Cidinha, a Solitária

Qualquer semelhança com a realidade é pura verdade.

***


Para os pais, era Maria Aparecida dos Santos. Para as amigas, era a Cidoca. Para o pessoal do escritório, era a Maria Aparecida, Secretária Bilíngüe. E nas reuniões de condomínio, era a gordinha do sétimo andar. Mas se tinha algo que Cida tinha saudade, era ouvir seu nome pronunciado do seu jeito favorito.
- Ai guria, eu ando tão chateada, sabe... carente...
- Saudades do Beto né? – respondeu Manu, mais alto do que todo o bar – quanto tempo já?
- Três meses que a gente terminou. Saudade dele me apertar, me beijar, de me chamar de...
Ela parou. Olhou para o bar, como se procurasse o Beto. Ele não estava lá.
- Chamar de que amiga?
- Chamar de... Cidinha - Manu soltou uma gargalhada alta - Manu! Não ri!
- Desculpa! Desculpa Cidoca, desculpa. É que eu não imagino o Betão, aquele corpo todo, aquela barriga de cerveja, dizendo “Cidinha, meu amor, vem cá”.
- Mas ele dizia! Dizia sim. Não ri do meu homem!
- Cida, ele não é mais teu homem. Não-é-mais. Esquece, desapega guria!
- E tem como esquecer?
- Claro que tem! Arranja outro!
- Não quero outro – ela terminou o drink em um gole – quero ele.
- Ai guria, não assim!
- Pra você é fácil, você tem o Romeu lá, só pra você!
- Romeu que de Romeu não tem nada né? Olha o SMS que ele me mandou essa semana.
Ela entregou o celular para Cida, que correu o dedo pela tela touch.
- Mas ele não te mandou nenhuma mensagem essa semana...
- EXATAMENTE. Eu podia tá saindo com outro homem, podia tá com outro Romeu em casa, eu podia tá até com uma Julieta em casa, e ele não ia nem perceber!
As duas riram alto.
- Você quer alguém pra cuidar de você, dormir contigo e te chamar de Cidinha, sim? E convenhamos, seu padrão não era tão alto com o Betão né, por favor... - Cida concordou muda - Então... vem comigo. Termina esse copo que a gente vai pra festa hoje. E vamos achar um homem pra ti amiga, ou eu não me chamo Emanuely!
- Ué, não era Emanuela?
- Troquei. Numerologia. Você devia tentar também.

As duas foram pra casa, pediram comida chinesa e trocaram de roupa rápido. Muito brilho, um pouco de pele e muito preto, pra esconder o que não era pra ser visto. Ao chegarem na festa, Cida percebeu porque a amiga havia escolhido aquele lugar em especial.
- Guria, você conhece todo mundo na fila?!
- Sim, tudo cliente do Romeu. Ele adora atender esses bombados de academia, tem cada um! Olha ali, na frente, aqueles três, lindos de morrer, olha ali o promoter, ê bicha escandalosa, oi amigo, tudo bem, ai, olha lá a Jéssica, gente como ela engordou desde que levou um pé na bunda, como pode né, GURIA, a Sheila ta namorando!...
Os olhos de Manu brilhavam com tanta gente bem vestida. Cida não entendia como alguém namorando conseguia olhar com tanto desejo para outros homens, enquanto ela, solteira, só pensava no seu Betão. O que será que ele estava fazendo agora? Será que estava pensando no que ia jantar? Não, era tarde pra jantar. Será que estava pensando... nela?
- CIDA! Não viaja – Manu trouxe a amiga de volta pra Terra – o que que tá pensando?
- Tava pensando naquele doce que a gente comeu, não devia ter comido, ele vai todo pro meu bumbum, vou judiar do meu elastano desse jeito, não vai ter calça que aguente, eu...
- Cida, olha aqui – Manu pegou as suas mãos com tanta força que ela chegou a se assustar – olha no fundo dos meus olhos, abaixo dos cílios postiços. Quando a gente entrar nessa boate, você vai ser a mulher mais bonita da noite, e você sabe porque?
- Porque eu tô linda?
- Não, porque você tá SOLTEIRA. Repete comigo, SOLTEIRA!
- SOLTEIRA! Eu tô SOLTEIRA!
- Isso! Assim que eu gosto. Liberou a fila. Sorriso no rosto e comanda no bolso. Partiu?
- Partiu. Seja o que Deus quiser.

Se Deus quis alguma coisa naquela noite, foi que aquela festa fosse igual a todas as outras que Cida tinha ido solteira. As pessoas se dividiam: ou estavam de olhos vidrados no celular, ou já estavam com alguém. Cida deduziu que a maioria devia estar em casal, enquanto o resto estava usando o Wi-Fi do lugar. Conversar que era bom, nada. Na dúvida, achou um cantinho na parede e jogou Candy Crush até suas vidas terminarem. Lá pelas tantas, Manu passou por ela, agarrada em um cara pelo pescoço. Surtou quando viu Cida.
- CIDA! Cida, Cida, Cida Cidoca! Olha só o que eu pesquei!
- Lindo amiga, lindo – Cida respondeu, sem tirar os olhos do celular – Romeu vai amar.
- Não, shhh, não conta nada pro Romeu, não, não, não! A gente é só amigo, ta só conversando! – ela olhou para o “amigo” e piscou de maneira tão exagerada que um dos cílios postiços desistiu de ficar no seu rosto – e aí amiga, me conta... já beijou hoje?
- Não amiga, não beijei.
- Ai Cida, como assim não? Não ta vendo o tanto de homem lindo na festa?
- Sim, mas ninguém fala comigo!
- Então fala com eles! Larga esse celular e vai beber! Cadê a Cida linda que eu conheço?
- Sufocada dentro desse jeans maldito!
- Então abre um botão e vai a luta! Bebe um pouco, a gente chama um táxi depois. Curte!
Cida saiu, contrariada. Depois de lutar muito, chegou ao bar. Ficou horas espremida entre o balcão e as pessoas atrás. Fazia tempo que não se sentia tão íntima de tanta gente. Depois de muito esperar, foi atendida. O garçom veio sorrindo.
- Um mojito, por favor.
- É pra já, senhorita... – ele olhou na comanda dela – ...Cida. Cidinha! Já trago.
O coração de Cida parou. Ele falou aquilo que ela tinha escutado? Não podia. Era alucinação dela. Ou podia? Ele tinha realmente chamado ela de Cidinha? Parou para observar o garçom fazer o drink. Seus ombros largos destacavam-se. Como ela não havia visto antes? O cabelo em sua nuca terminava em um corte reto milimetricamente ajustado, reto como a linha do horizonte que os dois caminhariam juntos enquanto ele sussurrava no ouvido dela “Cidinha, je t’aime”. E os braços, que braços, macerando os ingredientes daquele néctar que ele preparava. Cida nunca desejou tão forte ser uma hortelã.
- Seu copo moça.
- Oi?
- Seu copo – ele a despertou do devaneio – seu mojito!
- Ah, sim, brigado! Eu posso te pedir uma coisa? Você me chamou de que mesmo antes?
- Cida, não? Ah, sim, Cidinha! Cidinha, foi... Porque?
- Ai, por nada não – ela mexeu no cabelo – eu gostei.
- É, é que eu tive uma grande Cidinha na minha vida, alguém muito importante...
- É? – ela deixou metade do batom no canudinho do mojito, empolgada – quem?
- A minha... a minha cachorra.
- Sua cachorra se chamava Cidinha?
- Sim! Querida, eu amava ela. Ela me esperava todo dia, quando eu chegava do trabalho, na madrugada. Deixava a cama quentinha. Fazia carinho em mim. Me deixava feliz.
- E não deixa mais porque?
- Ela morreu.
- Tadinha, do quê?
- Vermes - Cida não sabia onde se enfiar - Cida, desculpa, a fila tá grande, eu saio às 4h, depois a gente se fala, pode ser? Meu nome é Raul, me espera ali na porta lateral, até!

Cida foi engolida pela turba de pessoas. Cidinha, o cachorro que morreu de vermes, entrou na sua cabeça e lá ficou até às 3h30min, quando Cida desistiu de fazer festa. Achou Manu sentada, na escada, triste, e foi contar da sua aventura.
- Ai amiga, mesmo nome da cachorrinha dele não né...
- Guria, eu não sabia onde me enfiar! E ainda morreu de vermes a coitada!
- Desculpa amiga, desculpa... mas sabe Cida, é um garçom. Você merece mais, por favor.
- Sim... mas falando em merecer mais, cadê o teu homem?
- Foi pra casa com o namorado.
- Namorado?! Aquele bofe, aquele corpo, aquele...
- Modelo de cuecas, modelo de bodywear, modelo de namorado fiel e futuro papai. Contou tudo, diz que sonha em morar numa ilha grega com o bofe dele, deu até dicas de viagem!
- Ai ai, guria, que pena... é engraçado. Desculpa, mas é engraçado.
- Tudo bem. Eu vou pra casa, ver se o Romeu dá notícias. Você vai ficar bem?
- Sim, vou, brigada amiga. Já to indo também.
Manu deu as costas pra Cida e saiu cambaleante rumo à saída. Cida deu mais algumas voltas pela festa, mas a noite já tinha perdido a graça. Pagou a comanda e saiu em direção a porta lateral. Raul já estava lá, concentrado no celular. Levantou a cabeça num susto quando viu Cida e guardou o aparelho.
- Cidinha, tudo bem? Vem cá, deixa eu te dar um abraço, lá dentro é complicado.
- Tudo bem com você? - ela quase morreu no meio do abraço - Muito cansado?
- Sim, bastante movimento hoje, agora começa a esquentar e as festas enchem de gente solteira, a galera se acaba, bebe bastante. E você, curtiu?
- Curti! Gostei, gostei. Continuo solteira, mas né... gostei.
- Ah, eu sei como é... eu to solteiro faz tempo já também.
- Mesmo?
- Sim! Por muito tempo, fomos só eu e a Cidinha mesmo. A minha Cidinha, sabe? É engraçado... às vezes a gente só precisa de alguém pra estar lá pela gente. Daí vem pra essas festas, procura outras pessoas, mas esquece que tem que estar em paz sozinho, antes de tudo. Tem que aprender a se gostar, achar alegria nas pequenas coisas. Um animalzinho ajuda bastante nessas horas. A Cidinha era muito parceira minha.
Cida parou para pensar. Uma saudade forte tomou seu peito.
- É... é verdade. Eu tinha o Betão.
- Betão? Nome engraçado. Como ele era?
- O Betão? O Betão era tudo de bom. Grandão, peludo, fazia uma sujeira! Sentava no sofá e não saía de lá até alguém tirar. Mas era tão carinhoso. Deitava no meu colo e ficava horas, esquentando minhas pernas enquanto eu fazia carinho nele. Saudades... saudades do Betão.
- E o que aconteceu com ele?
- Ele... ele fugiu! Foi embora. Mas dizem que ele tá no bairro ainda, uma amiga minha viu ele esses dias na rua, com a mesma coleira que tava usando quando saiu de casa, acredita?!
- E porque você não vai atrás dele? Você ta solteira, ele pode te fazer companhia.
Cida riu da situação. Seria aquela a lição da noite? Dar segundas chances? Já era tarde. Fez sinal pra um táxi que estava passando parar e embarcou.
- Raul, querido, brigada. É bom saber que existem pessoas boas pra conversar na noite.
- Querida, imagina. Quando precisar, só chamar. E dá uma chance pro Betão, viu?
- Eu vou tentar. Eu vou tentar mesmo. Fica bem!
Cida não via a hora de chegar em casa, ligar o chuveiro quente e decidir se queria um cachorro mesmo ou o ex de volta. O táxi saiu antes que ela visse Raul atender o celular. Se ela olhasse pelo retrovisor, veria a empolgação dele falando ao telefone.
- Cida! Oi, tudo bem?! Desculpa te acordar essa hora. Que bom que você viu minha mensagem. Falei de você hoje de noite e deu vontade de ligar. Quanto tempo né? Quatro meses já? Uau. Como passa. Me conta, como tá o estômago?

***

Que faça o primeiro comentário que não conhece uma Cidinha e uma Manu.

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