Do 3º andar, ouço a porta do Uber bater com força na rua. Ele abana para dentro do carro. Ela responde. Ele dá duas batidinhas no vidro para agradecer ao motorista. O carro acelera e logo dobra a esquina. Ele fica olhando ela ir embora e pega o celular no bolso assim que o carro some. Para mandar mensagem para ela, claro. Ou para outra. Pra mim não era, com certeza.
Ele entra na portaria do prédio e logo ouço o elevador vibrar. São quase 4h da manhã. Era possível escutar tudo o que acontecia no prédio. Normalmente teria mais barulho, mas hoje era como se todos os andares tivessem ficado em silêncio pra ouvir a gente discutir. E eles iam conseguir o que queriam.
O elevador chega no nosso andar e ele desce assobiando. Ele nunca assobia quando está do meu lado porque sabe que vou chamar atenção dele pra não fazer barulho para os vizinhos. Deve estar alegre. Bêbado. A mão chega a tremer na hora de buscar a chave no bolso. Se depender de mim, ele fica no corredor.
Depois de algumas tentativas, ele encontra a chave. Espero ele no escuro, em pé, com o jeans e a camiseta que usei durante o dia para ele perceber que não consegui dormir um segundo esperando ele chegar. Assim que ele entra pela porta, acendo as luzes. Pra incomodar mesmo. Ele coloca as mãos sobre os olhos para proteger a visão e já sai falando.
- M-m-mas, peraí! - sinto o cheiro de álcool do outro lado da sala - Pra que isso aí?
- Isso são horas de chegar? - pergunto alto o suficiente pra acordar nosso cachorro.
- Ah meu, já veio me xingando, não tô com paciência não, viu?
Ele se afunda no sofá e o animal já senta do lado dele. O maldito sempre foi o favorito do cão e parece que nem o cheiro da bebida assusta ele. Ele pega o celular e já começa a rir passando o dedo pela tela. É um desaforo atrás do outro. Mas isso acaba hoje.
- Quem é essa perua aí?
Ele me ignora e segue rindo enquanto olha o celular
- Eu te fiz uma pergunta.
Um sorriso cínico surge no canto do rosto dele enquanto ele passa o dedo na tela do smartphone. Direita. Esquerda. Direita. Esquerda. Meu sangue ferve. Arranco o celular da mão dele e arremesso pela sala.
- EU TE FIZ UMA PERGUNTA!
Ele levanta com uma expressão de ódio no rosto, e eu subitamente lembro como ele é alto.
- Precisa ficar enchendo o saco e perguntando?
- Precisa sim!
- Escuta aqui, você não paga minhas contas viu?
- Mas já paguei, e muitas!
Ele coloca as duas mãos na cabeça e sai andando sem rumo pela casa.
- Eu já não sei mais nem o que eu tô fazendo aqui.
- EU TAMBÉM NÃO SEI! Eu até já te mandei pra rua! Mas enquanto você não achar outro lugar pra ficar e estiver dormindo aqui, eu quero satisfações!
Ele anda pela sala atrás dos pedaços desmontados do celular.
- Eu só vou pedir mais uma vez. Quem é essa que estava com você e te deixou aí?
Ele encontra o smartphone. A tela está intacta, infelizmente. Ele responde baixinho.
- O nome dela é Jenifer.
- Jenifer? - repasso mentalmente todas as Jenifers que conhecemos - E de onde surgiu essa?
- Eu encontrei ela no Tinder.
- Ha, eu sabia, sempre com a cara nesse celular, só podia.
É a minha vez de me afundar no sofá
- E ela é a sua nova namorada?
- Não - ele diz, encaixando a bateria no aparelho e sorrindo - Mas poderia ser.
Trocada por uma perua do Tinder.
- E porque ela?
- Ah - ele segura o riso, lembrando de alguma coisa - Ela faz umas paradas.
- Que tipo de paradas.
- Umas que eu não faço com você.
- Tipo o que?
- Melhor não falar.
Homens.
- E é tão mais fácil encontrar isso em outra ao invés de tentar procurar comigo?
Ficamos os dois sentados no sofá, um de cada lado, com o nosso cachorro sentado no meio. Ele termina de montar o celular e a luz do aparelho ilumina o seu rosto. Eu me lembro ao mesmo tempo como ele é bonito e como eu já não aguento mais ver a cara dele. Ele me olha, e eu sinto que é pela última vez.
- Já não é da sua conta.
Ele deixa a chave que era dele em cima da mesa e vai embora. O meu cachorro o segue mas fica pra dentro do apartamento quando ele fecha a grade.
Ouço o elevador vibrar novamente e a portaria do prédio abrir-se mais uma vez. Ele segue assobiando. Logo, um carro chega e freia subitamente.
Do 3º andar, ouço a porta do Uber bater com força na rua. Eu abano para o carro. Ninguém responde.
Sam pensou tempo demais no que as oito pessoas que escreveram essa música quiseram falar com ela.
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