Minha Entrevista com Martin Scorsese

Isso foi tudo um sonho. Mas que teria dado uma bela entrevista, teria.
P.S.1: Apesar desse não ser um post pago, O Lobo de Wall Street estreia dia 24 de janeiro.
P.S.2: Eu não sei como está o estado de saúde de Martin. Mas espero que ele esteja bem.

***


Estava esperando do lado de fora da sala dele na escola fazia alguns minutos. Na televisão que ficava no corredor, um comercial de O Lobo de Wall Street enchia a tela. Era como se a TV brincasse comigo: “taí o filme do diretor que você vai entrevistar daqui a pouco. Fique nervoso. Muito nervoso.”
Como se eu precisasse de mais um pouco de nervosismo.
Lá pelas tantas, ele saiu. Um casaco marrom, um cachecol preto, os cabelos brancos desalinhados, algo que ele logo deu um jeito passando a mão como se fosse um pente. Saiu da sala decidido, com um destino pronto, e nem notou o pobre jornalista que esperava ao lado da porta. Fui atrás dele e o chamei pelo nome.
- Quentin!
E aí está. Não há jeito melhor de começar uma entrevista do que chamar o entrevistado pelo nome errado. Se quiser pontos a mais, chame-o pelo mesmo nome de outro colega de profissão! É quase como dizer o nome de uma ex enquanto faz amor com a atual. Se Scorsese iria reagir dessa maneira, eu estava prestes a descobrir.
- Olá – ele virou para mim, com uma inflexão de dúvida na voz – você está falando comigo?
“Era óbvio que eu tinha falado com ele”, pensei, “só tínhamos nós dois naquele corredor, mas a minha intenção nunca foi chama-lo de Quentin Tarantino senhor Scorsese, talvez eu devesse pensar mais no senhor como Martin e não como Scorsese, porque Martin é que lembra Quentin e afinal, todo mundo o chama de Scorsese e...”.
Parei de tentar explicar na minha cabeça.
- Sim. Desculpe senhor Scorsese, eu quis chama-lo de Martin, não de Quentin, eu...
Ele se adiantou até onde eu estava e estendeu a mão, mastigando o sotaque.
- Scorsese. Martin Scorsese.
Cumprimentei ele. Disse meu nome e meu cargo, estudante de jornalismo, e porque estava ali: não para fazer nenhuma entrevista ou trabalho de aula, e sim para conhece-lo. Já fazia alguns meses que ele estava dando aula naquela escola e eu não podia perder a chance de trocar algumas palavras com um grande diretor. Ele assentia com tudo o que eu falava subindo e descendo as grossas sobrancelhas. Por fim, me disse.
- Ok. Acompanhe-me.
Eu nunca soube para onde Scorsese (ou Martin, como eu podia chamá-lo agora) iria me levar, já que assim que ele terminou de falar para acompanha-lo, meu telefone tocou. Gafe número 2 do dia. Pelo menos eu tinha explicado que era estudante de jornalismo, não jornalista.
Atendi o telefone. Era minha mãe. Ela era professora na mesma escola – foi ela quem tinha me dado o furo sobre Scorsese, afinal – e queria me dar um recado. Estava saindo de um coquetel na sala dos professores. Perguntei para Martin se ele podia passar em um lugar no caminho antes de irmos para onde ele queria. Torci para que ele gostasse de coquetéis. Ele levantou as sobrancelhas grossas e concordou. “Claro!”.

Andamos até o fim do corredor da sua sala e descemos as escadas. A manhã fria parava de castigar um pouco, com o sol se revelando aos pouquinhos. Guardei as luvas no bolso do casaco, mas vi que Martin continuou com o cachecol. Eram 9h50min, quase hora do recreio dos alunos. Depois de descermos três lances de escadas, chegamos até a sala dos professores.
Um grupo de professoras padrão saia da sala. Por professoras padrão, entenda: a) baixinhas e gordinhas, de cabelo curto, b) altas e magras, de cabelo curto, c) altas e magras, de cabelo longo, provavelmente professoras de línguas estrangeiras. Quando se convive com muitas professoras a vida toda, você acaba percebendo certos padrões. Minha mãe era um (a), mas se eu visse várias (a)s de costas, poderia confundi-la fácil com alguém.
Felizmente, ela estava de frente, e logo me recebeu com um largo sorriso.
- Filho! – ela me abraçou, pronunciando “Filho!” alto o bastante para que todos no mesmo cômodo notassem que eu estivesse ali – tudo bem?
- Tudo – respondi sufocado, minha boca entre o seu ombro e a sua orelha.
- Como está a entrevista? – ela cochichou no meu ouvido, eu ainda sufocado
- Está ótima – esqueci o erro do nome, ela não precisava saber – e o recado?
- Que recado? – ela me soltou – ah... era isso! Só queria saber como você estava!
Dei a ela meu melhor olhar de “sério?”, que ela ignorou sem cerimônias assim que viu que meu entrevistado estava atrás de mim. Por um instante, imaginei ela passando por um momento de fangirl, gritando enlouquecidamente “Martin, me conta tudo sobre o Leo DiCaprio, ele deixaria eu chamar ele de Leo?”, mas Scorsese era, afinal, colega de trabalho de minha mãe. Ela apenas estendeu a mão para ele.
- Martin, tudo bem? Vejo que já conheceu meu filho.
E em uma frase, Scorsese descobriu que o problema com nomes não era genético na família.
- Sim. Bom garoto.
- Que bom – ela sorriu – aceitam alguma coisa? Temos doces e salgados.
O coquetel! Se havia algum momento para garantir a simpatia de Scorsese, era agora. Peguei dois queijinhos derretidos e ofereci para ele.
- Aceita? Estão uma delícia.
- Não, obrigado, eu já comi.
Ok. Não era aquele momento. Agradeci a minha mãe com a boca cheia e acenei com a cabeça para a porta para Martin me seguir.

Deixei o diretor ir na frente, já que estávamos seguindo o lugar para onde ele queria me levar, mas assim que descemos um lance de escadas, o sinal do recreio tocou. Estávamos no térreo, na altura do pátio, que logo foi inundado por adolescentes e pré-adolescentes. Estava pronto para começar um novo tópico, assim que acabasse de digerir o primeiro queijinho, sobre o que Scorsese estava fazendo em um colégio tão simples, dando aula para jovens que nem sonham com cinema, mas fui interrompido pelo próprio.
- Olha – ele apontou para o pátio – saiu sol.
O sol finalmente havia ganhado a batalha com a friaca. Segui com Scorsese até o pátio. Ele parecia realmente empolgado.
- Essa porta aqui normalmente fica fechada – ele apontou uma enorme porta de ferro verde que liberava o acesso ao pátio – é a primeira vez que vejo ela aberta.
Enfiei o outro queijinho na boca e observei a cena se desenrolar. Scorsese seguiu até o meio do pátio, com várias crianças ao seu redor, passando por ele sem nem dar bola que quase tropeçaram em um diretor Oscarizado. Mas ele não parecia se importar. Colocou-se no meio círculo central da quadra de futebol, olhou para o sol e enfim tirou o cachecol pesado. Depois abriu os braços e ficou alguns segundos ali, se recarregando de luz solar. Por fim, tirou o casaco e ficou olhando para o céu. Quem diria: Scorsese amava sol.
Cheguei do seu lado. Dessa vez, ele puxou assunto.
- Olhe aquilo – ele apontou para um prédio colorido – parece cenário de filme infantil.
O prédio que ele apontava era um dos arranha-céus vizinhos do colégio. Estávamos bem no centro da cidade, logo, conseguíamos ver prédios de todo tipo olhando do pátio do colégio. Éramos um vale em meio a montanhas de metal.
Apontei para outro prédio, uma construção de tijolos abandonada, cheia de panos balançando com o vento que ecoava pelos seus corredores incompletos.
- Aquele parece cenário de filme de terror.
Ele concordou com a cabeça. Apontou para outro, que tinha uma lateral de vidros.
- Aquele ali daria uma ótima conspiração científica.
Por fim, apontei para um galpão, que mais parecia uma igreja do que um prédio, com suas telhas vermelhas destacando-se no céu azul.
- Aquele daria um bom filme de ação.
Scorsese olhou para o prédio que apontei e pensou por alguns segundos.
- Não sei...
Ele apertou os olhos e franziu as sobrancelhas, que quase se fundiram em sua testa. Era uma ideia se formando na cabeça de um dos diretores mais geniais do cinema e eu ali, observando aquele momento de criação. Por fim, ele relaxou os olhos e virou para mim.
- Acho que precisaria de umas telhas caídas. Emoção.

Ficamos alguns minutos conversando enquanto andávamos pelo pátio cheio. As crianças não davam a mínima para ele; ele não era professor delas, afinal, e elas eram muito novas para saber quem ele era. Alguns adolescentes olhavam de longe e comentavam alguma coisa; fiquei na dúvida se estavam falando do diretor de cinema ou do professor. Uns inclusive falavam “olá, coordenador” enquanto passavam pela gente, cargo que Scorsese não tinha e não sonhava em ter, conforme me falou. Por fim, um jovem cruzou a nossa conversa e estendeu a mão para ele.
- Bom dia! Bom vê-lo por aqui.
- Obrigado – Scorsese retribuiu o aperto de mão – muito obrigado.
Esperei o jovem sair de perto e falei:
- Esses jovens, não são capazes nem de chamá-lo pelo nome.
- De repente, ele não falou pra garantir que não falasse errado – e deu um sorrisinho e um tapinha nas minhas costas.
Pronto. “Sacaneado por Martin Scorsese”. Isso ia pro meu currículo.
Segui ele até a porta de saída da escola. Ele fez sinal para que eu acompanhasse.
- Vamos, preciso comprar algumas coisas.
Enquanto seguia ele para fora do colégio, percebi que não tinha nenhum bloquinho nem nada comigo. Aquela conversa não tinha a intenção de se tornar uma entrevista afinal, mas mesmo assim, podia se tornar uma baita entrevista. Mas eu não tinha nada para anotar. Ia ter que confiar na minha memória.
Seguimos lado a lado até um pequeno centro comercial que ficava próximo ao colégio. Eu não fazia ideia do que ele ia comprar, mas estava achando o máximo. Fiquei pensando em alguma piada envolvendo compras e algum de seus filmes, até que finalmente descobri o que ele ia fazer. Ele entrou em uma farmácia, foi até a atendente do caixa e puxou uma listinha do bolso.
Fiquei do lado de fora. Será que Scorsese estava doente? Ele estava velhinho, afinal: tinha a impressão que ele teve cabelos brancos desde sempre, mas sua fala estava um pouco mais arrastada do que em entrevistas de alguns anos atrás. Será que era algo grave? Fiquei pensando nisso enquanto a moça da farmácia que o atendia ia e voltava naqueles corredores mal-iluminados, empilhando caixinhas coloridas na frente do diretor. Por fim, ele pagou tudo com um cartão e saiu sorridente, dando tchau para as moças pelo nome delas.
Procurei em minha mente algum tópico que não envolvesse sua saúde, mas meu subconsciente era um safado que não me deixava escapar em paz.
- E então... está muito difícil fazer filmes hoje em dia?
“Está, porque estou doente” minha cabeça completou.
- Não, não está – ele dobrou a sacolinha, guardou embaixo do braço, pegou um dos cabos de vassouras que eram vendidos na frente da farmácia e saiu andando com ele, como se fosse uma bengala – o problema é que as pessoas olham para mim e pensam “olha ali, lá vai aquele diretor velhinho, que ganhou um Oscar por um filme meia boca só para a Academia dar um Oscar para ele antes que ele morresse, vamos fazer um esforço, arranjar fundos para ele continuar fazendo filmes, mas vai ter que ser do nosso jeito senão ele vai nos atacar, afinal, ele é um velho gagá!”.
Ele fez menção de me atacar com a bengala improvisada. Eu ri.
- Caso sirva de consolo, eu adorei Os Infiltrados.
- Obrigado – ele guardou a vassoura no lugar – eu gosto também.
Voltamos para a escola. No caminho, o celular de um menino a nossa frente tocou. Seu toque era I’m Shipping Up To Boston. Ele sorriu.

Acompanhei Scorsese até o corredor onde ficava sua sala, onde tudo começou. A TV do corredor insistiu em passar o comercial de O Lobo de Wall Street mais uma vez. Comentei isso com ele.
- A divulgação está boa.
- Querem um Oscar de melhor ator para Leo, mas estão em dúvida se promovem Jonah ou McConaughey para melhor coajduvante.
- Eu daria um Oscar para a loira e para o anão.
- Qual Oscar?
- Todos eles.
Ele sorriu e me cutucou no braço esquerdo.
- Eu devia realmente ter uma bengala para cutucar as pessoas.
O diretor tirou um chaveiro pesado do bolso e abriu a porta da sala. Esperei ter algum vislumbre do templo de Martin Scorsese naquela escola estranha, o lugar onde ele relaxava e colocava seus pensamentos em ordem, mas... não. Ele manteve a porta fechada e ficou na frente dela para se despedir. Era o fim.
- Obrigado pela manhã. Foi... divertida.
Ele pareceu escolher a palavra “divertida” com cuidado, o que me fez pensar que o conceito de “diversão” para Scorsese devia ser muito peculiar. Fiquei feliz que foi o que ele pensou da manhã que passamos juntos.
- Obrigado. Foi “divertida” para mim também.
Ele assentiu com a cabeça e abriu a porta da sala. Antes de entrar, chamei novamente.
- Diretor.
Ele colocou a cabeça no vão entre a parede e a porta.
- Sim?
- Isso nunca foi uma entrevista, mas caso fosse, eu tenho que perguntar: você tem alguma dica, algum conselho para quem quer seguir uma carreira como a sua?
Ele me esquadrinhou da cabeça aos pés e sorriu. Era óbvio que aquele conselho era para mim. Pensei na minha própria imagem enquanto ele pensava no que falar: jovem, barba por fazer, usando um terno e sobretudo que provavelmente ficariam melhor na minha versão adulta do que em mim. Eu estava interpretando uma versão do que eu poderia ser. E ele percebeu isso enquanto escolhia as palavras com cuidado como fez segundos atrás, até que enfim disse:
- A insanidade e a emoção podem nos levar a lugares incríveis. Use-as com razão.
Subliminar, dúbio e sensato. Tudo o que eu esperava dele.
Nos despedimos sem palavras. Sorri e abanei para ele, pensando no que ele falou. Ele assentiu com a cabeça e fechou a porta.
Saí de lá sem conhecer o seu templo, mas com a impressão de que conheci mais de Scorsese do que se esquadrinhasse cada centímetro da sua sala.
Eu, com certeza, estive na mente de Martin Scorsese.
E ele, na minha.

***

E estamos de volta!

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