Era Uma Vez, na 8ª série... - Parte IV

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Sam havia saído com ela. Os dois passaram a tarde juntos, tendo consciência que se gostavam muito e que não importava o que fizessem juntos, ia valer a pena só pelo fato de poder estar um do lado do outro.

Mas faltava algo. Os dois não haviam se beijado. E isso é meio que... importante.

Eles continuaram com a rotina dos telefones. Dias depois porém, Sam foi viajar. Ele odiava praia, sempre odiou (e ouvi falar que continua odiando até hoje). E convenhamos, viajar numa situação crítica de indecisão como a que se encontrava era uma perspectiva terrível. Longe do telefone, não!

Mas ele foi. Foram uns dias beeeem difíceis. O celular de Sam não funcionava na praia, então não havia jeito deles se comunicarem. A sua mãe chegou a oferecer um cartão de telefone para o filho ligar para a moça, coisa que ele não fez. Sabe quando algumas atitudes influenciam toda uma seqüência de eventos? Essa hesitação indicava algo.

Porém, uma hora o flagelo acabou. E a medida em que iam voltando para casa, as boas notícias chegavam na velocidade em que o coração dele batia. Na estrada, passaram por uma torre de transmissão de sinal de telefone. Um risquinho na barra de sinal do monitor do celular subiu. Logo, ele vibrou no bolso de Sam. "Uma mensagem de voz recebida".

Outra torre. Outro risquinho no celular. Outra "Uma mensagem de voz recebida". E outra torre. E outro risquinho. E outra "Uma...".

(Sam sorria. =D)

Chegou em casa. Descarregou as malas, abriu as janelas, sentou na cama, encostou-se na parede de madeira azul do seu velho quarto e foi desvendar os segredos das mensagens de voz. Cadastrou uma senha ("maldita burocracia!" pensou) e pôs-se a ouví-las. "Oi... tudo bem? Tô com saudade. Preciso falar contigo" dizia a voz do outro lado da linha. Rouca, bem baixinha, como que encostada no telefone para ninguém ouvir.

Sam ia surtar se não falasse com ela logo. E foi o que ele fez. E em poucos dias, lá estavam ele, ela e dessa vez uma amiga dela indo ao cinema. 3 de janeiro de 2003, primeira sessão da tarde. O filme? "O Senhor dos Anéis - As Duas Torres".

(Pausa: nessa hora você pensa PORQUE RAIOS ELE FOI VER STUART LITTLE 2 COM O AMIGO NERD DELE E SENHOR DOS ANÉIS COM A AMIGA DELA?! É, a gente não pensa muito nessas situações...)

As coisas no cinema aconteceram mais rápido dessa vez. Os dois sentaram juntos e ela logo deitou a cabeça no ombro dele. Sam lembra de ter comentado até sobre o vestido das personagens. Quase 3h de filme meu querido, temos que arranjar assunto. E não, ela não achou o máximo o Legolas subindo no cavalo de costas. E sim, Sam quase gritou, mas controlou-se.

Porém, lá pelas tantas (mais de 1h de filme já - bundas quadradas na poltrona), o melhor casal nerd do cinema desde Han Solo e Princesa Léia aparece na tela: Aragorn e Arwen (uma das míseras quatro personagens mulheres de Senhor dos Anéis, importante lembrar), ele no seu negrume encardido de batalha, ela na sua esplendorosa alvura élfica, trocando juras de amor sob a luz da lua.

Sam sente alguém beijando o seu rosto. (TENSO)

Sam olha para o lado. (Sim, ela beijou o seu rosto.)

Ela está sorrindo. (Ele também.)

Ela está certa do que ele vai fazer. (Ele, não.)

Porém, ele não a decepciona. (E nem a você, caro leitor...)

Como foi? Bom, com todo respeito... digamos que semanas depois Sam foi assistir o filme de novo, com seus amigos dessa vez. Pra ver o que ele não viu da primeira vez... =)

(e poder gritar pro Legolas!)

Foi uma tarde maravilhosa. Curiosamente ela acabou com Sam voltando pra casa de carona... com os pais dela! Ele lembra-se até hoje da cara de sua mãe quando chegou em casa: "Ué... na minha época era o homem que levava a menina pra casa..." Tempos modernos, mãe. Tempos modernos.

Então foi a vez dela ir viajar. Momento TENSO #1: lembram-se que Sam não curtia muito usar o telefone né? Pois é. Um dia antes dela ir viajar, estavam os dois à noite falando no ICQ ("ô-ou!", 2003, lembra?) e ela pediu se ele ia ligar pra ela no outro dia de manhã pra desejar boa viagem. Afinal, ultimamente era quase sempre ela que ligava. Ele disse que não sabia, mas achava que sim. Ela repetiu a pergunta: "tu VAI me ligar amanhã né?". Ele respondeu "sim, vou sim", sem muita confiança. Ela então LIGOU para o celular dele, na madrugada, mesmo com os dois falando pela internet e disse: "ok... fico esperando TU me ligar amanhã então..."

Na manhã seguinte, perto do meio-dia... ela ligou para Sam.

- Alguém não ficou de ligar pra mim hoje?
- É... pois é... hehehe...
- (...)
- (...)
- Não vai me dizer nada?
- Uhm... boa viagem? Se cuida.
- Só isso?
- É... acho que é.
- Ok. Tchau.

(Sam tinha uma habilidade incrível de destruir sua própria reputação...)

Quando ela voltou, eles continuaram se falando por telefone e internet. Logo começaram as aulas e Sam foi encontrar-se com ela um dia na saída das suas aulas a tarde. Logo ela fez aniversário e Sam estava lá também. E eles foram passear no shopping um dia. E... só.

Meninas amadurecem mais rápido que os meninos. Isso é fato. Sam passou, de uma hora para outra, do piá de 14 anos que sabia os 150 Pokémon de cor para um cara de 14 anos que tinha que saber bem mais que isso. Ele tinha trocado de colégio, entrado no ensino médio, caído de cabeça num mundo totalmente novo, onde teria que se adaptar. Enquanto seu irmão corria o recreio inteiro de um lado pro outro, traficando balas por informações, ele sentava-se no murinho cinza do pátio e pensava se tinha ou não uma namorada.

Só que Sam pensou demais.

Então, meio que sem querer, foram alguns dias sem os dois se falarem. Sam não tinha aquela noção de que sim, era importante dar sinal de vida às vezes! Ele era novo? Sim, era. Ele nunca esteve em um relacionamento? Não, nunca esteve. Ele tinha milhares de coisas pra pensar? Sim, tinha. Todo mundo têm. E ele não sabia o que se passava do outro lado, o que ela pensava. Não sabia que enquanto pensava "será que eu devo ligar pra ela?" ela pensava "será que ele não vai ligar pra mim?".

Mas nem tudo é desculpa.

Então, por motivos alheios, certo dia, Sam ficou sem internet. E sem telefone em casa. E sem celular. E de repente, sentiu que TINHA que falar com ela. Mas não tinha como. Mas sabia que era sua obrigação descobrir como fazer isso.

E claro, Sam pensava demais. Mas não agia.

Certa tarde, o telefone tocou em sua casa.

Era ela do outro lado da linha.

Chorando.

Continua...