O rock and roll sempre serve de voz para muitos sentimentos do seu público, assim como qualquer estilo de música. Normalmente, claro, o rock dá voz a rebeldia e não tem sonho de independência maior do que morar sozinho. Ok, talvez um carro, uma viagem, poder escolher o emprego que quiser, acordar a hora que quiser... mas morar sozinho é algo muito desejado! Fazer festa, incomodar os vizinhos, acordar e ver a casa destruída. Quem nunca?
*****
Tom Petty já falou sobre isso em "The Apartment Song", em que falava sobre os vizinhos batendo na porta e aquele sentimento de solidão que bate as vezes em quem conseguiu morar sozinho. Há uma versão dessa música com a Stevie Nicks também. Passe longe dessa.
"Oh yeah, I'm alright
I just feel a little lonely tonight"
*****
Quando foram gravar o primeiro álbum, "Room On The Third Floor", o McFly se mudou para um apartamento onde pudessem gravar o CD em paz enquanto moravam juntos. Mas se o apartamento que eles foram morar foi que nem o que eles descreveram na faixa-título do álbum, com uma cama quebrada, o ar condicionado travado no quente e os vizinhos de cima reclamando do volume muito alto, eu acho que eles podiam ter gastado mais um tempo procurando outro apê.
"Room on the third floor
Not what we asked for
And I'm not tired enough to sleep"
*****
Claro, as vezes a gente encontra um apê legal, decente, que dê pra levar a banda, ensaiar, arrasar a cidade, fazer umas festinhas... é exatamente sobre isso que fala "NW Apartment", do Band Of Horses. E claro, sem esquecer daquele sentimento comum de quem faz festinhas em casa: alguém dormiu na minha cama?
"In the morning I wake up I'm ready for the night time to begin
And what's that over there on my pillow
Someone sleeping in my bed"
*****
E as vezes, a relação com o próprio apê pode ser tão doentia que a pessoa fica mal quando tem que sair dele visitar alguém. Desapega amigo! Não faça que nem o Young The Giant. Se bem que um uivo dentro de mim as vezes não é agonia, é só fome. Fica a dica.
"After leaving my apartment
I feel this cold inside
It howls away all through the market
It calls your name"
*****
No final, ironicamente, quem detalha melhor o clima de festa enquanto tá morando sozinho não é nenhuma banda de rock não, e sim um um prazer culposo que eu adoro cantar. Faz tempo que eu penso que o sertanejo é o único que consegue transportar o clima festivo do início do rock and roll pras letras de hoje em dia (ou me diz uma banda NOVA que fale primariamente sobre fazer festa, beber e ir atrás de mulher?). Essa música do João Neto & Frederico atinge direitinho o público-alvo deles, os universitários que tão saindo da casa dos pais agora e mais preocupado em fazer um lê-lê-lê do que passar na faculdade. A parte de pedir uma grana em casa é muito verdadeira. Mas vai dizer: essa música é mais fácil de guardar do que as datas da reunião do condomínio.
"Agora eu tô sossegado, tô na farra e não nego
Ninguém manda em mim, eu faço tudo o que eu quero"
*****
O Playlist é um espaço semanal onde eu aponto meia dúzia de músicas sobre o mesmo assunto que ocupam o meu vasto HD. Sugestões de assunto? Comente!
*****
Sam ainda não sabe quando vai morar sozinho
Acelera e Vai
Começa com um passo simples. "Vamos ver onde que vai dar". Mas nunca acaba onde você espera. Sempre adiante. E melhor.
*****
Fui atrás de uma fonte para uma reportagem. Dia ensolarado, quente, vento batendo displicentemente no rosto pela janela do carro, mais dengoso que casal de namorados recém-formado. Fui até o bairro onde encontraria a fonte, dei três voltas em busca dela e não encontrei o que queria. Segui uma rua, peguei outra, virei a direita em outra, segui reto... quando me dei por conta, já estava longe demais do início do bairro. De repente, uma longa estrada entre um caminho arborizado abriu a minha frente.
"Hm. Vamos vendo onde que vai dar."
Ai minha gasolina.
*****
Dirigi ininterruptamente por um tempo indeterminado. Dirigi durante 8 músicas. Aos poucos, ia checando as condições da viagem: a gasolina, a hora, a temperatura, o lugar, a gasolina, mensagens de texto, a gasolina... Mas foi quando eu estava subindo uma estrada na encosta de algumas videiras cantando "I Ain't the Same" do Alabama Shakes que eu resolvi admitir.
"Estou perdido. Oba."
"No, you ain’t gonna find me
Oh no, cause I’m not who I used to be"
Nesse ponto da viagem eu realmente não fazia ideia de onde estava. Mas tudo tranquilo, eu tinha gasolina e a vontade de continuar e ver onde ia dar era mais forte. A cada entrada de chácara e terreno que me permitia fazer a volta eu pensava "ah, na próxima eu faço o retorno". Não houve próxima, claro.
De repente, uma bifurcação. Esquerda ou direita? Estrada troll. Segui pela esquerda e percebi que ali já conhecia de outras viagens, mas tinha chegado lá por outra estrada, não a que peguei dessa vez. Estranho. Segui a esquerda da bifurcação e passei por uma vinícola, para logo em seguida chegar em uma igreja que eu já conhecia. Ao lado dela, um grande salão de festas e um cemitério. Ao lado disso tudo, em um terreno desnivelado, um campo de futebol. Eu não sei onde estava, mas era onde a ação acontecia.
*****
Ou onde DEVERIA acontecer, claro, afinal, eu era o único ser humano em um raio de muitos quilometros. Eu só ouvia ao longe as cabritas fazendo barulho (e confesso que entendi um pouco aqueles gaudérios velhos que carcam as cabritas - eles devem ser muito solitários; mas não tive nenhuma ideia nem vontade, ok?). Os cavalos também se pronunciavam no meio da baderna sonora. Eram tantos sons diferentes da natureza ao redor que o único som que não achava eco era a batida oca da porta metálica do meu carro. Sentei em um dos banquinhos cor de rosa que serviam para a torcida assistir o jogo e lá fiquei.
Para descrever o que aconteceu depois disso seriam necessários uns três parágrafos em branco, porque foi exatamente isso que aconteceu: longos quinze minutos de um longo NADA. E sinceridade aqui: há quanto tempo eu estava precisando de um longo nada naminha vida. Really. Me instalei naquele banquinho rosa e me permiti fazer parte daquele cenário bucólico que eu nunca conheci antes. Fiz companhia para as cabras, os cavalos, os mosquitos e os mortos do cemitério atrás de mim. Ignorei onde eu estava, quem eu era e o que devia fazer. E fiquei feliz.
*****
O fim da tarde foi aos poucos chegando e a agonia por ter de deixar aquele lugar de extrema paz aumentava. Resolvi então voltar a estrada e pegar o por-do-sol dirigindo. Liguei o rádio, passei a música e começou a tocar "Sleep Forever", do Portugal The Man. Tudo o que eu queria ouvir.
Bem nessas...
A música durou exatamente o tempo do sol sumir. A música acabou, o clima esfriou, as pessoas começaram a surgir de todos os lados e eu juro que a viagem de volta durou 5min. Cheguei a conclusão que o tempo de viagem é proporcional a sua expectativa pelo destino: quanto menos você sabe onde vai chegar, mais demora. Mas vale a pena.
*****
Por isso, quando o nó na garganta apertar, fuja. Fuja o mais rápido que puder, como se sua sanidade mental dependesse disso. Provavelmente ela não depende, mas colocar ela como prioridade ajuda a manter as coisas em perspectiva e descobrir o que é mais importante. O inconsequente as vezes se faz necessário.
"if you don't know where you're going, any road will take you there"
Sam realmente NÃO SABE onde foi parar
*****
Fui atrás de uma fonte para uma reportagem. Dia ensolarado, quente, vento batendo displicentemente no rosto pela janela do carro, mais dengoso que casal de namorados recém-formado. Fui até o bairro onde encontraria a fonte, dei três voltas em busca dela e não encontrei o que queria. Segui uma rua, peguei outra, virei a direita em outra, segui reto... quando me dei por conta, já estava longe demais do início do bairro. De repente, uma longa estrada entre um caminho arborizado abriu a minha frente.
"Hm. Vamos vendo onde que vai dar."
Ai minha gasolina.
![]() |
| Foi aqui que deu. Mas até chegar aqui... |
*****
Dirigi ininterruptamente por um tempo indeterminado. Dirigi durante 8 músicas. Aos poucos, ia checando as condições da viagem: a gasolina, a hora, a temperatura, o lugar, a gasolina, mensagens de texto, a gasolina... Mas foi quando eu estava subindo uma estrada na encosta de algumas videiras cantando "I Ain't the Same" do Alabama Shakes que eu resolvi admitir.
"Estou perdido. Oba."
"No, you ain’t gonna find me
Oh no, cause I’m not who I used to be"
Nesse ponto da viagem eu realmente não fazia ideia de onde estava. Mas tudo tranquilo, eu tinha gasolina e a vontade de continuar e ver onde ia dar era mais forte. A cada entrada de chácara e terreno que me permitia fazer a volta eu pensava "ah, na próxima eu faço o retorno". Não houve próxima, claro.
De repente, uma bifurcação. Esquerda ou direita? Estrada troll. Segui pela esquerda e percebi que ali já conhecia de outras viagens, mas tinha chegado lá por outra estrada, não a que peguei dessa vez. Estranho. Segui a esquerda da bifurcação e passei por uma vinícola, para logo em seguida chegar em uma igreja que eu já conhecia. Ao lado dela, um grande salão de festas e um cemitério. Ao lado disso tudo, em um terreno desnivelado, um campo de futebol. Eu não sei onde estava, mas era onde a ação acontecia.
![]() |
| O campo mal utilizado |
*****
Ou onde DEVERIA acontecer, claro, afinal, eu era o único ser humano em um raio de muitos quilometros. Eu só ouvia ao longe as cabritas fazendo barulho (e confesso que entendi um pouco aqueles gaudérios velhos que carcam as cabritas - eles devem ser muito solitários; mas não tive nenhuma ideia nem vontade, ok?). Os cavalos também se pronunciavam no meio da baderna sonora. Eram tantos sons diferentes da natureza ao redor que o único som que não achava eco era a batida oca da porta metálica do meu carro. Sentei em um dos banquinhos cor de rosa que serviam para a torcida assistir o jogo e lá fiquei.
![]() |
| O banquinho rosa |
Para descrever o que aconteceu depois disso seriam necessários uns três parágrafos em branco, porque foi exatamente isso que aconteceu: longos quinze minutos de um longo NADA. E sinceridade aqui: há quanto tempo eu estava precisando de um longo nada naminha vida. Really. Me instalei naquele banquinho rosa e me permiti fazer parte daquele cenário bucólico que eu nunca conheci antes. Fiz companhia para as cabras, os cavalos, os mosquitos e os mortos do cemitério atrás de mim. Ignorei onde eu estava, quem eu era e o que devia fazer. E fiquei feliz.
*****
O fim da tarde foi aos poucos chegando e a agonia por ter de deixar aquele lugar de extrema paz aumentava. Resolvi então voltar a estrada e pegar o por-do-sol dirigindo. Liguei o rádio, passei a música e começou a tocar "Sleep Forever", do Portugal The Man. Tudo o que eu queria ouvir.
Bem nessas...
A música durou exatamente o tempo do sol sumir. A música acabou, o clima esfriou, as pessoas começaram a surgir de todos os lados e eu juro que a viagem de volta durou 5min. Cheguei a conclusão que o tempo de viagem é proporcional a sua expectativa pelo destino: quanto menos você sabe onde vai chegar, mais demora. Mas vale a pena.
*****
Por isso, quando o nó na garganta apertar, fuja. Fuja o mais rápido que puder, como se sua sanidade mental dependesse disso. Provavelmente ela não depende, mas colocar ela como prioridade ajuda a manter as coisas em perspectiva e descobrir o que é mais importante. O inconsequente as vezes se faz necessário.
"if you don't know where you're going, any road will take you there"
Sam realmente NÃO SABE onde foi parar
PLAYLIST - Kill the DJ!
O Green Day está lançando aos pouquinhos os singles da sua nova trilogia de álbuns ¡Uno!, ¡Dos! e ¡Tré!, que serão lançados em setembro, novembro e janeiro, respectivamente. A última música lançada foi a homicida "Kill the DJ", que dá pra ouvir aí embaixo, com uma batida dançante bem diferente do esperado do Green Day e o Billie Joe falando palavrões a vontade, bem perto do esperado do Green Day.
"someone kill the DJ, shoot the fuckin' DJ
hold him underwater till the motherfucker drowns"
A música claro é arriação pura, já que até o riff dela é BEM parecido com "Robot Rock", do Daft Punk, que no final das contas, são dois DJs, e ela até serve muito bem pra ser remixada e ir parar na pista de dança. Até original ela pode ser tocada. Mas de qualquer jeito, vale a pergunta: apesar das pessoas preferirem cada vez mais festas do que shows de bandas, quem nunca quis matar o DJ?
*****
O Jet expressa um pouco dessa raiva em "Rollover DJ". Confesso que antes de discotecar a visão que eu tinha de DJs era parecida com a deles; depois de começar a discotecar, eu tive certeza.
"I wanna move but I don't feel right
'Cause you've been playing other people's songs all night"
*****
O Cobra Starship é mais direto ainda: não culpe o mundo, a culpa é do DJ. Claro.
"don't blame the world, it's the DJ's fault"
*****
Pelo menos o R.E.M. salva um pouco a pele dos DJs. Mas só porque a música é narrada por um DJ... morrendo? Aliás, bela música, diferente do R.E.M. mais conhecido, vale a pena ouvir.
"if death it's pretty final, i'm collecting vynil
i'm gonna DJ at the end of the world!"
*****
De qualquer jeito, tendo experiência dos dois lados, posso afirmar que DJ não é muito diferente de banda: eles só querem tocar aquilo que eles gostam... e que normalmente, só umas 10 pessoas conhecem, entre elas, outros DJs, família, namorada e aquele cara que acessa o mesmo blog obscuro que ele. E fazer isso enquanto alguém vem na cabine dizer "TOCA KUDURO" ou "TU NÃO VAI TOCAR A MINHA MÚSICA DA FLORENCE?" pode ser bem difícil. Por isso, tenha paciência com eles.
No final, você pode até cantar Robbie Williams junto com ele, que tal?
"I don't wanna rock, DJ
but you're making me feel so nice"
Só não tire a roupa. Nem a pele. Por favor.
*****
Vou tentar fazer disso uma nova sessão no blog, pra não perder aquela vontade de falar de música dos bons tempos de Cometa Hits: a Playlist vai ir ao ar toda semana, provavelmente na terça, sempre com meia dúzia de músicas do meu vasto HD falando sobre algum assunto. Semana que vem, músicas que falam sobre morar sozinho. Sugestões de assunto e de música? Comenta ai!
*****
Sam ainda não mudou sua opinião sobre DJs
"someone kill the DJ, shoot the fuckin' DJ
hold him underwater till the motherfucker drowns"
A música claro é arriação pura, já que até o riff dela é BEM parecido com "Robot Rock", do Daft Punk, que no final das contas, são dois DJs, e ela até serve muito bem pra ser remixada e ir parar na pista de dança. Até original ela pode ser tocada. Mas de qualquer jeito, vale a pergunta: apesar das pessoas preferirem cada vez mais festas do que shows de bandas, quem nunca quis matar o DJ?
*****
O Jet expressa um pouco dessa raiva em "Rollover DJ". Confesso que antes de discotecar a visão que eu tinha de DJs era parecida com a deles; depois de começar a discotecar, eu tive certeza.
"I wanna move but I don't feel right
'Cause you've been playing other people's songs all night"
*****
O Cobra Starship é mais direto ainda: não culpe o mundo, a culpa é do DJ. Claro.
"don't blame the world, it's the DJ's fault"
*****
Pelo menos o R.E.M. salva um pouco a pele dos DJs. Mas só porque a música é narrada por um DJ... morrendo? Aliás, bela música, diferente do R.E.M. mais conhecido, vale a pena ouvir.
"if death it's pretty final, i'm collecting vynil
i'm gonna DJ at the end of the world!"
*****
De qualquer jeito, tendo experiência dos dois lados, posso afirmar que DJ não é muito diferente de banda: eles só querem tocar aquilo que eles gostam... e que normalmente, só umas 10 pessoas conhecem, entre elas, outros DJs, família, namorada e aquele cara que acessa o mesmo blog obscuro que ele. E fazer isso enquanto alguém vem na cabine dizer "TOCA KUDURO" ou "TU NÃO VAI TOCAR A MINHA MÚSICA DA FLORENCE?" pode ser bem difícil. Por isso, tenha paciência com eles.
No final, você pode até cantar Robbie Williams junto com ele, que tal?
"I don't wanna rock, DJ
but you're making me feel so nice"
Só não tire a roupa. Nem a pele. Por favor.
*****
Vou tentar fazer disso uma nova sessão no blog, pra não perder aquela vontade de falar de música dos bons tempos de Cometa Hits: a Playlist vai ir ao ar toda semana, provavelmente na terça, sempre com meia dúzia de músicas do meu vasto HD falando sobre algum assunto. Semana que vem, músicas que falam sobre morar sozinho. Sugestões de assunto e de música? Comenta ai!
*****
Sam ainda não mudou sua opinião sobre DJs
O Dia em que Conheci Ophelia
Disciplina é a base do sucesso.
*****
Sexta-feira, dia 10 de agosto, dois fins-de-semana atrás. Agência vazia, com a maioria dos presentes marcando presença em evento fora da cidade. Eu tinha uma lista de umas 5 ou 6 coisas pra fazer. E não fiz praticamente NADA. Mas assim... NADA. Digo isso sem nem ficar vermelho, porque para mim não fazer nada é simples; foco não é o meu forte, ainda mais no trabalho, ainda mais sem ninguém por perto, ainda mais com o Facebook aberto e com o mouse na mão. Quem já me viu na internet, sabe como é. Quando eu não sinto o universo correspondendo na necessidade de trabalhar ao redor, eu simplesmente não funciono. Abri arquivos várias vezes na tarde, só pra fechar eles depois e voltar a minha lista de coisas a fazer para ver se não tinha aparecido nada mais atraente. Mas o que era atraente só aparecia ali, na tela do computador, dentro da moldura do monitor, em cores chamativas e berrantes e links atrativos e epiléticos. Uma tarde quase jogada fora.
*****
Passei o fim de semana tranqüilo, fazendo festa, jogando RPG, e ignorando sumariamente o número de obrigações que deixei para trás. Eventualmente, porém, chegou aquela que é a única tão inevitável quanto a morte: a manhã da segunda-feira.
*****
Segunda-feira, 13 de agosto. Cheguei no trabalho na hora. Em ponto. 8h30min travado. Só conseguia pensar na sexta-feira e na lista de trabalhos que quando eu cheguei no trabalho me olhou que nem ex-mulher cobrando pensão. Fosse outra a ocasião, eu teria desviado que nem malandro carioca de novela das 20h e aberto a internet. Mas até malandro carioca às vezes tem que pagar pensão (tenho assistido “Cheias de Charme” demais), então resolvi me mexer.
Foi assim que começou a operação “ Internet Tele-Sena”.
*****
Internet, naquela manhã, só de hora em hora. Anotei em um papel “9h – 10h – 11h”. A ideia era marcar cada um dos pontos como uma conquista. Fossem outros tempos, nem daria bola. Mas o medo racional de me queimar por alguma das coisas não feitas me assustou. Era a consciência de que o que estava atrasado era culpa inteiramente minha. Há boatos que isso se chama “preocupações da vida adulta”, mas não tenho certeza ainda. De qualquer jeito, fechei a internet, respirei fundo e fui trabalhar.
*****
Fiz um X embaixo da marquinha das 9h no papel que ficava na frente do teclado. Abri a pasta de músicas, o Windows Media Player (não, eu não uso o iTunes; sim, chocante), e coloquei lá dentro tudo o que poderia me fazer companhia naquela manhã. Dei preferência por rock clássico e ainda, por discos que eu não costumo escutar do rock clássico. Joguei no balaio David Bowie, Pink Floyd, Bob Dylan, Beatles, Led Zeppelin, Rolling Stones, The Who, Jethro Tull, e claro, Bruce Springsteen e Elvis Costello. Porque não seria uma história minha sem Bruce e Elvis.
*****
Trabalhei vigorosamente até as 10h, sempre com um olho no relógio e outro na porta. Um esperava pelo momento em que algum das autoridades – os chefes – chegasse pela porta e visse em que pé andava o trabalho. O outro olho verificava a autoridade maior – o tempo – e quanto tempo faltava para as 10h. A abstinência é mais difícil no início. Mas a gente supera.
*****
As 10h então chegaram. Iei! O segundo marco conquistado! Abri o Google Chrome as 10 horas e 5 minutos – o viciado sempre tenta mentir que não é viciado demais – e abri o Gmail e o Facebook. Chequei algumas atualizações, postei uma música no perfil do DJs & Dragons (“Welcome to the Working Week”, Elvis Costello, eu sendo irônico comigo mesmo) e fui olhar os meus e-mails. “Olha, um e-mail novo para responder! Vou contar a história do meu regime de internet, responder o que me pediram, falar do meu fim de semana e depois só abrir de novo as 11h! Nossa, como isso está dando certo!”.
O "meu" Elvis
Comecei a responder o e-mail as 10h5min. Terminei as 10h30min.
Maldita capacidade e necessidade de detalhar TUDO o que acontece no fim de semana.
*****
Fechei o navegador e voltei a ativa. Hora de voltar ao ritmo normal. Terminei um dos trabalhos, salvei, fechei o arquivo e deixei de lado para mostrar para um dos meus chefes quando eles chegassem. Até o momento, nada. Aos poucos, aquela risadinha no fundo do meu cérebro começava a soar, e aquela voz corneteira da minha consciência gritava aos quatro cantos: “HAHA, VOCÊ VAI FAZER TUDO CORRENDO E NENHUM DELES VAI VIR DE MANHÔ. Mas para que serve a consciência senão para ser calada, não? Aumentei o volume dos fones e continuei na abstinência.
*****
11h10min. Abri o navegador novamente. Mesma coisa: Facebook, notificações, um link, uma lista de 10 mais, uma novagostosa moça de respeito no Egotastic; Gmail, deletei alguns e-mails, abri uma newsletter, li uma webcomic e respondi o e-mail da conversa das 10h. Felizmente minha interlocutora entendeu perfeitamente a minha ausência e colaborou no regime. Tenho bons amigos, sabe? Respondi o que tinha que responder, fechei a internet e aceitei o fato: nenhum chefe meu chegaria naquela manhã. Acontece.
*****
Fui para casa 12h, voltei perto da 13h20min, abri a internet por alguns minutos e fui trabalhar. Finalmente, a porta abriu e adentrou um dos chefes. Deu “boa tarde” para todos, largou as coisas na mesa, e antes que ele chegasse perto da mesa, respondi orgulhoso, de peito mais estufado que peru de natal: “TÁ TUDO PRONTO”. Falei aquilo com uma convicção tamanha de que realmente, tinha feito tudo o que podia para exercer o trabalho da melhor maneira possível, que teria me permitido ficar a tarde inteira com o navegador da internet aberto, tal qual um prêmio, uma conquista, um espólio da minha batalha pela disciplina contra a internet!
Então meu chefe passou a tarde inteira LONGE da mesa dele, usando o computador que fica exatamente... do meu lado.
Alegria de pobre dura pouco, gente.
*****
Saí para minha aula no vespertino às 16h, satisfeito comigo. É estranho, porque, para mim, acessar a internet e ficar vidrado naquilo ali é tão natural quanto dirigir e tão perigoso quanto falar no telefone dirigindo. Eu sei que faz mal, mas faço. No final, sou um péssimo motorista em ambos os casos, mas a endorfina liberada quando percebi a minha concentração e meu esmero em terminar um trabalho valeu a pena. Deu até pra suportar a mãozinha tremendo, querendo pegar o mouse e conectar-se ao mundo. Esse foi o lado bom do desafio: é bom saber do que eu sou capaz.
*****
O outro lado bom foi escutar MUITA música diferente. É bom fugir dos eternos Aqualung, Ziggy Stardust, Sgt. Peppers e ouvir um Songs From the Wood, um Hunky Dory, um Revolver... mas apesar de toda a minha insistência em querer ouvir coisas diferentes, o Windows Media Player teve preferência por uma coletânea de uma banda em especial, a banda das bandas, e tocou mais músicas dela do que de qualquer outra banda. E isso foi o que mais me marcou nesse dia especial: foi nele que eu conheci Ophelia.
E agora eu só consigo pensar: como é que eu vivi sem conhecer Ophelia antes?
Levon Helm, o melhor baterista e vocalista da história
*****
Essa semana, o desafio é tentar diminuir o ritmo de uso da internet e continuar ouvindo música boa. Um deles eu tenho certeza que consigo.
Sam declara que, para fins trabalhísticos e de RH, esse texto nunca existiu.
*****
Sexta-feira, dia 10 de agosto, dois fins-de-semana atrás. Agência vazia, com a maioria dos presentes marcando presença em evento fora da cidade. Eu tinha uma lista de umas 5 ou 6 coisas pra fazer. E não fiz praticamente NADA. Mas assim... NADA. Digo isso sem nem ficar vermelho, porque para mim não fazer nada é simples; foco não é o meu forte, ainda mais no trabalho, ainda mais sem ninguém por perto, ainda mais com o Facebook aberto e com o mouse na mão. Quem já me viu na internet, sabe como é. Quando eu não sinto o universo correspondendo na necessidade de trabalhar ao redor, eu simplesmente não funciono. Abri arquivos várias vezes na tarde, só pra fechar eles depois e voltar a minha lista de coisas a fazer para ver se não tinha aparecido nada mais atraente. Mas o que era atraente só aparecia ali, na tela do computador, dentro da moldura do monitor, em cores chamativas e berrantes e links atrativos e epiléticos. Uma tarde quase jogada fora.
*****
Passei o fim de semana tranqüilo, fazendo festa, jogando RPG, e ignorando sumariamente o número de obrigações que deixei para trás. Eventualmente, porém, chegou aquela que é a única tão inevitável quanto a morte: a manhã da segunda-feira.
*****
Segunda-feira, 13 de agosto. Cheguei no trabalho na hora. Em ponto. 8h30min travado. Só conseguia pensar na sexta-feira e na lista de trabalhos que quando eu cheguei no trabalho me olhou que nem ex-mulher cobrando pensão. Fosse outra a ocasião, eu teria desviado que nem malandro carioca de novela das 20h e aberto a internet. Mas até malandro carioca às vezes tem que pagar pensão (tenho assistido “Cheias de Charme” demais), então resolvi me mexer.
Foi assim que começou a operação “ Internet Tele-Sena”.
*****
Internet, naquela manhã, só de hora em hora. Anotei em um papel “9h – 10h – 11h”. A ideia era marcar cada um dos pontos como uma conquista. Fossem outros tempos, nem daria bola. Mas o medo racional de me queimar por alguma das coisas não feitas me assustou. Era a consciência de que o que estava atrasado era culpa inteiramente minha. Há boatos que isso se chama “preocupações da vida adulta”, mas não tenho certeza ainda. De qualquer jeito, fechei a internet, respirei fundo e fui trabalhar.
*****
Fiz um X embaixo da marquinha das 9h no papel que ficava na frente do teclado. Abri a pasta de músicas, o Windows Media Player (não, eu não uso o iTunes; sim, chocante), e coloquei lá dentro tudo o que poderia me fazer companhia naquela manhã. Dei preferência por rock clássico e ainda, por discos que eu não costumo escutar do rock clássico. Joguei no balaio David Bowie, Pink Floyd, Bob Dylan, Beatles, Led Zeppelin, Rolling Stones, The Who, Jethro Tull, e claro, Bruce Springsteen e Elvis Costello. Porque não seria uma história minha sem Bruce e Elvis.
*****
Trabalhei vigorosamente até as 10h, sempre com um olho no relógio e outro na porta. Um esperava pelo momento em que algum das autoridades – os chefes – chegasse pela porta e visse em que pé andava o trabalho. O outro olho verificava a autoridade maior – o tempo – e quanto tempo faltava para as 10h. A abstinência é mais difícil no início. Mas a gente supera.
*****
As 10h então chegaram. Iei! O segundo marco conquistado! Abri o Google Chrome as 10 horas e 5 minutos – o viciado sempre tenta mentir que não é viciado demais – e abri o Gmail e o Facebook. Chequei algumas atualizações, postei uma música no perfil do DJs & Dragons (“Welcome to the Working Week”, Elvis Costello, eu sendo irônico comigo mesmo) e fui olhar os meus e-mails. “Olha, um e-mail novo para responder! Vou contar a história do meu regime de internet, responder o que me pediram, falar do meu fim de semana e depois só abrir de novo as 11h! Nossa, como isso está dando certo!”.
O "meu" Elvis
Comecei a responder o e-mail as 10h5min. Terminei as 10h30min.
Maldita capacidade e necessidade de detalhar TUDO o que acontece no fim de semana.
*****
Fechei o navegador e voltei a ativa. Hora de voltar ao ritmo normal. Terminei um dos trabalhos, salvei, fechei o arquivo e deixei de lado para mostrar para um dos meus chefes quando eles chegassem. Até o momento, nada. Aos poucos, aquela risadinha no fundo do meu cérebro começava a soar, e aquela voz corneteira da minha consciência gritava aos quatro cantos: “HAHA, VOCÊ VAI FAZER TUDO CORRENDO E NENHUM DELES VAI VIR DE MANHÔ. Mas para que serve a consciência senão para ser calada, não? Aumentei o volume dos fones e continuei na abstinência.
*****
11h10min. Abri o navegador novamente. Mesma coisa: Facebook, notificações, um link, uma lista de 10 mais, uma nova
*****
Fui para casa 12h, voltei perto da 13h20min, abri a internet por alguns minutos e fui trabalhar. Finalmente, a porta abriu e adentrou um dos chefes. Deu “boa tarde” para todos, largou as coisas na mesa, e antes que ele chegasse perto da mesa, respondi orgulhoso, de peito mais estufado que peru de natal: “TÁ TUDO PRONTO”. Falei aquilo com uma convicção tamanha de que realmente, tinha feito tudo o que podia para exercer o trabalho da melhor maneira possível, que teria me permitido ficar a tarde inteira com o navegador da internet aberto, tal qual um prêmio, uma conquista, um espólio da minha batalha pela disciplina contra a internet!
Então meu chefe passou a tarde inteira LONGE da mesa dele, usando o computador que fica exatamente... do meu lado.
Alegria de pobre dura pouco, gente.
*****
Saí para minha aula no vespertino às 16h, satisfeito comigo. É estranho, porque, para mim, acessar a internet e ficar vidrado naquilo ali é tão natural quanto dirigir e tão perigoso quanto falar no telefone dirigindo. Eu sei que faz mal, mas faço. No final, sou um péssimo motorista em ambos os casos, mas a endorfina liberada quando percebi a minha concentração e meu esmero em terminar um trabalho valeu a pena. Deu até pra suportar a mãozinha tremendo, querendo pegar o mouse e conectar-se ao mundo. Esse foi o lado bom do desafio: é bom saber do que eu sou capaz.
*****
O outro lado bom foi escutar MUITA música diferente. É bom fugir dos eternos Aqualung, Ziggy Stardust, Sgt. Peppers e ouvir um Songs From the Wood, um Hunky Dory, um Revolver... mas apesar de toda a minha insistência em querer ouvir coisas diferentes, o Windows Media Player teve preferência por uma coletânea de uma banda em especial, a banda das bandas, e tocou mais músicas dela do que de qualquer outra banda. E isso foi o que mais me marcou nesse dia especial: foi nele que eu conheci Ophelia.
E agora eu só consigo pensar: como é que eu vivi sem conhecer Ophelia antes?
Levon Helm, o melhor baterista e vocalista da história
*****
Essa semana, o desafio é tentar diminuir o ritmo de uso da internet e continuar ouvindo música boa. Um deles eu tenho certeza que consigo.
Sam declara que, para fins trabalhísticos e de RH, esse texto nunca existiu.
Ao vencedor, as batatas. E os sovadinhos. E os legumes.
Demorou. Mas finalmente, aconteceu.
*****
Sábado pela manhã, 10h, o relógio biológico ligou seu despertador e me fez levantar. Depois de uma madrugada em claro assistindo desenho animado e seriados e escrevendo e procrastinando a vida, resolvi ignorar o sono e pagar de consciente: não voltei a dormir. Lavei o rosto, abri o quarto, arrumei a cama, e quando estava pronto para continuar a procrastinação livro - seriado - escrever, minha mãe me chamou na cozinha.
- Tu já tá em pé? Que bom. Vem cá conversar comigo um pouco. E aproveita e traz um papel e uma caneta. Tu vai ir no mercado pra mim hoje de tarde.
Essa música começou a tocar automaticamente na minha cabeça
*****
Eu não sei ao certo quantos dias compreendem uma vida de quase 24 anos, mas sei que dá MUITOS dias. E mesmo com MUITOS dias de experiência nesse plano astral, nunca fui designado a "ir no mercado sozinho". Nossa, quando eu vou com os amigos (definição de sozinho = longe da família), eu já fico de lado, aparecendo como personagem coadjuvante de luxo só na hora de pagar no caixa! Quem dirá ir sozinho. Eram compras simples, ok, mas agradeci pela confiança e abracei a tarefa como um verdadeiro herói.
*****
Mais tarde eu descobri, claro, que não há nada de heróico em ir no mercado sozinho. Mas para mim, que me gabava (para mim mesmo) que "eu já fui pra praia sozinho" (de novo, sozinho = longe da família), "já viajei pra outros cidades de carro sozinho", "já fiz coisas complicadíssimas sozinho" (pra simplificar), ir no mercado era algo que eu já devia ter feito mil vezes. Mas demorou quase 24 anos para essa tarefa acontecer. A minha suíte "Zona de Conforto" no Hotel dos McQueen tá precisando de umas férias de mim.
*****
Claro, a lista de compras era pequena, não foi algo do tipo, "NOSSA, ELE FEZ UM RANCHO PARA ALIMENTAR A FAMÍLIA INTEIRA POR UM MÊS," mas dá pra citar algumas coisas interessantes:
PONTOS ALTOS: quem imaginaria que escolher laranjas do céu seria TÃO divertido! Analisar a consistência de cada uma, qual tava mais madura, qual tava com uma cara melhor. Foi bem divertido. Levei até uma meio feia, só pra não cometer bullying.
PONTOS BAIXOS: eu não sei se o sistema de som estava ligado em uma rádio interna ou uma FM qualquer, mas o playlist de Rihanna, Luan Santana e afins não agradou tanto quanto eu esperava, mesmo estando no mercado. De qualquer jeito, dancei muito quando tocou ABBA no corredor dos papéis higiênicos.
"you can dance... you can ji-i-ive..."
*****
No final, voltei pra casa satisfeito. Me dei até o luxo de comprar maçãs verdes que não estavam na lista, só porque eu estava satisfeito comigo mesmo e porque, enfim, são maçãs verdes, WHY NOT? No domingo, minha mãe repetiu a função comigo, dessa vez indo na padaria para comprar algumas coisas rápidas, para café e afins. No corredor dos bolos, me indagou "se eu te pedisse pra tu comprar alguma coisa doce pra mim, alguma cuca, o que tu compraria?". "Uma cuca, mãe". "E se eu pedisse pra tu comprar um bolinho, o que tu compraria?" "Um bolinho, mãe". Eu não sei que tipo de treinamento ela tá me dando, mas ela citou pelo menos três vezes que "eu tenho que aprender essas coisas pra quando eu tiver que fazer sozinho". Eu não sei se ela tem o mesmo conceito que eu de "sozinho", mas achei um comentário bem válido.
*****
De resto, tem que enxergar valor nas pequenas coisas. Acabei a noite de sábado na casa de um amigo assistindo How I Met Your Mother, e como disse o personagem principal no fim do episódio 3, "as vezes acabamos indo em um lugar onde não imaginávamos ir e no final dar tudo errado. Mas o importante é trazer uma boa história de lá." E é isso. Um belo mantra.
*****
Valorizar as pequenas coisas e viver pelas boas histórias. Mesmo que seja como você dançou ABBA enquanto comprava papel higiênico num sábado de tarde. Eu sei. Vocês nunca mais vão conseguir me olhar do mesmo jeito sem imaginar essa cena.
Ainda vou chegar nesse nível, prometo.
Sam aceita dicas de como escolher tomates
*****
Sábado pela manhã, 10h, o relógio biológico ligou seu despertador e me fez levantar. Depois de uma madrugada em claro assistindo desenho animado e seriados e escrevendo e procrastinando a vida, resolvi ignorar o sono e pagar de consciente: não voltei a dormir. Lavei o rosto, abri o quarto, arrumei a cama, e quando estava pronto para continuar a procrastinação livro - seriado - escrever, minha mãe me chamou na cozinha.
- Tu já tá em pé? Que bom. Vem cá conversar comigo um pouco. E aproveita e traz um papel e uma caneta. Tu vai ir no mercado pra mim hoje de tarde.
Essa música começou a tocar automaticamente na minha cabeça
*****
Eu não sei ao certo quantos dias compreendem uma vida de quase 24 anos, mas sei que dá MUITOS dias. E mesmo com MUITOS dias de experiência nesse plano astral, nunca fui designado a "ir no mercado sozinho". Nossa, quando eu vou com os amigos (definição de sozinho = longe da família), eu já fico de lado, aparecendo como personagem coadjuvante de luxo só na hora de pagar no caixa! Quem dirá ir sozinho. Eram compras simples, ok, mas agradeci pela confiança e abracei a tarefa como um verdadeiro herói.
*****
Mais tarde eu descobri, claro, que não há nada de heróico em ir no mercado sozinho. Mas para mim, que me gabava (para mim mesmo) que "eu já fui pra praia sozinho" (de novo, sozinho = longe da família), "já viajei pra outros cidades de carro sozinho", "já fiz coisas complicadíssimas sozinho" (pra simplificar), ir no mercado era algo que eu já devia ter feito mil vezes. Mas demorou quase 24 anos para essa tarefa acontecer. A minha suíte "Zona de Conforto" no Hotel dos McQueen tá precisando de umas férias de mim.
*****
Claro, a lista de compras era pequena, não foi algo do tipo, "NOSSA, ELE FEZ UM RANCHO PARA ALIMENTAR A FAMÍLIA INTEIRA POR UM MÊS," mas dá pra citar algumas coisas interessantes:
PONTOS ALTOS: quem imaginaria que escolher laranjas do céu seria TÃO divertido! Analisar a consistência de cada uma, qual tava mais madura, qual tava com uma cara melhor. Foi bem divertido. Levei até uma meio feia, só pra não cometer bullying.
PONTOS BAIXOS: eu não sei se o sistema de som estava ligado em uma rádio interna ou uma FM qualquer, mas o playlist de Rihanna, Luan Santana e afins não agradou tanto quanto eu esperava, mesmo estando no mercado. De qualquer jeito, dancei muito quando tocou ABBA no corredor dos papéis higiênicos.
"you can dance... you can ji-i-ive..."
*****
No final, voltei pra casa satisfeito. Me dei até o luxo de comprar maçãs verdes que não estavam na lista, só porque eu estava satisfeito comigo mesmo e porque, enfim, são maçãs verdes, WHY NOT? No domingo, minha mãe repetiu a função comigo, dessa vez indo na padaria para comprar algumas coisas rápidas, para café e afins. No corredor dos bolos, me indagou "se eu te pedisse pra tu comprar alguma coisa doce pra mim, alguma cuca, o que tu compraria?". "Uma cuca, mãe". "E se eu pedisse pra tu comprar um bolinho, o que tu compraria?" "Um bolinho, mãe". Eu não sei que tipo de treinamento ela tá me dando, mas ela citou pelo menos três vezes que "eu tenho que aprender essas coisas pra quando eu tiver que fazer sozinho". Eu não sei se ela tem o mesmo conceito que eu de "sozinho", mas achei um comentário bem válido.
*****
De resto, tem que enxergar valor nas pequenas coisas. Acabei a noite de sábado na casa de um amigo assistindo How I Met Your Mother, e como disse o personagem principal no fim do episódio 3, "as vezes acabamos indo em um lugar onde não imaginávamos ir e no final dar tudo errado. Mas o importante é trazer uma boa história de lá." E é isso. Um belo mantra.
*****
Valorizar as pequenas coisas e viver pelas boas histórias. Mesmo que seja como você dançou ABBA enquanto comprava papel higiênico num sábado de tarde. Eu sei. Vocês nunca mais vão conseguir me olhar do mesmo jeito sem imaginar essa cena.
Ainda vou chegar nesse nível, prometo.
Sam aceita dicas de como escolher tomates
Os Cachorros de Madame e os Vira-Latas
Naquelas dicas de construção de histórias da Pixar que chegaram à internet
alguns meses atrás, uma dica era muito válida para qualquer coisa na vida:
"Quando não souber para onde sua história for, anote todos os caminhos
óbvios que você consegue pensar que ela irá seguir. Talvez assim você saberá
para onde ela NÃO deve ir e o seu caminho certo será naturalmente o único que
você não pensou". Simples assim.
Sendo assim, quando estiver trancado na vida, numa sinuca de bico, e não souber pra que lado ir ou o que fazer, pense em tudo o que você faria normalmente. Talvez o caminho certo não seja nenhum deles.
*****
Seguindo então essa linha de pensamento, comecei a divagar na seguinte questão: o que você é? Fazendo essa pergunta a mim mesmo, não pude resistir e apliquei a regra da Pixar, alterando a pergunta. A questão então é "o que você não é". E assim começa a reflexão.
*****
Você não é suas roupas.
Você não é seu carro.
Você não é o seu time.
Você não é o seu seriado favorito.
Você não é o seu livro favorito.
Você não é sua banda favorita.
Você não é a sua banda de garagem.
Você não é uma música.
Você não é layout.
Você não é seus amigos no Facebook.
Você não é a pessoa que os outros encontram no trabalho.
Você não é o colega de faculdade dos seus colegas.
Você não é filho.
Você não é pai.
Você não é irmão.
Voce não é namorado.
Você não é o que os outros pensam de você.
Você não é o que os outros ESPERAM de você.
Você não é as atitudes que querem que você tome.
Você não é a sua foto sorridente e sempre alegre do seu avatar.
Você não é a pessoa que diz sim.
Você de verdade é a pessoa que diz não.
*****
Porque dizer sim normalmente implica que você está concordando com alguém ou algum ponto de vista. E para isso acontecer, deve haver uma outra pessoa, com uma proposta mais atraente ou uma desculpa mais confiável. E independente da proposta ou da desculpa, se você está concordando com ela, esse sim é mais dela do que seu. Então você é verdadeiramente você quando diz não.
Você de verdade é aquela pessoa que pensa sem culpa: "vou ficar em casa porque não quero ver ninguém hoje" e que logo depois se assusta com esse pensamento. "Nossa, como eu sou capaz de dar as costas pra todo mundo e pensar assim dessa maneira, desejar tão avidamente ficar sozinho e não ver ninguém?". Você é capaz. E por 5 segundos, você foi essa pessoa, sem culpa na consciência.
Você é verdadeiramente você quando vai dormir. Quando não há time, livro, seriado, roupa, notificação, obrigação ou opinião alheia que irá definir o que você é. Quando o mundo não atinge você, quando ninguém irá conseguir se intrometer na sua escolha, quando a administração dos seus atos parte de você e somente você, quando você deita a cabeça no travesseiro a noite, orgulhoso ou pesaroso do que fez ou deixou fazer... ali você é você mesmo.
O resto é besteira. É fake. É uma imagem. Não é você.
*****
Aquela corrente de pensamentos, que você põe pra fora as vezes, aquele fluxo de consciência em que os dedos voam pelo teclado sem se preocupar com pontuação e apenas correndo contra o tempo e contra a sua mente querendo expor a sua opinião como se os outros estivessem correndo atrás de você com o dedo apontando para o Backspace prontos para apagar tudo e não deixar você GRITAR... esse é você.
Agora respire fundo, pare e pense.
O quanto de você está sufocado e o quanto de você está saindo para passear?
Não seja cachorro de madame, que sempre anda no colo. Seja vira-lata.
Porque vocês acham que eles abanam o rabo o tempo inteiro?
Sam curte cachorros metafóricos
Sendo assim, quando estiver trancado na vida, numa sinuca de bico, e não souber pra que lado ir ou o que fazer, pense em tudo o que você faria normalmente. Talvez o caminho certo não seja nenhum deles.
*****
Seguindo então essa linha de pensamento, comecei a divagar na seguinte questão: o que você é? Fazendo essa pergunta a mim mesmo, não pude resistir e apliquei a regra da Pixar, alterando a pergunta. A questão então é "o que você não é". E assim começa a reflexão.
*****
Você não é suas roupas.
Você não é seu carro.
Você não é o seu time.
Você não é o seu seriado favorito.
Você não é o seu livro favorito.
Você não é sua banda favorita.
Você não é a sua banda de garagem.
Você não é uma música.
Você não é layout.
Você não é seus amigos no Facebook.
Você não é a pessoa que os outros encontram no trabalho.
Você não é o colega de faculdade dos seus colegas.
Você não é filho.
Você não é pai.
Você não é irmão.
Voce não é namorado.
Você não é o que os outros pensam de você.
Você não é o que os outros ESPERAM de você.
Você não é as atitudes que querem que você tome.
Você não é a sua foto sorridente e sempre alegre do seu avatar.
Você não é a pessoa que diz sim.
Você de verdade é a pessoa que diz não.
*****
Porque dizer sim normalmente implica que você está concordando com alguém ou algum ponto de vista. E para isso acontecer, deve haver uma outra pessoa, com uma proposta mais atraente ou uma desculpa mais confiável. E independente da proposta ou da desculpa, se você está concordando com ela, esse sim é mais dela do que seu. Então você é verdadeiramente você quando diz não.
Você de verdade é aquela pessoa que pensa sem culpa: "vou ficar em casa porque não quero ver ninguém hoje" e que logo depois se assusta com esse pensamento. "Nossa, como eu sou capaz de dar as costas pra todo mundo e pensar assim dessa maneira, desejar tão avidamente ficar sozinho e não ver ninguém?". Você é capaz. E por 5 segundos, você foi essa pessoa, sem culpa na consciência.
Você é verdadeiramente você quando vai dormir. Quando não há time, livro, seriado, roupa, notificação, obrigação ou opinião alheia que irá definir o que você é. Quando o mundo não atinge você, quando ninguém irá conseguir se intrometer na sua escolha, quando a administração dos seus atos parte de você e somente você, quando você deita a cabeça no travesseiro a noite, orgulhoso ou pesaroso do que fez ou deixou fazer... ali você é você mesmo.
O resto é besteira. É fake. É uma imagem. Não é você.
*****
Aquela corrente de pensamentos, que você põe pra fora as vezes, aquele fluxo de consciência em que os dedos voam pelo teclado sem se preocupar com pontuação e apenas correndo contra o tempo e contra a sua mente querendo expor a sua opinião como se os outros estivessem correndo atrás de você com o dedo apontando para o Backspace prontos para apagar tudo e não deixar você GRITAR... esse é você.
Agora respire fundo, pare e pense.
O quanto de você está sufocado e o quanto de você está saindo para passear?
Não seja cachorro de madame, que sempre anda no colo. Seja vira-lata.
Porque vocês acham que eles abanam o rabo o tempo inteiro?
Sam curte cachorros metafóricos
Assinar:
Comentários (Atom)




