11 Anos Baterista

Ao estudar roteiro ou qualquer tipo de escrita criativa, uma das regras mais dadas é "show, don't tell". Em bom português, mostre, não conte. Isso significa que, quanto mais você conseguir passar sua mensagem com ações, mostrando, e não só com palavras, contando, melhor.

Exemplo: dizer que "todos os meninos e meninas viravam para olhar Joana assim que ela entrava na sala" é muito mais efetivo do que contar que "Joana era linda". Qualquer uma é linda, mas só Joana atraia os olhares assim que entrava na sala. Mostrar ao invés de contar faz o leitor acreditar mais.

Isso não é só uma regra de roteiro, claro. Nós acreditamos muito mais nas ações das pessoas do que no que elas dizem. É como diz o ditado: “quem muito fala, pouco faz”. Isso é muito comum no meio político; o futuro governador do Estado se elegeu dizendo: “não prometeu, mas fez”.

As nossas ações falam muito mais do que palavras, mas nos deixamos convencer muito mais pelo que achamos do que pelo fazemos. Por isso, as vezes fazemos algo que julgamos contrário ao nosso comportamento, mas fazemos mesmo assim.

E foi assim que, em 3 de dezembro de 2003, um jovem tímido, quietinho e que não gostava nem de incomodar nem de fazer barulho, começou a tocar bateria.

Ninguém nunca mais escreveu Cometa com K. Que bom.

***

Comecei a tocar bateria no final do 1º ano do Ensino Médio, aos 15 anos. Depois de um tempo namorando a ideia de tocar guitarra, até participando de promoções de rádio (!) para concorrer ao instrumento, criei o hábito de batucar as músicas que escutava no teclado do computador. Com o tempo percebi que criei coordenação. Foi então que, no fim de 2003, depois de um acordo com a minha tia, concordei em trabalhar com ela de graça para pagar a minha bateria.

A história do meu primeiro ensaio eu já contei aqui, mas os ensaios eram só parte da grande aventura que era começar a tocar um instrumento tão barulhento. Tocar guitarra, baixo, teclado, instrumentos com caixas de som e amplificadores, que você pode conectar um fone e depois guardar atrás da porta, é uma coisa. Tocar bateria, algo que ocupa metade do seu quarto e faz barulho para você, sua família, sua casa e seu vizinho, é bem diferente.

Eu nunca fiz aulas de bateria e tenho orgulho disso. Aquele tempo batucando no teclado foi o suficiente para eu sair tocando e as poucas vezes que eu tocava a bateria em casa já ajudavam a não perder o ritmo. Eu logo comecei a ensaiar nos fins de semana e montar bandas, mas o fato de eu nunca ter feito aula acarretou em eu nunca ter que ensaiar em casa. Eu era um baterista bem silencioso, característica que preservo comigo até hoje. E isso, para alguém que não gostava de atrapalhar como eu, era bem importante.

Mas ainda assim, tocar bateria era muito contrastante com quem eu era. Era um prazer, era divertido, mas era um incômodo. Eu esperava ficar sozinho em casa para tocar bateria. Eu batucava com as baquetas no travesseiro. Eu continuava batucando no teclado. Eu tinha uma bateria mas não queria atrapalhar. Meu irmão tocava flauta. Como eu ia tocar bateria?

***

Esses dias, comprei uma história em quadrinhos do Hulk em que o editor da revista explicava o fascínio das pessoas pelo personagem verde:

“De três a setenta e três anos, o Golias Verde parece ter um apelo universal para todas as idades. Por que as pessoas adoram o Hulk? Minha teoria é que ele representa o que todos querem fazer quando encaram o mal, a ignorância ou a injustiça: soltar as rédeas e ESMAGAR! Milhares de anos de civilização e de ordem social nos ensinaram a controlar nossa raiva, mas, escondido lá no fundo, existe um fosso de ira ardendo, apenas esperando para ser libertado, E essa é a beleza do monstro verde; todos têm empatia por sua raiva e curtem a emoção de vê-lo dar vazão à furia.”

Ser baterista é ser o Hulk.

E eu procurei "Hulk Baterista" no Google sem expectativas. Juro.

Se os Vingadores fossem uma banda, o Hulk com certeza seria o baterista. Enquanto o Capitão América tocaria um baixo discreto e competente, o Thor detonaria na guitarra com o poder do trovão, o Homem de Ferro tocaria um teclado acoplado a sua armadura e o Gavião Arqueiro e a Viúva Negra dividiram os vocais, o Hulk tocaria bateria. Por que ser baterista é isso: ESMAGAR.

Bateria não tem solos, bateria tem TASHHHH! TUDUMMMM! TATATATUM! Nós podemos ter as melhores onomatopéias, mas tocar bateria não é bonito. E é justamente essa a beleza da coisa.

Os bateristas que eu aprendi a gostar eram pessoas de extremos: ou eram o membro mais discreto da banda, como Ringo Starr nos Beatles, ou morriam afogados no próprio vômito depois de beber doses cavalares de álcool, como John Bonham, no Led Zeppelin. No meio desse espectro repousava Neil Peart, baterista do Rush, que ao mesmo tempo em que era técnico e vigoroso no seu estilo de tocar, era discreto como pessoa e completamente nerd em suas letras. Aos poucos eu achava o meu lugar como músico.

Eu podia ser baterista, mas podia continuar sendo quem eu era. Eu podia ser o Hulk e Bruce Banner ao mesmo tempo.

***

Com o tempo, eu logo assumi a identidade de baterista sem ter vergonha de atrapalhar. Eu nunca sai muito na adolescência, mas achava o máximo ensaiar todo fim de semana com os amigos na garagem de casa e sonhar com um futuro brilhante debaixo dos refletores do palco. Eu ainda continuava sendo o menino discreto e tímido na vida real, mas atrás da bateria eu me permitia “agir” e não só “falar”. Como um personagem em um bom roteiro, eu estava mostrando, e não apenas contando.

O próximo passo era levar esse pensamento para fora da bateria. Isso demorou um pouco mais, mas com o tempo as ações falaram mais alto do que as minhas palavras. Em 2006, o garoto tímido que só fazia barulho com a bateria e preferia não atrapalhar decidiu cursar Jornalismo, um curso de... comunicação. O garoto que só escrevia letras de música começou um blog. O garoto que não bebia começou a beber. O garoto que não dançava... dançou.

E foi percebendo as ações que eu me “permitia” fazer que eu comecei a perceber quem eu realmente era. Eu não era o garoto tímido e reservado: eu podia até ser divertido! Quem diria! Eu nunca admiti isso, claro. Engraçado eu? Jamais. Trovador? Nunca. “O Samuel é do tipo quieto, que come pelas beiradas.” Quem?

O meu perfil do Orkut na época definia em poucas palavras as únicas duas coisas que eu me permitia ser: "baterista e ruivo".

Mas aos poucos eu percebia que o “ser” baterista estava me permitindo ir muito mais além do que eu imaginava ser. As minhas ações estavam falando mais do que as minhas palavras e eu estava gostando disso.

***

Não foram poucas as vezes nesses 11 anos tocando bateria aqui e acolá que eu ouvi pessoas me contando apaixonadas como gostavam da bateria, de ver o instrumento ser tocado, de observar o baterista fazer barulho. Tocar bateria é quase um instinto primitivo; é o instrumento que faz você bater o pé no chão; é o instrumento que toca no ritmo do coração. Tocar em bandas cover de Beatles então é uma diversão: é impossível tocar “Lucy In The Sky With Diamonds” e não ser acompanhado na batida antes do refrão por alguém na plateia, com as mãozinhas no ar, tocando bateria imaginária. PAM! PAM! PAM!



(Aos 48s: você, batendo no ar.)

Mas além das alegrias e das pessoas que conheci nesses 11 anos tocando, o que eu mais levo de lição da bateria é o conflito que iniciou quando eu comecei a tocar: eu sou esse cara mesmo? Eu combino com isso? É isso que eu quero estar fazendo? Eu sou o Hulk?

As vezes você é. Não tem problema em ir para o lado contrário e desafiar as suas próprias expectativas de você. Aquela vontade interna de agir é mais verdadeira do que as palavras que a gente fala, e as vezes é muito necessária.

“Não, eu não vou fazer isso, eu não sou o tipo de pessoa que faz isso”. Mentira. É sim. Vai lá. Fica. Pega. Beija. Diz que sim. Diz que não. Veste a mochila. Troca de carro. Sai do emprego. Diz “eu te amo”.

Faça. Ao invés de levar as mãos para o céu e pedir ajuda, levante as mãos para o céu e faça PAM! PAM! PAM!

Seja baterista de vez em quando. Vale a pena.

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Sam quer um gif da cena do 1min8s do vídeo acima repetido em loop no seu túmulo

O Poder do Pensamento Negativo

Colega de trabalho foi para os Estados Unidos esses dias. Antes de sair, pediu para todo mundo, como sempre faz: “vocês querem que eu traga alguma coisa de lá?”. Os pedidos choveram, como de costume, de remédios a brinquedos. Os pedidos costumeiros de eletrônicos também apareceram, ainda mais em época de lançamento de iPhone. E como sempre, a pergunta veio até mim. E eu não tive dúvidas em responder a primeira coisa que surgiu na minha mente.

“Não... não tô precisando de nada.”

Ele brincou, falou que ia trazer uma boneca inflável pra mim, falou que era uma piada, ninguém riu... foram 3min estranhos. Mas a resposta – e a facilidade com que ela veio – me marcou de um jeito que fez eu pensar por mais de 3min.

Eu realmente não conseguia pensar em nada que estava precisando, mesmo que seja supérfluo. Eu podia pedir para ele trazer um gibi, que nem ele havia feito ano passado, podia pedir algum livro, que é o que eu costumo gastar meu dinheiro, mas nada parecia essencial, sabe? Não tinha nada que eu realmente precisava ou que, caso eu precisasse, não poderia comprar pela internet. Depois de um dia pensando na questão, cheguei a uma resposta satisfatória do que eu realmente precisava.

“Tô precisando de tempo pra curtir o que eu tenho”

Dias depois, contei pra namorada sobre isso. Ela falou que eu devia ter pedido um perfume. Eu disse que já tinha um perfume. Ela falou que na verdade era um desodorante que eu usava como perfume. Eu olhei a embalagem do perfume. Era um desodorante que eu usava como perfume. Eu pedi para ela continuar me amando depois de discordar dela. Ela riu.

Mas ainda assim, ter um desodorante-perfume não era motivo pra eu pedir que ele trouxesse um perfume dos Estados Unidos. Perguntei o que ela teria pedido e ela falou que teria pedido um perfume. Falei sobre a conclusão que cheguei, de que tinha tudo o que precisava, seja livros, eletrônicos, roupas, perfumes-desodorantes, e que precisava só de tempo para curtir isso. Depois de alguns instantes pensando sobre a opinião dela e a minha, ela respondeu.

“É... eu sou um pouco ingrata com a vida mesmo.”

Eu prontamente disse que não, que não tinha problema nenhum em se dar ao luxo de pedir um presente ou de querer comprar algo que se deseja, mas que realmente, eu me percebi em uma situação em que estava confortável com tudo o que tinha. E estava feliz.

Isso tudo me fez pensar: ela não tinha motivo nenhum para se sentir ingrata com a vida, por desejar algo que não tem, porque com certeza assim que ela tivesse o que desejasse (o perfume), ela iria querer alguma outra coisa. Essa sensação de ingratidão, de insatisfação, é um ônus pela possibilidade de escolha: se você tem o dinheiro e a oportunidade, porque não compra, não adquire, não faz? É uma escolha que não passa pelo livre-arbítrio da gente, é quase uma atitude automática: ele vai para os Estados Unidos, eu tenho dinheiro, ele pode trazer algo para mim, por que não?

Porque de repente, você não precisa, oras. É simples.

***

Esse fim de semana, me vi respondendo essa pergunta três vezes, em três momentos de amigo secreto: no trabalho, com os amigos e com a família. “E tu Samuel, tá precisando do que?”. Tive que dar a resposta automática: “olha, não tô precisando de nada, o que quiserem me dar, tá ótimo”, mas a maioria das pessoas não se contenta com isso. Inclusive, vi um caso novo: alguém que desejou MUITO que as outras pessoas falassem o que queriam de presente para que ela pudesse dizer também o que queria. Ela insistiu uma, duas vezes, até que falou mesmo assim.

Não foi por mal – ela interagiu melhor na brincadeira do que eu, afinal – mas refletiu bem aquela ingratidão de que falei lá em cima: as vezes a gente acha tanto que precisa de alguma coisa que pula na primeira oportunidade de ter ela, seja em viagem de amigos ou amigo secreto. E quando respondemos isso com certeza, com o presente na ponta da língua, acabamos fica meio culpados quando percebemos que as outras pessoas não querem tanto quanto a gente.

Ou talvez eu apenas seja ruim nesse negócio de presentes mesmo.

***

Agora, me vejo novamente no meu modelo de angústia: tenho três listas de amigo secreto para responder, tenho presentes de Natal para dar e receber, mas nada me deixa tão angustiado quanto ver o número de livros que tenho na estante para ler, o número de ideias que tenho para colocar no papel, o número de coisas que não faço e culpo a falta de tempo. Talvez seja culpa minha, afinal, para fazer mais basta querer menos, como já falei aqui. Estivesse eu no lugar da minha namorada, eu podia reclamar do meu modelo de ingratidão com a vida:

“Eu tenho tanto para fazer, tanto para ler, tanto para escrever, tanto para assistir...”

“E tem tanta gente que não tem nada disso né? E você aí reclamando que tem demais”

“(...)”

A minha namorada na minha imaginação é muito mais cruel do que ela de verdade, mas ela daria um jeito de falar isso de uma maneira mais querida e eu concordaria mesmo assim. Talvez, mesmo não querendo nada físico, eu esteja querendo demais. Eu nem sempre vou ter todo o tempo do mundo para mim, e ficar brabo com isso é ser ingrato com o que eu tenho da mesma maneira que ela se achou ingrata com a vida. O que é o desejo supérfluo dos outros para mim é a minha insistência em querer tempo para mim para os outros. É infantil. Todo mundo precisa de limites.

***

Não é errado querer presentes, não é errado saber o que quer de amigo secreto, não é errado se dar de presente duas horas sozinho no quarto, não é errado se dar o luxo de pedir que alguém traga algo de fora, seja dos States ou seja de Rivera. Eu nunca teria provado alfajor se não fosse pelos meus amigos que já viajaram, e gente, ALFAJOR!

O problema talvez seja em querer sempre. Em tempos de Black Friday e Ali Express e passagem pro exterior barata, a gente nunca quer perder uma oportunidade, mas talvez as vezes seja bom fazer justamente isso: deixar passar. Confesse: você sabe quando vai encontrar aquele livro de novo ou aquela peça de roupa e quando não vai mais encontrar. Se a gente nunca perde a oportunidade de querer algo, acaba confundindo o significado de prioridade na nossa mente. Quando a gente quer, pode e diz sim para tudo, qual é a graça de querer algo muito mesmo?

O segredo está em dizer não.

Tem gente que fica até famoso com isso. Gente e gato.

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Frase muito cruel (mas verdadeira) que eu li hoje:

“Diga não para tudo. Transforme o sim em exceção.”

E isso vale tudo para a vida. Quando você transforma o sim em exceção, fazendo/comprando/vivendo o que você realmente quer e não fazendo algo para “não perder a oportunidade”, você acaba vendo com mais clareza o que realmente importa. Vale o exercício.

Quer que eu traga algo de fora?
Não, obrigado, não tô precisando de nada!

Quer sair com a gente hoje?
Não, valeu pelo convite, tô com pouca grana.

Não vai comprar esse livro?
Não, eu já tenho outros vários pra ler, valeu.

Essa blusa ficou linda em você, vai comprar né!
Não, eu tenho outras novas que nem usei ainda.

Vai ir naquele evento que é a tua cara esse findi, tu tem que ir!
Não, vou ficar por casa, tenho coisas pra fazer.

A galera vai se encontrar e só não vai você, tu vai ir né?
Hoje não, tô afim de descansar.

Quer dar uma volta no sol e tomar um chimarrão?
(...) Sim!

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Valorize o que merece o seu sim. Não tenha medo de dizer não. E não ignore o poder do pensamento negativo. As vezes sai até um post sobre isso.

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Sam não ia escrever sobre isso

Tecnologia Touch

Se você pudesse revisitar qualquer momento da sua vida, qual visitaria?

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Recorte de revista inglesa sobre casa do futuro

Naquela época, sua casa ainda estava decorada no estilo dos seus pais. Qualquer que adentrasse a porta do número 216 daquela velha rua e chegasse na casa verde, última do calçamento, veria os registros dos grandes momentos da família espalhados pela sala: as formaturas, as viagens, as festas de casamento, tudo estava lá. Hoje, estava tudo na nuvem, disponível para quem quisesse ver, na hora em que batesse a saudade, mas naquela época, as pessoas tinham que lembrar de olhar para as fotos quando quisessem. Era tudo mais divertido.

A própria casa tinha uma construção robusta, digna da época em que a simulação se passava. Hoje, aquele grande bloco verde de dois andares seria considerado uma afronta a tecnologia moderna e transparente. E quem pensaria nos dias atuais em ter o mesmo layout de casa por mais de uma semana? Com as telas de retina você poderia ter uma casa com arquitetura romana na terça, um templo celta na quarta e trocar o desenha dela a tempo para uma legítima casa de Nova Orleans até o fim de semana para curtir uma bebedeira inspirada no Mardi Gras. Aquele bloco verde, o abacatão, como ele costumava chamar, seria feio hoje em dia. Mas porque a casa parecia sorrir para ele quando ele chegava?

Ao subir as escadas, mais lembranças. Ele lembrava com carinho dos cuidados que todos na casa repetiam uns para os outros sempre que chovia. “Cuidado que o chão tá molhado, escorregadio, não vai cair!”. Nunca ninguém caiu, felizmente. Houveram uns ou outros escorregões, claro, mas esse era o ônus de se ter uma casa de dois andares com escada. Escada... naquela época ele ria das crianças que nunca conheceriam um disquete. Hoje ele tem pena das crianças que nunca conheceram escadas.

Ele continuou o Passeio Virtual e seguiu em direção ao seu quarto. Porém, algo desviou o seu olhar antes disso. Quando chegou no corredor, avistou ao fundo a sacada do quarto de seu irmão e a bela árvore frondosa que fazia companhia a família. Quando pequeno tinha medo dela – era tão grande e tremia tanto nos dias de chuva e vento! Depois, aprendeu a dar valor para a sombra que ela proporcionava. Ficou realmente amigo dela quando tomou sua primeira cerveja deitado na rede presa entre a árvore e a parede da casa. Ver a árvore ali era como reencontrar uma velha amiga. Não se aproximou muito para a imagem não pixelizar. As suas lembranças – as verdadeiras – não perdiam a resolução.

Decidiu andar pela casa antes de entrar no seu quarto novamente. Deu mais alguns passos na Esteira das Memórias e seguiu até o quarto de seus pais. Sentiu um nó na garganta quando entrou. A cor nas paredes era a mesma que ele ajudou a escolher. Lembrou que sentia orgulho de pensar que os pais tinham um quarto cinza e laranja. Que tipo de pessoas tem o quarto com as paredes assim? Seus pais. Tentou imaginar eles no dia de hoje, com as paredes touch, que nunca deixavam você esquecer seus compromissos, os aniversários, as contas para pagar. Fez questão de procurar na simulação a caixa de recibos que seu pai guardava sobre o armário. Recibos. Papel. Isso sim era tecnologia touch.

Ah, a cozinha! Sua simulação salvou o último sofá da família. Não conseguia olhar para ele e não imaginar o seu pai sentado, assistindo televisão. Sua mãe... era impossível salvar um lugar fixo dela na cozinha de suas lembranças. Ela nunca parava quieta! Estava sempre passando as roupas ou fazendo comida ou preparando as coisas do trabalho sentada na mesa enquanto escutava a novela na televisão. Hoje em dia, com as Robô-Empregadas, ela poderia acompanhar seu pai e sentar junto no sofá.

Não. Ela nunca iria parar.

O sofá que ficou salvo na simulação não fazia jus ao sofá que ele mais gostava na casa. O sofá anterior ao que ficou salvo na simulação sim, arrancava sorrisos do seu rosto. Ele nunca teve nada de especial até o dia em que sua namorada falou que era o melhor sofá que ela havia sentado na vida. Ele nunca tinha dado valor para ele até então. Depois desse comentário, porém, qualquer programa de domingo era a melhor desculpa para passar ao lado da pessoa que ele mais amava. Ele adorava provocar ela, colocando a mão em suas coxas quando sua mãe desviava o olhar, tudo isso sob o olhar atento da imagem católica na parede. Ela o desafiava a parar, ele continuava provocando, a sua mãe fazia pipocas, Jesus olhava da parede... os domingos pareciam muito melhores naquela época.

Levantou do sofá da simulação e seguiu em direção ao seu quarto. A porta estava fechada, como de costume. Sentiu um nó na garganta novamente quando lembrou dos pais. Mesmo que soubessem que o filho estava provavelmente estudando ou lendo ou escrevendo ou assistindo seriados ou dormindo dentro do quarto, a imagem que seus pais mais tinham dele era aquela porta marrom fechada. Quantas vezes ele havia pensado em abrir e deixar o caminho livre para quem quisesse chegar? Com certeza, mais vezes do que ele realmente havia feito isso. Quantas histórias aquela porta marrom fechada impediu de serem contadas? Quantos boa-noites não foram dados, quantos “filho, vem olhar isso aqui” foram ignorados pela simples preguiça de abrir a porta?

Colocou as perguntas no canto da cabeça e a mão na maçaneta. Fez questão de separar uma simulação em que sua presença estivesse sendo sentida em casa, mas não tinha ninguém em casa. Na simulação, seus pais haviam saído... mas será que ele estaria dentro do quarto? O que será que o Passeio Virtual havia separado daquela vez? Estaria lendo, rindo, chorando, com saudade? Estaria escrevendo um conto, fazendo um favor, ou desejando ir dormir? Girou a maçaneta e abriu a porta. E então viu... nada.

Seu quarto estava vazio. Não vazio literalmente: seus milhares de livros e gibis e revistas e bonecos ainda estavam lá, juntamente com a roupa no armário e a dupla de travesseiros na cama. Mas ele não estava lá. A princípio, pensou que o programa tinha dado pau - não era raro a versão 2.5 do Passeio Virtual travar - mas então entendeu que ela estava funcionando, muito bem inclusive. Ele havia selecionado uma simulação em que sua presença estivesse sendo sentido em casa. Mas ele ignorou que talvez a falta de sua presença pudesse ser sentida com mais força ainda, força suficiente para inverter os algoritmos do programa e selecionar um dia em que ele não estava em casa. Mais forte do que a sua presença, era a saudade que a falta dela gerava.

E onde estaria? Não conseguiu descobrir. A mochila que usava para viajar não estava ali, então ele podia estar na estrada, mas por um tempo ele usou a mesma mochila para dormir na casa da namorada, então isso não ajudava muito. Olhou para a estante de livros. Comprava tantos livros naquela época que era impossível descobrir qual havia sido o último lançamento e descobrir que época era aquela. Olhou para o velho computador sobre a mesa. Ele acumulava uma poeira incerta.

Independente da época, seus badulaques estavam todos lá, sobre a mesa. A caixinha em que guardava os remédios, os bonequinhos de luxo, um porta-trecos cheio de recibos (adorava a tecnologia touch também), o seu cofre de gatinho. Mas afinal, onde estava ele?

Foi quando a luz verde da simulação acendeu-se na tela. Franziu a testa tentando lembrar o que significava aquela luz. A versão 2.0 do Passeio Virtual não tinha tantas frescuras assim. Concentrou-se na palavra que havia escolhido para abrir o menu de ajuda (“Klapaucius”, repetiu mentalmente), até que de repente, viu que a luz da escada havia acendido. Alguém estava subindo. Finalmente iria descobrir porque não estava em casa naquele dia.

Quando ele ouviu o choro de criança, logo descobriu.

O primeiro que entrou na sala foi o seu irmão, com a câmera na mão. Ele chegou e abriu as janelas para melhorar a luz – odiava tirar fotos com flash – e se posicionou no meio da sala. Seu pai entrou logo depois, carregando as mochilas coloridas na mão. Ele procurava algo nervoso dentro da mochila que usava para viajar, até que encontrou e colocou a fralda colorida em cima do sofá.

Sua mãe entrou logo depois, de costas, afastando o tapete para ninguém cair. E então ele entrou, seu eu mais novo, com mais cabelo e menos rugas, mas com um sorriso que depois que chegou ao seu rosto nunca mais saiu. Ele entrou na sala e estendeu a mão para ajudar elas subirem.

Sua mulher, a mulher que escolheu para viver junto, a mulher mais linda do mundo, chorava. Chorava de alegria porque estava perdendo o título de mulher mais linda do mundo para a filha dos dois que carregava no colo. Aquele choro – o choro insistente, o choro de quem quer ser ouvida e quem quer ser cuidada naquele mundo estranho que acabava de conhecer – logo o deu certeza do dia em que sua simulação acontecia. Por isso ninguém estava em casa. Eles estavam voltando do hospital.

A simulação não tinha muita definição no som, então ele não conseguia ouvir o que as pessoas falavam, um defeito que ele esperava que o novo patch do Passeio Virtual 3.0 corrigisse. Por causa disso, ele não conseguia entender o que todos estavam esperando. Foi quando viu a sua sogra abrindo a porta da sala e chegando afobada com os brinquedos da criança. Sua mulher franziu a testa e disse alguma coisa para sua mãe que fez todos ficarem em silêncio por um momento. Então, ele mesmo disse algo e todos riram. Certas coisas nunca mudaram.

Os sete então, guiados pelo seu irmão, foram até o seu quarto e abriram a porta, a porta marrom, a porta das histórias interrompidas, a porta dos boa-noite não dados, a porta que o protegia do mundo ao redor. Eles abriram a porta sem nem bater porque ele não precisava mais de proteção – ele precisava dar proteção agora. E foi justamente naquele lugar em que ele se sentia tão bem, que ele quis fazer aquilo.

Ele abriu as janelas do quarto e pediu para seu irmão organizar a foto. Ele ajudou sua mulher a se sentar e sentou ao seu lado, com a filha dos dois no colo dela. A sua mãe e a mãe dela choravam de alegria. Seu pai olhava tudo com ternura, mas ele sabia que iria chorar em alguns instantes. Seu irmão gritava com todos tentando organizar a foto. Depois de alguns olhares franzidos dele – alguém nessa família não franzia a testa? – todos se ajeitaram. O choro deu lugar a um clique e a foto foi tirada.

Hoje em dia, a foto subiria para a nuvem diretamente depois de ser tirada, com ajuste de cor, enquadramento perfeito e tags que permitiriam ela ser usada em bancos de imagens do mundo todo caso os royalties sejam pagos direitinho. Naquela época, uma foto tinha que passar por vários processos até chegar impressa na sua mão. Por isso, seu irmão saiu para baixar a foto no computador, sua mãe já saiu preparar o café, a sua sogra saiu atender o celular e o seu pai foi para o velho lugar do sofá que tanto lhe pertencia.

E ele ficou ali, observando seu eu mais jovem, sua mulher e sua filha curtirem aquele momento família, o primeiro de muitos. Aquele quarto, que já tinha sido depositário de tantas histórias, estava vendo o início da história mais linda que ele já havia criado.

Ele ficou ali alguns minutos, assistindo a mesma cena em loop, até que a notificação roxa apareceu na tela. Sua simulação havia terminado. Ficou assistindo o frame congelado até que alguém viesse lhe tirar dali. Tirou um PrintScreen mental da última cena: os dedinhos da sua filha entrelaçados no seu.

Ficou ali, esperando alguém vir lhe tirar os óculos do Passeio e ajudar ele a sair da Esteira de Memórias. Já tinha feito os 15 minutos diários de caminhada e podia voltar para suas leituras. Ficou esperando a mão fria da enfermeira vir pegá-lo, mas se surpreendeu quando sentiu uma mão quente e macia lhe encostar.

- Pai, surpresa! Viemos te visitar. Espero que tenham lugar pra mais três hoje – ela começou a falar sem parar igual sua mãe enquanto o ajudava a descer da Esteira. Estava adorável como sempre – Já não falei pra não deixar fechada essa porta enquanto está sozinho aqui na biblioteca? A enfermeira tá no jardim e a mamãe tá lá na sacada, se você cair não tem ninguém pra vir te ajudar!

Ela estendeu a mão e entrelaçou seus dedos no dele. Ele sorriu ao ver o seu sorriso se refletir no rosto dela. Apagou o PrintScreen que tirou da tela e segurou a mão de sua filha com força.

Como gostava dessa tecnologia touch.

***

Sam é só sorrisos

Queira Menos

Postagem de hoje do (sensacional) blog "The Minimalists":

"É mais fácil conseguir o que você quer quando você quer menos."

O blog The Minimalists é um oásis satisfatório no meio do árido deserto que é a internet. Em uma primeira leitura, ele pode parecer um tanto quanto radical, como no desafio de se livrar de um item por dia durante ou mês ou quando os seus autores falam que vivem com apenas dois pares de sapato e dois jeans, mas as vezes ele oferece pérolas como essa que merecem ser compartilhadas.

E como toda peróla, ela é até... óbvia, não? Muito se fala sobre dividir as tarefas, compartilhar as obrigações, aproveitar bem o dia, fazer os itens pequenos antes de fazer um grande e vice-versa, mas que tal apenas... querer menos?

Querer menos, claro, não significa desistir de certas coisas em detrimento de outras. Querer menos é querer uma coisa por vez. Dedicar toda sua atenção a uma tarefa por vez, a um desejo, a uma ânsia, conseguir direcionar toda sua força para tirar de uma vez aquela angústia do peito. Mesmo que isso signifique apenas passar para a angústia seguinte.

É difícil querer trabalhar mais quando se está conectado a internet, ouvindo música, escutando o WhatsApp e respondendo os e-mails. Queira menos. Trabalhe.

É difícil querer economizar dinheiro quando se está pagando as contas necessárias, as extras, ajudando em casa e querendo acompanhar as baladas de todo mundo. Queira menos. Priorize.

É difícil querer escrever um livro, assistir todos os seriados, ler o livro atual e o próximo daquele série e acompanhar as notícias do próximo blockbuster. Queira menos. Uma coisa por vez.

É difícil amar a vida de solteiro, amar a vida de casado, amar a vida que você deseja ter no futuro e amar a si mesmo. Queira menos. Ame a si mesmo, ame o próximo, e ame os dois juntos. Ou não ame.

Uma coisa por vez. Um objetivo por vez. Um degrau por vez.

Querer tudo de uma vez não é ser arrojado, não é ser multitarefas, não é ser fruto da geração XYZ-hipermídia-online. Quando a gente muito quer, pouco consegue ser.

Economize suas baterias. Escolha direito. Queira menos.

Sam é bom em postar menos do que devia

2.6

Aniversários em casa são algo cada vez mais raro hoje em dia. Talvez por falta de espaço ou por falta de costume, aos poucos fica mais fácil convidar as pessoas pra sair (a menos que você more em Caxias, claro) ou até nem comemorar o aniversário e se contentar com os likes no Facebook mesmo. Eu fico cada vez mais feliz de fazer o contrário.

Já fazem oito anos que compro tortas temáticas pro meu aniversário. Quando eu comecei isso, nos meus agora longínquos 19 anos, eu não imaginava que seria uma tradição tão duradoura. Talvez por isso seja tão bom repetir ela ano após ano. Cada ano, nesse momento, eu sinto que um calorzinho bom volta do passado pra me esquentar.

Às vezes tentamos repetir uma experiência, tentando recriar a mesma fagulha de alegria com as mesmas pessoas e os mesmos elementos no mesmo lugar, só pra descobrir que aquilo só era pra ter acontecido uma vez mesmo. Esse não é o caso aqui.

Em 2014, fiz aniversário. Mas não envelheci.

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Lembro que, em 2011, na torta do Guerra nas Estrelas, alguém disse que a torta daquele ano devia ser dos Vingadores, já que o filme estaria prestes a estrear. Esse ano, corrigi o erro com Vingadores 2. E de certa forma, pela primeira vez, já sei até a torta do ano que vem.

Em 2016, vou completar 10 anos comprando tortas temáticas, no alto dos meus 28 anos.

Só envelhece quem quer!

Bonus Track: ter a melhor namorada do mundo também ajuda a manter a juventude em dia.




Todo mundo: Tudo é incrível!

Sam ficou feliz que só sobraram duas cervejas esse ano, mas manteve distância delas no dia seguinte.

O Dia Em que Escrevi um Livro Para Minha Namorada

Na última quinta-feira, dia 12 de junho, enquanto o mundo esperava pela abertura da Copa do Mundo ou pelas horas de fila que ia encarar na reserva que fez pro Dia dos Namorados, eu estava preocupado em cumprir prazos. O deadline estava chegando e eu tinha que entregar o meu livro.

Garu surgiu no verão de 2012/2013. Fui para praia com uma imagem na cabeça de um jogo da série Final Fantasy, com os personagens cruzando um descampado montados em seus Chocobos. Chocobos são grandes aves que servem de transporte na série. Mesmo não sendo parte essencial da história, eu fiquei imaginando como seria a vida de um personagem com o seu Chocobo de estimação. Imaginei crianças aprendendo a criar Chocobos desde pequenas em uma escola, talvez. E assim começaram as ideias.

Chocobo em ação

Choveu pra cacete naquele verão, então tive tempo para pensar. Com o tempo, a ideia evoluiu para uma história sobre crianças que criam animais "personalizados", que se transformam de uma forma primitiva em uma forma evoluída de acordo com os sentimentos e os gostos do seu dono. Eu nunca dei muita bola para animais de estimação, mas sempre vi as outras pessoas tendo uma ligação especial com seus cachorros e gatos, então pensei que seria um bom tema para abordar.

(Em alguém momento eu pensei: chega de bruxos, vampiros, zumbis, a moda agora é animal de estimação!)

Eu ainda precisava situar a história em algum lugar. Na minha cabeça, aquilo tudo funcionava  bem em um cenário idílico, com campos, praias e montanhas. Logo, a história se passaria em uma ilha, por pura preguiça de criar um continente inteiro. O nome da ilha veio antes de tudo: quando voltei das férias assisti As Vantagens de Ser Invísivel com meu irmão e fiquei fascinado com a cena em que os personagens dançam Come On Eileen, dos Dexy's Midnight Runners. Taí. A história se passaria em Ailim.



Alterei o nome da música para a leitura e a pronúncia ficarem mais simples. Desde o início, quis nomes fáceis. Nada em inglês. Eu queria o tipo de nome e personagens que minha mãe pudesse falar para as pessoas: "esse é Garu, o livro que meu filho escreveu" (tente tocar em uma banda chamada Lonely Hearts Club Band e entenda meu trauma).

Além do mais, nunca gostei de inglesismos enquanto estamos falando em português. Queria passar a ideia de uma civilização nova criando seus próprios nomes. Garu e Ailim surgiram como nomes fáceis de pronunciar, com poucos sons, do tipo que você fala errando outra palavra. Aliás, a maioria dos nomes do livro foram criados assim, juntando sílabas e pronunciando em voz alta. É um ótimo exercício.

Garu surgiu da mesma maneira, no chute. O namorado da Pucca foi a última referência que eu tive; Garu sempre me lembrou o Digimon Garurumon, que tinha forma de um lobo. Desde o início o nome me sugeriu "fera" e tinha uma certa sonoridade que lembrava algo animal, bestial, e combinava muito bem com outros nomes, servindo bem a história ("esse é meu cavalo garu").



De início, pensei em contar a história através de crianças que estavam nessa escola para aprender a cuidar e evoluir seus garus. Elas ganhariam o garu com sete anos numa forma primitiva e teriam que treiná-los até os 15, quando se tornariam um animal da escolha delas. Elas poderiam "guiar" essa evolução: se a criança morasse na praia, ela transformaria o garu em um peixe; se morasse na floresta, transformaria ele em algum animal da floresta.Mas tudo ainda parecia um episódio de Pokémon em uma ilha. Precisava mais.

As referências a Pokémon estiveram sempre presentes, isso é verdade. Na minha cabeça, os garus eram como pequenos Venonats, que evoluíam depois que estivessem prontos e tornavam-se um animal de verdade. Eu cheguei a conversar com amigos e ler um pouco sobre evolução e genética para não falar besteira. Porém, depois de um tempo, apaguei as crianças e decidi que a história iria começar com os garus chegando em Ailim depois de uma grande tempestade. E assim tudo começou, em 10 de janeiro de 2013.

Correções na primeira página já

Comecei a escrever Garu em um caderno que eu já utilizava para outras histórias. Era póetico, eu pensava, e se eu quisesse escrever em qualquer lugar era só levar o caderno comigo. Tirei o computador da escrivaninha do meu quarto e passei a cruzar o fim da tarde e o início da noite escrevendo apenas com a luz que entrava pela janela: eu era "o" escritor.

Pensando bem, essa história sempre teve a ver com chuva

Com o tempo passando e a história crescendo, vieram as dúvidas. Ela se desenvolveu muito bem, mas depois de umas 40 páginas escritas a mão, percebi que não era aquela a história que queria contar. Eu queria escrever um livro que falasse de jovens aprendendo a criar os Garus, mas estava contando a história de uma civilização reconstruindo-se depois de um desastre ecológico. Eu ia chegar de um ponto a outro, mas ia demorar muito. Ainda mais escrevendo a mão. Voltei para os rascunhos.

2013 seguiu com o livro competindo com o último ano de faculdade e o TCC. Deixei o livro de lado e segui desenvolvendo a história nas anotações. É impressionante como você pode mudar de ideia a respeito de algo com o tempo. Essa maturação, junto das minhas leituras sobre assuntos parecidos - TCC sobre histórias em quadrinhos, disciplinas de Estudos Literários e Antiguidade Clássica - foi me dando cada vez mais bagagem para pensar na história, sobre o que funcionava e o que não funcionava.

Mas ainda assim, a coisa andava devagar.

Passei 2013 pensando sobre como queria contar a história. Um personagem? Três personagens? Múltiplos personagens? Ao mesmo tempo em que seria mais simples contar a história do ponto de vista de apenas uma pessoa, isso aos poucos foi me parecendo pouco para o tanto de coisas que eu queria falar e o tanto de assuntos que queria abordar. Sem contar, claro, a presença monumental de Game of Thrones na vida de qualquer nerd que se preze. É impossível assistir o seriado e ler os livros e não se apaixonar com a história contada por múltiplos personagens. O fato de eu sempre gostar de novela também ajudou. Decidi que a história teria sim, múltiplos personagens, e dei vida ao meu elenco.

Mas ainda assim, a coisa andava devagar.

Entra a namorada.

Lindos

Comecei a namorar em 24 de fevereiro de 2013. A minha excelentíssima já entrou nessa sabendo que eu gostava de escrever e dando muita força nisso. Mas assim como ela sabia das minhas qualidades, sabia dos meus defeitos, entre eles a indecisão e a calma e a paciência e a morosidade latente. Eu sabia que tinha que escrever, eu sabia o que escrever, mas entre querer fazer e colocar as coisas no papel existe um abismo em que muitos livros já caíram e nunca foram recuperados. Isso tudo somado ao trabalho com a Festa da Uva 2014 e os preparativos para a festa de formatura deixaram tudo meio lento. Eis que então, entra o ultimato:

"Eu quero o livro de presente de Dia dos Namorados"

Suei frio. Revisei os rascunhos. Analisei a linha do tempo. Não. Era impossível. Para tudo o que eu queria escrever? Nunca! Tolkien escreveu O Senhor dos Anéis numa cama de hospital depois de ser ferido na guerra, seria que assim eu conseguiria? Ou será que me demitindo e aceitando um estágio de 6 horas seria o suficiente? Não. É impossível. Eu precisava pagar as contas. Teria que dar certo.

Contando com o velho adágio de que "as pessoas que conseguiram alcançar o que você quer fizeram isso com as mesmas 24 horas do seu dia", resolvi me mexer. E enquanto eu aprecio o planejamento e a dedicação à pré-organização de algo, um prazo ajuda muito na hora de alcançar algo. Porque falando de forma sincera, eu sabia o que tinha que fazer. Não era preciso inspiração. Era só preciso trabalhar.

Woody Allen, um dos meus autores favoritos, disse certa vez que 80% da vida é aparecer para o trabalho. E assim eu fiz, entregando aos poucos o tempo livre para a escrita, e o tempo ocupado para pensar nela. As anotações nos cantos dos cadernos continuaram decisivas. Com o tempo, comprei um celular novo e passei a anotar coisas ali também. Comecei a escrever uma linha do tempo que ia desde o início da história - a chegada dos garus, a história que eu escrevia no caderno - até o momento que eu queria chegar e dali em frente. Mais adiante, comprei um notebook, escolhido em cima de um único quesito: o teclado tinha que ser bom. Eu não escrevia mais a mão (o fim do sofrimento para um verborrágico como eu) e não tinha mais desculpa para não escrever onde quisesse.

Era engraçado que, depois de um ano juntando palavras para montar a monografia, eu escolhesse repetir justamente aquilo. E é então que você percebe como a monografia foi fácil. Se o trabalho de conclusão de curso depende de você, o livro que você está escrevendo É você. Escrever é uma jornada de autoconhecimento: hoje você escreve no quarto sentado, amanhã procura as palavras certas na sala e depois de amanhã fica se perguntando porque nunca dá certo conjugar verbos na cozinha. A ideia incrível de hoje é terrível amanhã. E quando você menos espera, você descobre que o nome de personagem que criou em um momento de inspiração é uma gíria britânica para vaginas. É a vida.

Isso sem contar nas análises sutis que você acaba descobrindo quando analisa seu próprio texto. Eu, que detesto água e mar e rio e lagos por traumas antigos, situei a história numa ilha que não se comunica com ninguém há anos. O mar é mistério. A divisão da parte boa para a parte ruim da ilha é feita por um... rio. E assim vai. São muitos exemplos de você que você coloca no texto e nem percebe. Escrever é uma sessão de análise. Revisar o próprio texto é terapia.

Do início dessa última jornada de escrita que vingou, que eu calculo que tenha sido ali por fevereiro, até essa semana, consegui colocar no papel 72 páginas de texto corrido. Com os ajustes de espaçamento e inícios de capítulos, cheguei a 116 páginas. E foi esse volume que entreguei para a minha namorada e para minha prima no dia 12 de junho, Dia dos Namorados. Não era o livro completo, mas era um sinal de que eu estava cumprindo minha promessa.

É... vou escrever meu nome maior próxima vez

Eu sigo escrevendo e buscando inspiração. Enquanto a história já está estruturada na minha cabeça, toda ajuda é válida. Em abril comecei um curso de roteiro com foco na essência narrativa que me deu várias ferramentas para "afinar" a minha história. Na internet, sigo buscando técnicas e dicas de construções de personagens e mundos. E claro, sigo praticando a melhor maneira de melhorar a escrita: ler. Muito.

Com o tempo, até o livro ficou mais rico. Eu queria contar a história de jovens e seus animais, e acabei abordando história, religião, respeito a natureza, êxodo rural (juro, percebi essa semana), conflitos históricos e o tema principal do livro: as relações entre pais e filhos. A premissa "jovens que criam animais especias" virou, enfim, um plot: em uma ilha primitiva, jovens de quinze anos participam de um ritual para ganhar um animal que pode decidir seu papel na sociedade. Não é o tipo de coisa fácil de resumir, mas não é nada que nunca foi falado também. Há sempre formas diferentes de contar a mesma história e isso é o legal de escrever.

(Mentira: é Pokémon X Lost X Battle Royale, com um toque de Gabriel Garcia Márquez e estrutura de Game Of Thrones. Pode comprar.)

Finalizando: se você me convidar para uma festa e eu não for, é porque eu estou escrevendo. Se você me convidar para sair, simplesmente para passear, e talvez eu não esteja disposto, é porque eu estou com o notebook no colo. Se eu topar e parecer realmente impressionado com o mundo lá fora ("ESQUILO!"), é porque você estava vendo alguém que está com a cabeça em outro mundo se adaptando ao mundo real. E quando você me encontrar por aí, pode me cobrar: e o livro, como anda? Quero ler, viu? Não demora!



E isso tudo não seria possível, claro, sem o amor e a dedicação (e a pressão, muito positiva) da minha incrível namorada. Nunca ignore o valor de alguém que apoia os seus sonhos. Como eu disse pra ela na dedicatória que fiz: "Isso é prova de que estamos juntos para isso: construir histórias. Essa história é tua.". Se vocês terem o livro em mãos algum dia, vocês terão a história que fiz pra ela.

Agora deixa eu aproveitar e dar uma revisada nas últimas páginas. Afinal, ela pediu o livro inteiro pro Natal.

Xi...

Sam jura que promete que vai tentar terminar o livro até o fim do ano

Porque Friends Ainda Importa (e muito!)

"Joey ficou com a cabeça trancada na porta! Chandler, onde estão suas ferramentas?"
"Estão no meu trator."
(...)
"Eu não tenho ferramentas!"



Essa cena, do episódio 8 da 10ª temporada de "Friends", "The One With The Late Thanksgiving", resume aquilo que uma obra deve ter de mais importante em relação ao seu espectador, leitor, consumidor: identificação.

"Friends" durou 10 anos, sendo exibida de 1994 a 2004. Agora, em 2014, depois de 10 anos do fim da série e depois de 20 anos do estreia (sim, é óbvio, mas é só pra reiterar quanto nós estamos velhos), "Friends" voltou a ser citada nas rodinhas de conversa, ainda mais devido ao fim de "How I Met Your Mother", outra série com uma dinâmica parecida (amigos nos seus 20 e poucos anos, um bar e um apartamento como cenários principais) que assumiu o vácuo deixado por "Friends" e durou tanto tempo quanto.

Mas "Friends" nunca deixou de ser relevante, você pensa. Claro que não. Eu só acho que devia ser muito mais.

Uma das principais características de uma obra, como eu disse acima, é a identificação que o seu consumidor pode ter em relação a ela. Independente do cenário, seja em uma comédia romântica ou um filme épico, o que importa é que cada pessoa possa se colocar no lugar de um ou mais personagens e se ver ali, naquela situação, criando assim simpatia pelo que acontece com o personagem na tela. Entramos nus na história, procurando saber o que está acontecendo, da mesma maneira que muitos personagens entram nas suas próprias histórias sem saber nada ("Harry Potter" e "Guerra nas Estrelas" me vem a cabeça imediatamente) e acabamos enfrentando os mesmos dilemas que eles, mesmo que na nossa proporção: quando enfrentar Estrelas da Morte e bruxos do mal viram dificuldades da nossa vida, o autor conseguiu o que queria.

Seriados como "Friends" e "How I Met..." conseguem essa identificação mais rapidamente, porque afinal, todo mundo já teve 20 e poucos anos, desventuras amorosas e amigos em um bar. As frases prontas, as piadas, as dificuldades em arranjar emprego, em formar família, em lidar com os pais, cada cena em cada episódio pode ser remetida a você ou a um amigo ou a um chefe ou a um parente. Todo mundo tem um Joey na turma que não divide comida, ou uma Phoebe que é mais louquinha do que o normal, ou uma Monica com TOC de limpeza, ou um Ross eternamente apaixonado por uma Rachel que não dá atenção para ele.

E os Chandlers... os Chandlers são casos a parte. Meu ensino médio inteiro foi trabalhado em cima de fazer piadas parecidas com as de Chandler e hoje somos todos adultos sem ferramentas. A geração 1994-2004 absorveu como ninguém o sarcasmo, a ironia e a autodepreciação do personagem de Matthew Perry como ninguém. Não haveria Chapolin Sincero ou Gina Indelicada hoje em dia sem Chandler Bing. O personagem, que começa a série como o vizinho mal-humorado que faz piadinhas, em um emprego que ninguém sabe descrever, termina a série como pai de gêmeos, casado com a irmã do melhor amigo, e trabalhando em uma agência de publicidade. A única coisa que se manteve foram as piadinhas. E nós nem queríamos mesmo.

Divo

O crescimento do personagem é o mais fácil de ser percebido. Depois de 10 anos, Joey termina a série sendo um ator medíocre e sem dividir comida (tanto que continuou esse personagem na sua própria série); Phoebe termina casada e ainda fora da casinha; Ross e Rachel terminam da mesma maneira que começaram a série, tentando ficar juntos mais uma vez (e nada garante que conseguiram!); e Monica termina tornando-se mãe de gêmeos junto com Chandler. Mas como o próprio Chandler diz para a mãe dos filhos que eles adotarão, "eu vou me tornar um ótimo pai; Monica já é uma ótima mãe". Ao fim do ciclo de 10 anos da série, muitos acabam tornando-se aquilo que estavam destinados a ser. Mas não tem como assistir o primeiro episódio da série e descobrir como Chandler terminaria.

Essa evolução nas histórias dos personagens e de Chandler em especial, na minha opinião, é o que faz "Friends" e seriados como ele serem tão especiais. Você provavelmente sabe mais sobre os seis amigos do Café Central Perk do que muitos parentes seus (eu tenho certeza que sim). Você se importa com eles. Você se torna amigo do personagem. Eu sei que senti orgulho de Chandler quando vi ele virando pai na última semana do seriado que está passando na TV agora. Orgulho de um personagem fictício. É a última fronteira que o criador sonha em ultrapassar: criar alguém tão real quanto o ator que interpreta o personagem na tela.

Enquanto isso, em uma comparação tosca mas válida, nas novelas tudo continua igual. Enquanto ainda houver opções como "Friends" e similares na telinha, podemos nos livrar de ter que comentar a nova traição na novela das oito, o novo incesto, a nova mulher louca, a nova empregada faladeira, o novo marido cafajeste, a nova questão social que vai ser logo soterrada pelo núcleo do humor ou os dramas do núcleo do Leblon, que com certeza são a coisa mais distante possível do telespectador que o assiste. Enquanto o público de novela almeja em ser o que vê na tela, o público de seriados é.

E Friends ainda importa por causa disso: é o tipo de arte que faz você se importar com o próximo.

(Podemos nos livrar de ter que comentar o Big Brother. Uma reprise de "Friends" vale muito mais que um paredão.)

"Friends" passa de segunda a sexta na Warner, as 12h e as 12h30min, e tem sido a diversão minha e do meu irmão no horário do almoço nas últimas semanas. Pelas nossas contas, hoje as 12h passa o último episódio da última temporada e, se a Warner for esperta, as 12h30min deve passar o primeiro da primeira. Por isso, corra logo pra casa, assista com os amigos, faça como se fosse 1994 mais uma vez.

Eles estarão lá por você.


Sam prefere Friends a How I Met Your Mother

Escrita Livre: Sobre Dores na Coxa e Arrepios no Ouvido

Exercício de escrita livre. 15 minutos no relógio e bora escrever.

***

Esse fim de semana ajudei minha mãe a limpar o terreno da escola em que ela irá trabalhar esse ano. É uma escola simples, pequena, que vem enfrentando evasão de alunos por um simples motivo: a qualidade de ensino. A estrutura física da escola é boa, apenas mal cuidada, refletindo o ensino que vinha sendo praticado nela. Limpamos o terreno no sábado de manhã, tentando refletir um pouco nesse cuidado o cuidado que a equipe docente irá ter com os alunos esse ano. A turma da minha mãe terá apenas 10 crianças. Tenho certeza que elas serão bem cuidadas!

Mas esse não é o foco. Fato é que, acordar no sábado de manhã para juntar grama, arrancar galhos e varrer o chão, cansa. É prestativo e valoroso e toda pessoa deve ajudar de vez em sempre quem precisar. E é bom cansar o corpo por alguma coisa boa. Mas cansa sim. Domingo a noite, mais de 24 horas depois da função toda, eu sinto dores no meu corpo em lugares que eu nem sabia que doíam. Claro, é tudo reflexo de uma vida MUITO sedentária, mas gente, dor nas costas da coxa, eu nem sabia que tinha terminações nervosas ali!

Isso me fez pensar sobre o potencial do nosso corpo, sobre como não temos dimensão do que ele é capaz. Assim como ele é capaz de doer, e muito, em lugares onde nem sabíamos que dói, ele pode dar energia que nem sabíamos sermos capazes de conter dentro de nós. Eu, um sedentário de carreira, sempre me impressiono quando me empolgo jogando Just Dance nas festinhas com a turma e volto pra casa lavado de suor depois de dançar por horas seguidas. Fico pensando: onde está toda essa energia quando eu quero correr, quando tenho que levantar cedo, quando tenho que fazer esforço em casa?

O buraco, ao contrário do ditado, é mais em cima. No caso, na cabeça. Dançar é uma das coisas que me deixam mais felizes na vida. O que começou com uma brincadeira - lembro claramente da tarde em que passamos no centro, eu e um amigo, comprando jogos pra festinha de noite - hoje é uma das atividades que mais me dão prazer, batendo ali com escrever e tocar bateria, por exemplo. Eu, um garoto tímido, que não gostava de festas quando mais novo, dizendo isso, é uma grande mudança.

(Um abraço pros meus amigos que não cansam de lembrar como eu era inepto socialmente na época do colégio, ainda mais na equação festa + dança. Brigado gente. Amo vocês.)

Quando a gente está fazendo algo que nos deixa feliz, a cabeça arranja a energia necessária para manter o corpo ativo. Deve ser uma troca justa que acontece dentro da gente: o corpo diz "ei cabeça, tô aqui bombando mas tô cansando, libera mais um pouco de carga aí?". A cabeça responde: "tô liberando, vê se usa bem, sem usar essa energia aí pra ver pornografia, viu?". Na minha cabeça, deve ser assim, pelo menos.

O segredo talvez seja descobrir esse gatilho que nos libera essa energia que aliada ao prazer, faz a gente fazer coisas incríveis. Porque todo mundo sabe que é capaz de muito mais. Lembro vividamente de falar várias vezes para minha excelentíssima namorada que ela é capaz de fazer eu me arrepiar em lugares que eu nem sabia serem possíveis (se meu ouvido falasse). Essa semana, devido a um conflito de agendas (que chique), ficamos distantes por 10 dias. Acordei nas noites do fim de semana, os dias em que costumamos dormir juntos, procurando por ela na cama. O fato do meu corpo, dormindo, fazer algo que eu faço consciente, me deixa muito curioso sobre o que a nossa cabeça é capaz.

Atividade de casa: pense em momentos em que você foi superhumano. Em que sua cabeça foi além, em que seu corpo foi além, em que você se surpreendeu e disse: puta merda, eu fiz isso e não sei como. Reveja a situação e encontre o gatilho que fez tudo aquilo acontecer. Tenho certeza que a energia da dança é a mesma que podia me ajudar a limpar muitos terrenos no sábado de manhã sem sentir dor. Quando eu conseguir fazer uma coisa ajudar a outra, sei que fui além.

***

15min depois, fim do texto. Esses exercícios de escrita livre são recomendados por todo manual de escrita que eu encontro na internet, então pensei, porque não tentar? Comprei um notebook (*ostentação*) e agora tenho acesso à internet no quarto, então desculpa pra não postar não tem mais. Esse primeiro texto saiu meio truncado, mas vou tentar fazer dessas escritas livres um exercício mais recorrente. A ideia é escrever rapidamente o que vem a cabeça, sem pensar muito na formatação enquanto escrevo e produzir um texto rápido de ler. Toda prática é válida, seja qual for a habilidade, então, mãos a obra! Mas isso pode ser assunto pra outros 15 minutos.

***

Sam não vê a hora de ver sua namorada novamente *-*

Safada

Uma história de traição e luminárias.

***


Entramos em casa pisando pé por pé. Não queria acordar as crianças. Dei a mão para ela no último lance de degraus. Gostava de ser cavalheiro. Ok, eu ia trair minha mulher em alguns instantes, mas isso não me liberava de ser cavalheiro.
Entramos no quarto. O perfume dela tomou o ambiente mais rápido do que eu imaginei. Fiz um esforço na hora de falar para lembrar o que tinha que dizer:
- Esse... esse é o quarto que eu e minha mulher dormimos. E onde transamos. Como você pediu.
- Ótimo. É bem aqui que eu quero.
Ela tirou a caneta que prendia o coque e sacudiu os cabelos. Ah, o perfume! Se ela estivesse de óculos, seria a perfeita cena de filme pornô, da secretaria virando mulherão, soltando os cabelos e jogando as lentes longe. Mas ela não usava óculos. Minha mulher usava óculos.
Ela colocou a caneta que prendia o cabelo e o celular que trazia no bolso traseiro do jeans – Deus era justo, mas aquela calça... - na cômoda, no lado em que minha mulher dormia. “Ordinária”, pensei, “ela sabe o que faz”. Ela mexeu no cabelo como mulher que quer ser notada e veio em minha direção. Falou com uma voz doce que eu sabia que era mentira.
- Vamos começar?
- Va-va-vamos... vamos, sim. Só espera eu...
Ela aperto forte no meio das minhas pernas. Naquilo, no meio das minhas pernas.
- E-e-eu... eu não sei se eu gosto disso!
- Eu não lembro de ter dado permissão para falar.
Ela continuou segurando forte. Não era agradável. Mas era emocionante.
- Minha mulher não costuma fazer isso – respondi, encolhido.
- Não sou sua mulher... esqueceu? - ela me empurrou até a beirada da cama – e vamos parar de falar nela essa noite, por favor?
- É que nós estamos no quarto dela, tem o perfume dela... – mentira, o único aroma era o perfume que saiados seus cabelos – ...as crianças sempre falam “o quarto da mamãe”...
Ela me “permitiu” sentar e respirar, mas colocou o dedo na minha boca para eu não falar.
- Hoje a noite, somos só nós dois.
O que aconteceu a seguir foi muito rápido. Ela puxou meu cabelo pela nuca e inclinou minha cabeça pra trás. A danada tinha força! Senti a ponta das suas unhas afiadas roçando no meu couro cabeludo. Descobri que meu corpo arrepiava em vários lugares que eu não sabia. Ela se inclinou e cheirou meu pescoço, do ombro pra cima. Quando passou pela orelha direita, perdeu alguns segundos ali. Nem sabia que minha orelha era tão sensível! Nem minha mulher, provavelmente.
Ela sentiu minhas pernas tremerem e colocou a canela direita em cima da minha coxa esquerda, ainda segurando meu cabelo. Ela se apoiou nos meus ombros e colocou a canela esquerda em cima da minha coxa direita. Ela estava em cima de mim, mas sabia que eu não ia aguentar por muito tempo. Teria que trocar de posição logo. E trocou.
Ela soltou meu cabelo. Coloquei a cabeça no lugar, mas não por muito tempo: com a mesma força que ela me puxou, ela me empurrou para o meio da cama. Deitei no colchão e vi a luminária pendurada no teto. Eu nunca olhava para ela – nunca ficava nesse ângulo na cama, óbvio – e me surpreendi. Como minha mulher podia gostar daquilo? Estava velha e empoeirada! Só podia ser coisa dela.
Minha nova amiga pareceu adivinhar os meus pensamentos.
- Pensando nela de novo?
- É... - hesitei - ...sim. É que essa luminária...
- Esquece a luminária. Vamos fazer um jogo.
- Jogos? - levantei o pescoço para olhar ela – adoro jogos – ela sorriu, maliciosamente – hm... que tipo de jogos?
Ela notou minha preocupação e sorriu com os olhos. Sabe aquele sorriso que alguém dá e você sabe que coisa boa não vem por aí?
- Jogo de concentração. Você vai ter que ficar concentrado, falando sobre o assunto que eu escolher, enquanto eu...
- Enquanto você o quê?
Ela engatinhou na cama até encostar o rosto dela no meu. Cochichou no meu ouvido.
- Enquanto eu desconcentro você...
Colocou novamente a mão no meio das minhas pernas. Mas gentil dessa vez. Céus.
Esperei obediente pelas próximas ordens, ainda olhando para a luminária no teto. Observando bem, ela tinha uma certa beleza, um charme... mas precisava de uma polida. De repente, eu só tinha que enxergar ela de outra maneira. De outro ângulo. Ia comentar isso com minha mulher.
Com a minha visão periférica, enxergava ela passeando pelo quarto. Não me atrevi a olhar para ver o que ela aprontava, mas não ouvia nada. A danada era silenciosa como um gato. A única coisa que traía sua posição ao meu redor era o toc toc quase mudo da sua sapatilha batendo no chão. Até que o toc toc parou.
Esperei alguns segundos para algo acontecer. Nada. E não enxerguei mais ela. Sabia que ela estava no quarto porque o perfume dela ainda estava no ambiente, mas não conseguia mais notar onde ela estava.
Caralho. Ela era melhor que o Batman.
De repente, PÁ! Algo bateu forte entre as minhas pernas, quase me acertando. Na curiosidade, me atrevi a olhar para frente. Ela estava parada na beira da cama, me olhando, de lingerie, com um chicote na mão. Demorei alguns segundos para entender a cena, mas quando entendi, quase acordei a casa.
- Ei! Essa lingerie é da minha mulher!
- Quieto! - PÁ! novamente, um pouco mais acima – quer acordar as crianças?
- Não! - baixei a voz – não, não. Mas isso é da minha mulher! Eu não deixei você pegar! Eunão vi você pegar!
- Sério? - a poker face dela era ótima – ela não costuma usar né? Tive até que tirar a etiqueta.
- É... ela disse que era pra usar numa ocasião especial, mas nunca vem... Esperei ela usar até na visita do Papa ao Brasil, mas não rolou.
- Oi?
- Visita do Papa, ocasião especial... - quis sumir na cama - desculpa, eu faço piadas idiotas quando fico nervoso.
- Pois não fique – ela subiu na cama novamente e começou a puxar minha camiseta para cima com o chicote – se ela queria usar numa ocasião especial, façamos de hoje uma ocasião especial. Não?
- Eu posso falar?
- Só se concordar comigo.
Ela bateu com o chicote em mim. Cacete, como aquilo me excitava!
- Eu quero jogar. Vamos jogar?
- Vamos. Já estamos atrasados – ela notou o volume entre minhas pernas – você já tá pronto faz horas, né queridão?
- Pois é, então...
- Não tô falando com você.
Ela me fuzilou com os olhos e sorriu. Silenciei de novo.
Ela saiu da cama, ligou a luz da luminária em meia fase e desligou a luz do quarto. Éramos três agora: eu, ela, e a luminária da minha mulher. Praticamente um ménage. A luz era forte o bastante para mim contornar sua silhueta na escuridão, e meu amigo, que silhueta. Aquela expressão do copo meio vazio ou meio cheio foi feita para descrever esse momento: seus seios preenchiam a meia taça na medida, sem sobrar nem faltar. Lutei contra uma força incontrolável de falar isso em voz alta. Eu não tinha permissão para falar, afinal.
E o bumbum... Eu confesso que achei o bumbum parecido com o da minha mulher. Mas eu não sei, acho que a cena toda, o perigo, tudo deixou a derrière dela muito mais bonita do que ela era naquele jeans justo. Anotei mentalmente para olhar a bunda da minha mulher com atenção depois.
Esqueci tudo quando ela começou a tirar minhas calças.
Os meus tênis voaram logo, o meu cinto também, e ela teve a consideração de tirar as minhas meias (querida!). Porém, a hora de tirar minhas calças foi uma tortura psicológica. Na contraluz, conseguia enxergar um sorriso quase sádico dela, puxando meu zíper devagarzinho. Ela fez menção de pegar o chicote novamente e notou que eu quase pulei da cama. Riu, sarcástica.
- Então, vamos jogar... – ela soltou o botão do meu jeans e começou a puxar minhas calças – fale da sua mulher.
- Dela?! Bem dela?
PÁ! O chicote gritou passou zunindo pela minha orelha.
- Ok. Falar da minha mulher. A minha mulher... é linda. Ela é tudo de bom. Tem um sorriso lindo. Os olhos dela sorriem. O cabelo dela é macio. As suas bochechas são rosadas. Ela...
Ela parou. Minhas calças estavam no joelho.
- Impressão minha ou você só olhar sua mulher do pescoço pra cima?
- Como assim?
- Ai, o sorriso, os olhos, o cabelo, as bochechas, deusdocéu... ela não tem peito, bunda, não? Não me surpreendo porque eu tô aqui!
É verdade. Minha mulher era praticamente o sol dos Teletubbies. Ou o Zordon.
- Eu vou baixar o nível – ela colocou a mão nas minhas coxas – e quero que você baixe também.
Com um puxão, minhas calças foram ao chão. Uma torre de cetim se erguia em mim.
- Recomeçando?
- Eu AMO a bunda da minha mulher. Talvez ela não saiba disso, ela prefere que eu não fique falando esse tipo de coisa, só na cama, mas daí quando a gente deita eu falo mas ela dorme logo, e quando a gente fica acordado ou a gente conversa ou a gente transa, daí quando a gente vai transar ela diz que eu não tomei banho, e quando eu tomei banho ela não tomou banho, e quando os dois tomaram banho a gente não pode transar, porque afinal, nós dois tomamos banho e a gente vai ficar suado, então, pra que ter tomado banho, e...
Ela mordeu a parte de dentro da minha coxa.
- AI! Isso doeu! - e me excitou – Doeu mesmo!
- Foco. Eu deixei você falar, use bem esse direito. Fale mais. Com foco!
- Tá. Enfim, eu gosto da bunda da minha mulher. E... e do vãozinho que ela faz quando acaba o bumbum e começam as costas, sabe? Gosto de pegar ela por ali, com força – ela parou de arranhar e começou a beijar a parte de dentro da minha coxa – eu adoro abraçar ela por trás, segurar ela forte pela cintura, mas gosto de abraçar ela de frente também, com força. Gosto de sentir os seios dela – ela colocou a mão por dentro da minha cueca – adoro ela sem sutiã. Os seios dela são o máximo.
Ela tirou minha cueca. Uma camiseta do Homer Simpson me separava da nudez total.
- Você aprendeu a jogar. Para a próxima fase.
Ela notou que eu tremia. O Homer sorrindo na minha barriga deixava a cena mais engraçada ainda, mas ela não demorou para tirar minha camiseta. Lá estava eu, nu, com outra mulher na minha cama. Eu, ela, e a luminária da minha mulher.
Senti a renda da lingerie roçar nas minhas coxas. Os seios dela estavam na altura dos meus joelhos. Queria que tivesse um espelho no teto, não uma luminária estúpida, para ver o que estava acontecendo, mas eu não estava em um motel e também não estava no início de um relacionamento. Aliás, porque a gente deixa de ir em motel depois do início do relacionamento? Tinha saudades.
“Se os seios dela estavam perto dos meus joelhos...”, pensei, “seu rosto estava...”
- Agora, eu vou só ouvir – ela passou a língua nos lábios - Fale da sua mulher no sexo.
Sexo oral. Sexo oral.
- A minha mulher... gosta de sexo – ela me deu uma mordidinha de leve, consegui ver sua sobrancelha direita levantando, incrédula, eu não tinha culpa, era o que dava pra pensar! - ela... ela gosta de transar. Nós não variamos muito, mas o que a gente faz, a gente faz bem.
Sua língua curiosa parou. Entendi o recado.
- Ela gosta de me chupar. E gosta quando eu seguro o cabelo dela com ela me chupando.
Ela deu um gemido gostoso. Segurei o cabelo dela também. Ela gostou.
- Mas o que eu gosto mesmo é de comer ela. Gosto quando eu deito e ela vem por cima de mim, se apoia na cama e fica me provocando, me colocando pra dentro aos pouquinhos, até ela não aguentar mais e querer cavalgar em cima de mim, com força!
Ela levantou, ficou de pé na cama, tirou a calcinha e sentou em mim.
- Continua – bateu com o chicote na minha perna – continua!
- Então eu pego ela forte na cintura e faço ela me sentir bem fundo, até ela não se aguentar mais e perder a pose de mandona – ela gemeu e respirou fundo no meu colo – porque eu sei, que ela é só pose, ela é um doce por dentro! Eu seguro ela forte, eu finjo que mando, ela finge que acredita, e a gente fica assim, nesse jogo, até mudar de posição.
Ela tirou a parte de cima da lingerie e jogou no chão, seios livres, corpo finalmente nu.
- Então nessa hora eu viro o jogo. Eu seguro forte o cabelo dela, o cabelo que ela prende com tanto carinho durante o dia, seguro forte e beijo os seios dela, porque eu sei que ela gosta – aproximei a cintura dela perto de mim com a mão livre e beijei seu corpo todo – e depois eu viro ela, pra ficar por cima.
Nossos corpos se inverteram na cama. Ela tomou ar e perguntou.
- E porque você gosta de ficar por cima?
- Pra ficar bem perto do rosto dela quando ela gozar – mordi o pescoço dela com força – a essa altura, ela já tá quase gozando, quase sem controle, enfiando as unhas nas minhas costas, com força!
Ela já não conseguia falar mais nada pra mim. O jogo já tinha acabado.
Fizemos com o máximo de vontade possível e com o mínimo de barulho para não acordas as crianças. Os últimos instantes pareceram durar uma eternidade. Seguimos no movimento dos corpos suados até os músculos enrijecidos relaxarem. Enfim, gozamos juntos.
Eu só conseguia gozar junto da minha mulher.
Ficamos alguns segundos ali, um corpo sobre o outro, sem pensar muito. Depois de alguns instantes nos olhos, rimos um pouco, e eu saí de cima dela. Ficamos alguns minutos em silêncio, recuperando a respiração. Fui no banheiro dar uma chuveirada.
Quando voltei para a cama, minha mulher já estava deitada no seu lado da cama, com o pijama rosa com coraçõezinhos pretos que ela amava. Eu achava lindo, mas não falava pra ela. Devia começar a falar mais isso.
Coloquei uma camiseta velha e deitei do seu lado, rindo satisfeito. Ela já estava quase dormindo. Abracei ela por trás – o vãozinho estava lá – e cochichei no seu ouvido.
- Amor... você pega as crianças amanhã?
- Não, você pega. Amanhã é quinta, eu tenho que fazer a unha e tem uma guria nova no salão que demora uma cara, não sei vai dar tempo, tô pensando até em trocar...
- Certo. Eu pego, pode deixar. Boa noite.
Ri sozinho. Quinta feira era o dia dela pegar as crianças.
Safada.

***

Apesar de ter uma menina nova no salão, ela fez francesinha no dia seguinte. Ficaram lindas.

Sequestroterapia

Amores roubados, amores sequestrados... será uma nova tendência?

***


Armando e Ana saiam animados do teatro.
- Ai amor, adorei o programa surpresa!
- Viu só? Eu falei que você ia dar risadas hoje.
- Jurei que ia ser pizza e filmes de novo.
- E o que tem de errado com pizza e filme?
- Nada ué – eles pararam na porta do carro – é só que... enjoa sabe. Você prefere uma namorada linda e magérrima ou uma gordinha que já viu todos os filmes do mundo?
- Ai amor... você sabe que eu adoro cinema né?
- Armando!
- To brincando amor! – ele deu um beijo comportado na testa dela – vamos?
Armando deu a volta no carro para entrar. Ana ficou parada na porta.
- Não vai entrar?
- Você não vai abrir a porta pra mim?
- Eu tenho?
- Ah, Armando, assim não né? – ela fez cara de choro
- Desculpa amor – ele voltou para abrir a porta – você sabe que eu não to acostumado com essas gentilezas, eu... - o celular dele bipou.
- Viu só? Viu só? Na mínima é mensagem de alguma fã tua por aí!
- Amor – ela desviou o olhar dele – amor... Ana... Ana Cristina, olha pra mim, por favor.
- Você sabe que eu odeio que me chamem pelo meu nome completo!
- E você sabe que eu odeio te chamar assim, mas é só assim que você me escuta! – ele mostrou a tela do celular para ela – olha aqui de quem é a mensagem. É do Jorge! Ele quer combinar futebol sexta. Você me conhece amor. Você sabe que o Jorjão não faz meu tipo...
Ela riu, ainda braba.
- Ai, desculpa amor. TPM, você sabe né.
- Sim, sei. “Tensão Pró Macho”. – o celular dela bipou – ó, você recebe mensagem o tempo todo também, e eu não vou nem te pedir quem é, viu só que querido?
- Ah – ela olhou para o aparelho - não é nada mesmo.
Ele abriu a porta para ela e entrou. Ana continuou respondendo a mensagem.
- Ana, vamos? Ta tudo bem?
- Oi? Sim, tá tudo bem – ela entrou no carro, ansiosa – Vamos. Já falei que adorei o teatro?

Dez minutos depois, os dois chegaram em casa. A porta da garagem estava aberta. Armando estacionou o carro do lado de fora e os dois desceram.
- Armando, diz que foi você que deixou a porta aberta.
- Claro que não né, eu chego a dar a volta na quadra pra garantir que fechei quando acho que esqueci, na mínima foi você que saiu distraída, ou a louca da sua mãe que veio e...
- Não fala da minha mãe! Não fala da... Armando, cuidado!
Uma pancada forte atingiu a nuca de Armando. Ele caiu no chão, desacordado.

Armando acordou minutos depois, com uma luz forte quase cegando seus olhos.
- Ai! Ai minha cabeça, cacete! Ana! Ana, cadê a Ana, ANA, cadê você! Eu vou...
Ele tentou se levantar, mas estava preso em alguma coisa. Reconheceu a cadeira e as cordas que estavam prendendo suas mãos. Deixou os olhos se acostumarem à escuridão e entendeu o que estava acontecendo. Estava preso na garagem de casa.
- Shhh, Armando, fica quieto!
- Ana! Cadê você!
- Eu tô aqui, atrás de você! Ele me pegou também!
- Ta tudo bem com você amor? Ai meu Deus, o que que ta acontecendo!
- Tá tudo bem querido, tudo. Tem um assaltante na nossa casa, eu falei que não tinha muita coisa pra levar, mas mesmo assim ele prendeu a gente e tá revistando a casa toda agora!
- Ai meu senhor, que bom que eles não te machucaram! Olha só, cadê seu celular?
- Ficou no carro, eu deixei lá quando a gente desceu.
- Você carrega aquela porcaria pra todo o lado e quando a gente precisa você não tem?
- Armando, você quer fazer o favor de parar?
Uma sombra negra surgiu, vindo de dentro da casa.
- SILÊNCIO! Caladinhos senão eu encho de bala! – a roupa negra do assaltante deixava só os olhos e a boca de fora – Eu quero o dinheiro! Quem dos dois sabe a senha do cartão?!
- É ele, moço, é o Armando.
- Ana Cristina, por favor!
- Amor, a gente tem que colaborar! Eu não quero morrer!
O assaltante chegou perto de Armando. Sua presença era assustadora, mas ele estava perfumado. O assaltante mirou a arma na cabeça de Armando e pediu novamente.
- Você que tem a senha do cartão de crédito?!
- Eu até tenho, mas quem gasta é ela.
- Armando!
- Qual é a senha do cartão de crédito?! Hein?! Rápido!
- Tá, ta, é, deixa eu ver, é 1... 8... 0... 4... 0... 6... Eu juro!
O assaltante saiu da garagem e voltou para dentro da casa.
- Ai, que lindo amor, a sua senha do cartão é o dia que você me pediu em namoro!
- Oi? Não, não, é o dia do meu aniversário de amizade com o Jorjão.
- Não amor, dia 18 de abril de 2006, dia da Festa da Cerveja Liberada, lembra?
- Lembro, claro, mas 18 de abril é a data que eu comemoro o meu aniversário de amizade com o Jorjão, do dia que a gente se conheceu! É que sabe o que é, eu te pedi em namoro esse dia porque já era uma data especial pra mim, daí como eu sou muito ruim em decorar datas, eu coloquei duas importantes no mesmo dia, pra não esquecer, entendeu?
- Armando, cada dia você me decepciona mais.
- Ana, o Jorjão é meu melhor amigo, essas coisas são importantes!
PLAFT! O assaltante derrubou alguma coisa dentro de casa.
- Ô amigo, se você puder só assaltar, não quebrar nada, eu agradeço, viu?
O assaltante voltou para a garagem, arma em punho e voz de brabo.
- Quietinho aí na cadeira, ô magnata! Quietinho senão te furo todo!
- “Magnata”? Você tirou suas gírias de assaltante de onde, duma música do Charlie Brown Jr.? E me diz uma coisa, porque você ta tão perfumado, hein, você veio de uma festa?
- Armando, por favor, não provoca o assaltante! - Ana parecia desesperada - Ai seu assaltante, por favor, não mata a gente! Se você quiser saber mais alguma coisa, pergunta!
- Amor, ele não vai matar a gente, eu nem vi a arma dele direito, se bobear é de brinquedo.
- Assaltante, se quiser saber alguma coisa, pergunta! Pergunta!
O assaltante deu um pulo, como se tivesse lembrado de alguma coisa.
- Sim! Eu quero saber sim! Eu quero saber... com quantas mulheres você ficou antes de ficar com essa vagaba aí!
- Olha o respeito! – Ana gritou.
- Desculpa, moça! – o bandido perdeu a pose – Responde aí, ô, vacilão!
- Mas que tipo de pergunta de assaltante é essa?
- Vai Armando, responde, ele tem uma arma!
- Ai, tá, tá! Eu fiquei com a Angélica, depois com a Rê, aí a Mônica, a Patrícia e a Luciana. E depois eu fiquei com a Patrícia e a Lu ao mesmo tempo, isso conta como mais uma?
- O QUÊ!? – Ana gritou - e você não tem vergonha de contar isso?!
- Mas amor, ele tem uma arma, o que você quer que eu faça? A gente tava lá, bebendo, vendo uns videozinhos na internet, daí a Lu começou a fazer massagem na Pati, aconteceu!
- Bico fechado os dois que eu quero saber mais! E semana passada, sexta, o que você fez?
- Sexta... sexta, eu fui jogar futebol com o Jorjão! Ele me convidou e eu fui.
- E essa tal de Larissa Panicat que te adicionou no Facebook, quem é?!
- É, quem é essa Armando?!
- EPA! – Armando quase levantou com a cadeira presa na sua bunda – EPA! Pêra lá que isso ta muito estranho! Esse assaltante tá sabendo muito da minha vida!
- E-e-eu tô cuidando da casa, vigiando, pra saber dos horários de vocês pra assaltar!
- Mas ta sabendo até do meu Facebook? Tu quer roubar minha casa ou tu quer roubar meus amigos no Instagram, hein? Ana, você tem algo a ver com isso?
- Armando, eu não sei de nada, te acalma!
- Sabendo da minha rotina, do meu Facebook, quem me adicionou, esse teu perfume do Boticário não me engana, garanto que veio junto com o kit de maquiagem que tu usou pra pintar esse teu olho de bandida! Pode tirar tua máscara que eu já sei quem tu é, Carolzinha!
A bandida acendeu a luz e tirou a máscara.
- Ana, desculpa amiga, não deu pra manter a personagem.
- “Magnata”, Caroline, “Magnata”?! Solta a gente aqui de uma vez, anda!
Armando não conseguia acreditar no que via.
- Amor... Ana... não vai me dizer que você tem algo a ver com isso?
- Desculpa amor, eu tava desesperada! Eu achei que você tava me traindo, aí falei com umas amigas, bolei uma idéia, daí hoje que você finalmente me levou pra sair eu dei um jeito de combinar com a Carol pra colocar o nosso plano em prática.
- Por isso você não largou a porcaria do celular a noite inteira!
- Sim, mas desculpa viu? Tô bem feliz que você reconheceu o aroma do perfume que a gente deu de presente pra Carol. Achei que você nem prestava atenção nessas coisas.
- Tá descontando do meu cartão de crédito ainda, não tem como não prestar atenção. Mas, amor... era só conversar! Não precisava ter feito tudo isso, pra que tanto drama? Quando quiser saber do meu histórico, eu conto! E sexta é dia de futebol, sempre. Eu amo você e nunca seria capaz de fazer alguma coisa pra te magoar, tá?
- E a Larissa Panicat?
- É um perfil fake de um homem. Juro! Vou mandar ele adicionar o Jorjão.
Os três riram.
- Brigado amor. Eu vou colocar uma pizza no forno e te esperar na cama, o que você acha?
- Acho ótimo!
- Então ta. Carol... obrigada, amiga. Desculpa te fazer passar por essa também.
- Imagina, guria... experiência pra vida! Quando precisar, só chamar.
Ana saiu da garagem. Carol começou a guardar as coisas do sequestro falso.
- Pode deixar que eu te ajudo... “Magnata”!
- Ai ai, Armando... desculpa tá? Se eu te machuquei ou quebrei alguma coisa, eu pago.
- Não, tudo bem. Fica tranquila. Eu só ainda não acredito que você aceitou participar disso!
Ela riu. Ele a puxou para perto e deu um cheiro no seu pescoço. Começou a cochichar no seu ouvido. Ela se arrepiou.
- Você sabia que o seu perfume é muito parecido com o perfume dessa tal Larissa Panicat?
- É? Não sabia – ele a abraçou por trás, com força; ela deixou - Fala mais.
- E sabia que essa Larissa na verdade é um perfil fake de uma amiga da minha namorada?
- Jura? Nem imaginava.
- Sim. É com ela que eu tenho encontrado toda sexta. Ela tem fetiches de sequestro.
- Deve ser interessante. Algemas, armas, disfarce...
- Muito! Inclusive, tenho que dizer pra ela que essa sexta espero no lugar de sempre.
- Ué. Não vai ter jogo com o Jorjão?
- Jorjão quebrou o pé a mais de um mês, acredita? Até me mandou a foto do gesso hoje, por mensagem de texto. Deixa eu te mostrar.

***

Sempre desconfie de alguém chamado Armando.