Exemplo: dizer que "todos os meninos e meninas viravam para olhar Joana assim que ela entrava na sala" é muito mais efetivo do que contar que "Joana era linda". Qualquer uma é linda, mas só Joana atraia os olhares assim que entrava na sala. Mostrar ao invés de contar faz o leitor acreditar mais.
Isso não é só uma regra de roteiro, claro. Nós acreditamos muito mais nas ações das pessoas do que no que elas dizem. É como diz o ditado: “quem muito fala, pouco faz”. Isso é muito comum no meio político; o futuro governador do Estado se elegeu dizendo: “não prometeu, mas fez”.
As nossas ações falam muito mais do que palavras, mas nos deixamos convencer muito mais pelo que achamos do que pelo fazemos. Por isso, as vezes fazemos algo que julgamos contrário ao nosso comportamento, mas fazemos mesmo assim.
E foi assim que, em 3 de dezembro de 2003, um jovem tímido, quietinho e que não gostava nem de incomodar nem de fazer barulho, começou a tocar bateria.
Comecei a tocar bateria no final do 1º ano do Ensino Médio, aos 15 anos. Depois de um tempo namorando a ideia de tocar guitarra, até participando de promoções de rádio (!) para concorrer ao instrumento, criei o hábito de batucar as músicas que escutava no teclado do computador. Com o tempo percebi que criei coordenação. Foi então que, no fim de 2003, depois de um acordo com a minha tia, concordei em trabalhar com ela de graça para pagar a minha bateria.
A história do meu primeiro ensaio eu já contei aqui, mas os ensaios eram só parte da grande aventura que era começar a tocar um instrumento tão barulhento. Tocar guitarra, baixo, teclado, instrumentos com caixas de som e amplificadores, que você pode conectar um fone e depois guardar atrás da porta, é uma coisa. Tocar bateria, algo que ocupa metade do seu quarto e faz barulho para você, sua família, sua casa e seu vizinho, é bem diferente.
Eu nunca fiz aulas de bateria e tenho orgulho disso. Aquele tempo batucando no teclado foi o suficiente para eu sair tocando e as poucas vezes que eu tocava a bateria em casa já ajudavam a não perder o ritmo. Eu logo comecei a ensaiar nos fins de semana e montar bandas, mas o fato de eu nunca ter feito aula acarretou em eu nunca ter que ensaiar em casa. Eu era um baterista bem silencioso, característica que preservo comigo até hoje. E isso, para alguém que não gostava de atrapalhar como eu, era bem importante.
Mas ainda assim, tocar bateria era muito contrastante com quem eu era. Era um prazer, era divertido, mas era um incômodo. Eu esperava ficar sozinho em casa para tocar bateria. Eu batucava com as baquetas no travesseiro. Eu continuava batucando no teclado. Eu tinha uma bateria mas não queria atrapalhar. Meu irmão tocava flauta. Como eu ia tocar bateria?
***
Esses dias, comprei uma história em quadrinhos do Hulk em que o editor da revista explicava o fascínio das pessoas pelo personagem verde:
“De três a setenta e três anos, o Golias Verde parece ter um apelo universal para todas as idades. Por que as pessoas adoram o Hulk? Minha teoria é que ele representa o que todos querem fazer quando encaram o mal, a ignorância ou a injustiça: soltar as rédeas e ESMAGAR! Milhares de anos de civilização e de ordem social nos ensinaram a controlar nossa raiva, mas, escondido lá no fundo, existe um fosso de ira ardendo, apenas esperando para ser libertado, E essa é a beleza do monstro verde; todos têm empatia por sua raiva e curtem a emoção de vê-lo dar vazão à furia.”
Ser baterista é ser o Hulk.
Se os Vingadores fossem uma banda, o Hulk com certeza seria o baterista. Enquanto o Capitão América tocaria um baixo discreto e competente, o Thor detonaria na guitarra com o poder do trovão, o Homem de Ferro tocaria um teclado acoplado a sua armadura e o Gavião Arqueiro e a Viúva Negra dividiram os vocais, o Hulk tocaria bateria. Por que ser baterista é isso: ESMAGAR.
Bateria não tem solos, bateria tem TASHHHH! TUDUMMMM! TATATATUM! Nós podemos ter as melhores onomatopéias, mas tocar bateria não é bonito. E é justamente essa a beleza da coisa.
Os bateristas que eu aprendi a gostar eram pessoas de extremos: ou eram o membro mais discreto da banda, como Ringo Starr nos Beatles, ou morriam afogados no próprio vômito depois de beber doses cavalares de álcool, como John Bonham, no Led Zeppelin. No meio desse espectro repousava Neil Peart, baterista do Rush, que ao mesmo tempo em que era técnico e vigoroso no seu estilo de tocar, era discreto como pessoa e completamente nerd em suas letras. Aos poucos eu achava o meu lugar como músico.
Eu podia ser baterista, mas podia continuar sendo quem eu era. Eu podia ser o Hulk e Bruce Banner ao mesmo tempo.
***
Com o tempo, eu logo assumi a identidade de baterista sem ter vergonha de atrapalhar. Eu nunca sai muito na adolescência, mas achava o máximo ensaiar todo fim de semana com os amigos na garagem de casa e sonhar com um futuro brilhante debaixo dos refletores do palco. Eu ainda continuava sendo o menino discreto e tímido na vida real, mas atrás da bateria eu me permitia “agir” e não só “falar”. Como um personagem em um bom roteiro, eu estava mostrando, e não apenas contando.
O próximo passo era levar esse pensamento para fora da bateria. Isso demorou um pouco mais, mas com o tempo as ações falaram mais alto do que as minhas palavras. Em 2006, o garoto tímido que só fazia barulho com a bateria e preferia não atrapalhar decidiu cursar Jornalismo, um curso de... comunicação. O garoto que só escrevia letras de música começou um blog. O garoto que não bebia começou a beber. O garoto que não dançava... dançou.
E foi percebendo as ações que eu me “permitia” fazer que eu comecei a perceber quem eu realmente era. Eu não era o garoto tímido e reservado: eu podia até ser divertido! Quem diria! Eu nunca admiti isso, claro. Engraçado eu? Jamais. Trovador? Nunca. “O Samuel é do tipo quieto, que come pelas beiradas.” Quem?
O meu perfil do Orkut na época definia em poucas palavras as únicas duas coisas que eu me permitia ser: "baterista e ruivo".
Mas aos poucos eu percebia que o “ser” baterista estava me permitindo ir muito mais além do que eu imaginava ser. As minhas ações estavam falando mais do que as minhas palavras e eu estava gostando disso.
***
Não foram poucas as vezes nesses 11 anos tocando bateria aqui e acolá que eu ouvi pessoas me contando apaixonadas como gostavam da bateria, de ver o instrumento ser tocado, de observar o baterista fazer barulho. Tocar bateria é quase um instinto primitivo; é o instrumento que faz você bater o pé no chão; é o instrumento que toca no ritmo do coração. Tocar em bandas cover de Beatles então é uma diversão: é impossível tocar “Lucy In The Sky With Diamonds” e não ser acompanhado na batida antes do refrão por alguém na plateia, com as mãozinhas no ar, tocando bateria imaginária. PAM! PAM! PAM!
(Aos 48s: você, batendo no ar.)
Mas além das alegrias e das pessoas que conheci nesses 11 anos tocando, o que eu mais levo de lição da bateria é o conflito que iniciou quando eu comecei a tocar: eu sou esse cara mesmo? Eu combino com isso? É isso que eu quero estar fazendo? Eu sou o Hulk?
As vezes você é. Não tem problema em ir para o lado contrário e desafiar as suas próprias expectativas de você. Aquela vontade interna de agir é mais verdadeira do que as palavras que a gente fala, e as vezes é muito necessária.
“Não, eu não vou fazer isso, eu não sou o tipo de pessoa que faz isso”. Mentira. É sim. Vai lá. Fica. Pega. Beija. Diz que sim. Diz que não. Veste a mochila. Troca de carro. Sai do emprego. Diz “eu te amo”.
Faça. Ao invés de levar as mãos para o céu e pedir ajuda, levante as mãos para o céu e faça PAM! PAM! PAM!
Seja baterista de vez em quando. Vale a pena.
***
Sam quer um gif da cena do 1min8s do vídeo acima repetido em loop no seu túmulo
Eu nunca fiz aulas de bateria e tenho orgulho disso. Aquele tempo batucando no teclado foi o suficiente para eu sair tocando e as poucas vezes que eu tocava a bateria em casa já ajudavam a não perder o ritmo. Eu logo comecei a ensaiar nos fins de semana e montar bandas, mas o fato de eu nunca ter feito aula acarretou em eu nunca ter que ensaiar em casa. Eu era um baterista bem silencioso, característica que preservo comigo até hoje. E isso, para alguém que não gostava de atrapalhar como eu, era bem importante.
Mas ainda assim, tocar bateria era muito contrastante com quem eu era. Era um prazer, era divertido, mas era um incômodo. Eu esperava ficar sozinho em casa para tocar bateria. Eu batucava com as baquetas no travesseiro. Eu continuava batucando no teclado. Eu tinha uma bateria mas não queria atrapalhar. Meu irmão tocava flauta. Como eu ia tocar bateria?
***
Esses dias, comprei uma história em quadrinhos do Hulk em que o editor da revista explicava o fascínio das pessoas pelo personagem verde:
“De três a setenta e três anos, o Golias Verde parece ter um apelo universal para todas as idades. Por que as pessoas adoram o Hulk? Minha teoria é que ele representa o que todos querem fazer quando encaram o mal, a ignorância ou a injustiça: soltar as rédeas e ESMAGAR! Milhares de anos de civilização e de ordem social nos ensinaram a controlar nossa raiva, mas, escondido lá no fundo, existe um fosso de ira ardendo, apenas esperando para ser libertado, E essa é a beleza do monstro verde; todos têm empatia por sua raiva e curtem a emoção de vê-lo dar vazão à furia.”
Ser baterista é ser o Hulk.
![]() |
| E eu procurei "Hulk Baterista" no Google sem expectativas. Juro. |
Se os Vingadores fossem uma banda, o Hulk com certeza seria o baterista. Enquanto o Capitão América tocaria um baixo discreto e competente, o Thor detonaria na guitarra com o poder do trovão, o Homem de Ferro tocaria um teclado acoplado a sua armadura e o Gavião Arqueiro e a Viúva Negra dividiram os vocais, o Hulk tocaria bateria. Por que ser baterista é isso: ESMAGAR.
Bateria não tem solos, bateria tem TASHHHH! TUDUMMMM! TATATATUM! Nós podemos ter as melhores onomatopéias, mas tocar bateria não é bonito. E é justamente essa a beleza da coisa.
Os bateristas que eu aprendi a gostar eram pessoas de extremos: ou eram o membro mais discreto da banda, como Ringo Starr nos Beatles, ou morriam afogados no próprio vômito depois de beber doses cavalares de álcool, como John Bonham, no Led Zeppelin. No meio desse espectro repousava Neil Peart, baterista do Rush, que ao mesmo tempo em que era técnico e vigoroso no seu estilo de tocar, era discreto como pessoa e completamente nerd em suas letras. Aos poucos eu achava o meu lugar como músico.
Eu podia ser baterista, mas podia continuar sendo quem eu era. Eu podia ser o Hulk e Bruce Banner ao mesmo tempo.
***
Com o tempo, eu logo assumi a identidade de baterista sem ter vergonha de atrapalhar. Eu nunca sai muito na adolescência, mas achava o máximo ensaiar todo fim de semana com os amigos na garagem de casa e sonhar com um futuro brilhante debaixo dos refletores do palco. Eu ainda continuava sendo o menino discreto e tímido na vida real, mas atrás da bateria eu me permitia “agir” e não só “falar”. Como um personagem em um bom roteiro, eu estava mostrando, e não apenas contando.
O próximo passo era levar esse pensamento para fora da bateria. Isso demorou um pouco mais, mas com o tempo as ações falaram mais alto do que as minhas palavras. Em 2006, o garoto tímido que só fazia barulho com a bateria e preferia não atrapalhar decidiu cursar Jornalismo, um curso de... comunicação. O garoto que só escrevia letras de música começou um blog. O garoto que não bebia começou a beber. O garoto que não dançava... dançou.
E foi percebendo as ações que eu me “permitia” fazer que eu comecei a perceber quem eu realmente era. Eu não era o garoto tímido e reservado: eu podia até ser divertido! Quem diria! Eu nunca admiti isso, claro. Engraçado eu? Jamais. Trovador? Nunca. “O Samuel é do tipo quieto, que come pelas beiradas.” Quem?
O meu perfil do Orkut na época definia em poucas palavras as únicas duas coisas que eu me permitia ser: "baterista e ruivo".
Mas aos poucos eu percebia que o “ser” baterista estava me permitindo ir muito mais além do que eu imaginava ser. As minhas ações estavam falando mais do que as minhas palavras e eu estava gostando disso.
***
Não foram poucas as vezes nesses 11 anos tocando bateria aqui e acolá que eu ouvi pessoas me contando apaixonadas como gostavam da bateria, de ver o instrumento ser tocado, de observar o baterista fazer barulho. Tocar bateria é quase um instinto primitivo; é o instrumento que faz você bater o pé no chão; é o instrumento que toca no ritmo do coração. Tocar em bandas cover de Beatles então é uma diversão: é impossível tocar “Lucy In The Sky With Diamonds” e não ser acompanhado na batida antes do refrão por alguém na plateia, com as mãozinhas no ar, tocando bateria imaginária. PAM! PAM! PAM!
(Aos 48s: você, batendo no ar.)
Mas além das alegrias e das pessoas que conheci nesses 11 anos tocando, o que eu mais levo de lição da bateria é o conflito que iniciou quando eu comecei a tocar: eu sou esse cara mesmo? Eu combino com isso? É isso que eu quero estar fazendo? Eu sou o Hulk?
As vezes você é. Não tem problema em ir para o lado contrário e desafiar as suas próprias expectativas de você. Aquela vontade interna de agir é mais verdadeira do que as palavras que a gente fala, e as vezes é muito necessária.
“Não, eu não vou fazer isso, eu não sou o tipo de pessoa que faz isso”. Mentira. É sim. Vai lá. Fica. Pega. Beija. Diz que sim. Diz que não. Veste a mochila. Troca de carro. Sai do emprego. Diz “eu te amo”.
Faça. Ao invés de levar as mãos para o céu e pedir ajuda, levante as mãos para o céu e faça PAM! PAM! PAM!
Seja baterista de vez em quando. Vale a pena.
***
Sam quer um gif da cena do 1min8s do vídeo acima repetido em loop no seu túmulo
















