Um Dia Ruim

Hoje foi um dia ruim. E tá tudo bem.

Porque um dia ruim é uma oportunidade, se você souber pra onde olhar. É uma lição, se você prestar atenção no que ele pode te ensinar. E é uma benção, porque um dia ruim hoje é um dia bom no seu futuro.

Eu sei que a gente não quer ter dias ruins. Quer ter produtividade, quer ter satisfação, quer ter rendimento, quer ter resultado. Mas o barco tá afundando, a corda tá no pescoço, a síndrome do impostor bate e você pensa: “será que eu sei fazer isso mesmo? Alguém uma hora vai descobrir que eu tô perdido”.

E então você acorda todo dia ignorando a possibilidade de que aquele pode ser um dia ruim. Mas as únicas pessoas que acham que algo sumiu quando fecham os olhos são bebês recém-nascidos. Com eles é fofo. Com a gente, não.

Às vezes a gente precisa chegar no fundo do poço pra ver até onde já cavamos. Se esse fundo do poço vier como apenas um dia ruim, estamos no lucro. Ninguém gosta de falhar. Mas não somos uma equação matemática que sempre dá certo. Às vezes dá ruim.

Agora, se você tem certeza que vive uma vida em que dias ruins não são permitidos, talvez você tenha que rever a vida que você está levando. Os sonhos e objetivos que você está carregando são realmente os seus sonhos? Você está trabalhando para uma vida melhor para você? Quando você estava no início da jornada, era isso que você imaginava? Dá pra mudar o final dessa jornada ainda? O que você consegue mudar para melhorar agora?

Não aceitar dias ruins é querer exercer controle sobre um número enorme de circunstâncias que você nem considera. Então solta e deixa acontecer.

Tudo bem que você perdeu o foco. Tudo bem que você cansou. Tudo bem que bateu um desespero. Isso prova que você é um ser humano que não está apenas vivendo: está existindo.

Amanhã talvez seja um dia ruim. Amanhã talvez seja um dia bom. A única certeza?

Amanhã tem de novo.


Produtividade de Natal

Vi um post no Insta esses dias com uma camiseta com a seguinte frase “Então é Natal. E o que você fez? Fiz o que deu”. Eu acrescentaria “E não tem problema nenhum nisso.”

Na minha última sessão de terapia do ano, minha psicóloga falou sobre as pressões que nos colocamos nessa época, principalmente sobre ter feito o suficiente antes do ano acabar.

Apesar de estarmos acostumados a lidar com finais e inícios, ganhos e perdas, sim e não, o final do ano não é absoluto e definitivo. Ele não vai substituir ou zerar o que fazemos ou deixamos de fazer: é só uma sequência.

É tudo uma questão de perspectiva. Talvez no Natal do ano que vem, a gente pense “fiz o que deu” e o que deu foi extremamente suficiente para aquele momento.

Que nesse Natal, Ano Novo e início de 2020, você consiga ser leve consigo mesmo. Consiga enxergar os seus objetivos com clareza. E consiga cuidar da sua energia para chegar até eles.

Se existe algo que podemos nos dedicar com afinco é em nos tornarmos pessoas melhores, para nós e para o mundo. Que a sua produtividade natalina seja medida em quantas vidas você mudou para melhor, começando pela sua. Esse é o verdadeiro presente do Natal.


17. Moedas do Yoshi

A vida é como um jogo single player, em que você joga sozinho e a única competição é a última vez que você jogou essa mesma fase. Não adianta nada se comparar aos outros se só você está jogando o seu jogo: as pessoas podem ter a mesma idade, ter estudado na mesma escola, ter vivido na mesma cidade, mas só você lembrou de pegar as cinco moedas do Yoshi que te davam uma vida extra nessa fase da vida.

O nome delas é Dragon Coin. Eu não sabia.

Se formos adiante na metáfora, dá pra comparar cada dia vivido com uma fase do jogo. Não temos nenhum motivo pra voltar e jogar novamente uma fase que a gente já passou, além de melhorar o nosso rendimento e pegar os itens que a gente não pegou antes. Na vida, naturalmente, não dá pra viver um dia de novo, mas dá pra viver um novo dia comparando com o dia anterior.

Acordar na hora desejada ao invés de acordar atrasado que nem ontem é como pegar uma moedinha do Yoshi nessa rodada. Comer com cuidado, fumar menos, tomar menos café, ler um pouco, dormir na hora, cada atitude que você se dedica a fazer melhor do que o dia anterior é uma moedinha a mais. E quando você menos percebe, PLIM! Uma vida nova foi adicionada ao seu estoque.

Ou cresce como pessoa.

E se a gente não conseguir completar a fase 100%, não tem problema. Amanhã tem outro dia. O importante é saber qual é o nosso limite para não jogar pelo limite do outro. Nós devemos criar as nossas medidas de rendimento, afinal, só nós sabemos o que passamos para alcançar tudo na vida. E às vezes não é nem culpa das outras pessoas: trabalhamos com limites dos outros porque não sabemos os nossos. E isso a gente só descobre jogando. A prática leva a perfeição e, se não deu hoje, amanhã tem outra fase.

Mas não se esqueça: dá pra passar de fase sem pegar todas as moedas do Yoshi.

Sam sempre jogou videogame muito mal

16. Take On Me

Conheci o Weezer em 2001, quando eles tocaram “Hash Pipe” ao vivo no MTV Movie Awards. Eu estava na 7ª série, começando a gostar de música de maneira séria. Eu assistia o Movie Awards religiosamente, fazendo bolão comigo mesmo sobre quais filmes iam ganhar quais prêmios, mas naquele ano aquela apresentação musical foi mais marcante do que qualquer prêmio.

Naquela época eu ainda era um pré-adolescente que considerava a hipótese de pedir uma guitarra de presente, sem nunca ter tido aptidão nenhuma com instrumentos de corda. Quando eu vi aquela banda com um W enorme no fundo do palco e labaredas de fogo na sua frente, a paixão foi imediata. Mas mais do que a atitude, a música ou os hormônios falando mais alto, a principal identificação com a banda foi a miopia.



Quando você é jovem e começa a ouvir Led Zeppelin, AC/DC, Metallica, a última coisa que você espera ver é qualquer um deles usando óculos em cima do palco. E ali estava o Weezer, com dois membros da banda admitindo em público que precisavam de óculos para enxergarem o que estavam tocando. Aquela foi a prova que eu precisava de que qualquer coisa que eu eu quisesse fazer na vida eu podia, porque tinha pessoas parecidas comigo que já faziam, e muito bem. Foi o meu momento de entender que representação importa.

Em dezembro de 2003 eu ganhei minha bateria e a partir dali eu também era alguém de óculos em cima do palco. Desde 2001 acompanho o Weezer e adorei o “Teal Album”, coleção de covers feitos pela banda incentivada pelo cover viral de “Africa” do Toto. 18 anos depois, ouvir esse álbum é como acompanhar velhos amigos que resolveram descansar um pouco e só tocar algumas músicas por diversão, sem muita expectativa, exatamente o que eu faria hoje. É bom ver que a identificação continua.



Ontem foi lançado o clipe do cover deles de “Take on Me”, do A-Ha, usando como proto-Weezer a Calpurnia, banda do Finn Wolfhard, o Mike do Stranger Things. No Instagram, a banda agradeceu pela oportunidade, dizendo que todos sempre foram muito fãs de Weezer. Finn nasceu em 2002, um ano depois daquela apresentação pela qual eu me apaixonei pela banda.



O Weezer nasceu em 1992, mas apesar dos seus 27 anos de existência, felizmente não dá sinais de parar, com seu 13º álbum programado para o próximo dia 1 de março.

Os meninos que precisam saber que podem usar óculos e ainda assim ter uma banda agradecem.

Sam ainda quer ver um show do Weezer

15. Janeiro

Sou um forte defensor do poder das metas e objetivos mensais ao invés das metas e objetivos anuais. Acredito que se cuidássemos do nosso planejamento mensal que nem (fingimos) cuidar no final do ano, as coisas seriam bem diferentes! Por isso, chegando o final do primeiro mês do ano, eu pergunto: como foi o seu janeiro?

Você também só usa o calendário a partir de fevereiro?

Tentei não ser muito audacioso nos meus objetivos para esse mês. O clima mais quente e a rotina mais tranquila até permitem que certas atividades sejam transformadas em hábitos com mais facilidade, como aquela corridinha no final da tarde, organizar o horário de sono e arrumar a casa. Mas sei que janeiro também é uma briga mental entre estou de férias ainda X o mundo já começou a correr e você está ficando para trás, então tentei não pegar muito pesado comigo.

Me preocupei apenas em ler um livro no mês, meta que pretendo carregar para os outros meses do ano, e aproveitar bem o clima de janeiro para encontrar as pessoas e me presentear com experiências. E essa parte foi um sucesso!

Apesar de ter tido várias oportunidades de terminar a livro antes do mês, termino junto com janeiro a leitura de  “A Vida, o Universo e Tudo Mais”, terceiro volume do Guia do Mochileiro das Galáxias. E na questão das experiências, nunca houve um mês na minha vida em que fui em tantas festas. E em pelo menos duas festas cheguei sozinho, o que é um grande avanço para um introvertido como eu. Também fui ao cinema sozinho, o que introvertidos como eu indicam sempre. E claro, trabalhei muito, porque essas experiências não se pagam sozinhas.

Agora, para fevereiro, quero apenas manter a meta de um livro por mês lendo um pouquinho todo dia, escrever um pouco por dia e postar mais aqui, organizar o meu sono dormindo e acordando em um horário fixo e limpar meu quarto pensando no fato de que em alguns meses estou saindo de casa. Algumas coisas tem que ser descartadas antes que eu vá embora! E claro, seguir aproveitando namorada, amigos e família.

E você, como foi de janeiro? E o que você espera de fevereiro?

Sam rejuvenesceu alguns meses em janeiro

14. Já não é da sua conta

Do 3º andar, ouço a porta do Uber bater com força na rua. Ele abana para dentro do carro. Ela responde. Ele dá duas batidinhas no vidro para agradecer ao motorista. O carro acelera e logo dobra a esquina. Ele fica olhando ela ir embora e pega o celular no bolso assim que o carro some. Para mandar mensagem para ela, claro. Ou para outra. Pra mim não era, com certeza.

Ele entra na portaria do prédio e logo ouço o elevador vibrar. São quase 4h da manhã. Era possível escutar tudo o que acontecia no prédio. Normalmente teria mais barulho, mas hoje era como se todos os andares tivessem ficado em silêncio pra ouvir a gente discutir. E eles iam conseguir o que queriam.

O elevador chega no nosso andar e ele desce assobiando. Ele nunca assobia quando está do meu lado porque sabe que vou chamar atenção dele pra não fazer barulho para os vizinhos. Deve estar alegre. Bêbado. A mão chega a tremer na hora de buscar a chave no bolso. Se depender de mim, ele fica no corredor.

Depois de algumas tentativas, ele encontra a chave. Espero ele no escuro, em pé, com o jeans e a camiseta que usei durante o dia para ele perceber que não consegui dormir um segundo esperando ele chegar. Assim que ele entra pela porta, acendo as luzes. Pra incomodar mesmo. Ele coloca as mãos sobre os olhos para proteger a visão e já sai falando.

- M-m-mas, peraí! - sinto o cheiro de álcool do outro lado da sala - Pra que isso aí?
- Isso são horas de chegar? - pergunto alto o suficiente pra acordar nosso cachorro.
- Ah meu, já veio me xingando, não tô com paciência não, viu?

Ele se afunda no sofá e o animal já senta do lado dele. O maldito sempre foi o favorito do cão e parece que nem o cheiro da bebida assusta ele. Ele pega o celular e já começa a rir passando o dedo pela tela. É um desaforo atrás do outro. Mas isso acaba hoje.

- Quem é essa perua aí?

Ele me ignora e segue rindo enquanto olha o celular

- Eu te fiz uma pergunta.

Um sorriso cínico surge no canto do rosto dele enquanto ele passa o dedo na tela do smartphone. Direita. Esquerda. Direita. Esquerda. Meu sangue ferve. Arranco o celular da mão dele e arremesso pela sala.

- EU TE FIZ UMA PERGUNTA!

Ele levanta com uma expressão de ódio no rosto, e eu subitamente lembro como ele é alto.

- Precisa ficar enchendo o saco e perguntando?
- Precisa sim!
- Escuta aqui, você não paga minhas contas viu?
- Mas já paguei, e muitas!

Ele coloca as duas mãos na cabeça e sai andando sem rumo pela casa.

- Eu já não sei mais nem o que eu tô fazendo aqui.
- EU TAMBÉM NÃO SEI! Eu até já te mandei pra rua! Mas enquanto você não achar outro lugar pra ficar e estiver dormindo aqui, eu quero satisfações!

Ele anda pela sala atrás dos pedaços desmontados do celular.

- Eu só vou pedir mais uma vez. Quem é essa que estava com você e te deixou aí?

Ele encontra o smartphone. A tela está intacta, infelizmente. Ele responde baixinho.

- O nome dela é Jenifer.
- Jenifer? - repasso mentalmente todas as Jenifers que conhecemos - E de onde surgiu essa?
- Eu encontrei ela no Tinder.
- Ha, eu sabia, sempre com a cara nesse celular, só podia.

É a minha vez de me afundar no sofá

- E ela é a sua nova namorada?
- Não - ele diz, encaixando a bateria no aparelho e sorrindo - Mas poderia ser.

Trocada por uma perua do Tinder.

- E porque ela?
- Ah - ele segura o riso, lembrando de alguma coisa - Ela faz umas paradas.
- Que tipo de paradas.
- Umas que eu não faço com você.
- Tipo o que?
- Melhor não falar.

Homens.

- E é tão mais fácil encontrar isso em outra ao invés de tentar procurar comigo?

Ficamos os dois sentados no sofá, um de cada lado, com o nosso cachorro sentado no meio. Ele termina de montar o celular e a luz do aparelho ilumina o seu rosto. Eu me lembro ao mesmo tempo como ele é bonito e como eu já não aguento mais ver a cara dele. Ele me olha, e eu sinto que é pela última vez.

- Já não é da sua conta.

Ele deixa a chave que era dele em cima da mesa e vai embora. O meu cachorro o segue mas fica pra dentro do apartamento quando ele fecha a grade.

Ouço o elevador vibrar novamente e a portaria do prédio abrir-se mais uma vez. Ele segue assobiando. Logo, um carro chega e freia subitamente.

Do 3º andar, ouço a porta do Uber bater com força na rua. Eu abano para o carro. Ninguém responde.



Sam pensou tempo demais no que as oito pessoas que escreveram essa música quiseram falar com ela.

13. Tempo

O tempo é um conceito criado pelo ser humano para podermos entender e organizar melhor o mundo a nossa volta. Isso significa que apesar de exato, muitas vezes ele é subjetivo, com significados diferentes para cada pessoa e o momento em que ela está vivendo.

Hoje é um exemplo clássico disso: apesar do ano ter iniciado na virada do dia 31/12 para o dia 01/01, para muitos o ano começou no dia 02/01, o primeiro dia útil do ano. E para outros ainda o ano começou só hoje, dia 07/01, a primeira segunda-feira do ano. Isso sem contar o ano que começa depois do Carnaval ou o ano que começa depois que o último pessoal tira suas férias em fevereiro.

Qual o tamanho da importância do tempo para você?
Apesar de ser um conceito criado por nós, damos para o início do ano o significado que a gente quiser. Se o que falta para conquistar o que quer seja para você seja a chance de começar tudo de novo e aproveitar aquele gás de início de ano, saiba que dá pra começar um novo 2019 todo dia.

Nesse novo ano que inicia - quer ele tenha começado semana passada, hoje ou só em março - não esqueça de usar esse super poder. E Feliz Ano Novo.

Sam, naturalmente, postou isso atrasado

12. 3.0

A torta desse ano quase não saiu. Eu demorei pra decidir o tema, achei que ia perder a data de envio, quando perdi achei que não ia dar mais e já tinha desistido quando minha excelentíssima namorada disse "TU NÃO VAI DEIXAR DE FAZER A TORTA ESSE ANO". Sábia mulher.

O que é uma coisa muito 30 anos: deixar de fazer as coisas que definem a gente. O que eu mais escuto é "Não acompanho mais... Não faço mais isso... Não lembro a última vez que fui lá." Se tem uma coisa que a gente tem que se esforçar pra fazer é não deixar pra trás aquilo que nos define.

"O Samuel? Ah, aquele da torta?"

Por maior que seja o esforço, vale a pena.


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E sim: vai dar tudo certo. Que venham os 31!

Sam já está em dúvida do que fazer ano que vem

11. Pessoas Ansiosas

Tem um momento no especial “Thinky Pain”, do comediante Marc Maron, em que ele fala com o seu eu-criança que está chorando em um campo de beisebol depois de levar uma bolada na cara. Com a intenção de contar ao pequeno Marc um pouco do futuro, ele diz: “E honestamente, daqui em diante, sem mais heróis do esporte, (...), só solitários, pessoas desajustadas, viciados em drogas, pessoas que vivem à margem, comediantes, estrelas do rock, essas são suas pessoas. Acostume-se com isso”. Enquanto ele falava com o pequeno Marc, eu concordava do outro lado da tela.


Trailer do especial "Thinky Pain"

Gostamos de histórias de esportes por causa da superação: fulano treinou X horas por X anos e foi reconhecido na frente de todos. É a narrativa que queremos na nossa vida. Mas chega uma hora que, como o pequeno Marc, você vê que seu povo é outro. Foi assistindo os especiais do Netflix do Marc Maron, bem como os de John Mulaney, outro comediante que recomendo, que a identificação aconteceu. Os dois tem o mesmo estilo neurótico e ansioso de pensar demais no que os outros pensam e analisar as situações em que vivem.


John Mulaney e uma festa da adolescência. Clique nas legendas!

Além disso, os dois não são modelos da masculinidade clássica: Maron brinca que em caso de uma apocalipse zumbi precisaria de um macho-alfa para liderá-lo senão ia morrer logo, enquanto Mulaney fala de ter que retomar o controle sobre sua cachorra: “Como se eu tivesse tido o controle sobre ela alguma vez antes”.

Sempre falamos que representação importa e buscamos modelos de pessoas para seguir. Assistindo os especiais de Maron e Mulaney, percebi que as pessoas que me identifico são neuróticas e ansiosas, e que é possível lidar, fazer rir e criar arte dessa paranoia toda. E pela primeira vez, não tenho nenhum problema com isso.

E você: o que tem aceitado sobre quem você é ultimamente?

Sam nunca achou que ia gostar de stand-up comedy

10. Mercúrio Retrógrado

Mais alguns dias completo 30 anos. Sem nenhuma crise existencial - não mais do que as diárias, as semanais, e as quinzenais - e ninguém me pressionando para eu ser a pessoa que esperam que eu seja aos 30.

Afinal, sou um homem branco hétero cis gênero com emprego, oportunidades e um mundo esperando eu conquistá-lo: ninguém precisa me cobrar nada, o mundo foi feito para mim! A única cobrança que sinto é a que eu mesmo me faço, e talvez seja justamente por ter um mundo que me privilegia tanto que sinto isso.

Posso beijar a pessoa que quero na rua, posso concorrer ao emprego que desejar, posso usar a roupa que eu quiser e posso falar bulhufas na internet sem ser xingado. Posso passar incólume pela vida, sendo amigo das pessoas certas e estando no lugar certo e na hora certa, para simplesmente lembrarem de mim. “O fulano? Sim, o fulano! Grande lembrança! Nunca incomodou. Chama ele!”. Eu nunca tive alguém que não gostasse de mim, que falasse “Aquele ali? Não quero perto de mim”.

Uma vez um colega de faculdade brigou comigo por causa de algo que falei bêbado e fiquei até emocionado. Inimigos! Um pouco de drama, como os seriados americanos me falaram que seria. Que emoção, que plot twist! Mas foi tudo um mal entendido. Sigo com o mundo de portas abertas, oportunidades no meu colo e tudo dependendo apenas de mim para que aconteça. Nunca ouvi um não.

Pensando bem, dá até um nervoso. Seria mais fácil alcançar alguma coisa se tivesse alguém me impedindo. As pessoas que conquistam seus sonhos mesmo com dificuldades parecem tão felizes! Acho que a crise dos 30 é o medo da consciência de que posso fazer o que eu quiser. Fiquei com a boca seca. Deve ser mercúrio retrógrado. Faltou ar aqui. Ainda dá pra colocar a culpa no inferno astral?

Mercúrio. Sempre ele.

Sam acredita em horóscopo, mas não entende nada

09. Galeria de Arte

Imagine a cena: você está em uma galeria de arte, olhando uma obra, sem saber nada sobre ela. A obra não faz sentido: cores que não se combinam, pinceladas que não se repetem, nada harmônico. Parece que alguém pintou as patas de um cachorro e um gato e deixou eles brigarem em cima da tela. Você dá de ombros e pensa “isso é arte?” antes de seguir adiante, até que alguém diz “posso explicar para você?”.


A pessoa explica que sim, as cores não se combinam porque o artista quis representar um conflito de emoções através delas. As pinceladas não se repetem porque através das técnicas diferentes ele quis demonstrar estilos diferentes de pintura. E a falta de harmonia era justamente para chocar e fazer pensar sobre o que é arte para cada um. Não havia uma resposta certa para “isso é arte?”: o certo era gerar o questionamento, não responder a dúvida.


Estamos sempre representando um desses papéis em cada uma das coisas que fizemos. Às vezes não entendemos algo simplesmente por não ter a bagagem necessária, mas isso não é motivo para ignorar e seguir em frente. A gente sempre pode ir atrás de mais informações e aumentar o nosso conhecimento. Às vezes, temos que ser a pessoa que pega na mão de alguém e diz “vem cá que eu te explico”. E às vezes precisamos fazer algo sem a segurança de que aquilo vai ser digerido por todo mundo, mas com a confiança de que quem não entender vai querer saber mais e pode encontrar alguém pronto para explicar.


Gosto de pensar nesse cenário porque ele tem sempre um final feliz: ou alguém aprendeu algo novo sozinho, ou uma interação gerou conhecimento para um lado e satisfação para o outro. E no final, é isso que a arte ou qualquer coisa que criamos deve almejar: criar relacionamentos com valor e significado para os dois lados.

Sam adora interpretar quadros

08. Cirurgia do Coração

“Se você parar uma cirurgia de coração no meio, vai parecer bastante com um assassinato”.


Às vezes, a coisa tá feia só porque não terminou ainda. Somos ansiosos. Tem tanta coisa que conseguimos de forma imediata - novo link, novo like, novo match - que quando temos que fazer algo que demanda tempo para ter resultado, sofremos.

Dou risada quando leio sobre meditação e vejo o tempo que cada um defende: uns defendem 10 minutos por dia, outros 7, 5, 3 minutos… Já vi gente indicando 1 minuto por dia de meditação! 1 minuto é um atestado de que somos ansiosos demais para dedicar tempo de qualidade para qualquer coisa. E nessa vibe de fazer o mínimo possível para ter o menor resultado possível, deixamos para trás o benefício de dar o tempo certo para as coisas.

“Se você parar uma cirurgia de coração no meio, vai parecer bastante com um assassinato”.

As mãos sujas - do cirurgião ou do assassino - indicam que o trabalho está sendo feito. Temos que entender o que é processo e o que é resultado final.

Esperar a construção do nosso apartamento está sendo assim: andar por andar, vimos o processo, sabendo que era isso que ia trazer o resultado final, o prédio pronto. Depois de todos os andares ficarem prontos, começou a construção interna: acabamentos, piso e outros detalhes. É outra coisa pra lembrar: nem sempre o processo será às claras. Muitas vezes ele é interno e a gente tem que ter paciência e confiança. E claro, dar aquela conferidinha de vez em quando para aproveitar a jornada.

É como um bolo crescendo: você não fica conferindo ele no forno o tempo inteiro, porque sabe que o cheirinho que enche a casa significa que alguma coisa está acontecendo. Durante a cirurgia de coração, você não fica pedindo se o paciente está bem, mas fica de olho nos sinais vitais dele para conferir como estão as coisas.

Seja qual for a sua jornada, talvez as coisas só estejam na metade do caminho. Tenha paciência e observe com atenção: o coração volta a bater no final.

Sam prefere bolos a cirurgias

07. O Brasil Saiu da Copa

O Brasil saiu da Copa. Dependendo do tipo de pessoa que você é, aqui está um breve resumo do que fazer agora.

Se você acompanha futebol com frequência, já passou por isso várias vezes e sabe que esse tipo de coisa acontece. Tem muito jogo ainda, aproveite!

Se você acompanha futebol só em época de Copa e estava realmente empolgado, ótimo! Se a excitação de torcer por um time lhe fez bem, vou te contar uma novidade: tem futebol O TEMPO TODO na televisão pra você passar por esse sentimento várias vezes. E a Copa não acabou!

Se você não dá muita bola pro futebol mas gosta de ver as pessoas empolgadas com a mesma coisa, você finalmente entendeu porque o ser humano se junta tão facilmente por um objetivo em comum. Que tal usar esse senso crítico agora para escolher com sabedoria os movimentos que você vai apoiar e as massas de manobra que não vai apoiar?

E se você estava cínico com a empolgação do povo com o futebol e acha que o brasileiro tem que se preocupar com política, segurança e coisas mais importantes, tenho uma novidade: sim, você está certo, o brasileiro também tem que se preocupar com tudo isso. Mas assim como a alegria de ganhar a Copa não ia resolver os problemas do país, perder a Copa não tem que deixar você alegre. Não seja o Galvão Bueno quando diz “o Brasil perdeu, mas e a Argentina, que não ganha desde 1986?” O fato do outro estar pior não deixa a gente melhor. A sua alegria não pode depender da tristeza do outro, e isso não vale só pra Copa.

E se você não acompanhou nada da Copa e não sabe o que falar sobre isso tudo, não tem nada de errado. Às vezes, não falar nada é o melhor que temos a dizer. Vai Brasil!

Sam vai torcer pra Inglaterra