É Chegada a Hora Noturna!

Uma análise sobre R & J de Shakespeare – Juventude Interrompida

Antes de começar o primeiro ato, há algo que merece ser citado. A última vez que estive presente em uma montagem teatral foi na minha 3ª série, no Colégio Leonardo da Vinci. A peça em questão era “O Patinho Feio”. E eu não estava no público: eu era o Patinho Feio. A menos que minha memória falhe (o que ela não costuma fazer), nesses 23 anos de vida compareci a muitas exposições, concertos de música clássica, jazz, salsa, pré-estréias de filmes, palestras... mas nunca havia ido em um teatro.

Corrigi esse erro ontem. E não podia ter começado de maneira melhor.

O elenco

Ato 1 – A metalinguagem a serviço do bardo inglês

“R & J de Shakespeare” tem origem em um texto da década de 80 escrito por Joe Calarco, e foi trazido ao Brasil pelo diretor da peça, João Fonseca, e um dos atores principais, Pablo Sanábio. Completam o elenco Rodrigo Pandolfo, João Gabriel Vasconcelos e Felipe Lima. A idéia original da peça foi mantida em todas as montagens feitas desde então: quatro alunos, homens, encenando Shakespeare à sua maneira. Os personagens da peça são revezados pelos quatro, com cada ator interpretando de três a quatro personagens nas duas horas de espetáculo.

A peça começa com os quatro alunos na sala de aula do colégio interno. Através de um palco montado de forma circular, com as carteiras escolares uma em cada canto da peça, somos introduzidos ao ritual diário de aprendizado dos quatro e suas aulas de matemática e ética e moral. Mas é quando o sinal toca e a aula termina que começa o verdadeiro ritual: com o grito de É CHEGADA A HORA NOTURNA, os atores-alunos viram alunos-personagens e começam a encenar a peça, dentro da peça.

Aliás, a metalinguagem é um dos grandes toques da peça. Afinal, são atores interpretando alunos que interpretam personagens. Ou seja, um teatro dentro de um teatro. Essa sacada rende bons momentos de humor no primeiro ato da peça, quando depois de interpretarem uma cena, os quatro gritam “FIM DE CENA!” e comentam entre eles (e com o público) o que acabamos de assistir no palco.

A primeira metade da peça é permeada por muito bom humor. O monólogo de Romeu na janela de Julieta, aquele em que ele deseja ser suas luvas apenas para tocar em seu belo rosto, é interpretado com uma naturalidade ímpar. Destaque também para a cena do casamento, em que em uma homenagem ao filme de Baz Luhrmann, com Leonardo DiCaprio e Claire Danes, são entoadas uma seqüência de canções românticas, de Beatles a Elton John. Além é claro, do tema de Romeu e Julieta na peça, a canção "Hawkmoon 269", do U2


Ato 2 – E que venha o drama

A segunda metade da peça deixa a metalinguagem de lado e coloca o espectador no palco, junto com os atores. Não há mais os comentários ao fim de cada cena, já que a própria urgência do texto não deixa mais espaço para isso. Mas o verdadeiro drama foi proporcionado pela Universidade de Caxias do Sul, já que a passagem do primeiro para o segundo ato foi ironicamente dividida por uma queda de luz geral que deixou o teatro às escuras. Felizmente, o público compreensivo e o elenco competente não deixaram o clima ficar chato e após uma pequena pausa, a peça foi reiniciada. Bola fora da UCS, onde essas quedas de luz já estão virando rotina.

O único suspiro da segunda metade da peça é, até onde me lembro, a primeira noite de Romeu e Julieta, novamente encenada de forma incrível. A química entre os atores João Gabriel Vasconcelos (Romeu) e o “gaúcho de alma” Rodrigo Pandolfo (Julieta) chega a um nível em que você torce pelo amor dos dois, de tão natural que ele é interpretado. O fato de Romeu ter quase 2m de altura e ‘o’ Julieta ser pequeninho só ressalta a sensação de comprometimento do grande Romeu em proteger a frágil Julieta. É impossível não ser apaixonar pelos dois em cena.

Aliás, Rodrigo Pandolfo é o grande trunfo da peça. O elenco inteiro é espetacular, mas ao contrário do seu principal par de cena, João Gabriel, que interpreta na maior parte do tempo apenas Romeu, Rodrigo se divide entre pelo menos cinco personagens, além de cantar, dançar e tocar gaita. A cena em que Julieta toma o líquido que a deixará desmorta por 42 horas, um monólogo com a trilha sonora feita por ele mesmo na gaita, é incrível. É compreensível que Romeu apenas faça Romeu a peça toda, já que é um personagem que exige uma interpretação forte, que o faça acreditar que ele cruzará mundos pelo seu amor; e também é de se admirar a versatilidade dos dois personagens de “suporte” que interpretam todos os outros personagens (a mãe de Julieta, a ama, o Padre, o primo...); mas Rodrigo Pandolfo o faz acreditar em cena que Julieta pode ser interpretada por um homem tão bem quanto uma mulher. Você torce por ela, você quase a deseja como amiga.

Sem falar que ele é a cara do Howard, do “The Big Bang Theory”. Sério.

Ato 3 – O Comprometimento

É difícil julgar algo que "consumi" pela primeira vez. Sinto-me julgando o primeiro casal da Dança dos Famosos do dia, já que nunca tinha assistido outra peça de teatro para comparar com essa, se é melhor ou pior. Mas do meu ponto de vista, todo trabalho em equipe é resultado e mérito de todos os envolvidos. Da qualidade de Shakespeare, o mais envolvido de todos, não há o que duvidar. Por isso, vou me focar na qualidade da equipe envolvida. E a palavra que melhor descreve é, sem dúvida, comprometimento.

Depois da peça, os quatro atores voltaram ao palco para um rápido bate-papo com os espectadores que ficaram depois da apresentação. Depois de contar sobre a história da peça e como o texto foi adquirido, abriram o espaço para perguntas. E vieram poucas perguntas... mas muitos elogios. Posso afirmar, estando na plateia e depois no bate-papo que a sensação geral do (pouco) público era de satisfação e arrebatamento. E acho que esse é o maior trunfo do artista.

Aliás, quarta-feira de noite, ingressos a 1 Kg de alimento para alunos da UCS e comerciários, R$ 10 para professores e R$ 20 para público em geral, eu esperava casa cheia. Mas não foi dessa vez que um evento cultural de Caxias me surpreendeu (não que eu não tenha culpa - como eu disse foi a primeira vez que fui ao teatro). É a segunda passagem da peça na cidade, e a segunda turnê pelo país, e eu espero sinceramente que eles voltem novamente, pra mim arrastar mais gente para ir. Porque valeu muito a pena.

Se Shakespeare inventou o lead jornalístico com Romeu e Julieta (piada interna de jornalista, nem dá bola), para mim ele acaba de inventar o teatro. E que venham outros.


Sam também curte Shakesbeer e seu clássico "to beer or not to beer"

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