Historinha divertida.
Só tenho vizinhos estranhos. Os moradores da casa do lado direito, que estão na casa há poucos meses, são uma velhinha que planta ervas e sente vibrações negativas nas pessoas e um grisalho cabeludão que eu já peguei tirando fotos de uma menininha em meio as plantas, em contato com a natureza. Reza a lenda que ele é ator de teatro. Eu torço pra que seja verdade.
Os do lado esquerdo já moram aqui faz tempo e desde sempre tem uma relação meio conturbada com a minha família. Começou que eles meio que foram "responsáveis" pela nossa casa nova: depois de anos mantendo o terreno baldio do lado da nossa casa, quando eles foram construir a casa deles, as mudanças no terreno abalaram as estruturas da nossa casa, ocasionando uma rachadura nos pilares da nossa área de serviço. A ideia do pessoal aqui em casa já era reformar, mas digamos que isso deu um certo 'empurrãozinho' na coisa toda.
Fora isso, reza a lenda que esse vizinho do lado mantém uns negócios escusos. Disso eu não sei de nada. Mas tirando meu irmão, meu pai e eu, a galera aqui em casa não gosta muito dele. Eu sempre tratei ele com respeito e nunca tive nada a reclamar, mesma coisa para o meu pai. Quanto ao meu irmão, toda vez que o vizinho chega junto com os amigos dele, enlameado da cabeça aos pais, dirigindo os seus jipes de fazer trilha no meio do mato, consigo ver aquela aura de "eu queria que fosse eu". Esse é meu irmão, afinal.
A característica mais marcante dos moradores dessa casa ao lado, porém, são os seus três pitbulls. Uma fêmea e dois machos. Nada contra animais - nós mesmos temos dois cachorros, não que eu faça muita questão - mas é que essa raça em especial de cães inspira... medo. Fato incontestável. Dizem que o cão reflete o dono e eu não pensaria em uma raça melhor para o meu vizinho criar. Mesmo assim, ele sempre cuidou muito bem deles, mas os cachorros sempre geraram certos atritos na vizinhança.
Primeiro porque eles são barulhentos pra caramba quando querem. Segundo, porque meses atrás, quando tínhamos uma vira-lata fêmea que conseguia ser bem barulhenta também, esse vizinho reclamou do barulho da nossa... que reclamamos do barulho dos deles... que reclamou do barulho da nossa... Enfim. Briga de vizinho, vai entender. Eu ainda não entendo porque ninguém aceita o fato de que ambas as casas tem TRÊS CACHORROS NO QUINTAL: querer silêncio é burrice.
E claro, a insegurança. Esse fator nunca tinha sido levado em conta até um pequeno caso que aconteceu essa semana. Estávamos eu e meu irmão chegando em casa da aula de noite, quando vimos nossos tios e nossa prima na sacada, olhando assustados para uma coisa mais para o fim da rua, onde ouvíamos gritos. Um casal estava parado em uma moto na frente da casa, sem ação. Minha tia fez sinal para entrarmos rápido, sinal que obedecemos logo, e fomos já conversar com eles para saber do que se tratava.
Pelos gritos que se ouviam a umas três casas de distância, pensamos que era algo sério, do tipo, gente brigando. Temos uns vizinhos meio tensos para o lado de lá da rua (depois desse post, ninguém nunca mais vai me visitar). Mas não. Logo ficamos sabendo que poucos minutos antes, quando o meu vizinho também estava chegando em casa, num descuido de atenção na hora de abrir o portão, os cachorros dele fugiram. Os três pitbulls. Eles subiram a rua até encontrar alguém, passaram pelo casal na moto, que ficou parado quando viu eles chegando, e entraram no quintal da casa em que o casal estava parado na frente.
Nesse quintal, claro, havia um cachorro. Preso pela corrente.
E os pitbulls atacaram ele. Os três.
Logo, os gritos que ouvimos eram do nosso vizinho e de outros dois homens que foram ajudar a separar a briga dos cachorros. Do pouco que ouvimos, foi tenso o suficiente. Digamos que a mídia já nos deixou bastante receosos sobre o comportamento dessa raça quando ela foge do controle, então só imaginar três pitbulls atacando um cachorro preso e indefeso já é uma cena terrível. Minutos depois, vimos o vizinho e os outros dois homens, três homens adultos e fortes, levando com dificuldade os três cães para casa. Logo depois, o cão atacado foi colocado em um carro e levado para o hospital veterinário, com ferimentos na garganta.
Ainda naquela noite e no dia seguinte, ficamos sabendo mais informações. O cão tinha sobrevivido sim e estava bem, só bastante machucado. No dia seguinte, o vizinho já tinha levado um profissional para sua casa para construir um canil. Por mim, a história já havia terminado por aí. Mas sabe como é né, nunca termina. No dia seguinte, quando meu tio encontrou o vizinho na rua, que logo comentou algo sobre os cachorros, fez o favor de proferir a seguinte frase, muito amigável:
- É, mas se um dos teus cachorros pula o muro da tua casa e ataca um dos meus, eu só quero jogar os pedaços do teu por cima do teu muro, depois de cortar todo ele com um facão afiado que eu tenho lá em casa. Tu vai só ver.
E eu me pergunto: PRA QUÊ GENTE? PRA QUÊ? O cara tem três cachorros violentos, ok; eles fugiram do controle uma vez, ok; ele se provou arrependido e já começou a tomar providências para aquilo não acontecer mais, ok; PRA QUÊ REPRIMIR O CARA AINDA MAIS? É só briga de vizinho ou é um jeito de sei lá, descarregar o ódio do dia a dia com frases de efeito? Quando eu ouvi minha tia contando para minha mãe essa história e as duas comemorando empolgadas "gostei da resposta!", meu único pensamento foi "eu não pertenço a esse lugar". Sério.
Corta para o dia de hoje. Fim da tarde. Cheguei em casa com a minha mãe depois de ir comprar umas frutas no mercado e o portão estava aberto. Logo enxerguei minha tia lá atrás, lá onde ficam os cachorros. Quando desliguei o carro, minha mãe foi lá falar com ela e eu logo ouvi a voz dela nervosa contar o que tinha acontecido: "O Panda atacou o Marley. Quase matou ele".
O Panda é um border collie, que meu irmão adotou durante uma viagem dos Escoteiros para Caravaggio e trouxe pra casa. Os cachorros dessa raça descendem dos antigos cães pastores de renas, e são extremamente inteligentes, tendo uma facilidade enorme de entender novos comandos. Eles também são extremamente energéticos e devem ser criados em espaços abertos, onde possam fazer constantes exercícios. Ou seja, tudo que ele não tem aqui em casa, ficando preso no quintal o dia inteiro. Aliás, nem sei porque estou falando tanto, já que como tudo aqui em casa que envolve os Escoteiros, o Panda tem até o próprio vídeo dele, explicando sua história:
Mais pro fim do vídeo, aparecem o Marley e a Mel. A Mel é a cadela pretinha barulhenta que estava aqui em casa um tempo atrás, mas que foi doada para alguém, já que três cachorros são demais. E o Marley é o vira-lata marrom clarinho que aparece pulando junto com os outros. Ele é pelo menos umas três vezes menor que o Panda. Imagina dentro da boca dele...
Voltando ao acontecimento, guardei o carro na garagem, fui lá em cima levar as compras e quando desci, meu tio estava chegando da rua com a minha prima, já em lágrimas pela cena que tinha presenciado do ataque dos cachorros. Ela tinha ido chamar ele na casa da mãe dele, que fica aqui na rua também. Logo pensei "mas se meu tio estava fora, quem ajudou minha tia a separar os cachorros quando eles estavam brigando?". Saí lá fora e a resposta foi óbvia.
O vizinho.
O mundo dá voltas.
Logo fiquei sabendo da cena inteira: meu tio estava fora e minha prima e minha tia estavam em casa. A minha prima foi lá fora brincar com o Marley, quando o Panda se soltou e foi direto pra cima do vira-lata. Ela gritou assustada e minha tia ouviu e foi tentar acudir. Quando chegou, o Panda já estava com o Marley na boca, balançando ele como um osso de brinquedo. Minha prima deu uma tijolada na cabeça do Panda, que não soltou. Minha tia quebrou uma vassoura em pelo menos cinco pedaços no Panda, que não soltou. Quando a esposa do vizinho viu a cena, gritou para ele ir lá ajudar. Ele puxou o Panda pelo rabo, no braço mesmo, e separou a briga.
Quando meu tio chegou depois, foi logo reforçar a corrente do cachorro junto com o vizinho. E foi possível ver claramente o desconforto dele, trabalhando junto com o cara que ele jurou cortar o cachorro dele em pedaços um dia antes. Agora era ele ali, ajudando a gente com o nosso cachorro violento e fora de controle. A minha tia cuidava do Marley, agora mais pequeno ainda e mais quieto do que nunca. Minha prima era um reflexo dele: lágrimas no rosto, tremendo, assustada. O vizinho, antes de pular para o lado dele do muro comentou "é... os meus fizeram sete buracos no cachorro que atacaram aquele dia. Sei como é." Permaneci na cena até ouvir com certeza o "obrigado" trêmulo que veio logo dos meus tios.
Quando subi para minha casa e fui falar com minha mãe, ela só sabia falar dos cachorros. "Eu fico triste, não queria que fosse assim. Eu gosto dos cachorrinhos, não queria que eles se atacassem assim, sei lá, o que fazer. Prefiro dar fim em um deles, mandar embora, pra outro lugar, ao invés de ter os dois se matando ali atrás..." Eu só conseguia pensar em como a minha mãe, uma pessoa tão preocupada sempre com a questão humana das coisas, só conseguia pensar no cachorro. Como ela não tinha se ligado de que o cara que ela sempre fala mal, tinha acabado de ajudar ela.
Eu, claro, falei isso. "O que eu acho engraçado é que ontem o meu tio ameaçou o cachorro dele, e hoje tava ele ali ajudando". Ela me respondeu: "é, o teu tio e tua tia falam muito mal dele, sempre... isso daí é pra eles aprenderem". Ai subi nos tamancos. "Tu também fala, né mãe! Por favor". Ela disse "Sim. Eu sei. Mas vou deixar bem claro: eu não separaria ele dos cachorros dele". Ela deu a entender que não separaria porque os cachorros são fortes, mas claro... eu conheço ela faz tempo. Consigo ler nas entrelinhas já.
De lição de tudo isso fica o que falei ali em cima antes. O mundo dá voltas. Num dia tu promete matar o cachorro do vizinho caso ele faça alguma coisa com o teu; no outro dia o vizinho tá te ajudando a cuidar do teu cachorro, que quase matou o próprio companheiro de quintal. Eu pelo menos nunca vi os pitbulls brigando (pelo contrário, quando cheguei em casa um dos dois machos tava montado na fêmea bem na frente da casa, feliz da vida). Acredito que o vizinho fez isso na bondade mesmo, porque viu a situação e porque gosta de cachorros, e não pra dar nos dedos do meu tio. Mas se foi pra causar algo, foi bem feito também.
Só sei que opiniões definitivas me assustam.
E border collies, a partir de hoje, também.
Sam só terá um cachorro se puder chamá-lo de Chewie

2 comentários:
Só pra constar que eu vou continuar indo na tua casa :)
aeeee, brigado, brigado. até porque tu sabe apresentar minha casa melhor do que eu já, né... hahaha :)
Postar um comentário