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Assim como diz a máxima na televisão que as piores coisas a serem utilizadas em uma gravação são crianças e animais, acho que a melhor coisa que acontece na produção de uma matéria é entrevistar ou ter a chance de entrevistar velhinhos. Nunca irá lhe faltar assunto e ao contrário de fontes que normalmente estão apressadas com os seus afazeres ou cheias de coisa na cabeça para fazer, os idosos sempre terão toda a paciência do mundo para falar com você, afinal, o que eles mais querem na maior parte do tempo é simplesmente isso: atenção.
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“Não pode se deixar frustrar” disse a senhora de 65 anos que escolhemos para sentar na mesa com a gente. Alta, loira, com pose de quem já teve pose em outra época de sua vida e, principalmente, sozinha. Acho que esse foi o principal detalhe que me chamou atenção nela: em um baile onde a maioria vai para arranjar alguma companhia ou curtir algumas momentos com pessoas da sua mesma idade, ela era categórica ao dizer que não ia lá para arranjar companhia. Que na idade em que se encontrava, já tinha conquistado o direito de dizer “não”. E que era feliz assim.
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Os olhos fundos ainda vivos denunciavam que aquela outrora grande senhora foi alguém que sofreu bastante na vida. Mas antes que a gente pudesse tentar descobrir mais alguma coisa apenas observando seu jeito de ser, foi àquela pequena oportunidade de ter um pouco de atenção que permitiu a ela desvelar uma série de histórias sobre sua vida. Inclusive, aquela de frustração.
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Ela pediu a nossa idade e que curso fazíamos, somente para falar que tinha um neto que estava se formando e outro que estava na Bologna estudando. Aí, vimos mais um contraste na vida dela: netos abastados, estudando fora, e ela um baile da terceira idade, sozinha, num domingo à tarde. A cada pequeno detalhe que ela revelava sobre sua vida, mais camadas nós conseguíamos adicionar a pessoa que estava na nossa frente.
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Mas ela logo contou a sua história de frustração (que na verdade nem era sua, importante citar): o neto, não o de Bologna, mas que ela também morria de orgulho, tinha tudo para dar errado, desde pequeno. O pai ele não conheceu; matou-se na frente da mãe quando ela estava grávida dele. A mãe, com 17 anos, contou principalmente com a ajuda da avó para criar o filho. Resultado mais do que esperado: a vó virou pai, mãe, e avó.
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A vó então criou a criança como um filho, sendo que a própria mãe da criança era tão filha ainda quanto o seu próprio bebê. E tendo criado o filho/neto com o maior apreço do mundo, a vó tomava todas as dores, independente de quão grande seria. E foi justamente de uma dessas dores que ela contou. Uma história de amor quase impossível envolvendo internet, Arkansas e um acampamento evangélico (não tinha como dar certo, convenhamos).
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Anos atrás, o neto, em um acampamento evangélico, conheceu essa moça do Arkansas, pela qual se apaixonou. Apaixonou-se perdidamente. Acabou o acampamento, ela voltou para os Estados Unidos e os dois continuaram falando pela internet. Completamente apaixonados. Bom lembrar que os dois eram evangélicos: um relacionamento, como a própria vó disse, que não era baseado em beijo e abraço – e que metade de nós nem consideraria relacionamento. Porém, um tipo de relacionamento perfeito para durar pela internet.
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Os dois continuaram se falando, até que o filho/neto começou a tomar as providências para ir atrás dela. Matriculou-se em uma escola de inglês, para aperfeiçoar o idioma estrangeiro quando fosse viajar. Comprou a passagem para o Arkansas, caríssima, cheia de escalas. E foi sozinho até o Rio de Janeiro para conseguir um visto para os EUA. E lá tirou um visto de – juro – DEZ ANOS.
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Cada vez que ela falava que a história do neto era sobre lutar contra a frustração, eu só pensava o quão mentirosa aquela senhora poderia ser. Ela podia jurar que era ex-mulher de um milionário, que foi uma famosa dançarina de cabaret quando nova, qualquer coisa eu iria acreditar. Mas acreditar que o neto ficaria feliz depois de todo esse esforço atrás de alguém muito longe e que ele realmente investiu tudo isso nesse sonho... era pedir pra acreditar demais. Continuando...
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Hitchcock dizia que melhor do que preparar o espectador para algo que ele não sabe que irá acontecer, é mostrar a bomba no início do filme e deixar quem está assistindo nervoso até o desfecho da história. E era mais ou menos assim que eu me sentia com a idosa (e mais ou menos como esse texto está se desenrolando – sorry). Eu sabia que ia dar merda em algum momento. Foi quando ela disse que, 20 dias antes de o rapaz viajar para o Arkansas, o pai da menina cortou totalmente a internet e os meios de contato dela para falar com o garoto.
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Eu logo pensei “ok, estúpida, mil lan houses ao redor do mundo e você preocupada com isso?”. E também, se o pai dela cortou os contatos dela com o Brasil e ele ficou sabendo aqui, ALGUÉM entrou em contato com ele, certo? Mas ok, não quis mexer no roteiro já escrito e a senhora logo respondeu minhas dúvidas. Não respondeu, mas me fez pensar: independente do que aconteceu, o fato do pai da menina ter cortado os meios de contato quer dizer que ele tinha um grande motivo para que o garoto não viajasse. Como disse a senhora, as vezes uma pedra se coloca no caminho para evitar mais cinco na frente. Eu imaginei o neto dela chegando no Arkansas e levando cinco pedradas na cabeça quando chegasse na casa da garota. Foi mais forte do que eu, desculpa.
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E essa era a história de frustração do garoto. Ele não iria encontrar o amor da vida dele; ele tinha que se conformar com a idéia de que seria muito rejeitado; ele não tinha como vender a passagem porque o Arkansas é um lugar pouco visitado nos EUA; ele literalmente se fudeu. Se a expectativa é a mãe da merda, esse garoto é a definição perfeita dessa expressão. Ele então pagou uma multa de R$ 500 para cancelar a viagem e remarcou uma viagem para NY ainda esse ano.
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O mundo é cruel, o mundo é sacana, o mundo te dá rasteiras... mas você não pode se deixar frustrar. Deixar-se abater. Ficar triste. Isso é uma escolha sua. Esse foi o ensinamento que a senhora tentou nos passar e que parecia exprimir exatamente o que ela sentia sobre a sua própria vida – e o que a maioria dos idosos que entrevistamos hoje pensava também. Eles podiam estar em casa, quietos, sozinhos, parados, deprimidos, chorando durante 15 anos pelo viúvo (o que uma senhora – hoje namorando – disse pra gente também), mas não! Eles estão lá, sendo felizes. Vivendo a escolha deles. Sendo ativos, mas não dançando e cantando por recomendação médica: fazendo isso porque eles, quase no fim da vida, tem a autonomia para saberem o que é melhor para eles. E vão lá viver isso.
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E a gente aqui, querendo ficar sozinho em casa para entrar no Facebook em paz.
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Tudo é resultado das nossas escolhas. E se nós escolhermos não nos abater, não nos frustrarmos e sermos felizes, com certeza seremos. Se funciona com os velhinhos, funciona com a gente. Eu só espero não ter que entrevistar tantos velhinhos assim na minha vida acadêmica para aprender isso de uma vez por todas.
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E caso interesse, depois de se acostumar que a garota do Arkansas seria eternamente a garota do Arkansas e não mais a garota da sua vida, o filho/neto dela apaixonou-se por outra garota... da Argentina. Esse não tem jeito mesmo.
Sam não dançou com nenhuma velhinha
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