Vi um post no Insta esses dias com uma camiseta com a seguinte frase “Então é Natal. E o que você fez? Fiz o que deu”. Eu acrescentaria “E não tem problema nenhum nisso.”
Na minha última sessão de terapia do ano, minha psicóloga falou sobre as pressões que nos colocamos nessa época, principalmente sobre ter feito o suficiente antes do ano acabar.
Apesar de estarmos acostumados a lidar com finais e inícios, ganhos e perdas, sim e não, o final do ano não é absoluto e definitivo. Ele não vai substituir ou zerar o que fazemos ou deixamos de fazer: é só uma sequência.
É tudo uma questão de perspectiva. Talvez no Natal do ano que vem, a gente pense “fiz o que deu” e o que deu foi extremamente suficiente para aquele momento.
Que nesse Natal, Ano Novo e início de 2020, você consiga ser leve consigo mesmo. Consiga enxergar os seus objetivos com clareza. E consiga cuidar da sua energia para chegar até eles.
Se existe algo que podemos nos dedicar com afinco é em nos tornarmos pessoas melhores, para nós e para o mundo. Que a sua produtividade natalina seja medida em quantas vidas você mudou para melhor, começando pela sua. Esse é o verdadeiro presente do Natal.
A vida é como um jogo single player, em que você joga sozinho e a única competição é a última vez que você jogou essa mesma fase. Não adianta nada se comparar aos outros se só você está jogando o seu jogo: as pessoas podem ter a mesma idade, ter estudado na mesma escola, ter vivido na mesma cidade, mas só você lembrou de pegar as cinco moedas do Yoshi que te davam uma vida extra nessa fase da vida.
O nome delas é Dragon Coin. Eu não sabia.
Se formos adiante na metáfora, dá pra comparar cada dia vivido com uma fase do jogo. Não temos nenhum motivo pra voltar e jogar novamente uma fase que a gente já passou, além de melhorar o nosso rendimento e pegar os itens que a gente não pegou antes. Na vida, naturalmente, não dá pra viver um dia de novo, mas dá pra viver um novo dia comparando com o dia anterior.
Acordar na hora desejada ao invés de acordar atrasado que nem ontem é como pegar uma moedinha do Yoshi nessa rodada. Comer com cuidado, fumar menos, tomar menos café, ler um pouco, dormir na hora, cada atitude que você se dedica a fazer melhor do que o dia anterior é uma moedinha a mais. E quando você menos percebe, PLIM! Uma vida nova foi adicionada ao seu estoque.
Ou cresce como pessoa.
E se a gente não conseguir completar a fase 100%, não tem problema. Amanhã tem outro dia. O importante é saber qual é o nosso limite para não jogar pelo limite do outro. Nós devemos criar as nossas medidas de rendimento, afinal, só nós sabemos o que passamos para alcançar tudo na vida. E às vezes não é nem culpa das outras pessoas: trabalhamos com limites dos outros porque não sabemos os nossos. E isso a gente só descobre jogando. A prática leva a perfeição e, se não deu hoje, amanhã tem outra fase.
Mas não se esqueça: dá pra passar de fase sem pegar todas as moedas do Yoshi.
Conheci o Weezer em 2001, quando eles tocaram “Hash Pipe” ao vivo no MTV Movie Awards. Eu estava na 7ª série, começando a gostar de música de maneira séria. Eu assistia o Movie Awards religiosamente, fazendo bolão comigo mesmo sobre quais filmes iam ganhar quais prêmios, mas naquele ano aquela apresentação musical foi mais marcante do que qualquer prêmio.
Naquela época eu ainda era um pré-adolescente que considerava a hipótese de pedir uma guitarra de presente, sem nunca ter tido aptidão nenhuma com instrumentos de corda. Quando eu vi aquela banda com um W enorme no fundo do palco e labaredas de fogo na sua frente, a paixão foi imediata. Mas mais do que a atitude, a música ou os hormônios falando mais alto, a principal identificação com a banda foi a miopia.
Quando você é jovem e começa a ouvir Led Zeppelin, AC/DC, Metallica, a última coisa que você espera ver é qualquer um deles usando óculos em cima do palco. E ali estava o Weezer, com dois membros da banda admitindo em público que precisavam de óculos para enxergarem o que estavam tocando. Aquela foi a prova que eu precisava de que qualquer coisa que eu eu quisesse fazer na vida eu podia, porque tinha pessoas parecidas comigo que já faziam, e muito bem. Foi o meu momento de entender que representação importa.
Em dezembro de 2003 eu ganhei minha bateria e a partir dali eu também era alguém de óculos em cima do palco. Desde 2001 acompanho o Weezer e adorei o “Teal Album”, coleção de covers feitos pela banda incentivada pelo cover viral de “Africa” do Toto. 18 anos depois, ouvir esse álbum é como acompanhar velhos amigos que resolveram descansar um pouco e só tocar algumas músicas por diversão, sem muita expectativa, exatamente o que eu faria hoje. É bom ver que a identificação continua.
Ontem foi lançado o clipe do cover deles de “Take on Me”, do A-Ha, usando como proto-Weezer a Calpurnia, banda do Finn Wolfhard, o Mike do Stranger Things. No Instagram, a banda agradeceu pela oportunidade, dizendo que todos sempre foram muito fãs de Weezer. Finn nasceu em 2002, um ano depois daquela apresentação pela qual eu me apaixonei pela banda.
O Weezer nasceu em 1992, mas apesar dos seus 27 anos de existência, felizmente não dá sinais de parar, com seu 13º álbum programado para o próximo dia 1 de março.
Os meninos que precisam saber que podem usar óculos e ainda assim ter uma banda agradecem.
Sou um forte defensor do poder das metas e objetivos mensais ao invés das metas e objetivos anuais. Acredito que se cuidássemos do nosso planejamento mensal que nem (fingimos) cuidar no final do ano, as coisas seriam bem diferentes! Por isso, chegando o final do primeiro mês do ano, eu pergunto: como foi o seu janeiro?
Você também só usa o calendário a partir de fevereiro?
Tentei não ser muito audacioso nos meus objetivos para esse mês. O clima mais quente e a rotina mais tranquila até permitem que certas atividades sejam transformadas em hábitos com mais facilidade, como aquela corridinha no final da tarde, organizar o horário de sono e arrumar a casa. Mas sei que janeiro também é uma briga mental entre estou de férias ainda X o mundo já começou a correr e você está ficando para trás, então tentei não pegar muito pesado comigo.
Me preocupei apenas em ler um livro no mês, meta que pretendo carregar para os outros meses do ano, e aproveitar bem o clima de janeiro para encontrar as pessoas e me presentear com experiências. E essa parte foi um sucesso!
Apesar de ter tido várias oportunidades de terminar a livro antes do mês, termino junto com janeiro a leitura de “A Vida, o Universo e Tudo Mais”, terceiro volume do Guia do Mochileiro das Galáxias. E na questão das experiências, nunca houve um mês na minha vida em que fui em tantas festas. E em pelo menos duas festas cheguei sozinho, o que é um grande avanço para um introvertido como eu. Também fui ao cinema sozinho, o que introvertidos como eu indicam sempre. E claro, trabalhei muito, porque essas experiências não se pagam sozinhas.
Agora, para fevereiro, quero apenas manter a meta de um livro por mês lendo um pouquinho todo dia, escrever um pouco por dia e postar mais aqui, organizar o meu sono dormindo e acordando em um horário fixo e limpar meu quarto pensando no fato de que em alguns meses estou saindo de casa. Algumas coisas tem que ser descartadas antes que eu vá embora! E claro, seguir aproveitando namorada, amigos e família.
E você, como foi de janeiro? E o que você espera de fevereiro?
Do 3º andar, ouço a porta do Uber bater com força na rua. Ele abana para dentro do carro. Ela responde. Ele dá duas batidinhas no vidro para agradecer ao motorista. O carro acelera e logo dobra a esquina. Ele fica olhando ela ir embora e pega o celular no bolso assim que o carro some. Para mandar mensagem para ela, claro. Ou para outra. Pra mim não era, com certeza.
Ele entra na portaria do prédio e logo ouço o elevador vibrar. São quase 4h da manhã. Era possível escutar tudo o que acontecia no prédio. Normalmente teria mais barulho, mas hoje era como se todos os andares tivessem ficado em silêncio pra ouvir a gente discutir. E eles iam conseguir o que queriam.
O elevador chega no nosso andar e ele desce assobiando. Ele nunca assobia quando está do meu lado porque sabe que vou chamar atenção dele pra não fazer barulho para os vizinhos. Deve estar alegre. Bêbado. A mão chega a tremer na hora de buscar a chave no bolso. Se depender de mim, ele fica no corredor.
Depois de algumas tentativas, ele encontra a chave. Espero ele no escuro, em pé, com o jeans e a camiseta que usei durante o dia para ele perceber que não consegui dormir um segundo esperando ele chegar. Assim que ele entra pela porta, acendo as luzes. Pra incomodar mesmo. Ele coloca as mãos sobre os olhos para proteger a visão e já sai falando.
- M-m-mas, peraí! - sinto o cheiro de álcool do outro lado da sala - Pra que isso aí?
- Isso são horas de chegar? - pergunto alto o suficiente pra acordar nosso cachorro.
- Ah meu, já veio me xingando, não tô com paciência não, viu?
Ele se afunda no sofá e o animal já senta do lado dele. O maldito sempre foi o favorito do cão e parece que nem o cheiro da bebida assusta ele. Ele pega o celular e já começa a rir passando o dedo pela tela. É um desaforo atrás do outro. Mas isso acaba hoje.
- Quem é essa perua aí?
Ele me ignora e segue rindo enquanto olha o celular
- Eu te fiz uma pergunta.
Um sorriso cínico surge no canto do rosto dele enquanto ele passa o dedo na tela do smartphone. Direita. Esquerda. Direita. Esquerda. Meu sangue ferve. Arranco o celular da mão dele e arremesso pela sala.
- EU TE FIZ UMA PERGUNTA!
Ele levanta com uma expressão de ódio no rosto, e eu subitamente lembro como ele é alto.
- Precisa ficar enchendo o saco e perguntando?
- Precisa sim!
- Escuta aqui, você não paga minhas contas viu?
- Mas já paguei, e muitas!
Ele coloca as duas mãos na cabeça e sai andando sem rumo pela casa.
- Eu já não sei mais nem o que eu tô fazendo aqui.
- EU TAMBÉM NÃO SEI! Eu até já te mandei pra rua! Mas enquanto você não achar outro lugar pra ficar e estiver dormindo aqui, eu quero satisfações!
Ele anda pela sala atrás dos pedaços desmontados do celular.
- Eu só vou pedir mais uma vez. Quem é essa que estava com você e te deixou aí?
Ele encontra o smartphone. A tela está intacta, infelizmente. Ele responde baixinho.
- O nome dela é Jenifer.
- Jenifer? - repasso mentalmente todas as Jenifers que conhecemos - E de onde surgiu essa?
- Eu encontrei ela no Tinder.
- Ha, eu sabia, sempre com a cara nesse celular, só podia.
É a minha vez de me afundar no sofá
- E ela é a sua nova namorada?
- Não - ele diz, encaixando a bateria no aparelho e sorrindo - Mas poderia ser.
Trocada por uma perua do Tinder.
- E porque ela?
- Ah - ele segura o riso, lembrando de alguma coisa - Ela faz umas paradas.
- Que tipo de paradas.
- Umas que eu não faço com você.
- Tipo o que?
- Melhor não falar.
Homens.
- E é tão mais fácil encontrar isso em outra ao invés de tentar procurar comigo?
Ficamos os dois sentados no sofá, um de cada lado, com o nosso cachorro sentado no meio. Ele termina de montar o celular e a luz do aparelho ilumina o seu rosto. Eu me lembro ao mesmo tempo como ele é bonito e como eu já não aguento mais ver a cara dele. Ele me olha, e eu sinto que é pela última vez.
- Já não é da sua conta.
Ele deixa a chave que era dele em cima da mesa e vai embora. O meu cachorro o segue mas fica pra dentro do apartamento quando ele fecha a grade.
Ouço o elevador vibrar novamente e a portaria do prédio abrir-se mais uma vez. Ele segue assobiando. Logo, um carro chega e freia subitamente.
Do 3º andar, ouço a porta do Uber bater com força na rua. Eu abano para o carro. Ninguém responde.
Sam pensou tempo demais no que as oito pessoas que escreveram essa música quiseram falar com ela.
O tempo é um conceito criado pelo ser humano para podermos entender e organizar melhor o mundo a nossa volta. Isso significa que apesar de exato, muitas vezes ele é subjetivo, com significados diferentes para cada pessoa e o momento em que ela está vivendo.
Hoje é um exemplo clássico disso: apesar do ano ter iniciado na virada do dia 31/12 para o dia 01/01, para muitos o ano começou no dia 02/01, o primeiro dia útil do ano. E para outros ainda o ano começou só hoje, dia 07/01, a primeira segunda-feira do ano. Isso sem contar o ano que começa depois do Carnaval ou o ano que começa depois que o último pessoal tira suas férias em fevereiro.
Qual o tamanho da importância do tempo para você?
Apesar de ser um conceito criado por nós, damos para o início do ano o significado que a gente quiser. Se o que falta para conquistar o que quer seja para você seja a chance de começar tudo de novo e aproveitar aquele gás de início de ano, saiba que dá pra começar um novo 2019 todo dia.
Nesse novo ano que inicia - quer ele tenha começado semana passada, hoje ou só em março - não esqueça de usar esse super poder. E Feliz Ano Novo.