Tenho lido vários manuais e textos sobre criação literária ultimamente. São textos técnicos, com dicas variadas sobre construção de personagens, pontos importantes em uma história, definição de arquétipos, algo que sempre me interessou. Tenho escrito com uma produtividade bastante boa nos últimos dias, o que tem me deixado bastante feliz. E foi justamente essa produtividade que me levou ao texto de hoje.
Todos os manuais que li concordam com essa velha máxima de que a prática leva a perfeição. Essa não é a última novidade do mundo, mas é algo que a gente sempre esquece quando quer desenvolver um "hábito fora da nossa rotina". Explico: eu sempre gostei de escrever, a um ponto em que até quem não me conhece sabe disso. Mas basta dar uma rolada para baixo no blog pra perceber que a frequência não é das maiores. E afirmo sem dúvidas que meus melhores textos surgem nas épocas de maior produtividade.
Logo, a prática realmente leva a perfeição.
"Perfeição", claro, é um conceito muito vago, já que varia de cada um. Eu diria que a prática leva a "fazer coisas com menor esforço, com menos desistências no caminho, chegando assim em momentos de perfeição", mas a frase ia ficar muito grande pra colocar em um post-it pra não esquecer. O porém que me faz escrever esse texto é que, pelo menos no campo da redação, no campo da escrita em geral, só a prática não resolve. A perfeição não é nada sem o refinamento.
Um manual que li esses dias instruía o leitor a perceber que os momentos do dia em que ele realizava o ato de escrever - um post no Facebook, uma piada no Twitter, uma mensagem de texto para alguém - por mais mundanos que fossem, ainda assim eram momentos de prática da escrita. Escrever uma piada no Twitter em 140 caracteres exige uma concisão digna de redator. Revisar um e-mail antes de enviar para um cliente também. E por aí vai.
O texto seguia sugerindo que, assim que o leitor percebesse esses momentos de escrita passiva, transformasse-os em escrita ativa. Você já é craque em escrever piadas em 140 caracteres, a sua prática já levou a perfeição, legal. Então, porque ao invés de gastar essa prática no Twitter, você não puxa um caderno de lado e escreve uma cena, uma descrição de personagem, um resumo de capítulo?
Falando assim parece algo bobo, mas é só quando você sente uma real necessidade de fazer alguma coisa - escrever, perder peso, aprender japonês - e se vê sem tempo para realizar essa atividade, que você percebe quanto tempo perde em coisas desnecessárias. Quando a gente quer mesmo fazer alguma coisa e não tem tempo, chega a doer. E é quando dói que a gente arranja tempo. Ser humano é um bicho difícil mesmo.
De volta ao manual. O mais interessante ainda vinha pela frente. Depois de perceber esses momentos de ócio e transformá-los em momentos produtivos, o manual ainda sugeria reservar um outro momento adiante para revisar o que foi escrito e melhorar. E incluir no ato da "prática" o ato do "refinamento" é a grande jogada para conseguir ser produtivo, para chegar a verdadeira perfeição almejada. É como cozinhar arroz. Você sabe fazer arroz, óbvio (eu não saberia responder com tanta certeza), sabe fazer de uma maneira tão automática que faria de olhos fechados. Mas é o tempo que você gasta a mais, cuidando do ponto, do tempero, da lavagem do arroz, que faz ele ficar melhor ainda.
(Arroz se lava, não?)
A coisa legal do refinamento é que ela ajuda a perceber o que você gosta mesmo de fazer. Você não vai gastar tempo a mais refinando tudo. Talvez você queira ser um cozinheiro que faz o melhor arroz do mundo, então vai gastar o tempo necessário para aprender isso. Mas talvez você seja só alguém que gosta do seu arroz básico, do jeito que você faz todo dia. Você pode fazer muitas coisas com perfeição, mas só aquilo que você gosta mesmo de fazer, irá merecer o seu refinamento. Sabe aquelas coisas que você diz: "ah, tá bom assim?". Perfeição. Mas aquilo que faz você esquecer do mundo ao redor, aquilo que você se entrega, aquilo que você se orgulha... refinamento.
Descobrir o que merece seu "refinamento" ajuda a descobrir muitas coisas sobre si e ajuda a tomar decisões sobre o futuro. Essa minha última semana de "produtividade literária" me fez ter mais certeza ainda que, entre as minhas atividades, o que merece meu refinamento é a escrita. Eu estou longe da perfeição trazida pela prática, mas o esmero que eu coloco em escrever as palavras certas e o prazer que eu sinto quando consigo me dão certeza que é ali que vou construir as coisas que me darão orgulho.
E você... para o que você guarda seus momentos de refinamento?
Sam guarda seus momentos de refinamento para a hora de comer também
2 comentários:
e o açúcar que já nasceu refinado, hein? ãn? ãn?
(me encaixo no perfil "piadas sem graça de 140 caracteres no twitter")
Pois é, eu até tentei pensar em outro termo ao invés de refinamento pra evitar essa piadinha. Mas eu pensei nela também, então ah... deixa! hehe
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