A torta desse ano quase não saiu. Eu demorei pra decidir o tema, achei que ia perder a data de envio, quando perdi achei que não ia dar mais e já tinha desistido quando minha excelentíssima namorada disse "TU NÃO VAI DEIXAR DE FAZER A TORTA ESSE ANO". Sábia mulher.
O que é uma coisa muito 30 anos: deixar de fazer as coisas que definem a gente. O que eu mais escuto é "Não acompanho mais... Não faço mais isso... Não lembro a última vez que fui lá." Se tem uma coisa que a gente tem que se esforçar pra fazer é não deixar pra trás aquilo que nos define.
"O Samuel? Ah, aquele da torta?"
Por maior que seja o esforço, vale a pena.
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E sim: vai dar tudo certo. Que venham os 31! Sam já está em dúvida do que fazer ano que vem
Tem um momento no especial “Thinky Pain”, do comediante Marc Maron, em que ele fala com o seu eu-criança que está chorando em um campo de beisebol depois de levar uma bolada na cara. Com a intenção de contar ao pequeno Marc um pouco do futuro, ele diz: “E honestamente, daqui em diante, sem mais heróis do esporte, (...), só solitários, pessoas desajustadas, viciados em drogas, pessoas que vivem à margem, comediantes, estrelas do rock, essas são suas pessoas. Acostume-se com isso”. Enquanto ele falava com o pequeno Marc, eu concordava do outro lado da tela.
Trailer do especial "Thinky Pain"
Gostamos de histórias de esportes por causa da superação: fulano treinou X horas por X anos e foi reconhecido na frente de todos. É a narrativa que queremos na nossa vida. Mas chega uma hora que, como o pequeno Marc, você vê que seu povo é outro. Foi assistindo os especiais do Netflix do Marc Maron, bem como os de John Mulaney, outro comediante que recomendo, que a identificação aconteceu. Os dois tem o mesmo estilo neurótico e ansioso de pensar demais no que os outros pensam e analisar as situações em que vivem.
John Mulaney e uma festa da adolescência. Clique nas legendas!
Além disso, os dois não são modelos da masculinidade clássica: Maron brinca que em caso de uma apocalipse zumbi precisaria de um macho-alfa para liderá-lo senão ia morrer logo, enquanto Mulaney fala de ter que retomar o controle sobre sua cachorra: “Como se eu tivesse tido o controle sobre ela alguma vez antes”.
Sempre falamos que representação importa e buscamos modelos de pessoas para seguir. Assistindo os especiais de Maron e Mulaney, percebi que as pessoas que me identifico são neuróticas e ansiosas, e que é possível lidar, fazer rir e criar arte dessa paranoia toda. E pela primeira vez, não tenho nenhum problema com isso.
E você: o que tem aceitado sobre quem você é ultimamente?
Mais alguns dias completo 30 anos. Sem nenhuma crise existencial - não mais do que as diárias, as semanais, e as quinzenais - e ninguém me pressionando para eu ser a pessoa que esperam que eu seja aos 30.
Afinal, sou um homem branco hétero cis gênero com emprego, oportunidades e um mundo esperando eu conquistá-lo: ninguém precisa me cobrar nada, o mundo foi feito para mim! A única cobrança que sinto é a que eu mesmo me faço, e talvez seja justamente por ter um mundo que me privilegia tanto que sinto isso.
Posso beijar a pessoa que quero na rua, posso concorrer ao emprego que desejar, posso usar a roupa que eu quiser e posso falar bulhufas na internet sem ser xingado. Posso passar incólume pela vida, sendo amigo das pessoas certas e estando no lugar certo e na hora certa, para simplesmente lembrarem de mim. “O fulano? Sim, o fulano! Grande lembrança! Nunca incomodou. Chama ele!”. Eu nunca tive alguém que não gostasse de mim, que falasse “Aquele ali? Não quero perto de mim”.
Uma vez um colega de faculdade brigou comigo por causa de algo que falei bêbado e fiquei até emocionado. Inimigos! Um pouco de drama, como os seriados americanos me falaram que seria. Que emoção, que plot twist! Mas foi tudo um mal entendido. Sigo com o mundo de portas abertas, oportunidades no meu colo e tudo dependendo apenas de mim para que aconteça. Nunca ouvi um não.
Pensando bem, dá até um nervoso. Seria mais fácil alcançar alguma coisa se tivesse alguém me impedindo. As pessoas que conquistam seus sonhos mesmo com dificuldades parecem tão felizes! Acho que a crise dos 30 é o medo da consciência de que posso fazer o que eu quiser. Fiquei com a boca seca. Deve ser mercúrio retrógrado. Faltou ar aqui. Ainda dá pra colocar a culpa no inferno astral?