Não se leve a sério. É só o que eu digo.
Recentemente vimos no Brasil um caso digno de... Brasil. Afinal, onde mais um feto poderia querer processar uma pessoa? O caso, obviamente é o super citado embate Rafinha Bastos X o mundo, se você assumir que os embaixadores do mundo nesse caso são Wanessa (ex-Camargo), seu marido e o filho dela, que não faz idéia do que está acontecendo. Até porque se ele já soubesse, já tinha criado uma conta no Twitter pra xingar muito e dar block e unfollow.
Não convém explicar o caso aqui, já que todo mundo sabe a seqüência dos fatos: piada estúpida, celebridade reclamando, desistência de patrocinadores, Rafinha fora do CQC e embates morais e éticos que não servem nem pra mesa de bar. Como o próprio comediante gaúcho postou no seu Twitter esses dias, “Desculpem. Nem eu mais agüento ouvir falar sobre mim”. O que assusta realmente no caso é o fato do feto (aliteração estranha) ter entrado no processo, junto com os seus pais.
Pelo que li, segundo os embargos jurídicos da coisa toda, o futuro Camarguinho, teve a sua integridade moral e física ameaçada, direito esse protegido pela Constituição. Sendo assim, se encontra totalmente no direito de processar o humorista, mesmo que quando ele realmente seja gente o bastante pra entender o que se passou enquanto recebia alimentos pelo cordão umbilical, Rafinha Bastos seja apenas Rafael, um gaúcho narigudo pai de família. É o ciclo se completando: um feto processando alguém é uma piada mais engraçada do que a própria piada que gerou o processo.
(Boa piada para stand-up comedy: “já contei aquela do feto que entrou no tribunal?” Todos ri.)
Pessoas que se levam a sério demais não tem graça. Ênfase no demais, já que há limites para tudo. Uma corda de guitarra retesada, bem firme e reta, é essencial para o instrumento não desafinar. Mas o que seria do blues sem o bend? Mais blues, sem dúvida, mas no sentido ruim da palavra. E já que estamos falando de música, o que seria do heavy metal se o gênero se levasse a sério demais? Seria interessante, claro. Mas o Edguy não existiria.
E nem clipes como “Holy Smoke”, do Iron Maiden. Ó, Bruce...
Engraçado que o metal é um dos primeiros gêneros que mata seus próprios ídolos porque eles se “venderam”. Que o diga o Metallica, que já passou por isso uma, duas, três vezes... Mas poxa, você já está cantando sobre seres demoníacos que irão dominar a Terra, exigir seriedade além disso já é demais.
E por fim, o campo pessoal e motivo para todo esse post. No filme “Amizade Colorida”, com Justin Timberlake e a minha toda minha Mila Kunis, o personagem de Justin, Dylan, deixa Los Angeles por Nova York, atrás de uma oportunidade de emprego melhor oferecida pela personagem de Mila. O tempo inteiro Dylan fala sobre as diferenças entre as duas cidades e de como Los Angeles era mais calma e organizada. Mas se LA é melhor, porque ele saiu de lá?
Spoilers ahead.
Lá pelas tantas, descobrimos que o pai de Dylan sofre de Alzheimer e que esse foi um dos motivos que o motivou a trocar de cidade. Sem saber mais como conviver com a condição do pai, Dylan abraça a mudança, o que ocasiona um certo choque quando ele volta para casa, lá na metade do filme. Entre outras coisas, como perda de memória, o Alzheimer faz com que o pai do personagem tenha uma certa predileção por andar... sem calças. Quase no clímax do filme, em uma das melhores cenas da comédia, Dylan perde o pai no aeroporto e quando o encontra, ele já está sentado numa mesa de um restaurante chique, esperando seu prato, e sem calças. Dylan finalmente decide encarar a condição do pai, e num ato de bondade e despreocupação, também tira as calças, o que o faz entender que toda a preocupação ao redor daquele ato não era justificada. Levar-se a sério mesmo não funcionava ali. Vamos ficar sem calças então.
Hoje faleceu em Caxias o Tio da Casquinha (ou Vô da Casquinha, ou Velho da Casquinha, como desejar). Figura lendária da cidade, ele passou a última semana no hospital, em decorrência do câncer de próstata que enfrentava há 10 anos. Além do câncer, Rui da Silva Peres, a pessoa por trás da figura do Tio da Casquinha, sofria de Alzheimer, doença diagnosticada no início do ano e que o tirou das ruas. Aliás: o arrancou das ruas, já que se fosse por escolha do próprio, ele provavelmente não teria saído, decidido do jeito que era.
O fato é que o Alzheimer é degenerativo e boa parte desse processo se deu ainda nas ruas, com o Tio da Casquinha vendendo seu produto, sempre com o boné com o gorro de Papai Noel por cima, seu velho casacão e o latão verde. Sua figura tétrica não tinha nada de irreal; era a mais sincera possível, e ele provavelmente nunca se levou muito a sério, o que não significa que nunca o tivessem levado a sério, já que o negócio sustentou a família por anos. É significante em uma cidade como Caxias do Sul, cada vez mais apegada a nomes de família, cargos importantes e posses, uma pessoa como ele ter sua morte lamentada por gente de todo tipo, pais e filhos, gerações tocadas pela presença de uma pessoa que poucos até sabiam o nome.
O Tio da Casquinha é pai do meu tio, morava na minha rua e foi figura da minha vida por um bom tempo. Quem freqüentou minha casa no ensino médio sabe que as casquinhas eram um prato típico dos ensaios na garagem nos sábados. Nos últimos tempos, as notícias rarearam, mesmo com um membro da família dele morando aqui em casa. A idéia geral era de que uma hora isso seria inevitável, ainda mais com o estado em que ele se encontrava. Segundo os meus familiares que estiveram no velório agora pela noite (eu fiquei em casa com meu irmão e minha prima, neta dele), em momento algum faltou gente no velório, das mais variadas classes e raças. Atestado de que o homem realmente tocou muita gente.
Enfim. Vai-se o ser humano, mas fica a sua história. Que descanse em paz, como merece. E fica a lição: não se leve a sério. Mesmo que isso signifique usar touca de Papai Noel o ano todo.
O jornal O Caxiense fez algumas ótimas matérias sobre os últimos dias dele, aqui e aqui. Vale ler.
Sam ainda acredita que o Tio da Casquinha era um Doctor Who perdido no tempo
2 comentários:
Sério.. eu curti o clipe de Holy Smoke!
Muito bom cometa!
Andei lendo alguns posts do cometa diário (fazia tempo que nao lia) esta de parabéns!
Pobre do tio da casquinha =/
Fui..
cara, eu curto muito o clipe de holy smoke! sou fã! até bateu uma nostalgia dos bons tempos de ensino médio... hehehe
e brigado pelos elogios. volte sempre =)
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