Há uma piadinha no 9gag que diz mais ou menos o seguinte: o sujeito, fazendo a prova de literatura, se depara com a pergunta “o que o autor quis representar quando citou as cortinas azuis na página 39?”. As alternativas de resposta são: a) a perda da inocência por parte do protagonista b) os sonhos inalcançáveis do antagonista da história c) as frustrações do próprio autor inseridas no contexto. O personagem da piada olha para a prova então e, puto da cara, desabafa: “citando as cortinas azuis o autor quis representar A PORRA DAS CORTINAS AZUIS!”
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Vindo do trabalho pra casa hoje, coloquei tocar John Mayer. John Mayer é meio que uma opção segura pra quando eu estou dirigindo sozinho, porque é o tipo de coisa que o meu irmão trocaria ao mínimo sinal de uma música que lhe desse sono (a menos que fosse “Say” – ele gosta dessa). John Mayer também seria uma boa opção pra ouvir acompanhado de uma menina no carro – pelo menos todas as que eu conheci até hoje que curtem John Mayer sempre foram gentes finérrimas, elegantes e cheirosas. Mas nunca dei caronas pra ela também. Enfim, era John Mayer tocando e a música era “3x5”.
Clipe com fotos: quem nunca?
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Lá pelas tantas em “3x5”, nosso querido John fala sobre “tryin’ to fit the world inside a picture frame”, ou em bom português do Google Tradutor, “tentar encaixar o mundo dentro da moldura de um quadro”. O legítimo “tentando abraçar o mundo com as mãos”, pensei eu, ouvindo a música e tentando interpretar o que raios ela dizia. É uma bela figura de linguagem. Do tipo que eu nunca escreveria. Foi quando eu parei pra pensar em quanto sou ruim de poesia e figuras de linguagem.
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Não é que eu seja ruim “mesmo”, mas é algo que me incomoda. Outro exemplo, do almoço de hoje, fresquinho ainda; assistindo o Top 10 MTV, ou Disk MTV, ou como raios o “paradão” é chamado hoje em dia, em 1º lugar estava um clipe do Teatro Mágico. Primeiro, DESDE QUANDO TEATRO MÁGICO TOCA NA MTV? Eles sempre foram o tipo de banda que, salvo meia dúzia de gatos pingados que conheciam e os cultuavam, eu achei que fosse famosa somente na internet. De qualquer jeito, logo que o clipe começou, com aquela trupe circense na praia cantando sobre um amor de verão cheio de figuras de linguagem que comparavam a paixão a mais fenômenos da natureza do que canções de pop sertanejo, eu logo virei a cara pra TV e pensei “que droga é essa”.
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Detalhe que eu não me dei ao trabalho de ouvir a letra da canção. Quer dizer, ouvi, mas não prestei atenção. Tal qual um velho rabugento, logo que ela começou despejei as minhas frases clichês sobre o assunto: “eu não entendo essas letras filosóficas ou pseudo-cults, que se propõem a dizer mais falando mais ainda”. Provavelmente eu xinguei os “segredos de liquidificador” do Cazuza na hora, outra que me incomoda até hoje. Assim como Engenheiros do Hawaii. E Cidadão Quem. Nem preciso falar do Pouca Vogal né?
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Mas talvez o problema seja eu. Meu irmão provavelmente concordaria com essa frase caso eu a tivesse pronunciado, mas mediante minhas reclamações a única coisa que ele se propôs a dizer foi que o que o incomodava mais no Teatro Mágico era que eles adotavam posturas: posturas políticas, de apoiar fulano, posturas ecológicas, bla bla bla... se isso incomodava ele, imagina eu, e olha que ele realmente gosta de Teatro Mágico. O clipe logo acabou, logo apareceu a Shakira rebolando em “Addicted To You” e eu fiquei feliz. Mas como se percebe, o assunto não saiu da minha cabeça.
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Para mim, falar menos é falar mais. Apesar de estar digitando ininterruptamente já fazem alguns minutos e ser capaz de falar horas sobre certos assuntos (quem já pegou meus rompantes dialéticos sobre Os Vingadores ou os discursos de “como vocês deveriam parar de assistir os seriados que vocês gostam e começar a assistir os seriados que EU gosto” sabe como é), eu acredito que saber ouvir é mais saber. Isso era inclusive o trecho de uma música do Daniel, o cantor sertanejo (segunda citação sertaneja no texto – hm), de MUITOS anos atrás, mas que eu realmente nunca esqueci. Interessante.
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Esses dias, num xis amigável entre amigos (não é uma redundância: o contrário pode acontecer, acredite) alguém elogiou minha boa memória e disse que, mais importante do que lembrar, foi o fato de eu estar prestando atenção no momento em que tal coisa foi dita e tal fato ocorreu, o que é verdade. E provavelmente se eu estava prestando atenção, eu estava quietinho, no meu canto, ouvindo. Ouve momentos em que gritei, óbvio, mas tenho plena certeza que maior parte da minha vida escutei pacientemente os outros falarem.
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Lembro inclusive de um caso clássico na primeira van que eu pegava para ir ao colégio, em que um menino me xingava porque eu cantava TODAS as músicas que tocava na rádio. Não sei se o problema dele era comigo cantando – talvez – ou com o fato de eu cantar todas as músicas sem distinção – talvez – ou se o problema era ele – SEM DÚVIDA – mas isso foi algo que sempre lembrei quando alguém me pergunta porque eu gosto de tantos estilos diferentes ou, a questão favorita de todo mundo, PORQUE RAIOS VOCÊ GOSTA DE MICHEL TELÓ? (p.s.: o show tava tri massa). Ora, eu penso e (não) respondo, “e porque raios eu haveria de não gostar?”
Adoro essa música, mas alguém dá um cartão de celular pra ele, por favor.
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O errado na concepção geral da humanidade é que é virtualmente impossível eu não entender o que Cazuza quis dizer com “segredos de liquidificador” ou o que o Teatro Mágico canta e ser capaz de me divertir com a minha humilde residência. Hoje eu estava ouvindo Lady Gaga no carro (sim senhor eu gosto muito obrigado até mais) e pensei “como seria legal ir em um show dela!”. No exato fim do pensamento uma voz, que na verdade não era uma voz e sim várias, soou pesada sobre minha cabeça dizendo “COMO VOCÊ É CAPAZ DE QUERER IR EM UM SHOW DA LADY GAGA E NÃO FOI NO THE WALL DO ROGER WATERS?”. Sai pra lá, consciência.
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Essa seria uma questão que provavelmente eu teria que responder, senão para os outros, para mim mesmo. E desde já vou elaborar uma resposta pra ela: não há elitização do pensamento ou obrigação cultural que me faça pensar que só porque tenho “cara de Vagão”, como um entrevistado me disse esses dias, que eu tenha que relevar tudo o que não corresponde a minha cara. Porque às vezes, o que você entende como “a sua cara”, na verdade é apenas a máscara que você mais usa.
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CARALHO FIZ UMA FIGURA DE LINGUAGEM! Vou montar uma banda cover de Teatro Mágico, agora!
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Assim como tudo que é exagero para o corpo é ruim, tudo o que é obrigação para a alma é um peso, algo que não é necessário. Por mais que às vezes eu queira entender mais do que o John Mayer quer dizer com tentar colocar o mundo na moldura de um quadro, na maior parte do tempo eu só quero aceitar que cortinas azuis... são cortinas azuis. Simples.
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Aceitar que as vezes o que alguém quer dizer é EXATAMENTE o que alguém quer dizer é uma das coisas que eu estou tentando aplicar na minha vida agora; deixar pra trás alguns excessos de pensamentos e cortar a gordura mental. E é mais ou menos o que eu pretendo fazer no blog daqui pra frente também: falar, falar e falar. Emagrecer um pouco aqui a gordura mental do dia (“say what you need to say”, cantaria John Mayer pra mim). Se vai dar certo, não sei. Mas se eu dormir mais leve hoje, já ta valendo.
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E outra hora eu explico dos asteriscos. Continua!
Sam já colocou a Megan Fox na moldura de um quadro.
6 comentários:
Tapete Mágico também me irrita, assim como Engenheiros (deu, falei) e algumas músicas do Cazuza. Eu gosto de Cidadão Quem, apesar de na maioria das músicas não entender nada o que eles querem dizer... Acho que a musicalidade deles me cativa. E sabe, eu nunca te achei com cara de ir no show do Roger Waters. E os únicos poemas que entendo são do Mario Quintana, e já diria o mestre "Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro.", ou seja, cortinas azuis são meras cortinas azuis.
Eu sou fã de contar histórias, então acho que isso complica na hora de gostar de algo mais "complexo". Mas lembro de gostar de algumas canções da Cidadão que são assim, historinhas, então ok, tiro um pouco a culpa deles também.
E adorei a frase do Quintana. Vou muito aplicar ela na minha vida. Me aguarde!
3x5 é minha música preferida do John Mayer e "trying to fit the world inside a pcture frame" é a minha frase preferida (tanto é que é o nome do meu álbum no facebook.. e que sim, é uma figura de linguagem meio óbvia, no meu caso).
Isso me leva a crer que eu não devo ser gente fina, elegante e cheirosa, já que tu me deu carona algumas vezes... ok, eu supero.
AH, FOI ISSO QUE ELE QUIS DIZER! Ou um dos usos. Brigado Celli! Sério, é um ótimo uso da frase dele. Sério mesmo.
Mas mais sério ainda, tu é a "a fã" original de John Mayer, tu sabe. 3x5 sempre foi a tua música e essa frase sempre me lembra teu nick do MSN. Aliás, as músicas que eu ouço no PC ainda são as que tu deixou no Athlon aqui na agência (agora peguei pesado no passado!).
Então, não se abale :)
Hahahah noooossa.. o Athlon ainda existe!! Jesus... hahaha
Mas é, cara viaja, cara vê coisas legais, cara tenta colocar tudo em suas fotos 3x5, mas nem tudo cabe ali... so true. :)
Mas eu ainda não superei o fato de n ser gente fina, elegante e sincera. E tu dizendo que eu sou agora não vai mudar meu estado de espírito.:P
O Athlon só existe na minha memória (oremos). Aliás, acho que não tem nada da tua época aqui ainda. Só a gente. haha
E ok, a Fer, que é a outra John Mayer girl, tá reclamando também porque já dei carona pra ela e ela não é mais fina elegante e sincera. Como não vou conseguir mudar a opinião de vocês, deixa então... quando tu voltar, vamos fazer uma longa viagem só ouvindo John Mayer então. hehe
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