Alimente Suas Neuroses

Desperdicei minha noite de segunda-feira.

Podia ter saído do trabalho logo depois das 18h30, podia ter ido pra casa, jantado, curtir um pouco minha vidinha pacata até meu irmão me ligar pra buscar ele no trabalho e depois ir dormir. Mas não. Numa ânsia de esperar ver se aparecia trabalho pra fazer ou os chefes irem embora, o que acontecesse antes, acabei ficando no trabalho. Quando eu vi, já passavam das 19h30min, a portaria do prédio já tava fechada e eu só podia ir embora quando um deles fosse. Bloody hell.

Fato é que jantei tarde e 22h da noite, estava pronto pra curtir o meu quarto. E a essa hora, a única coisa que me vem a cabeça é ir dormir. Mas sabe aquele pensamento de que dormir é um desperdício do seu dia? Ainda mais na minha situação, em que tinha estragado um belo fim de tarde e uma janta quentinha ficando no trabalho ouvindo as conversas dos chefes. No alto da minha indisposição comigo mesmo, liguei o computador pra ver se a máquina me aguentava de um jeito que eu já não conseguia me aguentar àquela hora. Coloquei o pendrive pra passar algumas músicas novas pro computador e resolvi eliminar do pen algumas que eu não gosto de ouvir. E foi aí que a mágica aconteceu.

Neurose.

Sou um virginiano nato, perfeccionista ao extremo e amante da organização. E nada expressa melhor essa característica minha do que a minha paixão pela esquematização das coisas. Não é nem paixão: é uma neurose. Abrir pasta por pasta pra escolher qual música deixar e qual música tirar me fez esquecer todos os problemas do dia. O fim de tarde desperdiçado, a janta no fim da noite, o papo dos chefes, tudo. Foi como se organizar minha pasta de músicas tivesse organizado meu dia.

Neurose.

Mas não é só a pasta de músicas que serve. Não fosse ela, seria os organizar os meus livros em ordem alfabética ou a minha gaveta de gravatas. Só teria que suprir minha necessidade de organização, e assim, dormir mais tranquilamente sabendo que meu mundo está um pouco mais organizado. Por isso eu digo: alimente suas neuroses. Elas são a sua característica mais própria, e não raro serão a primeira a lhe cobrar atenção. Mas alimente ela direitinho: cuidar dela é como ter um Tamagotchi interno, que só vai parar quando conseguir o que quer. As neuroses são o sabor da vida, o orégano dela.

E no final, só sobrarão as neuroses.

E keith richards.

E as baratas.

Sam tem uma tia chamada Neura.

27 Anos Depois...

Hoje, no início da tarde, eu e o meu irmão deixamos os nossos pais na rodoviária.

Em uma inversão de papéis tremenda, depois de pelo menos uns 15 anos fazendo isso (acho que viajei a minha primeira vez sozinho lá pelos 7 anos, calculo eu), hoje nós dois colocamos eles no ônibus de viagem. O motivo era o fim de semana em Gramado que meu pai ganhou por completar 15 anos na empresa onde trabalha. De hoje até domingo, os dois estarão condenados a passar um fim de semana juntos, com vale-refeição de R$ 280 para os almoços e um hotel cujo slogan é "o melhor lugar da Europa... fora da Europa".

(Ruim né?)

Fato é que em, recém-completados 27 anos de casado, eu acho que os dois nunca fizeram isso. Como bem observou minha mãe, "ficar sozinho em casa eu e o teu pai com vocês dois fora já aconteceu bastante, mas eu e teu pai sair assim e vocês ficarem, eu não lembro a última vez". Eu lembro mãe. Nunca aconteceu.

Quando a gente é mais novo, busca por experiências, acontecimentos, fatos. A medida em que vamos ficando mais experientes, trocamos isso por segurança. Exemplo: eu gastei metade do meu salário no show do Paul McCartney, SÓ no ingresso. Metade. Mas porra, foi O SHOW DO PAUL MCCARTNEY. Minha mãe não sabe o quanto gastei até hoje, claro, ela ia surtar, mas enfim, é algo que vai ficar pra vida toda.

Na mesma semana, acredito que meus pais devem ter gastado mais ou menos o mesmo com móveis novos pra cozinha. Duas semanas atrás, foi um forno novo e uma geladeira que não precisa descongelar, sonho da minha mãe. Pela primeira vez, senti que me mudei: conhecia a velha geladeira marrom desde que me entendo por gente (tinha figurinhas do chiclete do REI LEÃO coladas na porta, calcula). Ela era meu último link com minha vida pregressa na antiga casa com paredes azuis, desde que os meus móveis com desenhos da Disney foram pro espaço. Agora ficou tudo na memória.

Mas contar com a memória talvez tenha sido o aprendizado mais importante dos meus pais no momento em que estão vivendo. Depois de colecionar acontecimentos quando novos, está na hora deles adquirirem segurança, adquirirem bens, porque não, montarem a estrutura que aos poucos vão deixando para os filhos. Mesmo que isso custe deixar de colecionar fatos e acontecimentos de vez em quando. Por isso mesmo que cada conquista nossa é supervalorizada: a formatura, o primeiro carro, um novo emprego. Já que já passou da fase deles de terem esses acontecimentos na vida dele, eles vivem esses fatos pela nossa vida.

É e verdade o que dizem: aos poucos viramos os nossos pais.

Mas assim ó: não tem porque se assustar. Você pode até não concordar com os seus pais e pensar que o que eles não nos ensinam em casa, o mundo nos ensina lá fora. Parece papo-furado mas é verdade: os pais são os melhores professores. E ainda voltam a falar contigo depois de tu virar a cara pra eles. Experimenta brigar com um chefe e depois esperar que ele venha te dar boa noite. Nem sonhe com isso...

Por isso, nada de errado em crescer. CRESCER, não AMADURECER. Como diria meu querido sogrinho (outro que ando escutando bastante), "não quero amadurecer, porque o próximo passo depois de amadurecer é apodrecer". Cresça em corpo e mente, mas conserve aquela velha essência de colecionar fatos, de adolescência, aquela vontade de descobrir coisas novas. Nem que essa coisa nova seja um findi em Gramado, longe dos filhos, tá bom já...

Mas não espere 27 anos, ok?

Seus lindos... *-*

Sam ainda vai passar um findi em Gramado