Esse post é enorme e cansativo. Se não quiser ir até o fim, apenas me deseje boa sorte e tente, acima de tudo, me compreender caso eu suma.
Essa é a minha declaração de falência.
Lembro até hoje do meu primeiro aumento. Não sei se foi o primeiro, na verdade, não lembro, mas ficou marcado por um comentário do meu chefe que não esqueço. Assim que a minha chefe anunciou para mim e para minha colega que iria aumentar os nossos salários, ele comemorou junto conosco: "aeeee, viva, mais um carnê!!!". Olhamos para ele e demos uma risadinha meio amarela, já que, por mais 'engraçadinho' que tenha sido o comentário, era verdade. Naquela época, meu salário era algo em torno de R$ 350. Foi para R$ 400. Uns quatro anos atrás.
Corta para 2010, outubro. Outra lembrança clara: eu tuitando em alguma aula com computadores na universidade: "Paul, seu lindo, eu não tenho dinheiro pra te assistir, mas eu vou te assistir!". Se não me engano, foi a primeira vez que usei o termo "seu lindo" no Twitter, porque tinha recém lido alguém escrevendo. Mas o que importa é que o tweet foi muito verdade: eu não tinha a disposição R$ 650 pra assistir o show no Gramado Premium como eu queria, mas o fiz mesmo assim. Como eu já comentei muitas vezes aqui no blog, quando se é novo é preciso colecionar experiências e ver um dos meus ídolos a poucos mais de 20m de distância foi "a" experiência. Nos meses seguintes, comentava ironicamente "o show foi ótimo. E o ingresso estou pagando ainda! Hehehe". É... amarga ironia.
Corta para hoje, 18 de outubro de 2011. Saldo da minha conta no banco: R$ 3.848,28... negativo. O limite da minha conta é de R$ 3.100, então isso quer dizer que eu estou R$ 748,28 negativo além do meu cheque especial. É... tá punk o negócio.
Contar como o salário modesto (e mínimo) de R$ 350 virou uma dívida de quase 4 mil reais é uma história cheia de altos e baixos. Envolve pelo menos mais uns dois shows, algumas fatalidades e claro, muitas roupas. Quem me conhece sabe que nos últimos anos eu mudei bastante em relação ao vestuário e claro, mesmo que a grande mudança tenha sido "saber comprar roupas" ainda envolve "comprar roupas". Mas o maior culpado de tudo isso com certeza foi a minha falta de organização em relação as finanças e acho que esse é o maior motivo do post.
Assumir a dívida do Paul foi um risco, mas era um risco 'controlável' (se é que existem riscos assim). Fiquei com um arranhão na conta bancária que teria que esperar o mês seguinte para ser sanado e iria consumir um pouco de dinheiro que ia sobrar, mas ok. Mas naquela época eu estava recém começando a pagar o carro novo que ganhei em setembro, que consumia metade do meu salário. Mais o meu celular. Mais a internet. Mais duas lojas de roupas. Mais os meus gastos para sair. Mais os gastos para abastecer o carro. Mais o Paul McCartney. Tá dando pra sentir o drama?
Agora imagina eu recebendo o meu salário, depositando no banco e tirando aos pouquinhos para pagar as contas, sem nem notar o quanto ficou lá para os juros, para os pagamentos no cartão, para os cheques que iam entrar... Por um tempo, minha mãe me fazia todo mês sentar do lado dela para checar como andavam as coisas. Meu estômago entrava em parafuso, tamanho nervosismo que eu sentia ao ver aqueles papeizinhos amarelos do banco. Foi assim até o momento em que ela disse "Ok, cansei de tentar te organizar. Tu se vira a partir de hoje, eu abro mão." E lá veio o estrago.
Continuei com a minha política de "depositei, tá tudo tranquilo". Nos últimos casos, quando precisava cobrir um cheque, fazia um empréstimo no banco mesmo, daqueles que parecem inofensivos e extremamente parceláveis... Mal sabia eu do buraco que aos poucos me enfiava. E assim foram, com saídas, cinemas, barzinhos, ida a praia em fevereiro. Sem contar o namoro claro, que ANTES QUE ME APEDREJEM, economiza nas saídas mas cobra em presentes e jantares e afins. Mas tudo tranquilo; o importante era eu não ter que confrontar minha mãe com os canhotos dos cheques. O cometa estava nas nuvens.
Daí, em um certo mês, o dinheiro do Paul fez sua falta presente e eu tive que atrasar uma prestação do carro. Então começou a novela de pagar o boleto sempre atrasado, arcando com os juros. Errado, muito errado. Importante citar que nesse momento (e até hoje), a prestação do carro ocupa metade do meu salário (façam as contas os curiosos), então da outra metade eu tenho que fazer sair o pagamento de todas as outras contas MAIS os gastos 'supérfluos'. A essa altura do baile eu já estava entregue a sorte.
E então veio o último golpe (ou o mais recente, diriam os pessimistas): certo dia, fui tirar um novo talão de cheques para abastecer o carro e o banco simplesmente... recusou. Não estava disponível. Erro na conta, whatever, algo assim. Não dei bola, abasteci de algum outro jeito e deixei passar. Fiquei de checar o porque e demorei, demorei, demorei, demorei... Quando eu vi, apareceu um recadinho no meu extrato: "circular 1528". E quando percebi, nada mais na minha conta funcionava: cheque, empréstimos, nada. Não sabia o que era, mas coisa boa não podia ser. Quando olhei mais pra baixo no extrato, vi o que não queria ver, a trinca maldita: "Cheque compensado. Cheque estornado. Cheque devolvido." Fudeu. Hora de voltar aos malditos canhotos.
O complicado é que, como tudo na vida que eu desgosto, eu tenho frescuras bloqueios. E eu demoro pra resolver as coisas. Mas ok, recebi o meu salário do mês de outubro, descontei a parte do carro (que não teve juros por causa da greve dos Correios) e fiquei com o resto para resolver o problema do cheque. Era simples: recuperar o cheque, pagar ele em dinheiro, ir no banco e pagar a taxa do cheque devolvido para colocar a minha situação em dia. Mas ai começaram os outros problemas:
1) eu não poderia depositar o dinheiro que sobrou do meu salário no banco, porque ele ia cobrir as dívidas pós-limites e eu não ia poder sacar mais;
2) eu teria que descobrir de quanto era o cheque, do que que era e onde buscá-lo (o que fica meio complicado com a minha nova rotina de obedecer o livro ponto no trabalho);
3) os malditos bancos estão EM GREVE; mesmo que eu recuperasse o cheque, não tinha como regularizar minha situação no banco;
Depois de uns dois dias pra deduzir e pensar em como resolver tudo isso, o esperado acontece: os outros dois cheques, os meus dois ÚLTIMOS cheques, voltaram por falta de fundos. Antes eu não tinha como regularizar a minha situação no banco; agora eu não tenho dinheiro para recuperar os três cheques e mesmo que eu tenha, eu não tenho dinheiro para pagar a taxa no banco para devolver eles; e mesmo que eu tenha, o meu banco AINDA ESTÁ EM GREVE, então não tenho ninguém para me atender. Massa né?
Essa é definitivamente a maior sinuca-de-bico financeira em que já me encontrei na vida. E definitivamente já refletiu nos meus hábitos: faz muito tempo que não saio para ir a bares, jogar RPG com os guris tem se provado um ótimo programa quando não se tem dinheiro e estou até engolindo meu orgulho e aceitando caronas (!), já que, claro, quem abastece o carro é minha mãe e qualquer meio de economizar é bem-vindo. Aliás, nessa altura do campeonato já estou pagando somente o celular e o carro, mas mesmo assim, dar a volta vai ser complicado. Sem contar que em momento algum eu citei a faculdade, que é minha mãe que paga.
Minha mãe já me disse em tempos atrás, quando minha dívida era mais branda, que se arrepende de não ter sentado mais (ainda) do meu lado, para me puxar mais na questão financeira. Eu digo que não, a culpa foi minha mesmo, da falta de organização, das facilidades de compras e da falta de limites. Eu não compro nada que não uso (minhas roupas e meus livros tão aí pra provar isso), mas tem certos momentos em que um freio é importante.
Esse post fica com o final em aberto, assim como essa história. Ainda não fui atrás do 'paitrocínio', estou tentando resolver o máximo possível de coisas sozinho sem precisar envolver meus pais, afinal, eles tem as dívidas deles e eu já tenho 23 anos na cara, tá na hora de virar ADULTO. Eu preferia estar aprendendo outras coisas da vida adulta, como fazer churrasco ou consertar um chuveiro, mas a gente tem que encarar o que vem pela frente, sem escolher demais. Uma hora ou outra eu vou recorrer a eles e levar a mijada da vida, mas quero chegar nesse momento sabendo que fiz tudo o que pude pelo menos.
E é isso. Esse foi o post mais auto-biográfico e sincero que já escrevi na vida. Acho que me abri aqui mais do que em todas as vezes que abri meu coração pra falar de sentimentos. Irônico. Repito aqui então o recado que deixei lá em cima, caso você tenha encarado o texto até o fim: me deseje boa sorte e compreenda caso eu suma, não saia por um bom tempo ou me recuse a programas que não sejam de graça. Depois vocês não entendem porque gosto tanto de orquestras e shows de jazz e filmes cults franceses a R$ 2...
Acima de tudo, não repitam os mesmos erros que os meus. Mas sejam felizes.
Sam curte o fato do Blogger ser de graça
7 comentários:
Como uma sincera fã de seus blogs eu vou te desejar boa sorte! A história me lembrou os livros da Becky Bloom. Espero que de tudo certo no final.
na real é MUITO becky bloom... hehehe. até se tu for pesquisar, em agosto de 2009, tem um post bem parecido com esse, com um título bem digno
http://cometa-diario.blogspot.com/2009/08/delirios-de-consumo-de-sam-mcqueen.html
e obrigado!
boa sorte.
Dinheiro na mão eh vendaval...
Boa sorte e bons RPGs pra gente!
Soh pra terminar com mais um clichê:
Levanta, sacode a poira, dá a volta por cima.
Não, não pede emprestimo! ahsuahushas
hahaha, ok, sou fã de clichês. e brigado, brigado, sabe que rpg não falta! \o/
Quase 5 anos depois eu encontrei teu post e só posso dizer que me identifiquei completamente contigo. Na verdade, estou numa situação até pior e queria saber se tu conseguiu resolver as coisas e, em caso positivo, como conseguiu!
Eu sei, não existem milagres e tal, mas quando vê tu te organizou de uma maneira diferente ou algo assim.
Aguardo resposta!
Oi Roxana, tudo bem? Nossa, já fazem 5 anos que eu postei isso e eu nem acredito que tem pessoas que chegam nele ainda! Olha só, como eu sai: eu renegociei a dívida, parcelei ela em uns 2 anos, diminui meu cheque especial e passei a tomar mais controle dos meus gastos, incluindo cheques. Depois de um tempo comecei a dar mais valor para o meu dinheiro e ao meu trabalho também. Pedi um aumento e passei a me programar melhor no fim de cada mês, colocando na ponta do lápis o que vinha no mês seguinte de dívidas e o quanto eu tinha que guardar e quanto que eu tinha pra gastar. Dá um trabalho, mas se você encarar como um trabalhinho de organização é divertido! E ver o que você alcançou, adquiriu ou simplesmente conseguiu fazer com a grana que conquistou vale a pena. Ter dinheiro pra poder jantar, poder dar um presente pra alguém, poder emprestar sem culpa, enfim, fazer bem não só para vocês mas como para os outros, é a melhor maneira de saber que você está dando valor para o seu dinheiro. Boa sorte!
(Ah, e hoje eu tenho outra fonte de renda também, da qual eu não tiro grana pra pagar as contas, mas que tá servindo pra uma poupança pro futuro. Poupança, não esqueça disso! Guarde sempre um dinheirinho!)
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