Demorou. Mas finalmente, aconteceu.
*****
Sábado pela manhã, 10h, o relógio biológico ligou seu despertador e me fez levantar. Depois de uma madrugada em claro assistindo desenho animado e seriados e escrevendo e procrastinando a vida, resolvi ignorar o sono e pagar de consciente: não voltei a dormir. Lavei o rosto, abri o quarto, arrumei a cama, e quando estava pronto para continuar a procrastinação livro - seriado - escrever, minha mãe me chamou na cozinha.
- Tu já tá em pé? Que bom. Vem cá conversar comigo um pouco. E aproveita e traz um papel e uma caneta. Tu vai ir no mercado pra mim hoje de tarde.
Essa música começou a tocar automaticamente na minha cabeça
*****
Eu não sei ao certo quantos dias compreendem uma vida de quase 24 anos, mas sei que dá MUITOS dias. E mesmo com MUITOS dias de experiência nesse plano astral, nunca fui designado a "ir no mercado sozinho". Nossa, quando eu vou com os amigos (definição de sozinho = longe da família), eu já fico de lado, aparecendo como personagem coadjuvante de luxo só na hora de pagar no caixa! Quem dirá ir sozinho. Eram compras simples, ok, mas agradeci pela confiança e abracei a tarefa como um verdadeiro herói.
*****
Mais tarde eu descobri, claro, que não há nada de heróico em ir no mercado sozinho. Mas para mim, que me gabava (para mim mesmo) que "eu já fui pra praia sozinho" (de novo, sozinho = longe da família), "já viajei pra outros cidades de carro sozinho", "já fiz coisas complicadíssimas sozinho" (pra simplificar), ir no mercado era algo que eu já devia ter feito mil vezes. Mas demorou quase 24 anos para essa tarefa acontecer. A minha suíte "Zona de Conforto" no Hotel dos McQueen tá precisando de umas férias de mim.
*****
Claro, a lista de compras era pequena, não foi algo do tipo, "NOSSA, ELE FEZ UM RANCHO PARA ALIMENTAR A FAMÍLIA INTEIRA POR UM MÊS," mas dá pra citar algumas coisas interessantes:
PONTOS ALTOS: quem imaginaria que escolher laranjas do céu seria TÃO divertido! Analisar a consistência de cada uma, qual tava mais madura, qual tava com uma cara melhor. Foi bem divertido. Levei até uma meio feia, só pra não cometer bullying.
PONTOS BAIXOS: eu não sei se o sistema de som estava ligado em uma rádio interna ou uma FM qualquer, mas o playlist de Rihanna, Luan Santana e afins não agradou tanto quanto eu esperava, mesmo estando no mercado. De qualquer jeito, dancei muito quando tocou ABBA no corredor dos papéis higiênicos.
"you can dance... you can ji-i-ive..."
*****
No final, voltei pra casa satisfeito. Me dei até o luxo de comprar maçãs verdes que não estavam na lista, só porque eu estava satisfeito comigo mesmo e porque, enfim, são maçãs verdes, WHY NOT? No domingo, minha mãe repetiu a função comigo, dessa vez indo na padaria para comprar algumas coisas rápidas, para café e afins. No corredor dos bolos, me indagou "se eu te pedisse pra tu comprar alguma coisa doce pra mim, alguma cuca, o que tu compraria?". "Uma cuca, mãe". "E se eu pedisse pra tu comprar um bolinho, o que tu compraria?" "Um bolinho, mãe". Eu não sei que tipo de treinamento ela tá me dando, mas ela citou pelo menos três vezes que "eu tenho que aprender essas coisas pra quando eu tiver que fazer sozinho". Eu não sei se ela tem o mesmo conceito que eu de "sozinho", mas achei um comentário bem válido.
*****
De resto, tem que enxergar valor nas pequenas coisas. Acabei a noite de sábado na casa de um amigo assistindo How I Met Your Mother, e como disse o personagem principal no fim do episódio 3, "as vezes acabamos indo em um lugar onde não imaginávamos ir e no final dar tudo errado. Mas o importante é trazer uma boa história de lá." E é isso. Um belo mantra.
*****
Valorizar as pequenas coisas e viver pelas boas histórias. Mesmo que seja como você dançou ABBA enquanto comprava papel higiênico num sábado de tarde. Eu sei. Vocês nunca mais vão conseguir me olhar do mesmo jeito sem imaginar essa cena.
Ainda vou chegar nesse nível, prometo.
Sam aceita dicas de como escolher tomates
Nenhum comentário:
Postar um comentário