Cometa Diário: Ano Dois

Sexta-feira passada, dia 23, o Cometa Diário fez dois anos. Eu ia fazer um post todo bonitinho, porque afinal, eu gosto de relembrar datas toscas e comemorá-las de forma especial (DIA DA ÁRVORE, UHUUU!!!) mas naturalmente atrasei. Mas como as coisas sempre acontecem por aqui, o atraso adicionou bastante ao que eu queria escrever. E como sempre acontece por aqui também, hora do conto do Titio Cometa!

Quinta-feira passada, leseira total no Leeds, por volta das 23h, a diversão era criar listas. Eu e mais três criaturas da noite (a Lili e o Ale, como sempre, e o Marcelo) começamos naquelas bem básicas, estilo Friends: cinco atores/atrizes que você gostaria de levar para cama, cinco cantores/cantoras que você levaria para cama, cinco pessoas que você daria um soco, cinco filmes que você gostaria de ter criado, cinco livros que gostaria de ter escrito, cinco músicas que gostaria de ter feito e foi e foi até que chegamos aos cinco dias que você gostaria de viver de novo.

Quando comecei a pensar no assunto logo fui enumerando dias que por coincidência acabaram ganhando posts aqui: o dia que perdi meu celular na praia, o dia do meu primeiro porre, o dia do nosso show em Novo Hamburgo, a minha viagem pra São Paulo, a viagem pra Curitiba com meu irmão, a primeira viagem de carro... experiências bacanas, que apesar de quase sempre envolverem festa, bebida e rock and roll, tem todas um quê de auto conhecimento e foram muito valorosas na minha "formação" nos últimos tempos, digamos assim.

Mas fato é que, pensando melhor, a maioria desses dias aconteceu... nos últimos dois anos! Estou a menos de dois meses de completar 22 anos e comecei a viver aos 20! Ok, 19 anos, vamos dar um desconto. Mas o que eu fazia com a minha vida antes disso?! É algo a se pensar mesmo. E eu ainda tenho cara de dizer que me sinto velho as vezes e me permito ser nostálgico e relembrar pesaroso a aurora da minha idade... tsc tsc tsc.

Há tempos que defendo a idéia de que as pessoas ficam mais velhas cada vez mais novas. Poderia culpar o tempo, já que se em 1973 o Pink Floyd cantava em Time "every year is getting shorter, never seems to find the time...", imagina hoje (sendo que essa frase é de um texto mais antigo ainda), mas não. O que acontece são pequenos acontecimentos que não nos tiram tempo de vida, mas começam a colocar pesos amarrados aos nossos pés e a gente começa a se arrastar por aí sem saber o que fazer. Começar a assinar cheques é um desses pesos. Descobrir que tem gastrite também. Ficar em casa querendo sair, sair de casa querendo ficar, ler os scraps dos outros pra ficar por dentro da vida alheia... tudo só atrapalha.

(ah, se tu se escutasse Samuel... que diferença faria!)

E nesse misto de correria e pesar a gente esquece e nem percebe o bacana da vida. A gente faz o bolo correndo e esquece os tão queridos confetes da cobertura. A gente deixa passar em branco o sorriso de satisfação da tua priminha quando ela acerta o significado das palavras em inglês que tu pediu pra ela. A gente esquece o dia que ouviu 19 vezes a música daquela banda desconhecida que você descobriu sem querer e se apaixonou. A gente não se lembra de nenhuma das vezes em que combinou de morar sozinho com algum amigo e apaga da memória o dia em que alguém te pergunta "nós vamos ser amigos até ficar velhinhos né?".

(E isso não acontece só com crianças de 12 anos em filme de Sessão da Tarde. Acontece no meio de uma tarde de trabalho estressada também e acredite: muda tudo)

Resumindo a missa, se eu pudesse viver aquela quinta-feira de novo (e eu viveria, se não fosse a certeza de muitas quintas-feiras lesadas pela frente...), eu adicionaria na minha lista o dia 23 de julho de 2008, quando comecei o Cometa Diário. Ele fez parte de mim nos últimos dois anos, registrando e me fazendo refletir sobre minha vida. Como um livro, ele formou toda uma mitologia desse universo que eu vivo e além de experiências novas, me trouxe amigos e amigas e junto com eles fez eu me conhecer muito melhor. E eu sei que teve um dedinho na vida de muita gente também.

E acima de tudo, ele é importante porque me faz lembrar justamente esse tipo de coisa que a gente esquece as vezes: amizade. Que ele sirva pra mim lembrar e valorizar as minhas e ajudar a quem ler lembrar e valorizar as suas e por aí a gente vai, mudando uma pessoa do mundo por vez... um propósito bem digno, diga-se de passagem.

Estou de volta, sem nunca ter ido embora. E como um bom anfitrião, só tenho um pedido a fazer...

Sintam-se em casa.

=)

Sam acredita que o hoje será o ontem de amanhã. E fica muito confuso com essa frase.

Refúgio

Repouso. Recinto. Recanto. Redoma. Refúgio.

Palavras parecidas que tem o mesmo significado. Um lugar pra fugir do mundo, nem que seja por pouco tempo. Um lugar pra encontrar segurança, nem que seja segurança pra se atirar de cabeça numa piscina vazia. As vezes é um lugar, às vezes é uma droga, às vezes é um estado de espírito. Eu e meus amigos temos "A Chácara", assim mesmo, com as aspas e letra maiúscula. Ela não tem piscina, mas acredita: a gente se atira de cabeça do mesmo jeito.

Digamos que repousar foi o que a gente menos fez...

Fui pra lá a primeira vez em 2003, quando conheci a turma com que vou sempre que possível. Inclusive uma dessas idas já apareceu algumas fotos bem constrangedoras nesse post aqui. Esse ano foi novidade: pela primeira vez tínhamos dinheiro pra comprar e íamos com nossos carros! (o meu Turquesa, na real... grande garoto \o/). E dinheiro + carro = segurança pra levar muita bebida. Sim, foi punk.

Antigamente éramos inocentes: íamos para jogar RPG, levávamos até panos de prato, tomávamos banho, escovávamos os dentes e virávamos as madrugadas destruindo monstros e conversando na escuridão dos quartos sobre amores impossíveis, as gurias que a gente não pegava e como nós éramos "figurinhas num álbum universal, procurando a sua figurinha par brilhante que completa o seu desenho". Mas claro, tudo muda. Sintetizando: foi na chácara que comecei a beber. E o resto da história vocês já conhecem...

Como diria a Lili, "chega uma hora na vida do cara que todas as fotos tem um copo na frente né?"

Sabe "Se Beber Não Case"? A gente fez um pacto na sexta-feira no melhor estilo do filme: o que acontece na Chácara, fica na Chácara, e o que a gente esquecer vai se lembrar nas fotos depois. Olhando os registros, agora digo com certeza: se beber não case, não tire fotos, não filme, não faça nada que você não tenha certeza de que não vai lembrar depois. Sério. Seguem provas abaixo.

Começa assim

Continua assim

Vai ficando perigoso

E acaba assim
Fizemos esse vídeo na sexta de noite e eu só lembrei dele no domingo, quando assisti em casa! Mals aê galera, não foi pro YouTube mas foi pro Blogger...

E isso foi só na sexta feira. Ainda tivemos todos os momentos clássicos de ir pra chácara: cantar as músicas da trilha sonora do Rei Leão com direito a coreografia; relembrar as aulas de educação física do colégio; tocar o sino do lado de fora da casa e gritar "OS INGLESES ESTÃO CHEGANDO!"; cantar animado os maiores sucessos dos Backstreet Boys e das Spice Girls jogando sinuca e gritar em algum momento do dia "SCOTTY DOESN'T KNOW! SCOTTY DOESN'T KNOW! SCOTTY DOESN'T KNOW!" como se nossas vidas dependessem disso. Isso sem contar os momentos em que a gente se lembrou dos fatos antigas das outras chácaras, o que nos deixa com aquela sensação de "estamos velhos, porém felizes". Pura nostalgia.

(Aliás, a trilha sonora da chácara sempre alterna momentos clássicos com novidades: as coletâneas "Músicas para Dançar Pelado", "Rock Antigo. E bem bom.", "Bem Boas de Dançar, ok?" e "Músicas com garotas cantadas por garotas para garotas ouvirem [gravada por um cara]" foram muito bem recebidas, sem contar a noite de sinuca e jazz ao som da Jazz Six, do Luis Fernando Veríssimo. Poesia pura.)

Engraçado é a gente lembrar de tudo isso, considerando que secamos um garrafão de 4,55 L em três na primeira noite!

Ok, a gente não foi lá só pra beber. Tanto que até jogamos RPG realmente! Mas eu lembro bem o motivo pelo qual eu comecei a beber na chácara, há alguns anos atrás: eu não ia ter que voltar pra casa no dia seguinte e sabia que estava cercado de amigos que iam ficar do meu lado caso desse alguma merda. E isso se prova cada vez mais toda vez que a gente vai lá. Já foram conversas, já foram brigas, já foram crises surpresas de taquicardia (aliás, existe uma crise planejada de taquicardia?), já foram confissões... a gente basicamente vai lá pra viver uns três dias intensamente e no final das contas juntar os pedacinhos e seguir em frente com o que sobrou.

E mesmo que no último dia bata aquela deprê que tu vai jogar sinuca sozinho ouvindo Janis Joplin (aliás, "JANIS! BEBÊ CHORÃO! JANIS! BEBÊ CHORÃO!" - sorry, piada interna...) ou sair pra tirar foto das plantas no meio do mato (ok, só eu faço isso), o importante é que sempre fica aquela vontade de fazer mais, de ficar mais uns dias, nem que seja na base do sanduíche de presunto e queijo.

Flores são gays

E mais ainda, fica a certeza de que, independente do jeito que a gente toca nossa vida na chácara, fica um mandamento de síntese que dá pra levar pro resto da vida.

Se a alma condena... a gente faz valer a pena.

E que venha a próxima.

Sam não confia no seu fígado, mas confia no iogurte pra curar a ressaca.

Cinebiografia

“Só se vive uma vez. Mas do jeito que a gente vive, isso é mais do que o suficiente.”

Vi essa frase na cinebiografia do cantor austríaco Falco esse fim de semana. Mesmo fora dos tradicionais celeiros de rockstars, como Inglaterra e Estados Unidos, Falco, cujo nome real era Johann "Hans" Hölzel despontou no circuito underground de Viena (?) e dali partiu para o sucesso na Áustria, Berlin, Alemanha e o resto do mundo, sendo um dos primeiros na Europa a incorporar elementos do rap ao pop e rock.

Amadeus, amadeus... ô ô

Sua trajetória foi digna de um rockstar, com todos os clichês que essa carreira permite e exige: começo humilde e inovador, sucesso avassalador em pouco tempo, drogas, dúvidas quanto à paternidade de filhos, prisões, drogas, ressuscitação nos camarins antes de shows para 10 mil pessoas, drogas... enfim.

(Rockstar é que nem sogra: são todos iguais, só mudam o endereço.)

Falco vivia intensamente, como manda a cartilha da música (ou seria a partitura?). E viver intensamente não é não é o tipo de coisa que se planeja; simplesmente acontece. Eu não lembro direito quando foi o momento em que comecei a pensar em levar a vida mais intensamente. Se eu algum dia merecer uma cinebiografia da minha vida (e ela será feita, estou trabalhando nisso), a cronologia dela seria confusa, com certeza. Como numa monografia, descobrir a resposta para essa questão norteadora não seria uma busca e sim, uma cruzada.

“Quando foi que você começou a viver?”

Os momentos intensos alternam-se com os períodos em branco. O primeiro beijo. O primeiro porre. O primeiro domingo em que você dormiu onze horas e só viu o sol quando chegou em casa de manhã, cheirando a cigarro e cerveja. A primeira vez que você sentou no seu carro. A primeira vez que você fugiu no seu carro. Uma baqueta quebrada na hora errada. Você apagado no sofá. Você chorando sozinho no escuro.

O dia que você saiu para curtir a noite num barzinho e acabou numa festa gay. A primeira vez que você notou que realmente tinha amigos. A primeira vez que você notou que não podia contar com ninguém. A primeira vez que você traiu. A primeira vez que você foi traído. O dia em que você teria dado tudo por ter uma camisinha no bolso. O dia em que você tinha.

Como diria Keith Richards, “a experiência é o preço da educação”.

Muitos dos momentos intensos dos últimos tempos foram brigas e discussões homéricas com os meus melhores amigos. E posso dizer que estão todos ali, do meu lado, cada um com seu valor e desempenhando seu papel, o que me faz pensar que talvez discutir seja uma característica necessária as boas amizades: talvez eu não tenha uma relação tão forte com todos os meus amigos que nunca discuti.

Besteira ou não, isso me leva a ter vontade de brigar com certas pessoas, pra ver se elas descobrem o peso que tem na minha vida e eu na delas. Não precisa nem ser uma briga; seria mais como pegar ela pela orelha, chacoalhar os braços na frente dela e dizer “OIE, ESTOU AQUI!”. Se cada pessoa fizesse isso com uma pessoa no mundo, mudaríamos o universo, uma pessoa por vez. Doce utopia.

Mas temos que ser altruístas. Como eu já disse aqui, somos rádios operando em freqüências diferentes; somos trens em velocidades diferentes, com cargas únicas e muitas vezes carregando combustíveis inflamáveis que se por acaso se chocarem no meio de uma ferrovia, não vai ter equipe de limpeza que vai limpar o estrago. Temos que ajudar quem quer ser ajudado. Simples assim.

Li uma frase essa semana que adicionei com orgulho ao meu repertório de frases prontas: “Cada pessoa está passando pelo seu próprio inferno pessoal. Não se esqueça disso no momento de tentar trazer elas para o seu inferno pessoal”. Trocando em miúdos: se você está fudido, não ferre os outros. Seja altruísta e desocupe a moita. Ou pule da ponte de uma vez por todas.

(Historinha do Titio Cometa: há um asilo para cegos em Florianópolis que fica na esquina de uma rua bem movimentada. Quando algum cego sai de lá para passear, vai até a esquina e estende a mão para o lado para alguém vir e ajudar ele a atravessar a rua em segurança assim que o sinal fechar. Certa vez um cego foi até a esquina, estendeu a mão e esperou. Outro cego veio fazer a mesma coisa, encontrou uma mão estendida e os dois atravessaram a rua juntos, com o sinal aberto, sem saber que ambos eram cegos. Todos os carros tiveram que freiar em cima deles e alguns até bateram. Mas eles chegaram do outro lado da rua. Isso é altruísmo, sacou? Fazer o bem sem olhar a quem... literalmente)

Falco morreu cinco dias antes de completar 41 anos. Como manda o clichê, estava se preparando para gravar um novo disco, tinha conseguido criar uma relação estável com a ex-mulher, tinha o amor de sua filha (que não era sua filha), corria todos os dias e das drogas antigas, só fumava e bebia. Morreu ao sair distraído com o carro em uma rodovia movimentada: um ônibus o atingiu em cheio e o seu carro capotou.

Mesmo vivendo a vida de forma intensa, Falco morreu altruísta. Sabia o valor que tinha na vida de casa pessoa que havia arrastado para o seu inferno pessoal e livrou todas elas desse peso, para assim começar ele mesmo a se livrar dessa bola presa a uma corrente de ferro chamada “passado” que trazia amarrada aos seus pés. Nas palavras de George Santayana, “aqueles que não se lembram do passado estão fadados a repeti-lo”. Falco descobriu isso.

Apesar de tudo, descobriu tarde demais. Por isso que decisões como ser intenso e ser altruísta são mudanças que não podem esperar. Afinal, um ônibus vindo em nossa direção é que nem uma transa no chão frio da cozinha: a gente nunca sabe quando pode acontecer.

Mas acontece.

Sam irá dirigir sua própria cinebiografia. Todos os seis filmes.