Acelera e Vai

Começa com um passo simples. "Vamos ver onde que vai dar". Mas nunca acaba onde você espera. Sempre adiante. E melhor.

*****

Fui atrás de uma fonte para uma reportagem. Dia ensolarado, quente, vento batendo displicentemente no rosto pela janela do carro, mais dengoso que casal de namorados recém-formado. Fui até o bairro onde encontraria a fonte, dei três voltas em busca dela e não encontrei o que queria. Segui uma rua, peguei outra, virei a direita em outra, segui reto... quando me dei por conta, já estava longe demais do início do bairro. De repente, uma longa estrada entre um caminho arborizado abriu a minha frente.

"Hm. Vamos vendo onde que vai dar."

Ai minha gasolina.

Foi aqui que deu. Mas até chegar aqui...

*****

Dirigi ininterruptamente por um tempo indeterminado. Dirigi durante 8 músicas. Aos poucos, ia checando as condições da viagem: a gasolina, a hora, a temperatura, o lugar, a gasolina, mensagens de texto, a gasolina... Mas foi quando eu estava subindo uma estrada na encosta de algumas videiras cantando "I Ain't the Same" do Alabama Shakes que eu resolvi admitir.

"Estou perdido. Oba."


"No, you ain’t gonna find me
Oh no, cause I’m not who I used to be"


Nesse ponto da viagem eu realmente não fazia ideia de onde estava. Mas tudo tranquilo, eu tinha gasolina e a vontade de continuar e ver onde ia dar era mais forte. A cada entrada de chácara e terreno que me permitia fazer a volta eu pensava "ah, na próxima eu faço o retorno". Não houve próxima, claro.

De repente, uma bifurcação. Esquerda ou direita? Estrada troll. Segui pela esquerda e percebi que ali já conhecia de outras viagens, mas tinha chegado lá por outra estrada, não a que peguei dessa vez. Estranho. Segui a esquerda da bifurcação e passei por uma vinícola, para logo em seguida chegar em uma igreja que eu já conhecia. Ao lado dela, um grande salão de festas e um cemitério. Ao lado disso tudo, em um terreno desnivelado, um campo de futebol. Eu não sei onde estava, mas era onde a ação acontecia.

O campo mal utilizado

*****

Ou onde DEVERIA acontecer, claro, afinal, eu era o único ser humano em um raio de muitos quilometros. Eu só ouvia ao longe as cabritas fazendo barulho (e confesso que entendi um pouco aqueles gaudérios velhos que carcam as cabritas - eles devem ser muito solitários; mas não tive nenhuma ideia nem vontade, ok?). Os cavalos também se pronunciavam no meio da baderna sonora. Eram tantos sons diferentes da natureza ao redor que o único som que não achava eco era a batida oca da porta metálica do meu carro. Sentei em um dos banquinhos cor de rosa que serviam para a torcida assistir o jogo e lá fiquei.

O banquinho rosa

Para descrever o que aconteceu depois disso seriam necessários uns três parágrafos em branco, porque foi exatamente isso que aconteceu: longos quinze minutos de um longo NADA. E sinceridade aqui: há quanto tempo eu estava precisando de um longo nada naminha vida. Really. Me instalei naquele banquinho rosa e me permiti fazer parte daquele cenário bucólico que eu nunca conheci antes. Fiz companhia para as cabras, os cavalos, os mosquitos e os mortos do cemitério atrás de mim. Ignorei onde eu estava, quem eu era e o que devia fazer. E fiquei feliz.

*****

O fim da tarde foi aos poucos chegando e a agonia por ter de deixar aquele lugar de extrema paz aumentava. Resolvi então voltar a estrada e pegar o por-do-sol dirigindo. Liguei o rádio, passei a música e começou a tocar "Sleep Forever", do Portugal The Man. Tudo o que eu queria ouvir.


Bem nessas...

A música durou exatamente o tempo do sol sumir. A música acabou, o clima esfriou, as pessoas começaram a surgir de todos os lados e eu juro que a viagem de volta durou 5min. Cheguei a conclusão que o tempo de viagem é proporcional a sua expectativa pelo destino: quanto menos você sabe onde vai chegar, mais demora. Mas vale a pena.

*****

Por isso, quando o nó na garganta apertar, fuja. Fuja o mais rápido que puder, como se sua sanidade mental dependesse disso. Provavelmente ela não depende, mas colocar ela como prioridade ajuda a manter as coisas em perspectiva e descobrir o que é mais importante. O inconsequente as vezes se faz necessário.


"if you don't know where you're going, any road will take you there"


Sam realmente NÃO SABE onde foi parar

2 comentários:

Gabriel Rodrigues disse...

quarta légua perto da estrada da uva. pelo menos não foi parar em vale real dessa vez...

Samuel Rodrigues disse...

vale real era se eu continuasse adiante! mas jurava que eu tava na segunda légua, não na quarta. enfim... brigado! :D