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Sexta-feira, dia 10 de agosto, dois fins-de-semana atrás. Agência vazia, com a maioria dos presentes marcando presença em evento fora da cidade. Eu tinha uma lista de umas 5 ou 6 coisas pra fazer. E não fiz praticamente NADA. Mas assim... NADA. Digo isso sem nem ficar vermelho, porque para mim não fazer nada é simples; foco não é o meu forte, ainda mais no trabalho, ainda mais sem ninguém por perto, ainda mais com o Facebook aberto e com o mouse na mão. Quem já me viu na internet, sabe como é. Quando eu não sinto o universo correspondendo na necessidade de trabalhar ao redor, eu simplesmente não funciono. Abri arquivos várias vezes na tarde, só pra fechar eles depois e voltar a minha lista de coisas a fazer para ver se não tinha aparecido nada mais atraente. Mas o que era atraente só aparecia ali, na tela do computador, dentro da moldura do monitor, em cores chamativas e berrantes e links atrativos e epiléticos. Uma tarde quase jogada fora.
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Passei o fim de semana tranqüilo, fazendo festa, jogando RPG, e ignorando sumariamente o número de obrigações que deixei para trás. Eventualmente, porém, chegou aquela que é a única tão inevitável quanto a morte: a manhã da segunda-feira.
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Segunda-feira, 13 de agosto. Cheguei no trabalho na hora. Em ponto. 8h30min travado. Só conseguia pensar na sexta-feira e na lista de trabalhos que quando eu cheguei no trabalho me olhou que nem ex-mulher cobrando pensão. Fosse outra a ocasião, eu teria desviado que nem malandro carioca de novela das 20h e aberto a internet. Mas até malandro carioca às vezes tem que pagar pensão (tenho assistido “Cheias de Charme” demais), então resolvi me mexer.
Foi assim que começou a operação “ Internet Tele-Sena”.
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Internet, naquela manhã, só de hora em hora. Anotei em um papel “9h – 10h – 11h”. A ideia era marcar cada um dos pontos como uma conquista. Fossem outros tempos, nem daria bola. Mas o medo racional de me queimar por alguma das coisas não feitas me assustou. Era a consciência de que o que estava atrasado era culpa inteiramente minha. Há boatos que isso se chama “preocupações da vida adulta”, mas não tenho certeza ainda. De qualquer jeito, fechei a internet, respirei fundo e fui trabalhar.
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Fiz um X embaixo da marquinha das 9h no papel que ficava na frente do teclado. Abri a pasta de músicas, o Windows Media Player (não, eu não uso o iTunes; sim, chocante), e coloquei lá dentro tudo o que poderia me fazer companhia naquela manhã. Dei preferência por rock clássico e ainda, por discos que eu não costumo escutar do rock clássico. Joguei no balaio David Bowie, Pink Floyd, Bob Dylan, Beatles, Led Zeppelin, Rolling Stones, The Who, Jethro Tull, e claro, Bruce Springsteen e Elvis Costello. Porque não seria uma história minha sem Bruce e Elvis.
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Trabalhei vigorosamente até as 10h, sempre com um olho no relógio e outro na porta. Um esperava pelo momento em que algum das autoridades – os chefes – chegasse pela porta e visse em que pé andava o trabalho. O outro olho verificava a autoridade maior – o tempo – e quanto tempo faltava para as 10h. A abstinência é mais difícil no início. Mas a gente supera.
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As 10h então chegaram. Iei! O segundo marco conquistado! Abri o Google Chrome as 10 horas e 5 minutos – o viciado sempre tenta mentir que não é viciado demais – e abri o Gmail e o Facebook. Chequei algumas atualizações, postei uma música no perfil do DJs & Dragons (“Welcome to the Working Week”, Elvis Costello, eu sendo irônico comigo mesmo) e fui olhar os meus e-mails. “Olha, um e-mail novo para responder! Vou contar a história do meu regime de internet, responder o que me pediram, falar do meu fim de semana e depois só abrir de novo as 11h! Nossa, como isso está dando certo!”.
O "meu" Elvis
Comecei a responder o e-mail as 10h5min. Terminei as 10h30min.
Maldita capacidade e necessidade de detalhar TUDO o que acontece no fim de semana.
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Fechei o navegador e voltei a ativa. Hora de voltar ao ritmo normal. Terminei um dos trabalhos, salvei, fechei o arquivo e deixei de lado para mostrar para um dos meus chefes quando eles chegassem. Até o momento, nada. Aos poucos, aquela risadinha no fundo do meu cérebro começava a soar, e aquela voz corneteira da minha consciência gritava aos quatro cantos: “HAHA, VOCÊ VAI FAZER TUDO CORRENDO E NENHUM DELES VAI VIR DE MANHÔ. Mas para que serve a consciência senão para ser calada, não? Aumentei o volume dos fones e continuei na abstinência.
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11h10min. Abri o navegador novamente. Mesma coisa: Facebook, notificações, um link, uma lista de 10 mais, uma nova
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Fui para casa 12h, voltei perto da 13h20min, abri a internet por alguns minutos e fui trabalhar. Finalmente, a porta abriu e adentrou um dos chefes. Deu “boa tarde” para todos, largou as coisas na mesa, e antes que ele chegasse perto da mesa, respondi orgulhoso, de peito mais estufado que peru de natal: “TÁ TUDO PRONTO”. Falei aquilo com uma convicção tamanha de que realmente, tinha feito tudo o que podia para exercer o trabalho da melhor maneira possível, que teria me permitido ficar a tarde inteira com o navegador da internet aberto, tal qual um prêmio, uma conquista, um espólio da minha batalha pela disciplina contra a internet!
Então meu chefe passou a tarde inteira LONGE da mesa dele, usando o computador que fica exatamente... do meu lado.
Alegria de pobre dura pouco, gente.
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Saí para minha aula no vespertino às 16h, satisfeito comigo. É estranho, porque, para mim, acessar a internet e ficar vidrado naquilo ali é tão natural quanto dirigir e tão perigoso quanto falar no telefone dirigindo. Eu sei que faz mal, mas faço. No final, sou um péssimo motorista em ambos os casos, mas a endorfina liberada quando percebi a minha concentração e meu esmero em terminar um trabalho valeu a pena. Deu até pra suportar a mãozinha tremendo, querendo pegar o mouse e conectar-se ao mundo. Esse foi o lado bom do desafio: é bom saber do que eu sou capaz.
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O outro lado bom foi escutar MUITA música diferente. É bom fugir dos eternos Aqualung, Ziggy Stardust, Sgt. Peppers e ouvir um Songs From the Wood, um Hunky Dory, um Revolver... mas apesar de toda a minha insistência em querer ouvir coisas diferentes, o Windows Media Player teve preferência por uma coletânea de uma banda em especial, a banda das bandas, e tocou mais músicas dela do que de qualquer outra banda. E isso foi o que mais me marcou nesse dia especial: foi nele que eu conheci Ophelia.
E agora eu só consigo pensar: como é que eu vivi sem conhecer Ophelia antes?
Levon Helm, o melhor baterista e vocalista da história
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Essa semana, o desafio é tentar diminuir o ritmo de uso da internet e continuar ouvindo música boa. Um deles eu tenho certeza que consigo.
Sam declara que, para fins trabalhísticos e de RH, esse texto nunca existiu.
2 comentários:
descobri há alguns meses atrás tb, que coisa não? (só pra compartilhar que tu n foi o unico)
é muito bom né? eu tenho um certo "porém" com coletâneas, mas as vezes dá pra tirar boas surpresas de lá, sem ter que passar álbum por álbum por álbum por álbum...
:)
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