Safada

Uma história de traição e luminárias.

***


Entramos em casa pisando pé por pé. Não queria acordar as crianças. Dei a mão para ela no último lance de degraus. Gostava de ser cavalheiro. Ok, eu ia trair minha mulher em alguns instantes, mas isso não me liberava de ser cavalheiro.
Entramos no quarto. O perfume dela tomou o ambiente mais rápido do que eu imaginei. Fiz um esforço na hora de falar para lembrar o que tinha que dizer:
- Esse... esse é o quarto que eu e minha mulher dormimos. E onde transamos. Como você pediu.
- Ótimo. É bem aqui que eu quero.
Ela tirou a caneta que prendia o coque e sacudiu os cabelos. Ah, o perfume! Se ela estivesse de óculos, seria a perfeita cena de filme pornô, da secretaria virando mulherão, soltando os cabelos e jogando as lentes longe. Mas ela não usava óculos. Minha mulher usava óculos.
Ela colocou a caneta que prendia o cabelo e o celular que trazia no bolso traseiro do jeans – Deus era justo, mas aquela calça... - na cômoda, no lado em que minha mulher dormia. “Ordinária”, pensei, “ela sabe o que faz”. Ela mexeu no cabelo como mulher que quer ser notada e veio em minha direção. Falou com uma voz doce que eu sabia que era mentira.
- Vamos começar?
- Va-va-vamos... vamos, sim. Só espera eu...
Ela aperto forte no meio das minhas pernas. Naquilo, no meio das minhas pernas.
- E-e-eu... eu não sei se eu gosto disso!
- Eu não lembro de ter dado permissão para falar.
Ela continuou segurando forte. Não era agradável. Mas era emocionante.
- Minha mulher não costuma fazer isso – respondi, encolhido.
- Não sou sua mulher... esqueceu? - ela me empurrou até a beirada da cama – e vamos parar de falar nela essa noite, por favor?
- É que nós estamos no quarto dela, tem o perfume dela... – mentira, o único aroma era o perfume que saiados seus cabelos – ...as crianças sempre falam “o quarto da mamãe”...
Ela me “permitiu” sentar e respirar, mas colocou o dedo na minha boca para eu não falar.
- Hoje a noite, somos só nós dois.
O que aconteceu a seguir foi muito rápido. Ela puxou meu cabelo pela nuca e inclinou minha cabeça pra trás. A danada tinha força! Senti a ponta das suas unhas afiadas roçando no meu couro cabeludo. Descobri que meu corpo arrepiava em vários lugares que eu não sabia. Ela se inclinou e cheirou meu pescoço, do ombro pra cima. Quando passou pela orelha direita, perdeu alguns segundos ali. Nem sabia que minha orelha era tão sensível! Nem minha mulher, provavelmente.
Ela sentiu minhas pernas tremerem e colocou a canela direita em cima da minha coxa esquerda, ainda segurando meu cabelo. Ela se apoiou nos meus ombros e colocou a canela esquerda em cima da minha coxa direita. Ela estava em cima de mim, mas sabia que eu não ia aguentar por muito tempo. Teria que trocar de posição logo. E trocou.
Ela soltou meu cabelo. Coloquei a cabeça no lugar, mas não por muito tempo: com a mesma força que ela me puxou, ela me empurrou para o meio da cama. Deitei no colchão e vi a luminária pendurada no teto. Eu nunca olhava para ela – nunca ficava nesse ângulo na cama, óbvio – e me surpreendi. Como minha mulher podia gostar daquilo? Estava velha e empoeirada! Só podia ser coisa dela.
Minha nova amiga pareceu adivinhar os meus pensamentos.
- Pensando nela de novo?
- É... - hesitei - ...sim. É que essa luminária...
- Esquece a luminária. Vamos fazer um jogo.
- Jogos? - levantei o pescoço para olhar ela – adoro jogos – ela sorriu, maliciosamente – hm... que tipo de jogos?
Ela notou minha preocupação e sorriu com os olhos. Sabe aquele sorriso que alguém dá e você sabe que coisa boa não vem por aí?
- Jogo de concentração. Você vai ter que ficar concentrado, falando sobre o assunto que eu escolher, enquanto eu...
- Enquanto você o quê?
Ela engatinhou na cama até encostar o rosto dela no meu. Cochichou no meu ouvido.
- Enquanto eu desconcentro você...
Colocou novamente a mão no meio das minhas pernas. Mas gentil dessa vez. Céus.
Esperei obediente pelas próximas ordens, ainda olhando para a luminária no teto. Observando bem, ela tinha uma certa beleza, um charme... mas precisava de uma polida. De repente, eu só tinha que enxergar ela de outra maneira. De outro ângulo. Ia comentar isso com minha mulher.
Com a minha visão periférica, enxergava ela passeando pelo quarto. Não me atrevi a olhar para ver o que ela aprontava, mas não ouvia nada. A danada era silenciosa como um gato. A única coisa que traía sua posição ao meu redor era o toc toc quase mudo da sua sapatilha batendo no chão. Até que o toc toc parou.
Esperei alguns segundos para algo acontecer. Nada. E não enxerguei mais ela. Sabia que ela estava no quarto porque o perfume dela ainda estava no ambiente, mas não conseguia mais notar onde ela estava.
Caralho. Ela era melhor que o Batman.
De repente, PÁ! Algo bateu forte entre as minhas pernas, quase me acertando. Na curiosidade, me atrevi a olhar para frente. Ela estava parada na beira da cama, me olhando, de lingerie, com um chicote na mão. Demorei alguns segundos para entender a cena, mas quando entendi, quase acordei a casa.
- Ei! Essa lingerie é da minha mulher!
- Quieto! - PÁ! novamente, um pouco mais acima – quer acordar as crianças?
- Não! - baixei a voz – não, não. Mas isso é da minha mulher! Eu não deixei você pegar! Eunão vi você pegar!
- Sério? - a poker face dela era ótima – ela não costuma usar né? Tive até que tirar a etiqueta.
- É... ela disse que era pra usar numa ocasião especial, mas nunca vem... Esperei ela usar até na visita do Papa ao Brasil, mas não rolou.
- Oi?
- Visita do Papa, ocasião especial... - quis sumir na cama - desculpa, eu faço piadas idiotas quando fico nervoso.
- Pois não fique – ela subiu na cama novamente e começou a puxar minha camiseta para cima com o chicote – se ela queria usar numa ocasião especial, façamos de hoje uma ocasião especial. Não?
- Eu posso falar?
- Só se concordar comigo.
Ela bateu com o chicote em mim. Cacete, como aquilo me excitava!
- Eu quero jogar. Vamos jogar?
- Vamos. Já estamos atrasados – ela notou o volume entre minhas pernas – você já tá pronto faz horas, né queridão?
- Pois é, então...
- Não tô falando com você.
Ela me fuzilou com os olhos e sorriu. Silenciei de novo.
Ela saiu da cama, ligou a luz da luminária em meia fase e desligou a luz do quarto. Éramos três agora: eu, ela, e a luminária da minha mulher. Praticamente um ménage. A luz era forte o bastante para mim contornar sua silhueta na escuridão, e meu amigo, que silhueta. Aquela expressão do copo meio vazio ou meio cheio foi feita para descrever esse momento: seus seios preenchiam a meia taça na medida, sem sobrar nem faltar. Lutei contra uma força incontrolável de falar isso em voz alta. Eu não tinha permissão para falar, afinal.
E o bumbum... Eu confesso que achei o bumbum parecido com o da minha mulher. Mas eu não sei, acho que a cena toda, o perigo, tudo deixou a derrière dela muito mais bonita do que ela era naquele jeans justo. Anotei mentalmente para olhar a bunda da minha mulher com atenção depois.
Esqueci tudo quando ela começou a tirar minhas calças.
Os meus tênis voaram logo, o meu cinto também, e ela teve a consideração de tirar as minhas meias (querida!). Porém, a hora de tirar minhas calças foi uma tortura psicológica. Na contraluz, conseguia enxergar um sorriso quase sádico dela, puxando meu zíper devagarzinho. Ela fez menção de pegar o chicote novamente e notou que eu quase pulei da cama. Riu, sarcástica.
- Então, vamos jogar... – ela soltou o botão do meu jeans e começou a puxar minhas calças – fale da sua mulher.
- Dela?! Bem dela?
PÁ! O chicote gritou passou zunindo pela minha orelha.
- Ok. Falar da minha mulher. A minha mulher... é linda. Ela é tudo de bom. Tem um sorriso lindo. Os olhos dela sorriem. O cabelo dela é macio. As suas bochechas são rosadas. Ela...
Ela parou. Minhas calças estavam no joelho.
- Impressão minha ou você só olhar sua mulher do pescoço pra cima?
- Como assim?
- Ai, o sorriso, os olhos, o cabelo, as bochechas, deusdocéu... ela não tem peito, bunda, não? Não me surpreendo porque eu tô aqui!
É verdade. Minha mulher era praticamente o sol dos Teletubbies. Ou o Zordon.
- Eu vou baixar o nível – ela colocou a mão nas minhas coxas – e quero que você baixe também.
Com um puxão, minhas calças foram ao chão. Uma torre de cetim se erguia em mim.
- Recomeçando?
- Eu AMO a bunda da minha mulher. Talvez ela não saiba disso, ela prefere que eu não fique falando esse tipo de coisa, só na cama, mas daí quando a gente deita eu falo mas ela dorme logo, e quando a gente fica acordado ou a gente conversa ou a gente transa, daí quando a gente vai transar ela diz que eu não tomei banho, e quando eu tomei banho ela não tomou banho, e quando os dois tomaram banho a gente não pode transar, porque afinal, nós dois tomamos banho e a gente vai ficar suado, então, pra que ter tomado banho, e...
Ela mordeu a parte de dentro da minha coxa.
- AI! Isso doeu! - e me excitou – Doeu mesmo!
- Foco. Eu deixei você falar, use bem esse direito. Fale mais. Com foco!
- Tá. Enfim, eu gosto da bunda da minha mulher. E... e do vãozinho que ela faz quando acaba o bumbum e começam as costas, sabe? Gosto de pegar ela por ali, com força – ela parou de arranhar e começou a beijar a parte de dentro da minha coxa – eu adoro abraçar ela por trás, segurar ela forte pela cintura, mas gosto de abraçar ela de frente também, com força. Gosto de sentir os seios dela – ela colocou a mão por dentro da minha cueca – adoro ela sem sutiã. Os seios dela são o máximo.
Ela tirou minha cueca. Uma camiseta do Homer Simpson me separava da nudez total.
- Você aprendeu a jogar. Para a próxima fase.
Ela notou que eu tremia. O Homer sorrindo na minha barriga deixava a cena mais engraçada ainda, mas ela não demorou para tirar minha camiseta. Lá estava eu, nu, com outra mulher na minha cama. Eu, ela, e a luminária da minha mulher.
Senti a renda da lingerie roçar nas minhas coxas. Os seios dela estavam na altura dos meus joelhos. Queria que tivesse um espelho no teto, não uma luminária estúpida, para ver o que estava acontecendo, mas eu não estava em um motel e também não estava no início de um relacionamento. Aliás, porque a gente deixa de ir em motel depois do início do relacionamento? Tinha saudades.
“Se os seios dela estavam perto dos meus joelhos...”, pensei, “seu rosto estava...”
- Agora, eu vou só ouvir – ela passou a língua nos lábios - Fale da sua mulher no sexo.
Sexo oral. Sexo oral.
- A minha mulher... gosta de sexo – ela me deu uma mordidinha de leve, consegui ver sua sobrancelha direita levantando, incrédula, eu não tinha culpa, era o que dava pra pensar! - ela... ela gosta de transar. Nós não variamos muito, mas o que a gente faz, a gente faz bem.
Sua língua curiosa parou. Entendi o recado.
- Ela gosta de me chupar. E gosta quando eu seguro o cabelo dela com ela me chupando.
Ela deu um gemido gostoso. Segurei o cabelo dela também. Ela gostou.
- Mas o que eu gosto mesmo é de comer ela. Gosto quando eu deito e ela vem por cima de mim, se apoia na cama e fica me provocando, me colocando pra dentro aos pouquinhos, até ela não aguentar mais e querer cavalgar em cima de mim, com força!
Ela levantou, ficou de pé na cama, tirou a calcinha e sentou em mim.
- Continua – bateu com o chicote na minha perna – continua!
- Então eu pego ela forte na cintura e faço ela me sentir bem fundo, até ela não se aguentar mais e perder a pose de mandona – ela gemeu e respirou fundo no meu colo – porque eu sei, que ela é só pose, ela é um doce por dentro! Eu seguro ela forte, eu finjo que mando, ela finge que acredita, e a gente fica assim, nesse jogo, até mudar de posição.
Ela tirou a parte de cima da lingerie e jogou no chão, seios livres, corpo finalmente nu.
- Então nessa hora eu viro o jogo. Eu seguro forte o cabelo dela, o cabelo que ela prende com tanto carinho durante o dia, seguro forte e beijo os seios dela, porque eu sei que ela gosta – aproximei a cintura dela perto de mim com a mão livre e beijei seu corpo todo – e depois eu viro ela, pra ficar por cima.
Nossos corpos se inverteram na cama. Ela tomou ar e perguntou.
- E porque você gosta de ficar por cima?
- Pra ficar bem perto do rosto dela quando ela gozar – mordi o pescoço dela com força – a essa altura, ela já tá quase gozando, quase sem controle, enfiando as unhas nas minhas costas, com força!
Ela já não conseguia falar mais nada pra mim. O jogo já tinha acabado.
Fizemos com o máximo de vontade possível e com o mínimo de barulho para não acordas as crianças. Os últimos instantes pareceram durar uma eternidade. Seguimos no movimento dos corpos suados até os músculos enrijecidos relaxarem. Enfim, gozamos juntos.
Eu só conseguia gozar junto da minha mulher.
Ficamos alguns segundos ali, um corpo sobre o outro, sem pensar muito. Depois de alguns instantes nos olhos, rimos um pouco, e eu saí de cima dela. Ficamos alguns minutos em silêncio, recuperando a respiração. Fui no banheiro dar uma chuveirada.
Quando voltei para a cama, minha mulher já estava deitada no seu lado da cama, com o pijama rosa com coraçõezinhos pretos que ela amava. Eu achava lindo, mas não falava pra ela. Devia começar a falar mais isso.
Coloquei uma camiseta velha e deitei do seu lado, rindo satisfeito. Ela já estava quase dormindo. Abracei ela por trás – o vãozinho estava lá – e cochichei no seu ouvido.
- Amor... você pega as crianças amanhã?
- Não, você pega. Amanhã é quinta, eu tenho que fazer a unha e tem uma guria nova no salão que demora uma cara, não sei vai dar tempo, tô pensando até em trocar...
- Certo. Eu pego, pode deixar. Boa noite.
Ri sozinho. Quinta feira era o dia dela pegar as crianças.
Safada.

***

Apesar de ter uma menina nova no salão, ela fez francesinha no dia seguinte. Ficaram lindas.

Sequestroterapia

Amores roubados, amores sequestrados... será uma nova tendência?

***


Armando e Ana saiam animados do teatro.
- Ai amor, adorei o programa surpresa!
- Viu só? Eu falei que você ia dar risadas hoje.
- Jurei que ia ser pizza e filmes de novo.
- E o que tem de errado com pizza e filme?
- Nada ué – eles pararam na porta do carro – é só que... enjoa sabe. Você prefere uma namorada linda e magérrima ou uma gordinha que já viu todos os filmes do mundo?
- Ai amor... você sabe que eu adoro cinema né?
- Armando!
- To brincando amor! – ele deu um beijo comportado na testa dela – vamos?
Armando deu a volta no carro para entrar. Ana ficou parada na porta.
- Não vai entrar?
- Você não vai abrir a porta pra mim?
- Eu tenho?
- Ah, Armando, assim não né? – ela fez cara de choro
- Desculpa amor – ele voltou para abrir a porta – você sabe que eu não to acostumado com essas gentilezas, eu... - o celular dele bipou.
- Viu só? Viu só? Na mínima é mensagem de alguma fã tua por aí!
- Amor – ela desviou o olhar dele – amor... Ana... Ana Cristina, olha pra mim, por favor.
- Você sabe que eu odeio que me chamem pelo meu nome completo!
- E você sabe que eu odeio te chamar assim, mas é só assim que você me escuta! – ele mostrou a tela do celular para ela – olha aqui de quem é a mensagem. É do Jorge! Ele quer combinar futebol sexta. Você me conhece amor. Você sabe que o Jorjão não faz meu tipo...
Ela riu, ainda braba.
- Ai, desculpa amor. TPM, você sabe né.
- Sim, sei. “Tensão Pró Macho”. – o celular dela bipou – ó, você recebe mensagem o tempo todo também, e eu não vou nem te pedir quem é, viu só que querido?
- Ah – ela olhou para o aparelho - não é nada mesmo.
Ele abriu a porta para ela e entrou. Ana continuou respondendo a mensagem.
- Ana, vamos? Ta tudo bem?
- Oi? Sim, tá tudo bem – ela entrou no carro, ansiosa – Vamos. Já falei que adorei o teatro?

Dez minutos depois, os dois chegaram em casa. A porta da garagem estava aberta. Armando estacionou o carro do lado de fora e os dois desceram.
- Armando, diz que foi você que deixou a porta aberta.
- Claro que não né, eu chego a dar a volta na quadra pra garantir que fechei quando acho que esqueci, na mínima foi você que saiu distraída, ou a louca da sua mãe que veio e...
- Não fala da minha mãe! Não fala da... Armando, cuidado!
Uma pancada forte atingiu a nuca de Armando. Ele caiu no chão, desacordado.

Armando acordou minutos depois, com uma luz forte quase cegando seus olhos.
- Ai! Ai minha cabeça, cacete! Ana! Ana, cadê a Ana, ANA, cadê você! Eu vou...
Ele tentou se levantar, mas estava preso em alguma coisa. Reconheceu a cadeira e as cordas que estavam prendendo suas mãos. Deixou os olhos se acostumarem à escuridão e entendeu o que estava acontecendo. Estava preso na garagem de casa.
- Shhh, Armando, fica quieto!
- Ana! Cadê você!
- Eu tô aqui, atrás de você! Ele me pegou também!
- Ta tudo bem com você amor? Ai meu Deus, o que que ta acontecendo!
- Tá tudo bem querido, tudo. Tem um assaltante na nossa casa, eu falei que não tinha muita coisa pra levar, mas mesmo assim ele prendeu a gente e tá revistando a casa toda agora!
- Ai meu senhor, que bom que eles não te machucaram! Olha só, cadê seu celular?
- Ficou no carro, eu deixei lá quando a gente desceu.
- Você carrega aquela porcaria pra todo o lado e quando a gente precisa você não tem?
- Armando, você quer fazer o favor de parar?
Uma sombra negra surgiu, vindo de dentro da casa.
- SILÊNCIO! Caladinhos senão eu encho de bala! – a roupa negra do assaltante deixava só os olhos e a boca de fora – Eu quero o dinheiro! Quem dos dois sabe a senha do cartão?!
- É ele, moço, é o Armando.
- Ana Cristina, por favor!
- Amor, a gente tem que colaborar! Eu não quero morrer!
O assaltante chegou perto de Armando. Sua presença era assustadora, mas ele estava perfumado. O assaltante mirou a arma na cabeça de Armando e pediu novamente.
- Você que tem a senha do cartão de crédito?!
- Eu até tenho, mas quem gasta é ela.
- Armando!
- Qual é a senha do cartão de crédito?! Hein?! Rápido!
- Tá, ta, é, deixa eu ver, é 1... 8... 0... 4... 0... 6... Eu juro!
O assaltante saiu da garagem e voltou para dentro da casa.
- Ai, que lindo amor, a sua senha do cartão é o dia que você me pediu em namoro!
- Oi? Não, não, é o dia do meu aniversário de amizade com o Jorjão.
- Não amor, dia 18 de abril de 2006, dia da Festa da Cerveja Liberada, lembra?
- Lembro, claro, mas 18 de abril é a data que eu comemoro o meu aniversário de amizade com o Jorjão, do dia que a gente se conheceu! É que sabe o que é, eu te pedi em namoro esse dia porque já era uma data especial pra mim, daí como eu sou muito ruim em decorar datas, eu coloquei duas importantes no mesmo dia, pra não esquecer, entendeu?
- Armando, cada dia você me decepciona mais.
- Ana, o Jorjão é meu melhor amigo, essas coisas são importantes!
PLAFT! O assaltante derrubou alguma coisa dentro de casa.
- Ô amigo, se você puder só assaltar, não quebrar nada, eu agradeço, viu?
O assaltante voltou para a garagem, arma em punho e voz de brabo.
- Quietinho aí na cadeira, ô magnata! Quietinho senão te furo todo!
- “Magnata”? Você tirou suas gírias de assaltante de onde, duma música do Charlie Brown Jr.? E me diz uma coisa, porque você ta tão perfumado, hein, você veio de uma festa?
- Armando, por favor, não provoca o assaltante! - Ana parecia desesperada - Ai seu assaltante, por favor, não mata a gente! Se você quiser saber mais alguma coisa, pergunta!
- Amor, ele não vai matar a gente, eu nem vi a arma dele direito, se bobear é de brinquedo.
- Assaltante, se quiser saber alguma coisa, pergunta! Pergunta!
O assaltante deu um pulo, como se tivesse lembrado de alguma coisa.
- Sim! Eu quero saber sim! Eu quero saber... com quantas mulheres você ficou antes de ficar com essa vagaba aí!
- Olha o respeito! – Ana gritou.
- Desculpa, moça! – o bandido perdeu a pose – Responde aí, ô, vacilão!
- Mas que tipo de pergunta de assaltante é essa?
- Vai Armando, responde, ele tem uma arma!
- Ai, tá, tá! Eu fiquei com a Angélica, depois com a Rê, aí a Mônica, a Patrícia e a Luciana. E depois eu fiquei com a Patrícia e a Lu ao mesmo tempo, isso conta como mais uma?
- O QUÊ!? – Ana gritou - e você não tem vergonha de contar isso?!
- Mas amor, ele tem uma arma, o que você quer que eu faça? A gente tava lá, bebendo, vendo uns videozinhos na internet, daí a Lu começou a fazer massagem na Pati, aconteceu!
- Bico fechado os dois que eu quero saber mais! E semana passada, sexta, o que você fez?
- Sexta... sexta, eu fui jogar futebol com o Jorjão! Ele me convidou e eu fui.
- E essa tal de Larissa Panicat que te adicionou no Facebook, quem é?!
- É, quem é essa Armando?!
- EPA! – Armando quase levantou com a cadeira presa na sua bunda – EPA! Pêra lá que isso ta muito estranho! Esse assaltante tá sabendo muito da minha vida!
- E-e-eu tô cuidando da casa, vigiando, pra saber dos horários de vocês pra assaltar!
- Mas ta sabendo até do meu Facebook? Tu quer roubar minha casa ou tu quer roubar meus amigos no Instagram, hein? Ana, você tem algo a ver com isso?
- Armando, eu não sei de nada, te acalma!
- Sabendo da minha rotina, do meu Facebook, quem me adicionou, esse teu perfume do Boticário não me engana, garanto que veio junto com o kit de maquiagem que tu usou pra pintar esse teu olho de bandida! Pode tirar tua máscara que eu já sei quem tu é, Carolzinha!
A bandida acendeu a luz e tirou a máscara.
- Ana, desculpa amiga, não deu pra manter a personagem.
- “Magnata”, Caroline, “Magnata”?! Solta a gente aqui de uma vez, anda!
Armando não conseguia acreditar no que via.
- Amor... Ana... não vai me dizer que você tem algo a ver com isso?
- Desculpa amor, eu tava desesperada! Eu achei que você tava me traindo, aí falei com umas amigas, bolei uma idéia, daí hoje que você finalmente me levou pra sair eu dei um jeito de combinar com a Carol pra colocar o nosso plano em prática.
- Por isso você não largou a porcaria do celular a noite inteira!
- Sim, mas desculpa viu? Tô bem feliz que você reconheceu o aroma do perfume que a gente deu de presente pra Carol. Achei que você nem prestava atenção nessas coisas.
- Tá descontando do meu cartão de crédito ainda, não tem como não prestar atenção. Mas, amor... era só conversar! Não precisava ter feito tudo isso, pra que tanto drama? Quando quiser saber do meu histórico, eu conto! E sexta é dia de futebol, sempre. Eu amo você e nunca seria capaz de fazer alguma coisa pra te magoar, tá?
- E a Larissa Panicat?
- É um perfil fake de um homem. Juro! Vou mandar ele adicionar o Jorjão.
Os três riram.
- Brigado amor. Eu vou colocar uma pizza no forno e te esperar na cama, o que você acha?
- Acho ótimo!
- Então ta. Carol... obrigada, amiga. Desculpa te fazer passar por essa também.
- Imagina, guria... experiência pra vida! Quando precisar, só chamar.
Ana saiu da garagem. Carol começou a guardar as coisas do sequestro falso.
- Pode deixar que eu te ajudo... “Magnata”!
- Ai ai, Armando... desculpa tá? Se eu te machuquei ou quebrei alguma coisa, eu pago.
- Não, tudo bem. Fica tranquila. Eu só ainda não acredito que você aceitou participar disso!
Ela riu. Ele a puxou para perto e deu um cheiro no seu pescoço. Começou a cochichar no seu ouvido. Ela se arrepiou.
- Você sabia que o seu perfume é muito parecido com o perfume dessa tal Larissa Panicat?
- É? Não sabia – ele a abraçou por trás, com força; ela deixou - Fala mais.
- E sabia que essa Larissa na verdade é um perfil fake de uma amiga da minha namorada?
- Jura? Nem imaginava.
- Sim. É com ela que eu tenho encontrado toda sexta. Ela tem fetiches de sequestro.
- Deve ser interessante. Algemas, armas, disfarce...
- Muito! Inclusive, tenho que dizer pra ela que essa sexta espero no lugar de sempre.
- Ué. Não vai ter jogo com o Jorjão?
- Jorjão quebrou o pé a mais de um mês, acredita? Até me mandou a foto do gesso hoje, por mensagem de texto. Deixa eu te mostrar.

***

Sempre desconfie de alguém chamado Armando.

Cidinha, a Solitária

Qualquer semelhança com a realidade é pura verdade.

***


Para os pais, era Maria Aparecida dos Santos. Para as amigas, era a Cidoca. Para o pessoal do escritório, era a Maria Aparecida, Secretária Bilíngüe. E nas reuniões de condomínio, era a gordinha do sétimo andar. Mas se tinha algo que Cida tinha saudade, era ouvir seu nome pronunciado do seu jeito favorito.
- Ai guria, eu ando tão chateada, sabe... carente...
- Saudades do Beto né? – respondeu Manu, mais alto do que todo o bar – quanto tempo já?
- Três meses que a gente terminou. Saudade dele me apertar, me beijar, de me chamar de...
Ela parou. Olhou para o bar, como se procurasse o Beto. Ele não estava lá.
- Chamar de que amiga?
- Chamar de... Cidinha - Manu soltou uma gargalhada alta - Manu! Não ri!
- Desculpa! Desculpa Cidoca, desculpa. É que eu não imagino o Betão, aquele corpo todo, aquela barriga de cerveja, dizendo “Cidinha, meu amor, vem cá”.
- Mas ele dizia! Dizia sim. Não ri do meu homem!
- Cida, ele não é mais teu homem. Não-é-mais. Esquece, desapega guria!
- E tem como esquecer?
- Claro que tem! Arranja outro!
- Não quero outro – ela terminou o drink em um gole – quero ele.
- Ai guria, não assim!
- Pra você é fácil, você tem o Romeu lá, só pra você!
- Romeu que de Romeu não tem nada né? Olha o SMS que ele me mandou essa semana.
Ela entregou o celular para Cida, que correu o dedo pela tela touch.
- Mas ele não te mandou nenhuma mensagem essa semana...
- EXATAMENTE. Eu podia tá saindo com outro homem, podia tá com outro Romeu em casa, eu podia tá até com uma Julieta em casa, e ele não ia nem perceber!
As duas riram alto.
- Você quer alguém pra cuidar de você, dormir contigo e te chamar de Cidinha, sim? E convenhamos, seu padrão não era tão alto com o Betão né, por favor... - Cida concordou muda - Então... vem comigo. Termina esse copo que a gente vai pra festa hoje. E vamos achar um homem pra ti amiga, ou eu não me chamo Emanuely!
- Ué, não era Emanuela?
- Troquei. Numerologia. Você devia tentar também.

As duas foram pra casa, pediram comida chinesa e trocaram de roupa rápido. Muito brilho, um pouco de pele e muito preto, pra esconder o que não era pra ser visto. Ao chegarem na festa, Cida percebeu porque a amiga havia escolhido aquele lugar em especial.
- Guria, você conhece todo mundo na fila?!
- Sim, tudo cliente do Romeu. Ele adora atender esses bombados de academia, tem cada um! Olha ali, na frente, aqueles três, lindos de morrer, olha ali o promoter, ê bicha escandalosa, oi amigo, tudo bem, ai, olha lá a Jéssica, gente como ela engordou desde que levou um pé na bunda, como pode né, GURIA, a Sheila ta namorando!...
Os olhos de Manu brilhavam com tanta gente bem vestida. Cida não entendia como alguém namorando conseguia olhar com tanto desejo para outros homens, enquanto ela, solteira, só pensava no seu Betão. O que será que ele estava fazendo agora? Será que estava pensando no que ia jantar? Não, era tarde pra jantar. Será que estava pensando... nela?
- CIDA! Não viaja – Manu trouxe a amiga de volta pra Terra – o que que tá pensando?
- Tava pensando naquele doce que a gente comeu, não devia ter comido, ele vai todo pro meu bumbum, vou judiar do meu elastano desse jeito, não vai ter calça que aguente, eu...
- Cida, olha aqui – Manu pegou as suas mãos com tanta força que ela chegou a se assustar – olha no fundo dos meus olhos, abaixo dos cílios postiços. Quando a gente entrar nessa boate, você vai ser a mulher mais bonita da noite, e você sabe porque?
- Porque eu tô linda?
- Não, porque você tá SOLTEIRA. Repete comigo, SOLTEIRA!
- SOLTEIRA! Eu tô SOLTEIRA!
- Isso! Assim que eu gosto. Liberou a fila. Sorriso no rosto e comanda no bolso. Partiu?
- Partiu. Seja o que Deus quiser.

Se Deus quis alguma coisa naquela noite, foi que aquela festa fosse igual a todas as outras que Cida tinha ido solteira. As pessoas se dividiam: ou estavam de olhos vidrados no celular, ou já estavam com alguém. Cida deduziu que a maioria devia estar em casal, enquanto o resto estava usando o Wi-Fi do lugar. Conversar que era bom, nada. Na dúvida, achou um cantinho na parede e jogou Candy Crush até suas vidas terminarem. Lá pelas tantas, Manu passou por ela, agarrada em um cara pelo pescoço. Surtou quando viu Cida.
- CIDA! Cida, Cida, Cida Cidoca! Olha só o que eu pesquei!
- Lindo amiga, lindo – Cida respondeu, sem tirar os olhos do celular – Romeu vai amar.
- Não, shhh, não conta nada pro Romeu, não, não, não! A gente é só amigo, ta só conversando! – ela olhou para o “amigo” e piscou de maneira tão exagerada que um dos cílios postiços desistiu de ficar no seu rosto – e aí amiga, me conta... já beijou hoje?
- Não amiga, não beijei.
- Ai Cida, como assim não? Não ta vendo o tanto de homem lindo na festa?
- Sim, mas ninguém fala comigo!
- Então fala com eles! Larga esse celular e vai beber! Cadê a Cida linda que eu conheço?
- Sufocada dentro desse jeans maldito!
- Então abre um botão e vai a luta! Bebe um pouco, a gente chama um táxi depois. Curte!
Cida saiu, contrariada. Depois de lutar muito, chegou ao bar. Ficou horas espremida entre o balcão e as pessoas atrás. Fazia tempo que não se sentia tão íntima de tanta gente. Depois de muito esperar, foi atendida. O garçom veio sorrindo.
- Um mojito, por favor.
- É pra já, senhorita... – ele olhou na comanda dela – ...Cida. Cidinha! Já trago.
O coração de Cida parou. Ele falou aquilo que ela tinha escutado? Não podia. Era alucinação dela. Ou podia? Ele tinha realmente chamado ela de Cidinha? Parou para observar o garçom fazer o drink. Seus ombros largos destacavam-se. Como ela não havia visto antes? O cabelo em sua nuca terminava em um corte reto milimetricamente ajustado, reto como a linha do horizonte que os dois caminhariam juntos enquanto ele sussurrava no ouvido dela “Cidinha, je t’aime”. E os braços, que braços, macerando os ingredientes daquele néctar que ele preparava. Cida nunca desejou tão forte ser uma hortelã.
- Seu copo moça.
- Oi?
- Seu copo – ele a despertou do devaneio – seu mojito!
- Ah, sim, brigado! Eu posso te pedir uma coisa? Você me chamou de que mesmo antes?
- Cida, não? Ah, sim, Cidinha! Cidinha, foi... Porque?
- Ai, por nada não – ela mexeu no cabelo – eu gostei.
- É, é que eu tive uma grande Cidinha na minha vida, alguém muito importante...
- É? – ela deixou metade do batom no canudinho do mojito, empolgada – quem?
- A minha... a minha cachorra.
- Sua cachorra se chamava Cidinha?
- Sim! Querida, eu amava ela. Ela me esperava todo dia, quando eu chegava do trabalho, na madrugada. Deixava a cama quentinha. Fazia carinho em mim. Me deixava feliz.
- E não deixa mais porque?
- Ela morreu.
- Tadinha, do quê?
- Vermes - Cida não sabia onde se enfiar - Cida, desculpa, a fila tá grande, eu saio às 4h, depois a gente se fala, pode ser? Meu nome é Raul, me espera ali na porta lateral, até!

Cida foi engolida pela turba de pessoas. Cidinha, o cachorro que morreu de vermes, entrou na sua cabeça e lá ficou até às 3h30min, quando Cida desistiu de fazer festa. Achou Manu sentada, na escada, triste, e foi contar da sua aventura.
- Ai amiga, mesmo nome da cachorrinha dele não né...
- Guria, eu não sabia onde me enfiar! E ainda morreu de vermes a coitada!
- Desculpa amiga, desculpa... mas sabe Cida, é um garçom. Você merece mais, por favor.
- Sim... mas falando em merecer mais, cadê o teu homem?
- Foi pra casa com o namorado.
- Namorado?! Aquele bofe, aquele corpo, aquele...
- Modelo de cuecas, modelo de bodywear, modelo de namorado fiel e futuro papai. Contou tudo, diz que sonha em morar numa ilha grega com o bofe dele, deu até dicas de viagem!
- Ai ai, guria, que pena... é engraçado. Desculpa, mas é engraçado.
- Tudo bem. Eu vou pra casa, ver se o Romeu dá notícias. Você vai ficar bem?
- Sim, vou, brigada amiga. Já to indo também.
Manu deu as costas pra Cida e saiu cambaleante rumo à saída. Cida deu mais algumas voltas pela festa, mas a noite já tinha perdido a graça. Pagou a comanda e saiu em direção a porta lateral. Raul já estava lá, concentrado no celular. Levantou a cabeça num susto quando viu Cida e guardou o aparelho.
- Cidinha, tudo bem? Vem cá, deixa eu te dar um abraço, lá dentro é complicado.
- Tudo bem com você? - ela quase morreu no meio do abraço - Muito cansado?
- Sim, bastante movimento hoje, agora começa a esquentar e as festas enchem de gente solteira, a galera se acaba, bebe bastante. E você, curtiu?
- Curti! Gostei, gostei. Continuo solteira, mas né... gostei.
- Ah, eu sei como é... eu to solteiro faz tempo já também.
- Mesmo?
- Sim! Por muito tempo, fomos só eu e a Cidinha mesmo. A minha Cidinha, sabe? É engraçado... às vezes a gente só precisa de alguém pra estar lá pela gente. Daí vem pra essas festas, procura outras pessoas, mas esquece que tem que estar em paz sozinho, antes de tudo. Tem que aprender a se gostar, achar alegria nas pequenas coisas. Um animalzinho ajuda bastante nessas horas. A Cidinha era muito parceira minha.
Cida parou para pensar. Uma saudade forte tomou seu peito.
- É... é verdade. Eu tinha o Betão.
- Betão? Nome engraçado. Como ele era?
- O Betão? O Betão era tudo de bom. Grandão, peludo, fazia uma sujeira! Sentava no sofá e não saía de lá até alguém tirar. Mas era tão carinhoso. Deitava no meu colo e ficava horas, esquentando minhas pernas enquanto eu fazia carinho nele. Saudades... saudades do Betão.
- E o que aconteceu com ele?
- Ele... ele fugiu! Foi embora. Mas dizem que ele tá no bairro ainda, uma amiga minha viu ele esses dias na rua, com a mesma coleira que tava usando quando saiu de casa, acredita?!
- E porque você não vai atrás dele? Você ta solteira, ele pode te fazer companhia.
Cida riu da situação. Seria aquela a lição da noite? Dar segundas chances? Já era tarde. Fez sinal pra um táxi que estava passando parar e embarcou.
- Raul, querido, brigada. É bom saber que existem pessoas boas pra conversar na noite.
- Querida, imagina. Quando precisar, só chamar. E dá uma chance pro Betão, viu?
- Eu vou tentar. Eu vou tentar mesmo. Fica bem!
Cida não via a hora de chegar em casa, ligar o chuveiro quente e decidir se queria um cachorro mesmo ou o ex de volta. O táxi saiu antes que ela visse Raul atender o celular. Se ela olhasse pelo retrovisor, veria a empolgação dele falando ao telefone.
- Cida! Oi, tudo bem?! Desculpa te acordar essa hora. Que bom que você viu minha mensagem. Falei de você hoje de noite e deu vontade de ligar. Quanto tempo né? Quatro meses já? Uau. Como passa. Me conta, como tá o estômago?

***

Que faça o primeiro comentário que não conhece uma Cidinha e uma Manu.

Minha Entrevista com Martin Scorsese

Isso foi tudo um sonho. Mas que teria dado uma bela entrevista, teria.
P.S.1: Apesar desse não ser um post pago, O Lobo de Wall Street estreia dia 24 de janeiro.
P.S.2: Eu não sei como está o estado de saúde de Martin. Mas espero que ele esteja bem.

***


Estava esperando do lado de fora da sala dele na escola fazia alguns minutos. Na televisão que ficava no corredor, um comercial de O Lobo de Wall Street enchia a tela. Era como se a TV brincasse comigo: “taí o filme do diretor que você vai entrevistar daqui a pouco. Fique nervoso. Muito nervoso.”
Como se eu precisasse de mais um pouco de nervosismo.
Lá pelas tantas, ele saiu. Um casaco marrom, um cachecol preto, os cabelos brancos desalinhados, algo que ele logo deu um jeito passando a mão como se fosse um pente. Saiu da sala decidido, com um destino pronto, e nem notou o pobre jornalista que esperava ao lado da porta. Fui atrás dele e o chamei pelo nome.
- Quentin!
E aí está. Não há jeito melhor de começar uma entrevista do que chamar o entrevistado pelo nome errado. Se quiser pontos a mais, chame-o pelo mesmo nome de outro colega de profissão! É quase como dizer o nome de uma ex enquanto faz amor com a atual. Se Scorsese iria reagir dessa maneira, eu estava prestes a descobrir.
- Olá – ele virou para mim, com uma inflexão de dúvida na voz – você está falando comigo?
“Era óbvio que eu tinha falado com ele”, pensei, “só tínhamos nós dois naquele corredor, mas a minha intenção nunca foi chama-lo de Quentin Tarantino senhor Scorsese, talvez eu devesse pensar mais no senhor como Martin e não como Scorsese, porque Martin é que lembra Quentin e afinal, todo mundo o chama de Scorsese e...”.
Parei de tentar explicar na minha cabeça.
- Sim. Desculpe senhor Scorsese, eu quis chama-lo de Martin, não de Quentin, eu...
Ele se adiantou até onde eu estava e estendeu a mão, mastigando o sotaque.
- Scorsese. Martin Scorsese.
Cumprimentei ele. Disse meu nome e meu cargo, estudante de jornalismo, e porque estava ali: não para fazer nenhuma entrevista ou trabalho de aula, e sim para conhece-lo. Já fazia alguns meses que ele estava dando aula naquela escola e eu não podia perder a chance de trocar algumas palavras com um grande diretor. Ele assentia com tudo o que eu falava subindo e descendo as grossas sobrancelhas. Por fim, me disse.
- Ok. Acompanhe-me.
Eu nunca soube para onde Scorsese (ou Martin, como eu podia chamá-lo agora) iria me levar, já que assim que ele terminou de falar para acompanha-lo, meu telefone tocou. Gafe número 2 do dia. Pelo menos eu tinha explicado que era estudante de jornalismo, não jornalista.
Atendi o telefone. Era minha mãe. Ela era professora na mesma escola – foi ela quem tinha me dado o furo sobre Scorsese, afinal – e queria me dar um recado. Estava saindo de um coquetel na sala dos professores. Perguntei para Martin se ele podia passar em um lugar no caminho antes de irmos para onde ele queria. Torci para que ele gostasse de coquetéis. Ele levantou as sobrancelhas grossas e concordou. “Claro!”.

Andamos até o fim do corredor da sua sala e descemos as escadas. A manhã fria parava de castigar um pouco, com o sol se revelando aos pouquinhos. Guardei as luvas no bolso do casaco, mas vi que Martin continuou com o cachecol. Eram 9h50min, quase hora do recreio dos alunos. Depois de descermos três lances de escadas, chegamos até a sala dos professores.
Um grupo de professoras padrão saia da sala. Por professoras padrão, entenda: a) baixinhas e gordinhas, de cabelo curto, b) altas e magras, de cabelo curto, c) altas e magras, de cabelo longo, provavelmente professoras de línguas estrangeiras. Quando se convive com muitas professoras a vida toda, você acaba percebendo certos padrões. Minha mãe era um (a), mas se eu visse várias (a)s de costas, poderia confundi-la fácil com alguém.
Felizmente, ela estava de frente, e logo me recebeu com um largo sorriso.
- Filho! – ela me abraçou, pronunciando “Filho!” alto o bastante para que todos no mesmo cômodo notassem que eu estivesse ali – tudo bem?
- Tudo – respondi sufocado, minha boca entre o seu ombro e a sua orelha.
- Como está a entrevista? – ela cochichou no meu ouvido, eu ainda sufocado
- Está ótima – esqueci o erro do nome, ela não precisava saber – e o recado?
- Que recado? – ela me soltou – ah... era isso! Só queria saber como você estava!
Dei a ela meu melhor olhar de “sério?”, que ela ignorou sem cerimônias assim que viu que meu entrevistado estava atrás de mim. Por um instante, imaginei ela passando por um momento de fangirl, gritando enlouquecidamente “Martin, me conta tudo sobre o Leo DiCaprio, ele deixaria eu chamar ele de Leo?”, mas Scorsese era, afinal, colega de trabalho de minha mãe. Ela apenas estendeu a mão para ele.
- Martin, tudo bem? Vejo que já conheceu meu filho.
E em uma frase, Scorsese descobriu que o problema com nomes não era genético na família.
- Sim. Bom garoto.
- Que bom – ela sorriu – aceitam alguma coisa? Temos doces e salgados.
O coquetel! Se havia algum momento para garantir a simpatia de Scorsese, era agora. Peguei dois queijinhos derretidos e ofereci para ele.
- Aceita? Estão uma delícia.
- Não, obrigado, eu já comi.
Ok. Não era aquele momento. Agradeci a minha mãe com a boca cheia e acenei com a cabeça para a porta para Martin me seguir.

Deixei o diretor ir na frente, já que estávamos seguindo o lugar para onde ele queria me levar, mas assim que descemos um lance de escadas, o sinal do recreio tocou. Estávamos no térreo, na altura do pátio, que logo foi inundado por adolescentes e pré-adolescentes. Estava pronto para começar um novo tópico, assim que acabasse de digerir o primeiro queijinho, sobre o que Scorsese estava fazendo em um colégio tão simples, dando aula para jovens que nem sonham com cinema, mas fui interrompido pelo próprio.
- Olha – ele apontou para o pátio – saiu sol.
O sol finalmente havia ganhado a batalha com a friaca. Segui com Scorsese até o pátio. Ele parecia realmente empolgado.
- Essa porta aqui normalmente fica fechada – ele apontou uma enorme porta de ferro verde que liberava o acesso ao pátio – é a primeira vez que vejo ela aberta.
Enfiei o outro queijinho na boca e observei a cena se desenrolar. Scorsese seguiu até o meio do pátio, com várias crianças ao seu redor, passando por ele sem nem dar bola que quase tropeçaram em um diretor Oscarizado. Mas ele não parecia se importar. Colocou-se no meio círculo central da quadra de futebol, olhou para o sol e enfim tirou o cachecol pesado. Depois abriu os braços e ficou alguns segundos ali, se recarregando de luz solar. Por fim, tirou o casaco e ficou olhando para o céu. Quem diria: Scorsese amava sol.
Cheguei do seu lado. Dessa vez, ele puxou assunto.
- Olhe aquilo – ele apontou para um prédio colorido – parece cenário de filme infantil.
O prédio que ele apontava era um dos arranha-céus vizinhos do colégio. Estávamos bem no centro da cidade, logo, conseguíamos ver prédios de todo tipo olhando do pátio do colégio. Éramos um vale em meio a montanhas de metal.
Apontei para outro prédio, uma construção de tijolos abandonada, cheia de panos balançando com o vento que ecoava pelos seus corredores incompletos.
- Aquele parece cenário de filme de terror.
Ele concordou com a cabeça. Apontou para outro, que tinha uma lateral de vidros.
- Aquele ali daria uma ótima conspiração científica.
Por fim, apontei para um galpão, que mais parecia uma igreja do que um prédio, com suas telhas vermelhas destacando-se no céu azul.
- Aquele daria um bom filme de ação.
Scorsese olhou para o prédio que apontei e pensou por alguns segundos.
- Não sei...
Ele apertou os olhos e franziu as sobrancelhas, que quase se fundiram em sua testa. Era uma ideia se formando na cabeça de um dos diretores mais geniais do cinema e eu ali, observando aquele momento de criação. Por fim, ele relaxou os olhos e virou para mim.
- Acho que precisaria de umas telhas caídas. Emoção.

Ficamos alguns minutos conversando enquanto andávamos pelo pátio cheio. As crianças não davam a mínima para ele; ele não era professor delas, afinal, e elas eram muito novas para saber quem ele era. Alguns adolescentes olhavam de longe e comentavam alguma coisa; fiquei na dúvida se estavam falando do diretor de cinema ou do professor. Uns inclusive falavam “olá, coordenador” enquanto passavam pela gente, cargo que Scorsese não tinha e não sonhava em ter, conforme me falou. Por fim, um jovem cruzou a nossa conversa e estendeu a mão para ele.
- Bom dia! Bom vê-lo por aqui.
- Obrigado – Scorsese retribuiu o aperto de mão – muito obrigado.
Esperei o jovem sair de perto e falei:
- Esses jovens, não são capazes nem de chamá-lo pelo nome.
- De repente, ele não falou pra garantir que não falasse errado – e deu um sorrisinho e um tapinha nas minhas costas.
Pronto. “Sacaneado por Martin Scorsese”. Isso ia pro meu currículo.
Segui ele até a porta de saída da escola. Ele fez sinal para que eu acompanhasse.
- Vamos, preciso comprar algumas coisas.
Enquanto seguia ele para fora do colégio, percebi que não tinha nenhum bloquinho nem nada comigo. Aquela conversa não tinha a intenção de se tornar uma entrevista afinal, mas mesmo assim, podia se tornar uma baita entrevista. Mas eu não tinha nada para anotar. Ia ter que confiar na minha memória.
Seguimos lado a lado até um pequeno centro comercial que ficava próximo ao colégio. Eu não fazia ideia do que ele ia comprar, mas estava achando o máximo. Fiquei pensando em alguma piada envolvendo compras e algum de seus filmes, até que finalmente descobri o que ele ia fazer. Ele entrou em uma farmácia, foi até a atendente do caixa e puxou uma listinha do bolso.
Fiquei do lado de fora. Será que Scorsese estava doente? Ele estava velhinho, afinal: tinha a impressão que ele teve cabelos brancos desde sempre, mas sua fala estava um pouco mais arrastada do que em entrevistas de alguns anos atrás. Será que era algo grave? Fiquei pensando nisso enquanto a moça da farmácia que o atendia ia e voltava naqueles corredores mal-iluminados, empilhando caixinhas coloridas na frente do diretor. Por fim, ele pagou tudo com um cartão e saiu sorridente, dando tchau para as moças pelo nome delas.
Procurei em minha mente algum tópico que não envolvesse sua saúde, mas meu subconsciente era um safado que não me deixava escapar em paz.
- E então... está muito difícil fazer filmes hoje em dia?
“Está, porque estou doente” minha cabeça completou.
- Não, não está – ele dobrou a sacolinha, guardou embaixo do braço, pegou um dos cabos de vassouras que eram vendidos na frente da farmácia e saiu andando com ele, como se fosse uma bengala – o problema é que as pessoas olham para mim e pensam “olha ali, lá vai aquele diretor velhinho, que ganhou um Oscar por um filme meia boca só para a Academia dar um Oscar para ele antes que ele morresse, vamos fazer um esforço, arranjar fundos para ele continuar fazendo filmes, mas vai ter que ser do nosso jeito senão ele vai nos atacar, afinal, ele é um velho gagá!”.
Ele fez menção de me atacar com a bengala improvisada. Eu ri.
- Caso sirva de consolo, eu adorei Os Infiltrados.
- Obrigado – ele guardou a vassoura no lugar – eu gosto também.
Voltamos para a escola. No caminho, o celular de um menino a nossa frente tocou. Seu toque era I’m Shipping Up To Boston. Ele sorriu.

Acompanhei Scorsese até o corredor onde ficava sua sala, onde tudo começou. A TV do corredor insistiu em passar o comercial de O Lobo de Wall Street mais uma vez. Comentei isso com ele.
- A divulgação está boa.
- Querem um Oscar de melhor ator para Leo, mas estão em dúvida se promovem Jonah ou McConaughey para melhor coajduvante.
- Eu daria um Oscar para a loira e para o anão.
- Qual Oscar?
- Todos eles.
Ele sorriu e me cutucou no braço esquerdo.
- Eu devia realmente ter uma bengala para cutucar as pessoas.
O diretor tirou um chaveiro pesado do bolso e abriu a porta da sala. Esperei ter algum vislumbre do templo de Martin Scorsese naquela escola estranha, o lugar onde ele relaxava e colocava seus pensamentos em ordem, mas... não. Ele manteve a porta fechada e ficou na frente dela para se despedir. Era o fim.
- Obrigado pela manhã. Foi... divertida.
Ele pareceu escolher a palavra “divertida” com cuidado, o que me fez pensar que o conceito de “diversão” para Scorsese devia ser muito peculiar. Fiquei feliz que foi o que ele pensou da manhã que passamos juntos.
- Obrigado. Foi “divertida” para mim também.
Ele assentiu com a cabeça e abriu a porta da sala. Antes de entrar, chamei novamente.
- Diretor.
Ele colocou a cabeça no vão entre a parede e a porta.
- Sim?
- Isso nunca foi uma entrevista, mas caso fosse, eu tenho que perguntar: você tem alguma dica, algum conselho para quem quer seguir uma carreira como a sua?
Ele me esquadrinhou da cabeça aos pés e sorriu. Era óbvio que aquele conselho era para mim. Pensei na minha própria imagem enquanto ele pensava no que falar: jovem, barba por fazer, usando um terno e sobretudo que provavelmente ficariam melhor na minha versão adulta do que em mim. Eu estava interpretando uma versão do que eu poderia ser. E ele percebeu isso enquanto escolhia as palavras com cuidado como fez segundos atrás, até que enfim disse:
- A insanidade e a emoção podem nos levar a lugares incríveis. Use-as com razão.
Subliminar, dúbio e sensato. Tudo o que eu esperava dele.
Nos despedimos sem palavras. Sorri e abanei para ele, pensando no que ele falou. Ele assentiu com a cabeça e fechou a porta.
Saí de lá sem conhecer o seu templo, mas com a impressão de que conheci mais de Scorsese do que se esquadrinhasse cada centímetro da sua sala.
Eu, com certeza, estive na mente de Martin Scorsese.
E ele, na minha.

***

E estamos de volta!