"Enquanto não acho a pessoa certa, me divirto com as erradas..."
(Autor - cafajeste - desconhecido)
De acordo com o Wikipedia e com a chata da minha professora de Estética, kitsch é um termo de origem alemã usado para caracterizar objetos de valor estético distorcido ou exagerado se comparados com o original. Tem por principais características o princípio de inadequação (coisas fora do contexto, como flores de plástico); a acumulação (enfeites empilhados e sem valor); o uso dos cinco sentidos (cartão de Dia dos Namorados com perfume); a mediocridade (nem bonito nem feio - médio, normal, padrão) e o princípio de conforto (não cria problemas, agrada - deixa a sua vida mais "bonitinha").
Logo, por kitsch entenda a coleção de noivinhos da sua chefe, a coleção de gatos de porcelana tigrados da sua mãe ou a coleção de duendes do seu irmão. Aliás, taí uma palavra que fecha bem com o conceito de kitsch: coleção. Coisas bonitinhas, que se acumulam pelos cantos do quarto, não atrapalham, mas arrancam um sorrisinho e um suspiro de satisfação quando você olha para elas. Quando você tem tempo para olhar para elas, claro.
Até porque kitsch é assim: tão normal, padrão, comum, que na velocidade que os dias passam, você raramente tem tempo para olhar. Mas claro, sempre tem tempo para trazer mais um item para casa. E sempre arranja lugar para mais um. Coração de kitsch é coração de mãe.
Mas voltemos a frase do início. "Enquanto não encontro a pessoa certa me divirto com as erradas" quer dizer simplesmente que, enquanto não encontro a qualidade, fico com a quantidade.
(Chegamos a essa conclusão eu e uma amiga, numa conversa que pode ter sido semana passada, mas que parece já ter acontecido há muito tempo. Os porquês da conversa não vem ao caso, mas quem estava no quesito quantidade era eu. Yes. I'm bad. Mas passou já.)
Mas a quantidade, eventualmente, não dá "sustância", como diria a sua vó quando mandava você comer feijão com arroz. Quantidade é coleção. Só. Você conhece pessoas que não criam problemas, te confortam, deixam sua vida mais bonitinha. Você não se importa mais com o que é bonito ou com o que é feio, contanto que seja agradável, naquele momento em que você precisava de algo agradável. Você sente gostos, toques, aromas diferentes e se impressiona. Você acumula um caso ali, outro caso ali, mais um no fim de semana que vem. Você procura fora do contexto e quando percebe... está cheirando flores de plástico. E o caminho que você estava seguindo ficou lá para trás...
Amar é kitsch.
Isso quando você não vai além disso tudo e realmente engata um relacionamento com aquele seu gatinho de porcelana tigrado. Você então comete o maior de todos os pecados do kitsch e, quando menos percebe, tem um altar para o seu parceiro, acima de todos os outros gatinhos de porcelana. Ele é loiro - você não gosta de loiros - mas tudo bem, você se acostuma. Você já tentou várias vezes com outros loiros, mas, porque não tentar mais uma vez? E não importa se ele é tão sociável quanto uma porta - como um bom colar de pérolas que serve apenas para enfeitar, ele fica lindo enrolado no seu pescoço quando vocês saem. Não precisa nem abrir a boca. Aliás, lindo? Perdão. Eu quis dizer bonitinho. E por bonitinho, eu quis dizer feio arrumadinho. E ele - e você - sabem disso.
Então, você leva o seu bibelô para todo lugar. Apresenta aos amigos, as amigas e aos gatinhos de porcelana dos outros. Se alguém pergunta "vocês se amam?", você responde "claro...", mas no fundo, sabe que queria completar a frase dizendo "... e se eu não amar, um dia eu me acostumo". E quando você menos percebe, já está tão acostumado a sair com o seu gatinho de porcelana que nem percebe quando deposita ele no seu altarzinho em casa antes de deitar. Parabéns, você se acostumou. Bem-vindo à rotina.
E quanto tempo isso dura? Na melhor das hipóteses, sete anos, segundo a revista Super Interessante desse mês. Engraçado que sempre ouvi falar que "depois de sete anos namorando, se não casou, larga que nunca mais vai casar", mas nunca pensei que isso tivesse uma explicação científica. De acordo com a nossa herança genética que nos acompanha desde os tempos da caverna, sete anos é o tempo necessário para que o filhote de um casal pré-histórico seja considerado grande o bastante para se virar sozinho. A mãe então pode voltar as suas atividades de solteira e o pai pode procurar outras fêmeas para procriar. (Ótima desculpa para um fim de namoro, vai dizer)
Mas claro, sete anos se tratando de um casal já estabelecido, com filhos, cobras sogras e contas para pagar. Não de um ser humano e um gatinho de porcelana (já falei isso tantas vezes que tô imaginando um cara dormindo com uma Hello Kitty - tenso). Um simples namoro que se desenvolve nessa política do "ah, eu me acostumo" tem muito mais chance de cair na rotina cruel. Chance de escorregar o pé pra fora da coberta então, nem se fala... O gatinho de porcelana do vizinho as vezes tem muito mais purpurina.
O que fazer então? Para acabar com o kitsch é simples, basta destruir a Coréia. Na dúvida de qual, destruam as duas e simples, bye bye gatinhos de porcelana. Agora, nos relacionamentos...
Ainda segundo a matéria da Super Interessante, casais que iniciam o relacionamento sem esperar muito um do outro tem mais chance de serem felizes à medida que a intimidade e o conhecimento mútuo aumentam. Todo mundo já teve uma festa da qual não esperava nada e saiu de lá maravilhado (assim como esperou muito por uma festa e voltou pra casa cedo). Conforme a revista, esse é um caso bastante comum na Índia, onde os casamentos são arranjados e os noivos se casam sem esperar muito do outro e...
Tá, esquece.
Kitsch é a cópia. Mais do que isso: é a coleção da cópia. É substituir o Buda folheado a ouro por dois Santo Antônios de gesso, um São Pedro e um santinho. É a auto-sabotagem. É saber que você acabou um relacionamento e vai atrás da pessoa mais parecida com aquela pela qual você está chorando. É uma questão de escolha. Como diriam Velma Kelly e Roxie Hart, as moças de Chicago:
You can like the life you're livin
You can live the life you like
You can even marry Harry
But mess around with Ike
Essa é a questão principal.
Gostar da vida que vive ou viver a vida que gosta?
Cada um tem a sua resposta.
Gostar da vida que vive ou viver a vida que gosta?
Cada um tem a sua resposta.
Eu permaneço com a dúvida.
Sam curte kitsch. Mas odeia a Bauhaus.