(Primeiro: sou nerd. Segundo: vou reclamar. Terceiro: eu avisei.)
Até ano passado isso não existia. Eu pelo menos nunca tinha ouvido falar. E ele existe desde 2006. O dia do orgulho nerd. Que orgulho. Aliás: que orgulho?
Só sei que de repente TODO MUNDO VIRA NERD!
(Pelo menos não precisamos de cota social para entrar na faculdade. Até porque os primeiros lugares normalmente são nossos... =P)
O dia 25 de maio foi o escolhido para comemoração porque neste mesmo dia, em 1977, foi lançado "Star Wars - Episódio IV: Uma Nova Esperança". E aí eu me pergunto novamente: onde está o orgulho de ser nerd? A própria franquia de George Lucas foi corrompida nos últimos anos pelo lado negro da força (do marketing), transformando-se em um sem fim de bonecos e séries e games sem profundidade alguma. Não sinto orgulho de ver a nova padawan de Anakin na série de Clone Wars usando uma mini-blusa (mas assisto a série do mesmo jeito).
(Como um bom nerd, eu sei que a mini-saia foi criada nos quadrinhos do Flash Gordon. Mas como estou reclamando, isso não vem ao caso)
Depois, eu tenho que aguentar uma matéria no Fantástico sobre o assunto, em que aquela criatura ínfima de personalidade e nula de inteligência chamada Di Ferrero, vocalista da banda que honra seu nome (NXZero = Nexo Zero. Faz sentido...¬¬'), é chamada a depor sobre o fato de ser nerd. De acordo com ele, no clipe de "Pela Última Vez", em que a banda se "traveste" de nerds, eles quiseram ajudar essa classe social, já que a banda fica com as garotas e os nerds ficam com o show e fazem sucesso com a galera. Primeiro, isso é totalmente anti-nerd: desde quando nós trocaríamos ficar com garotas pelo sucesso com a galera? Nós queremos exatamente o CONTRÁRIO! Afinal, todos sabem que os nerds tem uma certa deficiência neste campo. Sem contar a caracterização de nerd utilizada no clipe: eles parecem mais a versão gripada do quinteto do "Queer Eye For The Straight Guy" do que nerds. E pior do que ouvir aquela abominação falar que era nerd no colégio, com exceção das notas... O Fantástico já foi melhor...
No início da semana foi ao ar uma matéria no programa "Urbano" do Multishow, em que foram entrevistados Marcelo Forlani e Érico Borgo, criadores do site Omelete, méca internética nérdica. Lá pelas tantas, falando de bonecos e séries e quadrinhos e internet, os dois foram questionados pela apresentadora Renata Simões sobre concordar ou não com o Manifesto Nerd publicado no site. Quão grande foi a surpresa de Renata quandos os dois responderam NÃO para o Manifesto! Segundo Érico e Marcelo, ele foi feito por alguém que enxerga os nerds de maneira estereotipada e não deve passar de uma brincadeira.
Quão grande foi minha surpresa então quando eu fui atrás e descobri que o Manifesto foi criado pelos PRÓPRIOS IDEALIZADORES DA DATA! Aí está, apenas os dez itens citados na página em português da data no Wikipédia (ou você achava que a data já não teria uma página na internet?)
Direitos:
1. O direito de ser ainda mais nerd.
2. O direito de não sair de casa.
3. O direito de não gostar de futebol ou de qualquer outro esporte.
4. O direito de se associar a outros nerds.
5. O direito de ter poucos (ou nenhum) amigo.
6. O direito de ter tantos amigos nerds quanto quiser.
7. O direito de não ter que estar "no estilo".
8. O direito ao sobrepeso (ou subpeso) e de ter problemas de vista.
9. O direito de expressar sua nerdice.
10. O direito de dominar o mundo.
Deveres
1. Ser nerd, não importa o quê.
2. Tentar ser mais nerd do que qualquer um.
3. Se há uma discussão sobre um assunto nerd, você tem que dar sua opinião.
4. Guardar todo e qualquer objeto nerd que você tenha.
5. Fazer todo o possível para exibir seus objetos nerds como se fosse um "museu da nerdice".
6. Não ser um nerd genérico. Você tem que ser especialista em algo.
7. Assistir a qualquer filme nerd na noite de estréia e comprar qualquer livro nerd antes de todo mundo.
8. Esperar na fila em toda noite de estréia. Se puder ir fantasiado, ou pelo menos com uma camisa relacionada ao tema, melhor ainda.
9. Não perder seu tempo em nada que não seja relacionado à nerdice.
10. Tentar dominar o mundo!
Qualquer um que conheça um nerd sabe que isso tudo é... verdade. Mas não precisam jogar na nossa cara! A gente sabe disso! Na versão completa em inglês ainda há o direito "not to have a significant other and to be a virgin". Tirem suas próprias conclusões.
Só sei que o fato de ser nerd me alegra, sim. Não me imaginaria sendo "eu" sem fazer a grande maioria das coisas citadas aí em cima. Mas não é algo a se comemorar, como se o fato de eu não fazer algum dos "mandamentos" aí em cima me tirasse da minha posição. Sim, eu tenho um museu de nerdice, eu defendo meus ideais nérdicos, eu sou gordinho e uso óculos, mas eu também tenho amigos, gosto de garotas e gosto tanto de Star Wars quanto de Star Trek (leu bem Jota, TREK, NÃO TRECK!). E também tenho estilo (afinal, quando as pessoas falam "tu tem alto jeito de nerd!", isso não é ter estilo?).
Não é uma religião, for god's sake (até porque todo mundo sabe que se tratando de religião, todo nerd é jedi...). É só uma união de escolhas de vida, que não precisam ser comemoradas nem escancaradas.
Nós nerds pensamos como um onisciente coletivo. Como eu disse no início da frase, "nós nerds" sempre falamos no plural, como um grande grupo. Somos uma grande massa da sociedade que fica pelos cantos, morlocks cibernéticos. Nós criamos o Google, o Youtube, o MSN, o Orkut, o MySpace e o Twitter. Nós temos o maior potencial de compra do mundo, seja em jogos, quadrinhos e bonecos. Nós lotamos os cinemas nas pré-estréias de filmes, nem que seja só para ter certeza de que NÃO VAMOS gostar deles. E somos mais inteligentes e articulados do que a maioria das pessoas. Por isso não pensem que vamos dominar o mundo. Ele já é nosso.
Então, só nos deixem em paz, por favor.
Vida longa é próspera. \\//
