O Poder do Pensamento Negativo

Colega de trabalho foi para os Estados Unidos esses dias. Antes de sair, pediu para todo mundo, como sempre faz: “vocês querem que eu traga alguma coisa de lá?”. Os pedidos choveram, como de costume, de remédios a brinquedos. Os pedidos costumeiros de eletrônicos também apareceram, ainda mais em época de lançamento de iPhone. E como sempre, a pergunta veio até mim. E eu não tive dúvidas em responder a primeira coisa que surgiu na minha mente.

“Não... não tô precisando de nada.”

Ele brincou, falou que ia trazer uma boneca inflável pra mim, falou que era uma piada, ninguém riu... foram 3min estranhos. Mas a resposta – e a facilidade com que ela veio – me marcou de um jeito que fez eu pensar por mais de 3min.

Eu realmente não conseguia pensar em nada que estava precisando, mesmo que seja supérfluo. Eu podia pedir para ele trazer um gibi, que nem ele havia feito ano passado, podia pedir algum livro, que é o que eu costumo gastar meu dinheiro, mas nada parecia essencial, sabe? Não tinha nada que eu realmente precisava ou que, caso eu precisasse, não poderia comprar pela internet. Depois de um dia pensando na questão, cheguei a uma resposta satisfatória do que eu realmente precisava.

“Tô precisando de tempo pra curtir o que eu tenho”

Dias depois, contei pra namorada sobre isso. Ela falou que eu devia ter pedido um perfume. Eu disse que já tinha um perfume. Ela falou que na verdade era um desodorante que eu usava como perfume. Eu olhei a embalagem do perfume. Era um desodorante que eu usava como perfume. Eu pedi para ela continuar me amando depois de discordar dela. Ela riu.

Mas ainda assim, ter um desodorante-perfume não era motivo pra eu pedir que ele trouxesse um perfume dos Estados Unidos. Perguntei o que ela teria pedido e ela falou que teria pedido um perfume. Falei sobre a conclusão que cheguei, de que tinha tudo o que precisava, seja livros, eletrônicos, roupas, perfumes-desodorantes, e que precisava só de tempo para curtir isso. Depois de alguns instantes pensando sobre a opinião dela e a minha, ela respondeu.

“É... eu sou um pouco ingrata com a vida mesmo.”

Eu prontamente disse que não, que não tinha problema nenhum em se dar ao luxo de pedir um presente ou de querer comprar algo que se deseja, mas que realmente, eu me percebi em uma situação em que estava confortável com tudo o que tinha. E estava feliz.

Isso tudo me fez pensar: ela não tinha motivo nenhum para se sentir ingrata com a vida, por desejar algo que não tem, porque com certeza assim que ela tivesse o que desejasse (o perfume), ela iria querer alguma outra coisa. Essa sensação de ingratidão, de insatisfação, é um ônus pela possibilidade de escolha: se você tem o dinheiro e a oportunidade, porque não compra, não adquire, não faz? É uma escolha que não passa pelo livre-arbítrio da gente, é quase uma atitude automática: ele vai para os Estados Unidos, eu tenho dinheiro, ele pode trazer algo para mim, por que não?

Porque de repente, você não precisa, oras. É simples.

***

Esse fim de semana, me vi respondendo essa pergunta três vezes, em três momentos de amigo secreto: no trabalho, com os amigos e com a família. “E tu Samuel, tá precisando do que?”. Tive que dar a resposta automática: “olha, não tô precisando de nada, o que quiserem me dar, tá ótimo”, mas a maioria das pessoas não se contenta com isso. Inclusive, vi um caso novo: alguém que desejou MUITO que as outras pessoas falassem o que queriam de presente para que ela pudesse dizer também o que queria. Ela insistiu uma, duas vezes, até que falou mesmo assim.

Não foi por mal – ela interagiu melhor na brincadeira do que eu, afinal – mas refletiu bem aquela ingratidão de que falei lá em cima: as vezes a gente acha tanto que precisa de alguma coisa que pula na primeira oportunidade de ter ela, seja em viagem de amigos ou amigo secreto. E quando respondemos isso com certeza, com o presente na ponta da língua, acabamos fica meio culpados quando percebemos que as outras pessoas não querem tanto quanto a gente.

Ou talvez eu apenas seja ruim nesse negócio de presentes mesmo.

***

Agora, me vejo novamente no meu modelo de angústia: tenho três listas de amigo secreto para responder, tenho presentes de Natal para dar e receber, mas nada me deixa tão angustiado quanto ver o número de livros que tenho na estante para ler, o número de ideias que tenho para colocar no papel, o número de coisas que não faço e culpo a falta de tempo. Talvez seja culpa minha, afinal, para fazer mais basta querer menos, como já falei aqui. Estivesse eu no lugar da minha namorada, eu podia reclamar do meu modelo de ingratidão com a vida:

“Eu tenho tanto para fazer, tanto para ler, tanto para escrever, tanto para assistir...”

“E tem tanta gente que não tem nada disso né? E você aí reclamando que tem demais”

“(...)”

A minha namorada na minha imaginação é muito mais cruel do que ela de verdade, mas ela daria um jeito de falar isso de uma maneira mais querida e eu concordaria mesmo assim. Talvez, mesmo não querendo nada físico, eu esteja querendo demais. Eu nem sempre vou ter todo o tempo do mundo para mim, e ficar brabo com isso é ser ingrato com o que eu tenho da mesma maneira que ela se achou ingrata com a vida. O que é o desejo supérfluo dos outros para mim é a minha insistência em querer tempo para mim para os outros. É infantil. Todo mundo precisa de limites.

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Não é errado querer presentes, não é errado saber o que quer de amigo secreto, não é errado se dar de presente duas horas sozinho no quarto, não é errado se dar o luxo de pedir que alguém traga algo de fora, seja dos States ou seja de Rivera. Eu nunca teria provado alfajor se não fosse pelos meus amigos que já viajaram, e gente, ALFAJOR!

O problema talvez seja em querer sempre. Em tempos de Black Friday e Ali Express e passagem pro exterior barata, a gente nunca quer perder uma oportunidade, mas talvez as vezes seja bom fazer justamente isso: deixar passar. Confesse: você sabe quando vai encontrar aquele livro de novo ou aquela peça de roupa e quando não vai mais encontrar. Se a gente nunca perde a oportunidade de querer algo, acaba confundindo o significado de prioridade na nossa mente. Quando a gente quer, pode e diz sim para tudo, qual é a graça de querer algo muito mesmo?

O segredo está em dizer não.

Tem gente que fica até famoso com isso. Gente e gato.

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Frase muito cruel (mas verdadeira) que eu li hoje:

“Diga não para tudo. Transforme o sim em exceção.”

E isso vale tudo para a vida. Quando você transforma o sim em exceção, fazendo/comprando/vivendo o que você realmente quer e não fazendo algo para “não perder a oportunidade”, você acaba vendo com mais clareza o que realmente importa. Vale o exercício.

Quer que eu traga algo de fora?
Não, obrigado, não tô precisando de nada!

Quer sair com a gente hoje?
Não, valeu pelo convite, tô com pouca grana.

Não vai comprar esse livro?
Não, eu já tenho outros vários pra ler, valeu.

Essa blusa ficou linda em você, vai comprar né!
Não, eu tenho outras novas que nem usei ainda.

Vai ir naquele evento que é a tua cara esse findi, tu tem que ir!
Não, vou ficar por casa, tenho coisas pra fazer.

A galera vai se encontrar e só não vai você, tu vai ir né?
Hoje não, tô afim de descansar.

Quer dar uma volta no sol e tomar um chimarrão?
(...) Sim!

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Valorize o que merece o seu sim. Não tenha medo de dizer não. E não ignore o poder do pensamento negativo. As vezes sai até um post sobre isso.

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Sam não ia escrever sobre isso

Tecnologia Touch

Se você pudesse revisitar qualquer momento da sua vida, qual visitaria?

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Recorte de revista inglesa sobre casa do futuro

Naquela época, sua casa ainda estava decorada no estilo dos seus pais. Qualquer que adentrasse a porta do número 216 daquela velha rua e chegasse na casa verde, última do calçamento, veria os registros dos grandes momentos da família espalhados pela sala: as formaturas, as viagens, as festas de casamento, tudo estava lá. Hoje, estava tudo na nuvem, disponível para quem quisesse ver, na hora em que batesse a saudade, mas naquela época, as pessoas tinham que lembrar de olhar para as fotos quando quisessem. Era tudo mais divertido.

A própria casa tinha uma construção robusta, digna da época em que a simulação se passava. Hoje, aquele grande bloco verde de dois andares seria considerado uma afronta a tecnologia moderna e transparente. E quem pensaria nos dias atuais em ter o mesmo layout de casa por mais de uma semana? Com as telas de retina você poderia ter uma casa com arquitetura romana na terça, um templo celta na quarta e trocar o desenha dela a tempo para uma legítima casa de Nova Orleans até o fim de semana para curtir uma bebedeira inspirada no Mardi Gras. Aquele bloco verde, o abacatão, como ele costumava chamar, seria feio hoje em dia. Mas porque a casa parecia sorrir para ele quando ele chegava?

Ao subir as escadas, mais lembranças. Ele lembrava com carinho dos cuidados que todos na casa repetiam uns para os outros sempre que chovia. “Cuidado que o chão tá molhado, escorregadio, não vai cair!”. Nunca ninguém caiu, felizmente. Houveram uns ou outros escorregões, claro, mas esse era o ônus de se ter uma casa de dois andares com escada. Escada... naquela época ele ria das crianças que nunca conheceriam um disquete. Hoje ele tem pena das crianças que nunca conheceram escadas.

Ele continuou o Passeio Virtual e seguiu em direção ao seu quarto. Porém, algo desviou o seu olhar antes disso. Quando chegou no corredor, avistou ao fundo a sacada do quarto de seu irmão e a bela árvore frondosa que fazia companhia a família. Quando pequeno tinha medo dela – era tão grande e tremia tanto nos dias de chuva e vento! Depois, aprendeu a dar valor para a sombra que ela proporcionava. Ficou realmente amigo dela quando tomou sua primeira cerveja deitado na rede presa entre a árvore e a parede da casa. Ver a árvore ali era como reencontrar uma velha amiga. Não se aproximou muito para a imagem não pixelizar. As suas lembranças – as verdadeiras – não perdiam a resolução.

Decidiu andar pela casa antes de entrar no seu quarto novamente. Deu mais alguns passos na Esteira das Memórias e seguiu até o quarto de seus pais. Sentiu um nó na garganta quando entrou. A cor nas paredes era a mesma que ele ajudou a escolher. Lembrou que sentia orgulho de pensar que os pais tinham um quarto cinza e laranja. Que tipo de pessoas tem o quarto com as paredes assim? Seus pais. Tentou imaginar eles no dia de hoje, com as paredes touch, que nunca deixavam você esquecer seus compromissos, os aniversários, as contas para pagar. Fez questão de procurar na simulação a caixa de recibos que seu pai guardava sobre o armário. Recibos. Papel. Isso sim era tecnologia touch.

Ah, a cozinha! Sua simulação salvou o último sofá da família. Não conseguia olhar para ele e não imaginar o seu pai sentado, assistindo televisão. Sua mãe... era impossível salvar um lugar fixo dela na cozinha de suas lembranças. Ela nunca parava quieta! Estava sempre passando as roupas ou fazendo comida ou preparando as coisas do trabalho sentada na mesa enquanto escutava a novela na televisão. Hoje em dia, com as Robô-Empregadas, ela poderia acompanhar seu pai e sentar junto no sofá.

Não. Ela nunca iria parar.

O sofá que ficou salvo na simulação não fazia jus ao sofá que ele mais gostava na casa. O sofá anterior ao que ficou salvo na simulação sim, arrancava sorrisos do seu rosto. Ele nunca teve nada de especial até o dia em que sua namorada falou que era o melhor sofá que ela havia sentado na vida. Ele nunca tinha dado valor para ele até então. Depois desse comentário, porém, qualquer programa de domingo era a melhor desculpa para passar ao lado da pessoa que ele mais amava. Ele adorava provocar ela, colocando a mão em suas coxas quando sua mãe desviava o olhar, tudo isso sob o olhar atento da imagem católica na parede. Ela o desafiava a parar, ele continuava provocando, a sua mãe fazia pipocas, Jesus olhava da parede... os domingos pareciam muito melhores naquela época.

Levantou do sofá da simulação e seguiu em direção ao seu quarto. A porta estava fechada, como de costume. Sentiu um nó na garganta novamente quando lembrou dos pais. Mesmo que soubessem que o filho estava provavelmente estudando ou lendo ou escrevendo ou assistindo seriados ou dormindo dentro do quarto, a imagem que seus pais mais tinham dele era aquela porta marrom fechada. Quantas vezes ele havia pensado em abrir e deixar o caminho livre para quem quisesse chegar? Com certeza, mais vezes do que ele realmente havia feito isso. Quantas histórias aquela porta marrom fechada impediu de serem contadas? Quantos boa-noites não foram dados, quantos “filho, vem olhar isso aqui” foram ignorados pela simples preguiça de abrir a porta?

Colocou as perguntas no canto da cabeça e a mão na maçaneta. Fez questão de separar uma simulação em que sua presença estivesse sendo sentida em casa, mas não tinha ninguém em casa. Na simulação, seus pais haviam saído... mas será que ele estaria dentro do quarto? O que será que o Passeio Virtual havia separado daquela vez? Estaria lendo, rindo, chorando, com saudade? Estaria escrevendo um conto, fazendo um favor, ou desejando ir dormir? Girou a maçaneta e abriu a porta. E então viu... nada.

Seu quarto estava vazio. Não vazio literalmente: seus milhares de livros e gibis e revistas e bonecos ainda estavam lá, juntamente com a roupa no armário e a dupla de travesseiros na cama. Mas ele não estava lá. A princípio, pensou que o programa tinha dado pau - não era raro a versão 2.5 do Passeio Virtual travar - mas então entendeu que ela estava funcionando, muito bem inclusive. Ele havia selecionado uma simulação em que sua presença estivesse sendo sentido em casa. Mas ele ignorou que talvez a falta de sua presença pudesse ser sentida com mais força ainda, força suficiente para inverter os algoritmos do programa e selecionar um dia em que ele não estava em casa. Mais forte do que a sua presença, era a saudade que a falta dela gerava.

E onde estaria? Não conseguiu descobrir. A mochila que usava para viajar não estava ali, então ele podia estar na estrada, mas por um tempo ele usou a mesma mochila para dormir na casa da namorada, então isso não ajudava muito. Olhou para a estante de livros. Comprava tantos livros naquela época que era impossível descobrir qual havia sido o último lançamento e descobrir que época era aquela. Olhou para o velho computador sobre a mesa. Ele acumulava uma poeira incerta.

Independente da época, seus badulaques estavam todos lá, sobre a mesa. A caixinha em que guardava os remédios, os bonequinhos de luxo, um porta-trecos cheio de recibos (adorava a tecnologia touch também), o seu cofre de gatinho. Mas afinal, onde estava ele?

Foi quando a luz verde da simulação acendeu-se na tela. Franziu a testa tentando lembrar o que significava aquela luz. A versão 2.0 do Passeio Virtual não tinha tantas frescuras assim. Concentrou-se na palavra que havia escolhido para abrir o menu de ajuda (“Klapaucius”, repetiu mentalmente), até que de repente, viu que a luz da escada havia acendido. Alguém estava subindo. Finalmente iria descobrir porque não estava em casa naquele dia.

Quando ele ouviu o choro de criança, logo descobriu.

O primeiro que entrou na sala foi o seu irmão, com a câmera na mão. Ele chegou e abriu as janelas para melhorar a luz – odiava tirar fotos com flash – e se posicionou no meio da sala. Seu pai entrou logo depois, carregando as mochilas coloridas na mão. Ele procurava algo nervoso dentro da mochila que usava para viajar, até que encontrou e colocou a fralda colorida em cima do sofá.

Sua mãe entrou logo depois, de costas, afastando o tapete para ninguém cair. E então ele entrou, seu eu mais novo, com mais cabelo e menos rugas, mas com um sorriso que depois que chegou ao seu rosto nunca mais saiu. Ele entrou na sala e estendeu a mão para ajudar elas subirem.

Sua mulher, a mulher que escolheu para viver junto, a mulher mais linda do mundo, chorava. Chorava de alegria porque estava perdendo o título de mulher mais linda do mundo para a filha dos dois que carregava no colo. Aquele choro – o choro insistente, o choro de quem quer ser ouvida e quem quer ser cuidada naquele mundo estranho que acabava de conhecer – logo o deu certeza do dia em que sua simulação acontecia. Por isso ninguém estava em casa. Eles estavam voltando do hospital.

A simulação não tinha muita definição no som, então ele não conseguia ouvir o que as pessoas falavam, um defeito que ele esperava que o novo patch do Passeio Virtual 3.0 corrigisse. Por causa disso, ele não conseguia entender o que todos estavam esperando. Foi quando viu a sua sogra abrindo a porta da sala e chegando afobada com os brinquedos da criança. Sua mulher franziu a testa e disse alguma coisa para sua mãe que fez todos ficarem em silêncio por um momento. Então, ele mesmo disse algo e todos riram. Certas coisas nunca mudaram.

Os sete então, guiados pelo seu irmão, foram até o seu quarto e abriram a porta, a porta marrom, a porta das histórias interrompidas, a porta dos boa-noite não dados, a porta que o protegia do mundo ao redor. Eles abriram a porta sem nem bater porque ele não precisava mais de proteção – ele precisava dar proteção agora. E foi justamente naquele lugar em que ele se sentia tão bem, que ele quis fazer aquilo.

Ele abriu as janelas do quarto e pediu para seu irmão organizar a foto. Ele ajudou sua mulher a se sentar e sentou ao seu lado, com a filha dos dois no colo dela. A sua mãe e a mãe dela choravam de alegria. Seu pai olhava tudo com ternura, mas ele sabia que iria chorar em alguns instantes. Seu irmão gritava com todos tentando organizar a foto. Depois de alguns olhares franzidos dele – alguém nessa família não franzia a testa? – todos se ajeitaram. O choro deu lugar a um clique e a foto foi tirada.

Hoje em dia, a foto subiria para a nuvem diretamente depois de ser tirada, com ajuste de cor, enquadramento perfeito e tags que permitiriam ela ser usada em bancos de imagens do mundo todo caso os royalties sejam pagos direitinho. Naquela época, uma foto tinha que passar por vários processos até chegar impressa na sua mão. Por isso, seu irmão saiu para baixar a foto no computador, sua mãe já saiu preparar o café, a sua sogra saiu atender o celular e o seu pai foi para o velho lugar do sofá que tanto lhe pertencia.

E ele ficou ali, observando seu eu mais jovem, sua mulher e sua filha curtirem aquele momento família, o primeiro de muitos. Aquele quarto, que já tinha sido depositário de tantas histórias, estava vendo o início da história mais linda que ele já havia criado.

Ele ficou ali alguns minutos, assistindo a mesma cena em loop, até que a notificação roxa apareceu na tela. Sua simulação havia terminado. Ficou assistindo o frame congelado até que alguém viesse lhe tirar dali. Tirou um PrintScreen mental da última cena: os dedinhos da sua filha entrelaçados no seu.

Ficou ali, esperando alguém vir lhe tirar os óculos do Passeio e ajudar ele a sair da Esteira de Memórias. Já tinha feito os 15 minutos diários de caminhada e podia voltar para suas leituras. Ficou esperando a mão fria da enfermeira vir pegá-lo, mas se surpreendeu quando sentiu uma mão quente e macia lhe encostar.

- Pai, surpresa! Viemos te visitar. Espero que tenham lugar pra mais três hoje – ela começou a falar sem parar igual sua mãe enquanto o ajudava a descer da Esteira. Estava adorável como sempre – Já não falei pra não deixar fechada essa porta enquanto está sozinho aqui na biblioteca? A enfermeira tá no jardim e a mamãe tá lá na sacada, se você cair não tem ninguém pra vir te ajudar!

Ela estendeu a mão e entrelaçou seus dedos no dele. Ele sorriu ao ver o seu sorriso se refletir no rosto dela. Apagou o PrintScreen que tirou da tela e segurou a mão de sua filha com força.

Como gostava dessa tecnologia touch.

***

Sam é só sorrisos