Cinebiografia

“Só se vive uma vez. Mas do jeito que a gente vive, isso é mais do que o suficiente.”

Vi essa frase na cinebiografia do cantor austríaco Falco esse fim de semana. Mesmo fora dos tradicionais celeiros de rockstars, como Inglaterra e Estados Unidos, Falco, cujo nome real era Johann "Hans" Hölzel despontou no circuito underground de Viena (?) e dali partiu para o sucesso na Áustria, Berlin, Alemanha e o resto do mundo, sendo um dos primeiros na Europa a incorporar elementos do rap ao pop e rock.

Amadeus, amadeus... ô ô

Sua trajetória foi digna de um rockstar, com todos os clichês que essa carreira permite e exige: começo humilde e inovador, sucesso avassalador em pouco tempo, drogas, dúvidas quanto à paternidade de filhos, prisões, drogas, ressuscitação nos camarins antes de shows para 10 mil pessoas, drogas... enfim.

(Rockstar é que nem sogra: são todos iguais, só mudam o endereço.)

Falco vivia intensamente, como manda a cartilha da música (ou seria a partitura?). E viver intensamente não é não é o tipo de coisa que se planeja; simplesmente acontece. Eu não lembro direito quando foi o momento em que comecei a pensar em levar a vida mais intensamente. Se eu algum dia merecer uma cinebiografia da minha vida (e ela será feita, estou trabalhando nisso), a cronologia dela seria confusa, com certeza. Como numa monografia, descobrir a resposta para essa questão norteadora não seria uma busca e sim, uma cruzada.

“Quando foi que você começou a viver?”

Os momentos intensos alternam-se com os períodos em branco. O primeiro beijo. O primeiro porre. O primeiro domingo em que você dormiu onze horas e só viu o sol quando chegou em casa de manhã, cheirando a cigarro e cerveja. A primeira vez que você sentou no seu carro. A primeira vez que você fugiu no seu carro. Uma baqueta quebrada na hora errada. Você apagado no sofá. Você chorando sozinho no escuro.

O dia que você saiu para curtir a noite num barzinho e acabou numa festa gay. A primeira vez que você notou que realmente tinha amigos. A primeira vez que você notou que não podia contar com ninguém. A primeira vez que você traiu. A primeira vez que você foi traído. O dia em que você teria dado tudo por ter uma camisinha no bolso. O dia em que você tinha.

Como diria Keith Richards, “a experiência é o preço da educação”.

Muitos dos momentos intensos dos últimos tempos foram brigas e discussões homéricas com os meus melhores amigos. E posso dizer que estão todos ali, do meu lado, cada um com seu valor e desempenhando seu papel, o que me faz pensar que talvez discutir seja uma característica necessária as boas amizades: talvez eu não tenha uma relação tão forte com todos os meus amigos que nunca discuti.

Besteira ou não, isso me leva a ter vontade de brigar com certas pessoas, pra ver se elas descobrem o peso que tem na minha vida e eu na delas. Não precisa nem ser uma briga; seria mais como pegar ela pela orelha, chacoalhar os braços na frente dela e dizer “OIE, ESTOU AQUI!”. Se cada pessoa fizesse isso com uma pessoa no mundo, mudaríamos o universo, uma pessoa por vez. Doce utopia.

Mas temos que ser altruístas. Como eu já disse aqui, somos rádios operando em freqüências diferentes; somos trens em velocidades diferentes, com cargas únicas e muitas vezes carregando combustíveis inflamáveis que se por acaso se chocarem no meio de uma ferrovia, não vai ter equipe de limpeza que vai limpar o estrago. Temos que ajudar quem quer ser ajudado. Simples assim.

Li uma frase essa semana que adicionei com orgulho ao meu repertório de frases prontas: “Cada pessoa está passando pelo seu próprio inferno pessoal. Não se esqueça disso no momento de tentar trazer elas para o seu inferno pessoal”. Trocando em miúdos: se você está fudido, não ferre os outros. Seja altruísta e desocupe a moita. Ou pule da ponte de uma vez por todas.

(Historinha do Titio Cometa: há um asilo para cegos em Florianópolis que fica na esquina de uma rua bem movimentada. Quando algum cego sai de lá para passear, vai até a esquina e estende a mão para o lado para alguém vir e ajudar ele a atravessar a rua em segurança assim que o sinal fechar. Certa vez um cego foi até a esquina, estendeu a mão e esperou. Outro cego veio fazer a mesma coisa, encontrou uma mão estendida e os dois atravessaram a rua juntos, com o sinal aberto, sem saber que ambos eram cegos. Todos os carros tiveram que freiar em cima deles e alguns até bateram. Mas eles chegaram do outro lado da rua. Isso é altruísmo, sacou? Fazer o bem sem olhar a quem... literalmente)

Falco morreu cinco dias antes de completar 41 anos. Como manda o clichê, estava se preparando para gravar um novo disco, tinha conseguido criar uma relação estável com a ex-mulher, tinha o amor de sua filha (que não era sua filha), corria todos os dias e das drogas antigas, só fumava e bebia. Morreu ao sair distraído com o carro em uma rodovia movimentada: um ônibus o atingiu em cheio e o seu carro capotou.

Mesmo vivendo a vida de forma intensa, Falco morreu altruísta. Sabia o valor que tinha na vida de casa pessoa que havia arrastado para o seu inferno pessoal e livrou todas elas desse peso, para assim começar ele mesmo a se livrar dessa bola presa a uma corrente de ferro chamada “passado” que trazia amarrada aos seus pés. Nas palavras de George Santayana, “aqueles que não se lembram do passado estão fadados a repeti-lo”. Falco descobriu isso.

Apesar de tudo, descobriu tarde demais. Por isso que decisões como ser intenso e ser altruísta são mudanças que não podem esperar. Afinal, um ônibus vindo em nossa direção é que nem uma transa no chão frio da cozinha: a gente nunca sabe quando pode acontecer.

Mas acontece.

Sam irá dirigir sua própria cinebiografia. Todos os seis filmes.

8 comentários:

Anna.Kaito disse...

Você deixa eu ser a figurinista? XD

Samuel Rodrigues disse...

tá contratada já! \o/

Anônimo disse...

OI! EU ESTOU AQUI! SABIA?

ABRAÇO!

BABI SCHNEIDER

Anônimo disse...

10 de julho de 2010 debitou 123 pila da porra da conta de luz na minha conta

doce ironia, já que lá em casa nessa hora tava todo mundo no escuro, rêre rêre

Anônimo disse...

é bom ser parte das pessoas que faz jus ao teu post, seja sobre ser altruísta e a gente o é, convenhamos

seja sobre os detalhes sórdidos, egoístas e... frios, hahaha

o engraçado é que tem mais gente que me deve uma cervejaria, agora me toquei, e não é tu

já que todo mundo tá devendo valendo

vamos pagar no próximo débito da minha conta, rêre rêre

lili
(mas eu não estou aqui, sério)

Samuel Rodrigues disse...

babi:
OI! SIM! NÃO ERA PRA TI ISSO! MAS OI, QUANTO TEMPO!

lili:
sim. chão frio. e sou a favor da cervejaria.

lili ferrari disse...

eu disse q não estou aqui!!!

Anônimo disse...

eu nao disse q era pra mim! soh fiz uma piadinha.

tchau.

a dani falou contigo?

babi