Sequestroterapia

Amores roubados, amores sequestrados... será uma nova tendência?

***


Armando e Ana saiam animados do teatro.
- Ai amor, adorei o programa surpresa!
- Viu só? Eu falei que você ia dar risadas hoje.
- Jurei que ia ser pizza e filmes de novo.
- E o que tem de errado com pizza e filme?
- Nada ué – eles pararam na porta do carro – é só que... enjoa sabe. Você prefere uma namorada linda e magérrima ou uma gordinha que já viu todos os filmes do mundo?
- Ai amor... você sabe que eu adoro cinema né?
- Armando!
- To brincando amor! – ele deu um beijo comportado na testa dela – vamos?
Armando deu a volta no carro para entrar. Ana ficou parada na porta.
- Não vai entrar?
- Você não vai abrir a porta pra mim?
- Eu tenho?
- Ah, Armando, assim não né? – ela fez cara de choro
- Desculpa amor – ele voltou para abrir a porta – você sabe que eu não to acostumado com essas gentilezas, eu... - o celular dele bipou.
- Viu só? Viu só? Na mínima é mensagem de alguma fã tua por aí!
- Amor – ela desviou o olhar dele – amor... Ana... Ana Cristina, olha pra mim, por favor.
- Você sabe que eu odeio que me chamem pelo meu nome completo!
- E você sabe que eu odeio te chamar assim, mas é só assim que você me escuta! – ele mostrou a tela do celular para ela – olha aqui de quem é a mensagem. É do Jorge! Ele quer combinar futebol sexta. Você me conhece amor. Você sabe que o Jorjão não faz meu tipo...
Ela riu, ainda braba.
- Ai, desculpa amor. TPM, você sabe né.
- Sim, sei. “Tensão Pró Macho”. – o celular dela bipou – ó, você recebe mensagem o tempo todo também, e eu não vou nem te pedir quem é, viu só que querido?
- Ah – ela olhou para o aparelho - não é nada mesmo.
Ele abriu a porta para ela e entrou. Ana continuou respondendo a mensagem.
- Ana, vamos? Ta tudo bem?
- Oi? Sim, tá tudo bem – ela entrou no carro, ansiosa – Vamos. Já falei que adorei o teatro?

Dez minutos depois, os dois chegaram em casa. A porta da garagem estava aberta. Armando estacionou o carro do lado de fora e os dois desceram.
- Armando, diz que foi você que deixou a porta aberta.
- Claro que não né, eu chego a dar a volta na quadra pra garantir que fechei quando acho que esqueci, na mínima foi você que saiu distraída, ou a louca da sua mãe que veio e...
- Não fala da minha mãe! Não fala da... Armando, cuidado!
Uma pancada forte atingiu a nuca de Armando. Ele caiu no chão, desacordado.

Armando acordou minutos depois, com uma luz forte quase cegando seus olhos.
- Ai! Ai minha cabeça, cacete! Ana! Ana, cadê a Ana, ANA, cadê você! Eu vou...
Ele tentou se levantar, mas estava preso em alguma coisa. Reconheceu a cadeira e as cordas que estavam prendendo suas mãos. Deixou os olhos se acostumarem à escuridão e entendeu o que estava acontecendo. Estava preso na garagem de casa.
- Shhh, Armando, fica quieto!
- Ana! Cadê você!
- Eu tô aqui, atrás de você! Ele me pegou também!
- Ta tudo bem com você amor? Ai meu Deus, o que que ta acontecendo!
- Tá tudo bem querido, tudo. Tem um assaltante na nossa casa, eu falei que não tinha muita coisa pra levar, mas mesmo assim ele prendeu a gente e tá revistando a casa toda agora!
- Ai meu senhor, que bom que eles não te machucaram! Olha só, cadê seu celular?
- Ficou no carro, eu deixei lá quando a gente desceu.
- Você carrega aquela porcaria pra todo o lado e quando a gente precisa você não tem?
- Armando, você quer fazer o favor de parar?
Uma sombra negra surgiu, vindo de dentro da casa.
- SILÊNCIO! Caladinhos senão eu encho de bala! – a roupa negra do assaltante deixava só os olhos e a boca de fora – Eu quero o dinheiro! Quem dos dois sabe a senha do cartão?!
- É ele, moço, é o Armando.
- Ana Cristina, por favor!
- Amor, a gente tem que colaborar! Eu não quero morrer!
O assaltante chegou perto de Armando. Sua presença era assustadora, mas ele estava perfumado. O assaltante mirou a arma na cabeça de Armando e pediu novamente.
- Você que tem a senha do cartão de crédito?!
- Eu até tenho, mas quem gasta é ela.
- Armando!
- Qual é a senha do cartão de crédito?! Hein?! Rápido!
- Tá, ta, é, deixa eu ver, é 1... 8... 0... 4... 0... 6... Eu juro!
O assaltante saiu da garagem e voltou para dentro da casa.
- Ai, que lindo amor, a sua senha do cartão é o dia que você me pediu em namoro!
- Oi? Não, não, é o dia do meu aniversário de amizade com o Jorjão.
- Não amor, dia 18 de abril de 2006, dia da Festa da Cerveja Liberada, lembra?
- Lembro, claro, mas 18 de abril é a data que eu comemoro o meu aniversário de amizade com o Jorjão, do dia que a gente se conheceu! É que sabe o que é, eu te pedi em namoro esse dia porque já era uma data especial pra mim, daí como eu sou muito ruim em decorar datas, eu coloquei duas importantes no mesmo dia, pra não esquecer, entendeu?
- Armando, cada dia você me decepciona mais.
- Ana, o Jorjão é meu melhor amigo, essas coisas são importantes!
PLAFT! O assaltante derrubou alguma coisa dentro de casa.
- Ô amigo, se você puder só assaltar, não quebrar nada, eu agradeço, viu?
O assaltante voltou para a garagem, arma em punho e voz de brabo.
- Quietinho aí na cadeira, ô magnata! Quietinho senão te furo todo!
- “Magnata”? Você tirou suas gírias de assaltante de onde, duma música do Charlie Brown Jr.? E me diz uma coisa, porque você ta tão perfumado, hein, você veio de uma festa?
- Armando, por favor, não provoca o assaltante! - Ana parecia desesperada - Ai seu assaltante, por favor, não mata a gente! Se você quiser saber mais alguma coisa, pergunta!
- Amor, ele não vai matar a gente, eu nem vi a arma dele direito, se bobear é de brinquedo.
- Assaltante, se quiser saber alguma coisa, pergunta! Pergunta!
O assaltante deu um pulo, como se tivesse lembrado de alguma coisa.
- Sim! Eu quero saber sim! Eu quero saber... com quantas mulheres você ficou antes de ficar com essa vagaba aí!
- Olha o respeito! – Ana gritou.
- Desculpa, moça! – o bandido perdeu a pose – Responde aí, ô, vacilão!
- Mas que tipo de pergunta de assaltante é essa?
- Vai Armando, responde, ele tem uma arma!
- Ai, tá, tá! Eu fiquei com a Angélica, depois com a Rê, aí a Mônica, a Patrícia e a Luciana. E depois eu fiquei com a Patrícia e a Lu ao mesmo tempo, isso conta como mais uma?
- O QUÊ!? – Ana gritou - e você não tem vergonha de contar isso?!
- Mas amor, ele tem uma arma, o que você quer que eu faça? A gente tava lá, bebendo, vendo uns videozinhos na internet, daí a Lu começou a fazer massagem na Pati, aconteceu!
- Bico fechado os dois que eu quero saber mais! E semana passada, sexta, o que você fez?
- Sexta... sexta, eu fui jogar futebol com o Jorjão! Ele me convidou e eu fui.
- E essa tal de Larissa Panicat que te adicionou no Facebook, quem é?!
- É, quem é essa Armando?!
- EPA! – Armando quase levantou com a cadeira presa na sua bunda – EPA! Pêra lá que isso ta muito estranho! Esse assaltante tá sabendo muito da minha vida!
- E-e-eu tô cuidando da casa, vigiando, pra saber dos horários de vocês pra assaltar!
- Mas ta sabendo até do meu Facebook? Tu quer roubar minha casa ou tu quer roubar meus amigos no Instagram, hein? Ana, você tem algo a ver com isso?
- Armando, eu não sei de nada, te acalma!
- Sabendo da minha rotina, do meu Facebook, quem me adicionou, esse teu perfume do Boticário não me engana, garanto que veio junto com o kit de maquiagem que tu usou pra pintar esse teu olho de bandida! Pode tirar tua máscara que eu já sei quem tu é, Carolzinha!
A bandida acendeu a luz e tirou a máscara.
- Ana, desculpa amiga, não deu pra manter a personagem.
- “Magnata”, Caroline, “Magnata”?! Solta a gente aqui de uma vez, anda!
Armando não conseguia acreditar no que via.
- Amor... Ana... não vai me dizer que você tem algo a ver com isso?
- Desculpa amor, eu tava desesperada! Eu achei que você tava me traindo, aí falei com umas amigas, bolei uma idéia, daí hoje que você finalmente me levou pra sair eu dei um jeito de combinar com a Carol pra colocar o nosso plano em prática.
- Por isso você não largou a porcaria do celular a noite inteira!
- Sim, mas desculpa viu? Tô bem feliz que você reconheceu o aroma do perfume que a gente deu de presente pra Carol. Achei que você nem prestava atenção nessas coisas.
- Tá descontando do meu cartão de crédito ainda, não tem como não prestar atenção. Mas, amor... era só conversar! Não precisava ter feito tudo isso, pra que tanto drama? Quando quiser saber do meu histórico, eu conto! E sexta é dia de futebol, sempre. Eu amo você e nunca seria capaz de fazer alguma coisa pra te magoar, tá?
- E a Larissa Panicat?
- É um perfil fake de um homem. Juro! Vou mandar ele adicionar o Jorjão.
Os três riram.
- Brigado amor. Eu vou colocar uma pizza no forno e te esperar na cama, o que você acha?
- Acho ótimo!
- Então ta. Carol... obrigada, amiga. Desculpa te fazer passar por essa também.
- Imagina, guria... experiência pra vida! Quando precisar, só chamar.
Ana saiu da garagem. Carol começou a guardar as coisas do sequestro falso.
- Pode deixar que eu te ajudo... “Magnata”!
- Ai ai, Armando... desculpa tá? Se eu te machuquei ou quebrei alguma coisa, eu pago.
- Não, tudo bem. Fica tranquila. Eu só ainda não acredito que você aceitou participar disso!
Ela riu. Ele a puxou para perto e deu um cheiro no seu pescoço. Começou a cochichar no seu ouvido. Ela se arrepiou.
- Você sabia que o seu perfume é muito parecido com o perfume dessa tal Larissa Panicat?
- É? Não sabia – ele a abraçou por trás, com força; ela deixou - Fala mais.
- E sabia que essa Larissa na verdade é um perfil fake de uma amiga da minha namorada?
- Jura? Nem imaginava.
- Sim. É com ela que eu tenho encontrado toda sexta. Ela tem fetiches de sequestro.
- Deve ser interessante. Algemas, armas, disfarce...
- Muito! Inclusive, tenho que dizer pra ela que essa sexta espero no lugar de sempre.
- Ué. Não vai ter jogo com o Jorjão?
- Jorjão quebrou o pé a mais de um mês, acredita? Até me mandou a foto do gesso hoje, por mensagem de texto. Deixa eu te mostrar.

***

Sempre desconfie de alguém chamado Armando.

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