Dois momentos em especial marcaram esse fim de semana, dois momentos que de certa forma se complementam.
Na sexta-feira, antes de sair do trabalho, uma colega minha que saiu 5 minutos antes de mim ficou presa no elevador. Como eu ainda estava no trabalho, ela me ligou, desci do 7º andar até o térreo, pedi para a mulher da portaria ligar para a assistência, subi e liguei para ela para avisar isso. A moça da sala da frente pediu então porque eu não usava a chave de destravamento para tentar abrir o elevador. Desci até o térreo novamente e pedi pela chave de destravamento. A mulher da portaria me entregou um ferro retorcido em três voltas e deu o aviso: "se tu tentar abrir com essa chave, a responsabilidade é tua". Subi de volta ao 7º andar e pesquisei na internet como se usava aquele troço estranho. Felizmente, nesse meio tempo, o técnico chegou e liberou minha colega. Ela foi embora e eu fui logo depois.
Ainda na sexta-feira, fui para Gramado e Canela com a namorada e um casal de amigos. Na volta para casa no domingo, o motorista da turma, em frente a estrada a nossa frente, o belo dia de sol e a emoção incontida (exagerei um pouco, mas é verdade) declara: "Que coisa boa isso né? Olha esse tempo, esse sol, essa estrada!". Os outros três passageiros do carro, tão empolgados quanto o motorista, mas talvez não precisando expor a emoção naquele momento, simplesmente concordaram. "Pois é, lindo."
Hoje voltei para o trabalho e a minha colega me contou o que aconteceu depois de sair do elevador. Ela saiu do prédio e a grade de fora estava trancada. Mais uma vez, ela estava trancada em algum lugar. Felizmente, alguém estava saindo bem na hora e ela aproveitou para sair junto. E foi então que ela, que havia ficado calma o tempo inteiro durante a situação do elevador, finalmente sentiu o pânico de ficar presa: quando se sentiu livre.
Ao sair na rua, depois de ficar presa duas vezes, e ouvir as pessoas, os carros, sentir o ambiente lá fora, "caiu a ficha" de que ela havia ficado presa. Ela saiu andando em linha reta de cabeça baixa em direção a sua casa, sem ver nada ao redor. Quando um conhecido passou por ela e chamou ela em voz alta, porque ela havia passado reto por ele, ela foi cumprimentar ele e caiu no choro. "O que aconteceu?" ele pediu. "Fiquei trancada no elevador." E começou a rir da situação.
Nós normalmente não damos conta do nosso real tamanho. Ao ficar preso no elevador, você reduz o seu mundo as quatro paredes ao redor. É uma situação estressante, mas que você tem "sob controle": tem noção de espaço (você está dentro do elevador, dentro do prédio), noção de tempo (faz cinco minutos que você está ali), e de localização (você está no 7º andar do prédio em que você trabalha). Mas quando você sai no mundo real, lá fora, é que você percebe que estava trancado em uma caixa de metal presa por cabos em uma estrutura metálica, que dependia da boa vontade de outra pessoa para tirar você dali, que dependia do trânsito para chegar até ali, pessoa essa que tinha que cruzar uma certa distância para chegar até o lugar onde você trabalha, que nesse caminho várias coisas podiam acontecer para atrasá-la, que... Era o mundo livre oprimindo a pessoa que antes presa, tinha noção do seu mundo, mesmo que opressor.
De volta a viagem: sabe quando você tem necessidade de falar algo? Quando as palavras precisam sair? Quando você ri de forma sincera, quando você fala aquela coisa difícil na cara de alguém, quando você sorri fácil por estar com alguém que você gosta? Essa foi a situação. Naquele momento, naquele instante, as palavras precisavam imortalizar aquele pedacinho de caminho que a gente estava cruzando. Alguém precisava dizer que o tempo estava lindo, que a estrada estava ótima, que as companhias estavam perfeitas e que todo mundo devia ter consciência disso. O lugar onde estávamos não importava: era entre onde estávamos e o nosso caminho de casa. Só. O tempo também não importava: já tínhamos saído a algumas horas mas ainda íamos demorar mais um tempo pra ir pra casa. Podíamos parar pra passear, pra comer, tirar fotos. Essa própria indefinição era a única coisa definitiva. Não tínhamos noção do nosso mundo, mas estávamos em um mundo livre.
O mesmo mundo livre que oprimiu minha colega que estava presa no elevador assim que ela saiu dele.
A ironia serve pra lembrar que o nosso lugar no mundo é definido por nós, mas, assim como podemos escapar nele, podemos nos trancar nele bem fácil. É uma conclusão tosca, de tão óbvia. O "lá fora" nem sempre é o mesmo, mas é sempre necessário. Então, quando você estiver em uma situação agradável, à vontade, com amigos, com família, com namorada, quando as palavras precisarem sair e alguém falar antes de você "que dia lindo", não tenha medo de completar: "porra, é verdade". Ou faça como eu e diga: "pois é, podia ser pior; a gente podia estar na Coréia da Norte e o nosso ditador podia estar querendo explodir o resto do mundo".
Sempre funciona.
Sam é amigo das escadas faz tempo.
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