O Assalto

Aconteceu tudo muito rápido. Fui no shopping, estacionei, paguei minhas contas, voltei ao carro, abri a porta e entrei. Tirei o carnê pago do bolso, larguei no banco do carona, tirei o celular do outro bolso, coloquei no espaço embaixo do rádio, tirei a carteira e comecei a contar o dinheiro que havia sobrado depois das contas pagas. Foi quando ouvi uma voz de comando vindo do banco de trás e senti o cano gelado da arma no flanco direito da minha nuca. Ele falou apenas uma vez: era um assalto.

Soltei a carteira, o dinheiro e a respiração. A última inspiração podia ter sido a última da minha vida. Se soubesse, teria enchido mais os pulmões, como um atleta antes do fim da prova. Eu realmente estava em uma prova que poderia chegar ao seu fim logo, mas definitivamente, não era um atleta. Sou um cara de cabeça, não de corpo, por isso a única prova em que me daria bem era de paciência, e foi que fiz. Como reagir não estava entre os planos, esperei. Tomei ar por três segundos para arranjar coragem e deixei ele falar.

Com o cano da arma ainda imóvel no mesmo lugar na minha cabeça e uma respiração muito mais tranqüila do que a minha, ele pareceu ponderar sobre o que falar e quais as melhores palavras para usar. Quando resolveu quebrar o silêncio, falou tranqüilamente, palavra por palavra. Disse que estava lá porque queria o que mais me importava, queria o que mais me faria falta, queria o que eu tinha de mais valioso na minha vida.

O assaltante queria a minha felicidade.

Encarei aquela frase como se tivesse tomado o tiro que ameaçava a minha cabeça. Como assim, a minha felicidade? Porque ele queria minha felicidade? O que iria fazer com a minha felicidade? Poderia eu entregar minha felicidade para ele? Como eu faria isso? E o principal: teria eu felicidade na minha vida para entregar a ele?

Esperei mais alguns segundos, em choque, ver se ele iria se pronunciar mais alguma vez. Pedir outra coisa, o carro talvez, o celular, o dinheiro que viu eu tirar da carteira. Não. O assaltante só desejava a minha felicidade. Não tinha interesse nos meus bens materiais, no meu carro, dinheiro, celular. Para ele, aquilo não era mais importante do que a minha felicidade. Será que eu não estava percebendo alguma coisa aqui?

Segurei a voz embargada e pedi desculpas. Que tipo de idiota pede desculpas para um assaltante? Não sei. Mas pedi. Disse para ele que ia ter que me perdoar, porque não sabia se teria felicidade para dar para ele. Ele ficou brabo. Pressionou o cano da arma contra a minha cabeça e retrucou. Como não? Eu tinha carro, casa, família, emprego, oportunidades, saúde... como não teria felicidade? Notei que ele falava calmamente, como se tivesse muita certeza do que estava fazendo. Com o pouco que ele sabia da minha vida, podia afirmar com certeza que eu tinha felicidade. Eu não tinha tanta certeza.

Sempre brinquei de colocar as coisas em perspectiva para ver o que mais me importa na vida. É uma brincadeira mórbida, mas eu explico. Imaginava-me tendo um acidente. Iria para o hospital, nada grave, ficar uma semana. Quem iria me visitar? De quem eu sentiria mais saudade? Quem iria me surpreender, quem seria aquela pessoa que eu não vejo faz séculos, mas que compadecida da minha situação, iria atrás de mim, para saber da minha saúde, do meu estado, da minha vida? É uma brincadeira egoísta, mas sempre que pensava nas pessoas tristes por mim, me sentia triste por elas e isso me ajudava a entender de quem eu gostava e precisava mesmo.

Mas isso não era uma simulação. Não era um acidente besta criado na minha mente. Isso era realidade. Era um assaltante com uma arma na minha cabeça, um parco conhecimento da minha vida e uma exigência de algo que eu não sabia se poderia dar a ele, mesmo ele tendo certeza que eu tinha. Ou que tinha todos os pré-requisitos para ter. E o safado não parecia nem nervoso. Falava calmamente, com uma oratória quase professoral, e uma certeza nas palavras que lembrava outra pessoa, alguém que conhecia muito bem antigamente.

Coloquei as coisas em perspectiva novamente sobre a minha ótica egoísta e me senti um desnaturado pelo fato de que podia morrer porque não tinha felicidade na minha vida. Imaginei os outros no meu velório. Olha lá, lá se vai aquele que morreu porque não tinha felicidade para dar aos outros. Será que não podia prover felicidade porque não era feliz? Eles nunca saberiam. Num misto de coragem e desespero, me agarrei no volante do carro, com lágrimas nos olhos, e implorei. Pedi por favor, que não levasse minha vida, mas que eu realmente não tinha a felicidade que ele queria que eu tivesse.

Com a mesma calma e certeza de sempre, o assaltante me respondeu. Disse que não levaria a minha vida. Afinal, minha vida sem felicidade não valia nada.

Enquanto estava deitado no volante, num misto de desespero e humilhação, ele simplesmente saiu, tão misteriosamente quanto entrou. Não cheguei a ver seu rosto. Parece loucura dizer isso, resultado do choque de ser assaltado, talvez, mas depois de um tempo, me dei por conta de quem ele me lembrava. Seu jeito de falar, a entonação em sua voz, suas palavras certeiras, tudo isso lembrava uma pessoa que eu havia conhecido há muito tempo atrás, alguém que tinha todo direito de exigir felicidade na minha vida: eu.

Fiquei alguns minutos deitado sobre o volante até arranjar coragem para ligar o carro e ir embora. Voltei para casa revivendo a cena e pensando o que as pessoas ao meu redor fariam se soubesse o que aconteceu. Quem iria correndo para minha casa saber como estou? Quem iria subitamente expressar uma preocupação enorme por mim? A curiosidade era grande, mas eu sabia que essas pessoas iam estar preocupadas com a minha vida, o que talvez não fosse importante agora. Decidi então, que ao invés de esperar pela opinião dos outros, iria ouvir a opinião do assaltante, e garantir que a próxima vez que ele me encontrasse, eu tivesse felicidade na minha vida. Porque realmente, mesmo que eu ficasse vivo com muitas pessoas ao meu redor, a minha vida sem felicidade, não valeria nada.

4 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom, Mouk, me fez lembrar os assaltos por que já passei, as angústias, as incertezas, a falta de ar... e os pensamentos inevitáveis que brotam d mente e da alma nesses momentos... Melhor que esse tenha sido um assalto de consciência, enquanto lia me perguntava porque diabos tu não havia comentado nada...

Muito bom o conto, muito bom que seja um conto. Cesar

Samuel Rodrigues disse...

choquei muitas pessoas com esse texto. haha

Anônimo disse...

Muito interessante. No início faz a gente ficar preocupado. Mas depois a gente começa a pensar na vida e sobre o que é felicidade, em como somos frágeis tanto fisicamente quanto psicologicamente...
Fiquei pensando que se a pessoa fosse de verdade seria alguém que assistiu demais jogos mortais pra sair por aí apontando uma arma pras pessoas pra mexer no psicológico delas.

Samuel Rodrigues disse...

acabei de lembrar de um vilão de seriado que fazia isso. tô chocado comigo mesmo. mas não lembrei dele na hora de compor. mas enfim, somos frágeis, tanto que as vezes o trauma físico até cura, mas o trauma na alma...