dormido também. Fazia tempo que ele não se importava comigo daquele jeito. Parece pouco, eu sei, mas na hora considerei aquilo como uma grande coisa. Respondi que também tinha dormido bem. A porta das crianças escancarou e o nosso filho menor saiu só de cuecas. O dia enfim começou.
A correria do dia não me deixou pensar muito no que tinha acontecido. Mais para o fim da tarde, resolvi testar se ele continuava tão querido quanto de manhã. Mandei uma mensagem para ele comprar pão antes de ir para casa. Ele respondeu que sim e pediu se eu queria mais alguma coisa. Uma resposta com várias palavras, uma depois da outra, com mais sílabas do que um simples “ok”?. Eu estava realizada! Agradeci a preocupação e disse que não, só queria ele, o pão e as crianças e minha noite estava feita. Ele respondeu com uma carinha alegre. Melhor do que nada.
Chegando em casa, tudo certo. A medida que o dia foi terminando, ele foi ficando com aquela cara triste de novo. Coloquei as crianças para dormir e chamei ele para assistir TV. Abri até um vinho. Fui atrás dele com uma taça e o encontrei de novo com a cabeça naqueles papéis velhos. Perguntei sabendo já a resposta que ia ouvir.
- A escritura?
- Sim.
Deixei a taça de vinho na bancada em cima do escritório e fui para a cama. Deixei ela de propósito em cima da madeira, sem um descanso de copo. Ele ia ficar brabo quando visse, mas era minha certeza de que ele pelo menos ia ver o copo. Fui para a cama.
Tentei me lembrar de quando que ele começou a querer vender a casa. Não foi uma decisão que tomamos em conjunto. Ele teria me avisado de uma ideia tão importante assim. Estava respeitando aquela busca dele, mas ele podia me pedir ajuda pelo menos! O vinho logo fez efeito em mim e acabei dormindo antes dele vir deitar. Mas o sono de mãe é leve e acabei ouvindo os passinhos dele entrando no quarto, trocando de roupa e... abrindo a janela. Senti o frio entrar no quarto e por baixo das cobertas quando ele se aproximou. Pensei que de repente o vinho tinha lhe dado calor. Eu estava com bastante sono, então deixei para lá. Foi quando ouvi ele falar.
- Cuida de mim. Eu não tô bem.
Ele tremia. Puxei a coberta para cima de nós e coloquei minha perna por cima da perna dele, do jeito que ele gostava. Beijei o seu rosto e disse que tudo ia dar certo. Ele tremeu mais um pouco, respiração pesada, e depois relaxou. O ronco veio alguns instantes depois. Nunca dormi tão bem mesmo ouvindo o ronco dele.

No dia seguinte, acordei decidida. Não podia deixar passar aquilo mais uma noite. Quando levantei, ele já estava tomando café sozinho na cozinha. Fui até ele e coloquei os braços ao redor do seu pescoço, como estava fazendo toda noite. Ele se aconchegou no meu abraço e sorriu.
- Adoro quando você me abraça assim.
Do jeito que ele falou, parecia que eu nunca tinha abraçado ele assim. Será que ele estava com o sono tão pesado que não lembrava mesmo de nada depois de deitar? Devia ser o vinho. Não bebíamos mais como antigamente, aquilo deve ter mexido no seu sono. Decidi perguntar.
- E o vinho, gostou?
- Eu não bebi.
Fiz a melhor cara de paisagem possível, mas naquele momento me senti uma assombração segurando um pão com margarina. Algo estava errado.
- É? Eu vou buscar seu copo então.
Fui até o escritório. O copo estava exatamente no mesmo lugar, mas com metade do que eu havia deixado no copo na noite passada. E com um descanso de copo embaixo dele. Senti um arrepio percorrendo a minha nuca.
Ele devia ter bebido sim. Não pode. Devia ter bebido e bebido outro copo ainda. Claro. Por isso não lembrava de nada. Ele estava brincando comigo. Cretino.
Voltei para a cozinha com o copo na mão, sorrindo. Abracei ele ao redor do pescoço e falei no seu ouvido.
- Cretino – beijei sua orelha – Tem certeza que não gostou do vinho?
O sorriso dele sumiu.
- Mas eu falei que não bebi vinho nenhum!
Mostrei para ele o copo.
- Tem certeza? Porque eu sei que te servi bem menos noite passada.
Ele pegou o copo da minha mão o examinou como se nunca tivesse visto uma taça na vida. Cheirou e depois tomou um gole.
- ARGH! Que horror. Eu teria lembrado se tivesse tomado. Desculpa amor, eu acho que você bebeu vinho demais ontem e está misturando as coisas – ele me beijou na testa – Eu tenho que ir trabalhar. Aproveita que as crianças estão dormindo ainda e tira um tempo pra você!
Ele foi para o quarto terminar de se ajeitar e eu fiquei ali, parada no meio da cozinha, com o copo de vinho na mão.

Trabalhei o dia inteiro como uma zumbi. Eu fechava os olhos e a imagem da taça de vinho ocupava os meus pensamentos. Tentava racionalizar de todas as maneiras possíveis, mas as minhas ideias já estavam acabando. Será que ele estava com vergonha de me contar que estava bebendo? Será que ele estava ficando acordado até tarde para ficar na internet vendo pornografia? Será que ele tinha outra? Será que essa outra foi quem bebeu o vinho? Ele não podia estar recebendo alguém na nossa própria casa depois de eu dormir, podia? Ele nunca faria isso. Devia ser coisa da minha cabeça.
Não percebi quando cheguei em casa, de tão longe que estava. As crianças estavam estranhamente calmas e logo foram dormir. Senti que o tempo passou e eu simplesmente flutuei por ele, até que mais uma vez eu estava sentada sozinha na sala, na frente da TV. A noite parecia mais escura do que o costume. Quando me dei por conta, já era meia-noite. Eu normalmente já estava dormindo aquela hora. Era a hora dele dormir. Passei pelo escritório e a luz ainda estava acesa. Parei na porta e falei:
- Amor, eu já vou dei...
- Eu já vou.
- Você quer que eu te traga alguma...
- Eu disse que já vou!
Ele gritou sem nem me virar a cara. Eu não ia ficar discutindo com alguém que não se prestava nem a olhar para mim. Senti as lágrimas chegando e sai em direção ao nosso quarto. Chega. Aquilo não ia mais ficar assim. Quando dei as costas, ouvi a porta do escritório batendo com força. O cretino ainda se fechou lá dentro.
Era outra. Certo que era outra. A essa hora ele devia estar entrando na internet, ou ligando para alguém, ou mandando fotos para alguém com certeza mais nova do que eu, alguém que não lembrava aquela casa, aquela família, alguém que abraçava ele sempre do jeito que ele gostava de ser abraçado. É óbvio! Por isso que ele gostou tanto daquele abraço! Era o jeito que ela abraçava! Cretino. Cretino, cretino, cretino.
Deitei e não preguei o olho. Fiquei encarando o teto por não sei quanto tempo. Uma coisa não saia da minha cabeça. Será que ele queria vender a casa para se ver livre da gente? Porque ele queria tanto aquela escritura? Seja qual fosse o seu plano, ele estava transtornado. Por isso todos aqueles arrepios toda noite. Só pode. O corpo estava falando tudo o que ele não queria falar. Mas se era assim que ele queria, tudo bem. Eu que não ia ficar mais naquela casa. Eu ia pegar as crianças e ir embora agora.
Quando decidi levantar para tomar uma atitude, senti ele entrando no quarto. Ele entrou devagar, sem fazer barulho. Cretino. Me fiz de louca e puxei a coberta para cima de mim, mas fiquei olhando. Ele trocou de roupa. Dobrou as roupas que usava em cima da cadeira. Colocou o casaco no armário e... abriu a janela. Além de tudo eu ia ter que passar frio. Mas era a última vez.
Ele não percebeu que eu ainda estava acordada. Com um pouco de dificuldade, puxou a coberta e deitou na cama. Parecia um velho. Onde estava aquela energia toda, hein? Ele se ajeitou no travesseiro e virou de lado, como fazia todas as noites. E então começou a tremer.
- Eu não tô bem, amor. Me ajuda.
Eu não ia abraçar ele.
- Cuida de mim. Eu não tô bem.
Eu não acreditava na coragem daquele infeliz.
- Você não vai cuidar de mim?
CHEGA! Puxei as cobertas e sai do meu lado da cama. Fui até o lado dele e gritei.
- Qual é o nome dela hein? Qual é o nome dela? Porque eu sei que você não está atrás de uma maldita escritura! Conta pra mim agora o que você está aprontando! Conta pra mim ou eu pego nossos filhos e vamos embora pra você nunca mais nos ver!
Ele seguia tremendo de frio. Uma corrente de ar gelado entrou pela janela aberta. Eu puxei as cobertas de cima dele. Naquela hora, só queria ver ele sofrer.
- Vamos, me conta!
Nada. Ele ficou ali, se contorcendo, tentando puxar uma coberta que não existia. Seus olhos ainda estavam fechados. Todos os meus gritos, nada surtiu efeito. Ele ainda falava baixinho.
- Me ajuda, querida. Eu não tô bem.
Era demais para minha cabeça. Ele devia estar fingindo. Só pode. Mas um arrepio passou pela minha nuca.
Fui para o escritório ver se descobria alguma coisa. O maldito lugar estava uma bagunça. Caixas e mais caixas que eu nem sabia de onde haviam saído acumulavam-se pelos cantos. Na bancada, milhares de documentos velhos, quase podres, um em cima do outro. Não entendia nada do que estava escrito naquilo tudo, de tão velho e desbotado que tudo parecia. Foi quando algo me chamou a atenção.
Enfiada à força em uma caixa, uma agenda se destacava. No meio das folhas, uma foto tentava escapar. Peguei a agenda e a foto. Era tão antiga quanto os papéis que estavam ali. Coloquei ela na luz para tentar enxergar através dos anos.
Uma família sentava na sacada da frente de uma casa. Um senhor de idade, uma senhora ao seu lado e uma jovem linda sorriam. Os três pareciam felizes. Mas o que raios aquela fotografia estava fazendo ali?
De repente, BAM!
A janela do escritório abriu. Um vento frio entrou, derrubando os papéis no chão. Perdi a foto que segurava no meio daquela confusão toda. Mas então, no meio da sala, um papel ficou exatamente abaixo da luz.
A escritura da casa.
O envelope tinha um brasão antigo, que segurava o papel com a pouca força que havia lhe restado depois de todos aqueles anos. Pensei em abrir, mas um pensamento passou pela minha cabeça. E se... Procurei a foto, mas ela havia sumido no meio da confusão toda. Entendi o recado. Seja o que for, a minha tarefa ali já havia acabado. Deixei a escritura no mesmo lugar onde havia deixado o vinho na noite passada. Fui para o quarto.
A janela ainda estava aberta. Meu marido ainda tremia. Fui fechar a janela, mas ele gemeu.
- Vem cá, cuidar de mim. Me abraça.
Respirei fundo e ignorei a janela. Juntei as cobertas do chão e cobri ele. Ele continuou tremendo. Então engoli meu orgulho e toda a raiva que havia sentido dele naqueles poucos instantes e deitei do seu lado. Ele suava frio e repetia baixinho.
- Me abraça. Me ajuda.
Coloquei os braços ao redor dele.
- Vai ficar tudo bem.

No dia seguinte, acordei sozinha, como de costume. Ao chegar na cozinha, ele estava tomando o café e lendo o jornal. E em cima da mesa, a escritura.
- Bom dia amor! E obrigado!
Ele parecia outra pessoa. Não era ele que tinha gritado comigo na noite passada. Não podia.
- Obrigado por...?
Ele pegou a escritura e me mostrou.
- Por isso! Você não imagina a minha felicidade quando acordei e vi ela aqui em cima da mesa.
Minhas suspeitas se confirmaram. Trabalhei a cara de paisagem e segui em frente.
- Imagina -  beijei seu rosto e peguei um pão - Só quis ajudar.
- Eu vou providenciar a venda da casa assim que possível. Já olhei um apartamento pequeno, mas bem confortável. Vai dar para a gente se virar até conseguir algo melhor.
- Com você, as crianças, pão e margarina, tudo certo.
Ele tomou o último gole de café, sorriu e beijou a minha testa.
- Um bom dia pra nós, amor.
- Um bom dia pra nós.

O dia seguiu sem maiores dificuldades. Não sei porque, me sentia leve. Uma sensação de dever cumprido, mesmo sem saber o que eu havia feito. No meio da tarde, ele me mandou uma mensagem. Um comprador que estava interessado na casa havia entrado em contato. Ele pediu se eu podia sair um pouco mais cedo do trabalho para ir com ele. Concordei sem medo.
Buscamos juntos as crianças na escola pela primeira vez em muito tempo. Elas ficaram realizadas vendo o pai e a mãe juntos. As coisas pareciam estar voltando ao normal e melhores. Deixamos elas na minha mãe e fomos para a imobiliária.
- Então, onde está o comprador interessado?
- Comprador? Acho que te falei errado. É uma compradora.
Senti o arrepio na nuca de novo. Será que depois de tudo aquilo, mesmo assim... Fomos até uma sala reservada. Um homem com a camisa da imobiliária nos esperava. Ao lado dele, uma jovem de uns 20 e poucos anos esperava. Ela era linda... e familiar.
Ela estendeu a mão e nos cumprimentou. Quando nosso olhar se encontrou, não resisti.
- Eu... já não te conheço?
- Talvez – ela sorriu – Mas eu me mudei faz pouco para a cidade. Voltei, na verdade. Dizem que sou muito parecida com minha mãe, e que sou a cara da minha falecida vó. Talvez você tenha conhecido elas, será que não?
E então eu lembrei.
- Sim! Talvez eu conheça elas. Vamos fazer negócio então?
Conversamos por um tempo e fomos embora. Em uma semana poderíamos sair de casa. Pegamos as crianças e pizzas no caminho. E pela primeira vez em muito tempo, dormimos quase todos na mesma hora. Coloquei as crianças para dormir, apaguei as luzes da cozinha, e então percebi que a luz do escritório estava acesa. Quase apaguei, quando vi que alguém ainda estava lá dentro.
- Amor?
Ele demorou para responder. Senti um aperto no estômago.
- Amor? Querido?
Ele virou e me viu.
- Oi? Ah, desculpa! – ele tirou os fones de ouvido e me mostrou – Você sabe que não consigo fazer faxina sem música. Eu já vou deitar, só vou arrumar um pouco essa bagunça aqui.
- Tá certo – sorri aliviada – Boa noite.
Deitei mais tranquila. Até o sono pareceu vir mais fácil. O calorzinho do quarto teve o seu efeito. Estava quase cochilando quando ouvi ele entrando no quarto. Ele entrou devagar, como sempre. Trocou de roupa. Dobrou a roupa que estava usando na cadeira. Guardou o casaco na cadeira e abriu a janela.
Senti o vento frio entrar no quarto e me desesperei. Aquilo não ia terminar nunca?
Ele puxou as cobertas e deitou na cama. Virou de lado como virava todas as noites. E então, antes de eu sequer poder abraçar ele, disse.
- Eu estou bem agora, amor. Pode ir embora. Obrigado.
A janela se fechou sozinha. O vento cessou. Ouvi passos dentro do quarto. A porta do quarto abriu e fechou. A porta da casa abriu e fechou. E então... silêncio.
Saímos daquela casa no dia seguinte.

Sam teria saído antes daquela casa

2.8

Quando você olha para a comida, a comida olha para você.

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Gostava tanto de comida que um dia virou comida. É o ciclo da vida.

Lição de 2016: nunca deixe de sorrir.



10 anos, 10 tortas. E 2017?