O Dia Em que Escrevi um Livro Para Minha Namorada

Na última quinta-feira, dia 12 de junho, enquanto o mundo esperava pela abertura da Copa do Mundo ou pelas horas de fila que ia encarar na reserva que fez pro Dia dos Namorados, eu estava preocupado em cumprir prazos. O deadline estava chegando e eu tinha que entregar o meu livro.

Garu surgiu no verão de 2012/2013. Fui para praia com uma imagem na cabeça de um jogo da série Final Fantasy, com os personagens cruzando um descampado montados em seus Chocobos. Chocobos são grandes aves que servem de transporte na série. Mesmo não sendo parte essencial da história, eu fiquei imaginando como seria a vida de um personagem com o seu Chocobo de estimação. Imaginei crianças aprendendo a criar Chocobos desde pequenas em uma escola, talvez. E assim começaram as ideias.

Chocobo em ação

Choveu pra cacete naquele verão, então tive tempo para pensar. Com o tempo, a ideia evoluiu para uma história sobre crianças que criam animais "personalizados", que se transformam de uma forma primitiva em uma forma evoluída de acordo com os sentimentos e os gostos do seu dono. Eu nunca dei muita bola para animais de estimação, mas sempre vi as outras pessoas tendo uma ligação especial com seus cachorros e gatos, então pensei que seria um bom tema para abordar.

(Em alguém momento eu pensei: chega de bruxos, vampiros, zumbis, a moda agora é animal de estimação!)

Eu ainda precisava situar a história em algum lugar. Na minha cabeça, aquilo tudo funcionava  bem em um cenário idílico, com campos, praias e montanhas. Logo, a história se passaria em uma ilha, por pura preguiça de criar um continente inteiro. O nome da ilha veio antes de tudo: quando voltei das férias assisti As Vantagens de Ser Invísivel com meu irmão e fiquei fascinado com a cena em que os personagens dançam Come On Eileen, dos Dexy's Midnight Runners. Taí. A história se passaria em Ailim.



Alterei o nome da música para a leitura e a pronúncia ficarem mais simples. Desde o início, quis nomes fáceis. Nada em inglês. Eu queria o tipo de nome e personagens que minha mãe pudesse falar para as pessoas: "esse é Garu, o livro que meu filho escreveu" (tente tocar em uma banda chamada Lonely Hearts Club Band e entenda meu trauma).

Além do mais, nunca gostei de inglesismos enquanto estamos falando em português. Queria passar a ideia de uma civilização nova criando seus próprios nomes. Garu e Ailim surgiram como nomes fáceis de pronunciar, com poucos sons, do tipo que você fala errando outra palavra. Aliás, a maioria dos nomes do livro foram criados assim, juntando sílabas e pronunciando em voz alta. É um ótimo exercício.

Garu surgiu da mesma maneira, no chute. O namorado da Pucca foi a última referência que eu tive; Garu sempre me lembrou o Digimon Garurumon, que tinha forma de um lobo. Desde o início o nome me sugeriu "fera" e tinha uma certa sonoridade que lembrava algo animal, bestial, e combinava muito bem com outros nomes, servindo bem a história ("esse é meu cavalo garu").



De início, pensei em contar a história através de crianças que estavam nessa escola para aprender a cuidar e evoluir seus garus. Elas ganhariam o garu com sete anos numa forma primitiva e teriam que treiná-los até os 15, quando se tornariam um animal da escolha delas. Elas poderiam "guiar" essa evolução: se a criança morasse na praia, ela transformaria o garu em um peixe; se morasse na floresta, transformaria ele em algum animal da floresta.Mas tudo ainda parecia um episódio de Pokémon em uma ilha. Precisava mais.

As referências a Pokémon estiveram sempre presentes, isso é verdade. Na minha cabeça, os garus eram como pequenos Venonats, que evoluíam depois que estivessem prontos e tornavam-se um animal de verdade. Eu cheguei a conversar com amigos e ler um pouco sobre evolução e genética para não falar besteira. Porém, depois de um tempo, apaguei as crianças e decidi que a história iria começar com os garus chegando em Ailim depois de uma grande tempestade. E assim tudo começou, em 10 de janeiro de 2013.

Correções na primeira página já

Comecei a escrever Garu em um caderno que eu já utilizava para outras histórias. Era póetico, eu pensava, e se eu quisesse escrever em qualquer lugar era só levar o caderno comigo. Tirei o computador da escrivaninha do meu quarto e passei a cruzar o fim da tarde e o início da noite escrevendo apenas com a luz que entrava pela janela: eu era "o" escritor.

Pensando bem, essa história sempre teve a ver com chuva

Com o tempo passando e a história crescendo, vieram as dúvidas. Ela se desenvolveu muito bem, mas depois de umas 40 páginas escritas a mão, percebi que não era aquela a história que queria contar. Eu queria escrever um livro que falasse de jovens aprendendo a criar os Garus, mas estava contando a história de uma civilização reconstruindo-se depois de um desastre ecológico. Eu ia chegar de um ponto a outro, mas ia demorar muito. Ainda mais escrevendo a mão. Voltei para os rascunhos.

2013 seguiu com o livro competindo com o último ano de faculdade e o TCC. Deixei o livro de lado e segui desenvolvendo a história nas anotações. É impressionante como você pode mudar de ideia a respeito de algo com o tempo. Essa maturação, junto das minhas leituras sobre assuntos parecidos - TCC sobre histórias em quadrinhos, disciplinas de Estudos Literários e Antiguidade Clássica - foi me dando cada vez mais bagagem para pensar na história, sobre o que funcionava e o que não funcionava.

Mas ainda assim, a coisa andava devagar.

Passei 2013 pensando sobre como queria contar a história. Um personagem? Três personagens? Múltiplos personagens? Ao mesmo tempo em que seria mais simples contar a história do ponto de vista de apenas uma pessoa, isso aos poucos foi me parecendo pouco para o tanto de coisas que eu queria falar e o tanto de assuntos que queria abordar. Sem contar, claro, a presença monumental de Game of Thrones na vida de qualquer nerd que se preze. É impossível assistir o seriado e ler os livros e não se apaixonar com a história contada por múltiplos personagens. O fato de eu sempre gostar de novela também ajudou. Decidi que a história teria sim, múltiplos personagens, e dei vida ao meu elenco.

Mas ainda assim, a coisa andava devagar.

Entra a namorada.

Lindos

Comecei a namorar em 24 de fevereiro de 2013. A minha excelentíssima já entrou nessa sabendo que eu gostava de escrever e dando muita força nisso. Mas assim como ela sabia das minhas qualidades, sabia dos meus defeitos, entre eles a indecisão e a calma e a paciência e a morosidade latente. Eu sabia que tinha que escrever, eu sabia o que escrever, mas entre querer fazer e colocar as coisas no papel existe um abismo em que muitos livros já caíram e nunca foram recuperados. Isso tudo somado ao trabalho com a Festa da Uva 2014 e os preparativos para a festa de formatura deixaram tudo meio lento. Eis que então, entra o ultimato:

"Eu quero o livro de presente de Dia dos Namorados"

Suei frio. Revisei os rascunhos. Analisei a linha do tempo. Não. Era impossível. Para tudo o que eu queria escrever? Nunca! Tolkien escreveu O Senhor dos Anéis numa cama de hospital depois de ser ferido na guerra, seria que assim eu conseguiria? Ou será que me demitindo e aceitando um estágio de 6 horas seria o suficiente? Não. É impossível. Eu precisava pagar as contas. Teria que dar certo.

Contando com o velho adágio de que "as pessoas que conseguiram alcançar o que você quer fizeram isso com as mesmas 24 horas do seu dia", resolvi me mexer. E enquanto eu aprecio o planejamento e a dedicação à pré-organização de algo, um prazo ajuda muito na hora de alcançar algo. Porque falando de forma sincera, eu sabia o que tinha que fazer. Não era preciso inspiração. Era só preciso trabalhar.

Woody Allen, um dos meus autores favoritos, disse certa vez que 80% da vida é aparecer para o trabalho. E assim eu fiz, entregando aos poucos o tempo livre para a escrita, e o tempo ocupado para pensar nela. As anotações nos cantos dos cadernos continuaram decisivas. Com o tempo, comprei um celular novo e passei a anotar coisas ali também. Comecei a escrever uma linha do tempo que ia desde o início da história - a chegada dos garus, a história que eu escrevia no caderno - até o momento que eu queria chegar e dali em frente. Mais adiante, comprei um notebook, escolhido em cima de um único quesito: o teclado tinha que ser bom. Eu não escrevia mais a mão (o fim do sofrimento para um verborrágico como eu) e não tinha mais desculpa para não escrever onde quisesse.

Era engraçado que, depois de um ano juntando palavras para montar a monografia, eu escolhesse repetir justamente aquilo. E é então que você percebe como a monografia foi fácil. Se o trabalho de conclusão de curso depende de você, o livro que você está escrevendo É você. Escrever é uma jornada de autoconhecimento: hoje você escreve no quarto sentado, amanhã procura as palavras certas na sala e depois de amanhã fica se perguntando porque nunca dá certo conjugar verbos na cozinha. A ideia incrível de hoje é terrível amanhã. E quando você menos espera, você descobre que o nome de personagem que criou em um momento de inspiração é uma gíria britânica para vaginas. É a vida.

Isso sem contar nas análises sutis que você acaba descobrindo quando analisa seu próprio texto. Eu, que detesto água e mar e rio e lagos por traumas antigos, situei a história numa ilha que não se comunica com ninguém há anos. O mar é mistério. A divisão da parte boa para a parte ruim da ilha é feita por um... rio. E assim vai. São muitos exemplos de você que você coloca no texto e nem percebe. Escrever é uma sessão de análise. Revisar o próprio texto é terapia.

Do início dessa última jornada de escrita que vingou, que eu calculo que tenha sido ali por fevereiro, até essa semana, consegui colocar no papel 72 páginas de texto corrido. Com os ajustes de espaçamento e inícios de capítulos, cheguei a 116 páginas. E foi esse volume que entreguei para a minha namorada e para minha prima no dia 12 de junho, Dia dos Namorados. Não era o livro completo, mas era um sinal de que eu estava cumprindo minha promessa.

É... vou escrever meu nome maior próxima vez

Eu sigo escrevendo e buscando inspiração. Enquanto a história já está estruturada na minha cabeça, toda ajuda é válida. Em abril comecei um curso de roteiro com foco na essência narrativa que me deu várias ferramentas para "afinar" a minha história. Na internet, sigo buscando técnicas e dicas de construções de personagens e mundos. E claro, sigo praticando a melhor maneira de melhorar a escrita: ler. Muito.

Com o tempo, até o livro ficou mais rico. Eu queria contar a história de jovens e seus animais, e acabei abordando história, religião, respeito a natureza, êxodo rural (juro, percebi essa semana), conflitos históricos e o tema principal do livro: as relações entre pais e filhos. A premissa "jovens que criam animais especias" virou, enfim, um plot: em uma ilha primitiva, jovens de quinze anos participam de um ritual para ganhar um animal que pode decidir seu papel na sociedade. Não é o tipo de coisa fácil de resumir, mas não é nada que nunca foi falado também. Há sempre formas diferentes de contar a mesma história e isso é o legal de escrever.

(Mentira: é Pokémon X Lost X Battle Royale, com um toque de Gabriel Garcia Márquez e estrutura de Game Of Thrones. Pode comprar.)

Finalizando: se você me convidar para uma festa e eu não for, é porque eu estou escrevendo. Se você me convidar para sair, simplesmente para passear, e talvez eu não esteja disposto, é porque eu estou com o notebook no colo. Se eu topar e parecer realmente impressionado com o mundo lá fora ("ESQUILO!"), é porque você estava vendo alguém que está com a cabeça em outro mundo se adaptando ao mundo real. E quando você me encontrar por aí, pode me cobrar: e o livro, como anda? Quero ler, viu? Não demora!



E isso tudo não seria possível, claro, sem o amor e a dedicação (e a pressão, muito positiva) da minha incrível namorada. Nunca ignore o valor de alguém que apoia os seus sonhos. Como eu disse pra ela na dedicatória que fiz: "Isso é prova de que estamos juntos para isso: construir histórias. Essa história é tua.". Se vocês terem o livro em mãos algum dia, vocês terão a história que fiz pra ela.

Agora deixa eu aproveitar e dar uma revisada nas últimas páginas. Afinal, ela pediu o livro inteiro pro Natal.

Xi...

Sam jura que promete que vai tentar terminar o livro até o fim do ano

2 comentários:

Anônimo disse...

"Isso sem contar nas análises sutis que você acaba descobrindo quando analisa seu próprio texto. Eu, que detesto água e mar e rio e lagos por traumas antigos, situei a história numa ilha que não se comunica com ninguém há anos. O mar é mistério. A divisão da parte boa para a parte ruim da ilha é feita por um... rio. E assim vai. São muitos exemplos de você que você coloca no texto e nem percebe. Escrever é uma sessão de análise. Revisar o próprio texto é terapia."

Muito legal!!! Boa sorte!
Me lembrei de um libro não muito 'queridinho' para te inspirar que se passa em uma ilha: O Senhor das Moscas... Tem crianças também hahaha!
Quero poder dar pro meu irmão ler, força Samuca!

Muito legal te ver motivado! Dá parabéns pra Eloá! haha

Babi Schneider

Samuel Rodrigues disse...

bah, o Senhor das Moscas eu nunca li, só vi o filme, mas sei que é tenso! de repente é uma boa leitura pra inspirar :)

e brigadão! os parabéns estão dados!