Oito razões para deixar seu filho ter uma banda

Que aprender a tocar um instrumento musical é uma atividade que pode mudar a vida de uma criança todo mundo sabe. Ela mexe com o ser humano em tantos níveis que é impossível passar incólume pelo aprendizado de algumas poucas notas. As crianças que aprendem a tocar algum instrumento musical com certeza desenvolverão uma habilidade de aprendizado diferenciada pelo resto da vida.

Mas um dos maiores benefícios de tocar um instrumento musical é poder fazer parte de uma banda. E essa experiência às vezes é tão valiosa quanto o próprio ato de aprender a tocar. Quando tiver um filho, deixe-o fazer parte de uma banda. Ele vai aprender muita coisa.

Palavra de quem sabe, vai por mim
Ele aprenderá a lidar com gente diferente

Muitas pessoas definem bandas como grandes casamentos, mas como você não imagina seu filho casar com meia dúzia de barbudos, encare uma banda como uma grande amizade por afinidade. Ele poderá formar uma banda com amigos que conhece desde pequeno, com quem conviveu por uma vida toda, mas eventualmente formará bandas com alguém que conheceu na metade do caminho, alguém que naquele momento, só compartilha do mesmo gosto musical dele e nada mais. E aprender a achar similaridades e superar diferenças pelo simples prazer de tocar com alguém é uma das maiores vantagens de fazer parte de uma banda.

Ele irá ralar muito

A menos que a banda surja pelo simples prazer de tocar – e convenhamos, será assim por alguns anos – seu rebento com certeza sonhará em seguir carreira musical. E tentar dar certo no mundo da música é uma jornada dupla de trabalho. Ele irá ralar, aprender música, se decepcionar, fazer shows, se decepcionar, ficar acordado até tarde, se decepcionar... deu pra entender né? Muitas vezes as alegrias virão, mas até ele chegar em um nível aceitável de felicidade com sua banda, ele irá quebrar a cara muitas vezes. E caso tudo dê certo, ele verá que valeu a pena. A gente sempre valoriza aquilo que conseguiu com muito esforço e, com sorte, ele levará esse pensamento para as outras coisas que desejar na vida.

Ele irá aprender sobre um monte de coisas além de música

É fato incontestável que as pessoas aprendem mais inglês ouvindo música e jogando videogames do que de qualquer outra maneira. Ter uma banda é praticamente um cursinho de inglês não pago. Isso sem contar todas as outras coisas que seu filho pode aprender ouvindo música: aulas de história, com canções falando sobre acontecimentos famosos no mundo; aulas de literatura, com canções baseadas em livros; aulas de geografia, porque eventualmente ele vai se apaixonar por alguma banda da Europa ocidental; aulas de moda e etiqueta, conhecendo vários estilos e criando o seu próprio; aulas de redação, escrevendo canções... Fazer parte de uma banda é um aprendizado constante de coisas úteis e inúteis. E todo mundo ama coisas inúteis.

Aula de Segunda Guerra Mundial com o Iron Maiden

Ele aprenderá a lidar com rejeição

Imagine a cena: quinta-feira de noite, frio, passagem de som feita, palco montado, cara montada, repertório decorado e na plateia... ninguém. Só as namoradas da banda e o dono do bar. Isso quando elas conseguem ir. Pra quem não sabe lidar com isso, todo esse esforço por nada pode ser um belo motivo pra desanimar. Quem consegue relaxar e tocar mesmo assim, sai ganhando sempre. E ainda ensaia de graça.

Ele lidará bem com a diversidade

Por mais que você goste mais de um estilo do que de outro, os instrumentos são os mesmos. A guitarra do rock and roll tem seis cordas, assim como a guitarra do axé. O mesmo piano que toca Mozart toca reggae. A mesma gaita que toca folk toca sertanejo. As notas musicais são as mesmas. Se ele conseguir entender isso, vai ter sempre algo pra se divertir, em qualquer lugar que for, independente da música que tocar. Mas se você entrar no quarto dele e ele estiver vendo o clipe da Anitta para ouvir o fá si bemol do terceiro compasso, desconfie.

Pre-para

Ele irá respeitar os mais velhos

Ter uma banda é uma lição de humildade: não importa o quanto você trabalhe, tem sempre um Paul McCartney, 71 anos, fazendo shows de 3 horas por aí. Não importa o quanto você se canse, tem um Bruce Springsteen, 63 anos, fazendo espetáculos para multidões por quase 4 horas. Não importa o quando seu filho estude e aprenda e se dedique em ser músico, sempre haverá um senhor de idade pronto para chutar sua bunda com mais energia do que ele pode imaginar. E fazendo um solo de guitarra enquanto isso.

Velhinhos e melhores do que você

Ele aprenderá com os bons exemplos...

Live Aid, Live8, We Are the World, Concert for Bangladesh... quer arregimentar muita atenção para sua causa? Chame um monte de músicos e ponha eles pra tocar! Muitas vezes isso acontece por puro oportunismo, mas não faltam bons exemplos de músicos que doaram tempo, dinheiro e solos de guitarra para chamar a atenção do mundo para causas importantes. E isso não é coisa de músico tiozinho querendo reerguer sua carreira não: todo ano acontece na Inglaterra o Comic Relief, evento de arrecadação que conta com um single exclusivo, interpretado por uma banda que está em alta no momento. Ano passado foi o One Direction. Ok, você pode achar que o One Direction não é uma banda, mas a música é cover do Blondie misturado com o refrão de uma música dos Undertones, então tá valendo.

Ah vai, tem uma guitarra ali no meio

...e aprenderá com os maus exemplos

Ok, o mundo da música é um dos poucos em que os ídolos da multidão normalmente morrem afogados em seu próprio vômito. Ou por overdose. Ou misteriosamente aos 27 anos. Mas isso perdeu o seu glamour há muito tempo atrás. Hoje em dia é mais comum saber de músicos que foram expulsos de suas bandas por mau comportamento, do que músicos que morreram de causas misteriosas. Scott Weiland, por exemplo, foi expulso do Velvet Revolver, banda que formou no hiato do Stone Temple Pilots, sua banda original. Depois, quando voltou para o Stone Temple Pilots, foi expulso de novo! Isso é como ser demitido pelos seus próprios funcionários. Mas claro, pra cada caso bom existe um Chorão da vida. Mas né... quem se importa com o Chorão?


Não, essa música não é do Pearl Jam

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Claro, em caso de dúvidas, sempre dê preferência a você ter uma banda antes de ter filhos. Porque o contrário provavelmente será mais complicado. Por isso, MEXA-SE! Vai, explore o mundo lá fora, forme uma banda! A discografia do Legião Urbana não vai ser aprendida por osmose!

Sam já tocou numa banda de rock japonês

A Prática, a Perfeição e o Refinamento

Tenho lido vários manuais e textos sobre criação literária ultimamente. São textos técnicos, com dicas variadas sobre construção de personagens, pontos importantes em uma história, definição de arquétipos, algo que sempre me interessou. Tenho escrito com uma produtividade bastante boa nos últimos dias, o que tem me deixado bastante feliz. E foi justamente essa produtividade que me levou ao texto de hoje.

Todos os manuais que li concordam com essa velha máxima de que a prática leva a perfeição. Essa não é a última novidade do mundo, mas é algo que a gente sempre esquece quando quer desenvolver um "hábito fora da nossa rotina". Explico: eu sempre gostei de escrever, a um ponto em que até quem não me conhece sabe disso. Mas basta dar uma rolada para baixo no blog pra perceber que a frequência não é das maiores. E afirmo sem dúvidas que meus melhores textos surgem nas épocas de maior produtividade.

Logo, a prática realmente leva a perfeição.

"Perfeição", claro, é um conceito muito vago, já que varia de cada um. Eu diria que a prática leva a "fazer coisas com menor esforço, com menos desistências no caminho, chegando assim em momentos de perfeição", mas a frase ia ficar muito grande pra colocar em um post-it pra não esquecer. O porém que me faz escrever esse texto é que, pelo menos no campo da redação, no campo da escrita em geral, só a prática não resolve. A perfeição não é nada sem o refinamento.

Um manual que li esses dias instruía o leitor a perceber que os momentos do dia em que ele realizava o ato de escrever - um post no Facebook, uma piada no Twitter, uma mensagem de texto para alguém - por mais mundanos que fossem, ainda assim eram momentos de prática da escrita. Escrever uma piada no Twitter em 140 caracteres exige uma concisão digna de redator. Revisar um e-mail antes de enviar para um cliente também. E por aí vai.

O texto seguia sugerindo que, assim que o leitor percebesse esses momentos de escrita passiva, transformasse-os em escrita ativa. Você já é craque em escrever piadas em 140 caracteres, a sua prática já levou a perfeição, legal. Então, porque ao invés de gastar essa prática no Twitter, você não puxa um caderno de lado e escreve uma cena, uma descrição de personagem, um resumo de capítulo?

Falando assim parece algo bobo, mas é só quando você sente uma real necessidade de fazer alguma coisa - escrever, perder peso, aprender japonês - e se vê sem tempo para realizar essa atividade, que você percebe quanto tempo perde em coisas desnecessárias. Quando a gente quer mesmo fazer alguma coisa e não tem tempo, chega a doer. E é quando dói que a gente arranja tempo. Ser humano é um bicho difícil mesmo.

De volta ao manual. O mais interessante ainda vinha pela frente. Depois de perceber esses momentos de ócio e transformá-los em momentos produtivos, o manual ainda sugeria reservar um outro momento adiante para revisar o que foi escrito e melhorar. E incluir no ato da "prática" o ato do "refinamento" é a grande jogada para conseguir ser produtivo, para chegar a verdadeira perfeição almejada. É como cozinhar arroz. Você sabe fazer arroz, óbvio (eu não saberia responder com tanta certeza), sabe fazer de uma maneira tão automática que faria de olhos fechados. Mas é o tempo que você gasta a mais, cuidando do ponto, do tempero, da lavagem do arroz, que faz ele ficar melhor ainda.

(Arroz se lava, não?)

A coisa legal do refinamento é que ela ajuda a perceber o que você gosta mesmo de fazer. Você não vai gastar tempo a mais refinando tudo. Talvez você queira ser um cozinheiro que faz o melhor arroz do mundo, então vai gastar o tempo necessário para aprender isso. Mas talvez você seja só alguém que gosta do seu arroz básico, do jeito que você faz todo dia. Você pode fazer muitas coisas com perfeição, mas só aquilo que você gosta mesmo de fazer, irá merecer o seu refinamento. Sabe aquelas coisas que você diz: "ah, tá bom assim?". Perfeição. Mas aquilo que faz você esquecer do mundo ao redor, aquilo que você se entrega, aquilo que você se orgulha... refinamento.

Descobrir o que merece seu "refinamento" ajuda a descobrir muitas coisas sobre si e ajuda a tomar decisões sobre o futuro. Essa minha última semana de "produtividade literária" me fez ter mais certeza ainda que, entre as minhas atividades, o que merece meu refinamento é a escrita. Eu estou longe da perfeição trazida pela prática, mas o esmero que eu coloco em escrever as palavras certas e o prazer que eu sinto quando consigo me dão certeza que é ali que vou construir as coisas que me darão orgulho.

E você... para o que você guarda seus momentos de refinamento?

Sam guarda seus momentos de refinamento para a hora de comer também