“Não... não tô precisando de nada.”
Ele brincou, falou que ia trazer uma boneca inflável pra mim, falou que era uma piada, ninguém riu... foram 3min estranhos. Mas a resposta – e a facilidade com que ela veio – me marcou de um jeito que fez eu pensar por mais de 3min.
Eu realmente não conseguia pensar em nada que estava precisando, mesmo que seja supérfluo. Eu podia pedir para ele trazer um gibi, que nem ele havia feito ano passado, podia pedir algum livro, que é o que eu costumo gastar meu dinheiro, mas nada parecia essencial, sabe? Não tinha nada que eu realmente precisava ou que, caso eu precisasse, não poderia comprar pela internet. Depois de um dia pensando na questão, cheguei a uma resposta satisfatória do que eu realmente precisava.
“Tô precisando de tempo pra curtir o que eu tenho”
Dias depois, contei pra namorada sobre isso. Ela falou que eu devia ter pedido um perfume. Eu disse que já tinha um perfume. Ela falou que na verdade era um desodorante que eu usava como perfume. Eu olhei a embalagem do perfume. Era um desodorante que eu usava como perfume. Eu pedi para ela continuar me amando depois de discordar dela. Ela riu.
Mas ainda assim, ter um desodorante-perfume não era motivo pra eu pedir que ele trouxesse um perfume dos Estados Unidos. Perguntei o que ela teria pedido e ela falou que teria pedido um perfume. Falei sobre a conclusão que cheguei, de que tinha tudo o que precisava, seja livros, eletrônicos, roupas, perfumes-desodorantes, e que precisava só de tempo para curtir isso. Depois de alguns instantes pensando sobre a opinião dela e a minha, ela respondeu.
“É... eu sou um pouco ingrata com a vida mesmo.”
Eu prontamente disse que não, que não tinha problema nenhum em se dar ao luxo de pedir um presente ou de querer comprar algo que se deseja, mas que realmente, eu me percebi em uma situação em que estava confortável com tudo o que tinha. E estava feliz.
Isso tudo me fez pensar: ela não tinha motivo nenhum para se sentir ingrata com a vida, por desejar algo que não tem, porque com certeza assim que ela tivesse o que desejasse (o perfume), ela iria querer alguma outra coisa. Essa sensação de ingratidão, de insatisfação, é um ônus pela possibilidade de escolha: se você tem o dinheiro e a oportunidade, porque não compra, não adquire, não faz? É uma escolha que não passa pelo livre-arbítrio da gente, é quase uma atitude automática: ele vai para os Estados Unidos, eu tenho dinheiro, ele pode trazer algo para mim, por que não?
Porque de repente, você não precisa, oras. É simples.
***
Esse fim de semana, me vi respondendo essa pergunta três vezes, em três momentos de amigo secreto: no trabalho, com os amigos e com a família. “E tu Samuel, tá precisando do que?”. Tive que dar a resposta automática: “olha, não tô precisando de nada, o que quiserem me dar, tá ótimo”, mas a maioria das pessoas não se contenta com isso. Inclusive, vi um caso novo: alguém que desejou MUITO que as outras pessoas falassem o que queriam de presente para que ela pudesse dizer também o que queria. Ela insistiu uma, duas vezes, até que falou mesmo assim.
Não foi por mal – ela interagiu melhor na brincadeira do que eu, afinal – mas refletiu bem aquela ingratidão de que falei lá em cima: as vezes a gente acha tanto que precisa de alguma coisa que pula na primeira oportunidade de ter ela, seja em viagem de amigos ou amigo secreto. E quando respondemos isso com certeza, com o presente na ponta da língua, acabamos fica meio culpados quando percebemos que as outras pessoas não querem tanto quanto a gente.
Ou talvez eu apenas seja ruim nesse negócio de presentes mesmo.
***
Agora, me vejo novamente no meu modelo de angústia: tenho três listas de amigo secreto para responder, tenho presentes de Natal para dar e receber, mas nada me deixa tão angustiado quanto ver o número de livros que tenho na estante para ler, o número de ideias que tenho para colocar no papel, o número de coisas que não faço e culpo a falta de tempo. Talvez seja culpa minha, afinal, para fazer mais basta querer menos, como já falei aqui. Estivesse eu no lugar da minha namorada, eu podia reclamar do meu modelo de ingratidão com a vida:
“Eu tenho tanto para fazer, tanto para ler, tanto para escrever, tanto para assistir...”
“E tem tanta gente que não tem nada disso né? E você aí reclamando que tem demais”
“(...)”
A minha namorada na minha imaginação é muito mais cruel do que ela de verdade, mas ela daria um jeito de falar isso de uma maneira mais querida e eu concordaria mesmo assim. Talvez, mesmo não querendo nada físico, eu esteja querendo demais. Eu nem sempre vou ter todo o tempo do mundo para mim, e ficar brabo com isso é ser ingrato com o que eu tenho da mesma maneira que ela se achou ingrata com a vida. O que é o desejo supérfluo dos outros para mim é a minha insistência em querer tempo para mim para os outros. É infantil. Todo mundo precisa de limites.
***
Não é errado querer presentes, não é errado saber o que quer de amigo secreto, não é errado se dar de presente duas horas sozinho no quarto, não é errado se dar o luxo de pedir que alguém traga algo de fora, seja dos States ou seja de Rivera. Eu nunca teria provado alfajor se não fosse pelos meus amigos que já viajaram, e gente, ALFAJOR!
O problema talvez seja em querer sempre. Em tempos de Black Friday e Ali Express e passagem pro exterior barata, a gente nunca quer perder uma oportunidade, mas talvez as vezes seja bom fazer justamente isso: deixar passar. Confesse: você sabe quando vai encontrar aquele livro de novo ou aquela peça de roupa e quando não vai mais encontrar. Se a gente nunca perde a oportunidade de querer algo, acaba confundindo o significado de prioridade na nossa mente. Quando a gente quer, pode e diz sim para tudo, qual é a graça de querer algo muito mesmo?
O segredo está em dizer não.
***
Frase muito cruel (mas verdadeira) que eu li hoje:
“Diga não para tudo. Transforme o sim em exceção.”
E isso vale tudo para a vida. Quando você transforma o sim em exceção, fazendo/comprando/vivendo o que você realmente quer e não fazendo algo para “não perder a oportunidade”, você acaba vendo com mais clareza o que realmente importa. Vale o exercício.
Quer que eu traga algo de fora?
Não, obrigado, não tô precisando de nada!
Quer sair com a gente hoje?
Não, valeu pelo convite, tô com pouca grana.
Não vai comprar esse livro?
Não, eu já tenho outros vários pra ler, valeu.
Essa blusa ficou linda em você, vai comprar né!
Não, eu tenho outras novas que nem usei ainda.
Vai ir naquele evento que é a tua cara esse findi, tu tem que ir!
Não, vou ficar por casa, tenho coisas pra fazer.
A galera vai se encontrar e só não vai você, tu vai ir né?
Hoje não, tô afim de descansar.
Quer dar uma volta no sol e tomar um chimarrão?
(...) Sim!
***
Valorize o que merece o seu sim. Não tenha medo de dizer não. E não ignore o poder do pensamento negativo. As vezes sai até um post sobre isso.
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| Tem gente que fica até famoso com isso. Gente e gato. |
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Frase muito cruel (mas verdadeira) que eu li hoje:
“Diga não para tudo. Transforme o sim em exceção.”
E isso vale tudo para a vida. Quando você transforma o sim em exceção, fazendo/comprando/vivendo o que você realmente quer e não fazendo algo para “não perder a oportunidade”, você acaba vendo com mais clareza o que realmente importa. Vale o exercício.
Quer que eu traga algo de fora?
Não, obrigado, não tô precisando de nada!
Quer sair com a gente hoje?
Não, valeu pelo convite, tô com pouca grana.
Não vai comprar esse livro?
Não, eu já tenho outros vários pra ler, valeu.
Essa blusa ficou linda em você, vai comprar né!
Não, eu tenho outras novas que nem usei ainda.
Vai ir naquele evento que é a tua cara esse findi, tu tem que ir!
Não, vou ficar por casa, tenho coisas pra fazer.
A galera vai se encontrar e só não vai você, tu vai ir né?
Hoje não, tô afim de descansar.
Quer dar uma volta no sol e tomar um chimarrão?
(...) Sim!
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Valorize o que merece o seu sim. Não tenha medo de dizer não. E não ignore o poder do pensamento negativo. As vezes sai até um post sobre isso.
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Sam não ia escrever sobre isso

