Depois disso, festa. Aqui não vale se prolongar muito, mas vale dizer o que é importante ser dito: ah, como eu queria dançar. E como eu dancei. Impressionante notar um dia depois que gastei apenas R$ 21 e bebi muito. Achei que tomei muito de todos. Tomei suas bebidas, tomei suas atenções, mesmo que por instantes. E acho que tive minha atenção tomada por todos, por instantes também. Eu adoro gente. Que vício.
Sábado de manhã lesado, acordar depois do almoço, minha mãe na porta “pode continuar dormindo, o almoço ta na mesa pra quando tu quiser levantar, só esquentar”. Eu adoro esse momento de dúvida: será que ela ta braba comigo, ou está sendo sincera? Esses dias várias pessoas falaram pra ela, no mesmo dia, que ela era superprotetora em relação aos filhos, que devia deixar eles voarem. Seria a terapia funcionando?
Almocei tarde, arrependido, devia ter partido para o chá. Mais poético; combina mais com ressaca. Agradeci imensamente ao universo por colocar o desenho do Batman no exato horário em que eu acordo de ressaca no sábado, é uma diversão imensa. Assisti em inglês, como sempre faço. É mais divertido, parece mais natural. Fui buscar minha mãe no centro, voltei para a casa, lavei a minha louça e em meia hora, estava na cama de novo.
Esses sábados atravessados são interessantes, eles te ajudam a colocar em perspectiva o que mais importa para você. Eu poderia assistir TV, ver o DVD lacrado que está na minha estante faz tempo, ler o livro também fechado que está ali, ler as muitas revistas que estão sendo consumidas aos poucos, escrever, tentar produzir... mas quando o seu corpo te joga instintivamente na cama, você deve aceitar. Alguém dentro de você quer descansar.
Quando acordei, horas depois, meu irmão estava no quarto dormindo (por sinal, não o vi hoje), meu pai estava roncando na sala e minha mãe havia saído para uma formatura, deixando para mim a tarefa de trocar uma calça em uma loja do shopping. O plano geral ficou claro para mim no momento: cinema. Depois de muito pestanejar, agarrei o celular e disparei as mensagens. “Capitão América, hoje?”. Parti pro banho.
As respostas demoraram a vir, e quando vieram, o fizeram sem muita empolgação. A primeira convidada já tinha assistido, a segunda não se pronunciou, e blá blá blá, a escolha parecia óbvia. “Meia-Noite em Paris”. Woody Allen na tela grande. Estava com o estômago atravessado, almocei tarde, não jantei, cheguei a tirar um copo da estante para tomar água antes de sair, mas nem isso fiz. Deixei em cima da pia. Meu corpo me levou ao meu carro.
No shopping, apenas uma troca inocente de calça me separava de ver Woody Allen na tela grande. Estacionei longe demais e quando cheguei na loja, depois de pegar chuva na cabeça, percebi que não tinha trazido a nota do produto. Tentei conversar na loja para ver se não conseguia trocar só com a etiqueta, mas isso não era possível. E ainda faltava mais de 1h para o filme. A pressa é a inimiga da perfeição, já dizia um Power Point qualquer.
Engraçado que nessa hora tudo parece vir ao mesmo tempo, todas as indecisões da noite, que agora pareciam muito mais fáceis de decidir. Porque não convidei outras pessoas para assistir Capitão América? Porque não voltei para casa para pegar a nota, antes de ter que pagar estacionamento? Porque não deixei para ir no cinema e na loja outro dia? PORQUE NÃO CHEQUEI A NOTA ANTES DE SAIR DE CASA? Dúvidas em maiúsculo, sempre.
Mas né. Acontece. Woody Allen estava me esperando. Depois da indecisão, há sempre um filme esperando. Larguei a sacola calmamente no carro, estacionei ele mais perto, fui comprar o ingresso, encontrei uma amiga de longa data (“vamos combinar alguma coisa essa hora, tô com saudade de vocês!”), comi um brigadeiro para alimentar a lombriga – não tinha jantado, lembra – e fui assistir o filme. Poltrona F13, sessão cheia.
E que filme lindo. Descrevi tudo o que aconteceu até agora para agora tentar descrever o choque que foi o início do filme. Sabe a sensação de estar em casa? Aquele aconchego? Eu nunca estive em Paris, óbvio, mas o jeito que Woody Allen a retrata no início do filme, da mesma maneira como ele fez com Nova York em óbvio, “Manhattan”, me faz acreditar que Woody Allen poderia ser um guia turístico tão bom quanto cineasta.
Depois da introdução característica, nos dizendo que “a história acontece aqui”, vem os créditos, no início do filme, com o áudio do casal principal (até o momento) discutindo. Se antes era “a história acontece aqui”, agora era “a história acontece com eles”. Ela, fútil, vazia, histérica, e obviamente, linda. Ele, nervoso, inseguro, perdido, Woody Allen. Era o segundo aconchego da noite: era um filme com um dos meus melhores amigos, de novo.
Dali pra frente, é como se te colocassem um cobertor sobre as pernas e entregassem uma xícara de chocolate quente. A história se desenvolve fácil, como a sinopse dela entrega facilmente: ao badalar da meia-noite, o escritor Gil Pender embarca em um táxi que o leva a Paris dos anos 20, onde ele encontre os seus ídolos, uma nova musa, e acima de tudo, significado para sua vida indecisa.
Woody Allen é mestre em tudo. Sua descrição dos personagens os deixa críveis, tão críveis que é perfeitamente possível de aceitar que um escritor do “milênio seguinte”, como ele mesmo se descreve, consiga conviver nas madrugadas com personagens da década de 20 tão singulares, como Scott Fitzgerald, Cole Porter e Salvador Dali. Afinal, à noite, tudo pode acontecer, não?
Aos poucos, Gil começa a trazer para a sua vida real os ensinamentos da década de 20, provando que verdadeiramente, as respostas para as nossas dúvidas estão sempre dentro de nós, basta prestar atenção. É a teoria da ‘espada do amor-próprio’, de Scott Pilgrim, a última arma que encontramos dentro de nós para resolver tudo. Quem disse que quadrinhos não ensinam nada?
Secretamente torcemos para que ele seja feliz e que consiga viver plenamente ao lado dos seus heróis. Mas sabemos que o certo é ele viver plenamente com ele mesmo, no seu tempo. Como em qualquer filme de Woody Allen, desilusão vira um recomeço, uma nova chance para começar aplicando o que aprendeu do último fim. E quando o personagem principal acaba o filme sorrindo, sentimos aquele aconchego bom outra vez.
A vida é dura e cheia de percalços. Ás vezes você passa um sábado atravessado, não dorme direito, come mal, esquece as coisas, mas tem que se apegar ao que é bom e faz de melhor. Ao que faz de você “singular”. Ao seu “verniz”, suas camadas. Se você se veste com coletes de lã que o deixam bem mais velho do que é, mas ainda assim, o faz com graça... faça! Não há nada mais bonito do que um charme só seu, que ninguém pode copiar.
Voltei para casa com um sorriso no rosto. Nem liguei o rádio no carro, só para deixar soando na minha cabeça a trilha sonora do filme, que todos saíram assobiando no final. Essa é a maior bilheteria de Woody Allen até hoje. Depois de alguns filmes irregulares, o diretor acertou a mão novamente, e já está gravando o próximo filme, onde novamente vai atuar. Será que teremos dois Woody Allens em “Bop Decameron”? Seria bom demais.
Cheguei em casa, minha mãe não havia voltado ainda e meu pai e irmão já estavam dormindo. Abri a geladeira e peguei a garrafa de vinho branco que já estava no fim. Despejei o conteúdo no copo que abandonei em cima da pia, antes de fugir para o cinema. Com o vinho no estômago vazio, li o jornal até a cabeça tontear. Era hora de escrever. Fazer o que se faz de bom. O meu táxi da meia-noite estava passando.
E passar a meia-noite em Paris com Woody Allen é passar a meia-noite se sentindo em casa.
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| A musa Adriana (Marion Cotillard) e Gil (Owen Wilson) |
Sam ainda vai conhecer Paris à meia-noite





