A Boa e Velha Terceira Idade

Domingo passei o dia na produção de um documentário para a disciplina de Rádio na faculdade sobre bailes de terceira idade.E por mais que eu abomine o jornalismo na maior parte do tempo, eu tenho que admitir que as vezes nós realmente nos deparamos com histórias que, não fosse o jornalismo, não haveria outra maneira de elas chegarem até nós.

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Assim como diz a máxima na televisão que as piores coisas a serem utilizadas em uma gravação são crianças e animais, acho que a melhor coisa que acontece na produção de uma matéria é entrevistar ou ter a chance de entrevistar velhinhos. Nunca irá lhe faltar assunto e ao contrário de fontes que normalmente estão apressadas com os seus afazeres ou cheias de coisa na cabeça para fazer, os idosos sempre terão toda a paciência do mundo para falar com você, afinal, o que eles mais querem na maior parte do tempo é simplesmente isso: atenção.

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“Não pode se deixar frustrar” disse a senhora de 65 anos que escolhemos para sentar na mesa com a gente. Alta, loira, com pose de quem já teve pose em outra época de sua vida e, principalmente, sozinha. Acho que esse foi o principal detalhe que me chamou atenção nela: em um baile onde a maioria vai para arranjar alguma companhia ou curtir algumas momentos com pessoas da sua mesma idade, ela era categórica ao dizer que não ia lá para arranjar companhia. Que na idade em que se encontrava, já tinha conquistado o direito de dizer “não”. E que era feliz assim.

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Os olhos fundos ainda vivos denunciavam que aquela outrora grande senhora foi alguém que sofreu bastante na vida. Mas antes que a gente pudesse tentar descobrir mais alguma coisa apenas observando seu jeito de ser, foi àquela pequena oportunidade de ter um pouco de atenção que permitiu a ela desvelar uma série de histórias sobre sua vida. Inclusive, aquela de frustração.

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Ela pediu a nossa idade e que curso fazíamos, somente para falar que tinha um neto que estava se formando e outro que estava na Bologna estudando. Aí, vimos mais um contraste na vida dela: netos abastados, estudando fora, e ela um baile da terceira idade, sozinha, num domingo à tarde. A cada pequeno detalhe que ela revelava sobre sua vida, mais camadas nós conseguíamos adicionar a pessoa que estava na nossa frente.

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Mas ela logo contou a sua história de frustração (que na verdade nem era sua, importante citar): o neto, não o de Bologna, mas que ela também morria de orgulho, tinha tudo para dar errado, desde pequeno. O pai ele não conheceu; matou-se na frente da mãe quando ela estava grávida dele. A mãe, com 17 anos, contou principalmente com a ajuda da avó para criar o filho. Resultado mais do que esperado: a vó virou pai, mãe, e avó.

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A vó então criou a criança como um filho, sendo que a própria mãe da criança era tão filha ainda quanto o seu próprio bebê. E tendo criado o filho/neto com o maior apreço do mundo, a vó tomava todas as dores, independente de quão grande seria. E foi justamente de uma dessas dores que ela contou. Uma história de amor quase impossível envolvendo internet, Arkansas e um acampamento evangélico (não tinha como dar certo, convenhamos).

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Anos atrás, o neto, em um acampamento evangélico, conheceu essa moça do Arkansas, pela qual se apaixonou. Apaixonou-se perdidamente. Acabou o acampamento, ela voltou para os Estados Unidos e os dois continuaram falando pela internet. Completamente apaixonados. Bom lembrar que os dois eram evangélicos: um relacionamento, como a própria vó disse, que não era baseado em beijo e abraço – e que metade de nós nem consideraria relacionamento. Porém, um tipo de relacionamento perfeito para durar pela internet.

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Os dois continuaram se falando, até que o filho/neto começou a tomar as providências para ir atrás dela. Matriculou-se em uma escola de inglês, para aperfeiçoar o idioma estrangeiro quando fosse viajar. Comprou a passagem para o Arkansas, caríssima, cheia de escalas. E foi sozinho até o Rio de Janeiro para conseguir um visto para os EUA. E lá tirou um visto de – juro – DEZ ANOS.

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Cada vez que ela falava que a história do neto era sobre lutar contra a frustração, eu só pensava o quão mentirosa aquela senhora poderia ser. Ela podia jurar que era ex-mulher de um milionário, que foi uma famosa dançarina de cabaret quando nova, qualquer coisa eu iria acreditar. Mas acreditar que o neto ficaria feliz depois de todo esse esforço atrás de alguém muito longe e que ele realmente investiu tudo isso nesse sonho... era pedir pra acreditar demais. Continuando...

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Hitchcock dizia que melhor do que preparar o espectador para algo que ele não sabe que irá acontecer, é mostrar a bomba no início do filme e deixar quem está assistindo nervoso até o desfecho da história. E era mais ou menos assim que eu me sentia com a idosa (e mais ou menos como esse texto está se desenrolando – sorry). Eu sabia que ia dar merda em algum momento. Foi quando ela disse que, 20 dias antes de o rapaz viajar para o Arkansas, o pai da menina cortou totalmente a internet e os meios de contato dela para falar com o garoto.

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Eu logo pensei “ok, estúpida, mil lan houses ao redor do mundo e você preocupada com isso?”. E também, se o pai dela cortou os contatos dela com o Brasil e ele ficou sabendo aqui, ALGUÉM entrou em contato com ele, certo? Mas ok, não quis mexer no roteiro já escrito e a senhora logo respondeu minhas dúvidas. Não respondeu, mas me fez pensar: independente do que aconteceu, o fato do pai da menina ter cortado os meios de contato quer dizer que ele tinha um grande motivo para que o garoto não viajasse. Como disse a senhora, as vezes uma pedra se coloca no caminho para evitar mais cinco na frente. Eu imaginei o neto dela chegando no Arkansas e levando cinco pedradas na cabeça quando chegasse na casa da garota. Foi mais forte do que eu, desculpa.

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E essa era a história de frustração do garoto. Ele não iria encontrar o amor da vida dele; ele tinha que se conformar com a idéia de que seria muito rejeitado; ele não tinha como vender a passagem porque o Arkansas é um lugar pouco visitado nos EUA; ele literalmente se fudeu. Se a expectativa é a mãe da merda, esse garoto é a definição perfeita dessa expressão. Ele então pagou uma multa de R$ 500 para cancelar a viagem e remarcou uma viagem para NY ainda esse ano.

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O mundo é cruel, o mundo é sacana, o mundo te dá rasteiras... mas você não pode se deixar frustrar. Deixar-se abater. Ficar triste. Isso é uma escolha sua. Esse foi o ensinamento que a senhora tentou nos passar e que parecia exprimir exatamente o que ela sentia sobre a sua própria vida – e o que a maioria dos idosos que entrevistamos hoje pensava também. Eles podiam estar em casa, quietos, sozinhos, parados, deprimidos, chorando durante 15 anos pelo viúvo (o que uma senhora – hoje namorando – disse pra gente também), mas não! Eles estão lá, sendo felizes. Vivendo a escolha deles. Sendo ativos, mas não dançando e cantando por recomendação médica: fazendo isso porque eles, quase no fim da vida, tem a autonomia para saberem o que é melhor para eles. E vão lá viver isso.

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E a gente aqui, querendo ficar sozinho em casa para entrar no Facebook em paz.

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Tudo é resultado das nossas escolhas. E se nós escolhermos não nos abater, não nos frustrarmos e sermos felizes, com certeza seremos. Se funciona com os velhinhos, funciona com a gente. Eu só espero não ter que entrevistar tantos velhinhos assim na minha vida acadêmica para aprender isso de uma vez por todas.

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E caso interesse, depois de se acostumar que a garota do Arkansas seria eternamente a garota do Arkansas e não mais a garota da sua vida, o filho/neto dela apaixonou-se por outra garota... da Argentina. Esse não tem jeito mesmo.

Sam não dançou com nenhuma velhinha

As Cortinas Azuis

Há uma piadinha no 9gag que diz mais ou menos o seguinte: o sujeito, fazendo a prova de literatura, se depara com a pergunta “o que o autor quis representar quando citou as cortinas azuis na página 39?”. As alternativas de resposta são: a) a perda da inocência por parte do protagonista b) os sonhos inalcançáveis do antagonista da história c) as frustrações do próprio autor inseridas no contexto. O personagem da piada olha para a prova então e, puto da cara, desabafa: “citando as cortinas azuis o autor quis representar A PORRA DAS CORTINAS AZUIS!”

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Vindo do trabalho pra casa hoje, coloquei tocar John Mayer. John Mayer é meio que uma opção segura pra quando eu estou dirigindo sozinho, porque é o tipo de coisa que o meu irmão trocaria ao mínimo sinal de uma música que lhe desse sono (a menos que fosse “Say” – ele gosta dessa). John Mayer também seria uma boa opção pra ouvir acompanhado de uma menina no carro – pelo menos todas as que eu conheci até hoje que curtem John Mayer sempre foram gentes finérrimas, elegantes e cheirosas. Mas nunca dei caronas pra ela também. Enfim, era John Mayer tocando e a música era “3x5”.

Clipe com fotos: quem nunca?

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Lá pelas tantas em “3x5”, nosso querido John fala sobre “tryin’ to fit the world inside a picture frame”, ou em bom português do Google Tradutor, “tentar encaixar o mundo dentro da moldura de um quadro”. O legítimo “tentando abraçar o mundo com as mãos”, pensei eu, ouvindo a música e tentando interpretar o que raios ela dizia. É uma bela figura de linguagem. Do tipo que eu nunca escreveria. Foi quando eu parei pra pensar em quanto sou ruim de poesia e figuras de linguagem.

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Não é que eu seja ruim “mesmo”, mas é algo que me incomoda. Outro exemplo, do almoço de hoje, fresquinho ainda; assistindo o Top 10 MTV, ou Disk MTV, ou como raios o “paradão” é chamado hoje em dia, em 1º lugar estava um clipe do Teatro Mágico. Primeiro, DESDE QUANDO TEATRO MÁGICO TOCA NA MTV? Eles sempre foram o tipo de banda que, salvo meia dúzia de gatos pingados que conheciam e os cultuavam, eu achei que fosse famosa somente na internet. De qualquer jeito, logo que o clipe começou, com aquela trupe circense na praia cantando sobre um amor de verão cheio de figuras de linguagem que comparavam a paixão a mais fenômenos da natureza do que canções de pop sertanejo, eu logo virei a cara pra TV e pensei “que droga é essa”.

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Detalhe que eu não me dei ao trabalho de ouvir a letra da canção. Quer dizer, ouvi, mas não prestei atenção. Tal qual um velho rabugento, logo que ela começou despejei as minhas frases clichês sobre o assunto: “eu não entendo essas letras filosóficas ou pseudo-cults, que se propõem a dizer mais falando mais ainda”. Provavelmente eu xinguei os “segredos de liquidificador” do Cazuza na hora, outra que me incomoda até hoje. Assim como Engenheiros do Hawaii. E Cidadão Quem. Nem preciso falar do Pouca Vogal né?

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Mas talvez o problema seja eu. Meu irmão provavelmente concordaria com essa frase caso eu a tivesse pronunciado, mas mediante minhas reclamações a única coisa que ele se propôs a dizer foi que o que o incomodava mais no Teatro Mágico era que eles adotavam posturas: posturas políticas, de apoiar fulano, posturas ecológicas, bla bla bla... se isso incomodava ele, imagina eu, e olha que ele realmente gosta de Teatro Mágico. O clipe logo acabou, logo apareceu a Shakira rebolando em “Addicted To You” e eu fiquei feliz. Mas como se percebe, o assunto não saiu da minha cabeça.

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Para mim, falar menos é falar mais. Apesar de estar digitando ininterruptamente já fazem alguns minutos e ser capaz de falar horas sobre certos assuntos (quem já pegou meus rompantes dialéticos sobre Os Vingadores ou os discursos de “como vocês deveriam parar de assistir os seriados que vocês gostam e começar a assistir os seriados que EU gosto” sabe como é), eu acredito que saber ouvir é mais saber. Isso era inclusive o trecho de uma música do Daniel, o cantor sertanejo (segunda citação sertaneja no texto – hm), de MUITOS anos atrás, mas que eu realmente nunca esqueci. Interessante.

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Esses dias, num xis amigável entre amigos (não é uma redundância: o contrário pode acontecer, acredite) alguém elogiou minha boa memória e disse que, mais importante do que lembrar, foi o fato de eu estar prestando atenção no momento em que tal coisa foi dita e tal fato ocorreu, o que é verdade. E provavelmente se eu estava prestando atenção, eu estava quietinho, no meu canto, ouvindo. Ouve momentos em que gritei, óbvio, mas tenho plena certeza que maior parte da minha vida escutei pacientemente os outros falarem.

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Lembro inclusive de um caso clássico na primeira van que eu pegava para ir ao colégio, em que um menino me xingava porque eu cantava TODAS as músicas que tocava na rádio. Não sei se o problema dele era comigo cantando – talvez – ou com o fato de eu cantar todas as músicas sem distinção – talvez – ou se o problema era ele – SEM DÚVIDA – mas isso foi algo que sempre lembrei quando alguém me pergunta porque eu gosto de tantos estilos diferentes ou, a questão favorita de todo mundo, PORQUE RAIOS VOCÊ GOSTA DE MICHEL TELÓ? (p.s.: o show tava tri massa). Ora, eu penso e (não) respondo, “e porque raios eu haveria de não gostar?”

Adoro essa música, mas alguém dá um cartão de celular pra ele, por favor.

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O errado na concepção geral da humanidade é que é virtualmente impossível eu não entender o que Cazuza quis dizer com “segredos de liquidificador” ou o que o Teatro Mágico canta e ser capaz de me divertir com a minha humilde residência. Hoje eu estava ouvindo Lady Gaga no carro (sim senhor eu gosto muito obrigado até mais) e pensei “como seria legal ir em um show dela!”. No exato fim do pensamento uma voz, que na verdade não era uma voz e sim várias, soou pesada sobre minha cabeça dizendo “COMO VOCÊ É CAPAZ DE QUERER IR EM UM SHOW DA LADY GAGA E NÃO FOI NO THE WALL DO ROGER WATERS?”. Sai pra lá, consciência.

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Essa seria uma questão que provavelmente eu teria que responder, senão para os outros, para mim mesmo. E desde já vou elaborar uma resposta pra ela: não há elitização do pensamento ou obrigação cultural que me faça pensar que só porque tenho “cara de Vagão”, como um entrevistado me disse esses dias, que eu tenha que relevar tudo o que não corresponde a minha cara. Porque às vezes, o que você entende como “a sua cara”, na verdade é apenas a máscara que você mais usa.

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CARALHO FIZ UMA FIGURA DE LINGUAGEM! Vou montar uma banda cover de Teatro Mágico, agora!

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Assim como tudo que é exagero para o corpo é ruim, tudo o que é obrigação para a alma é um peso, algo que não é necessário. Por mais que às vezes eu queira entender mais do que o John Mayer quer dizer com tentar colocar o mundo na moldura de um quadro, na maior parte do tempo eu só quero aceitar que cortinas azuis... são cortinas azuis. Simples.

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Aceitar que as vezes o que alguém quer dizer é EXATAMENTE o que alguém quer dizer é uma das coisas que eu estou tentando aplicar na minha vida agora; deixar pra trás alguns excessos de pensamentos e cortar a gordura mental. E é mais ou menos o que eu pretendo fazer no blog daqui pra frente também: falar, falar e falar. Emagrecer um pouco aqui a gordura mental do dia (“say what you need to say”, cantaria John Mayer pra mim). Se vai dar certo, não sei. Mas se eu dormir mais leve hoje, já ta valendo.

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E outra hora eu explico dos asteriscos. Continua!

Sam já colocou a Megan Fox na moldura de um quadro.