Sabe quando você se sente tão próximo de um artista que passa a considerá-lo parte da família?
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Não sei ao certo precisar o momento em que conheci Rush. Deve ter sido em algum programa de TV que falava sobre "Tom Sawyer", clássico do álbum "Moving Pictures", ter sido trilha do programa do Macgyver na Rede Globo, o "Profissão Perigo", que normalmente é o que a televisão mais lembra do Rush. Sei que o momento em que conheci, bateu aquele brilho no olho e eu logo repetia pra quem quisesse e não quisesse ouvir: "essa banda, o Rush... essa é minha banda".
Minha, do Cartman, do Kyle, do Stan e do Kenny
Claro, eu devo ter umas 12 "minhas" bandas, uma pra cada dia da semana, uma pra cada humor, uma pra cada lua... mas o Rush cara... o Rush combina. Porque né. Rush é nerd. Rush é excluir-se por vontade própria porque o lado excluído é muito mais legal. Rush é aceitar gostar de uma banda que pouquíssimas pessoas vão amar junto com você, mas aqueles que amam... você achou um amigo para toda vida.
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E muito dessa "aura mágica" do Rush deve-se aos temas das suas músicas, que vão desde análises muito inteligentes do comportamento humano até histórias épicas de ficção científica, do tipo que os seus fãs devoram em todos os detalhes. E muito, pra não dizer tudo, dessa parte sci-fi do Rush deve-se ao seu baterista, Neil Peart.
Baterista, aliás, é pouco. Além do "Profissão Perigo", a outra coisa pelo qual o Rush é sempre lembrado é a qualidade técnica dos seus membros e principalmente de Neil Peart. O cara ganhou sete vezes seguidas o prêmio anual de melhor baterista da revista Modern Drummer. SETE. E depois tiraram ele da competição porque ele já era hors-councours e porque né, outras pessoas tinham que ganhar. Foda.
Só falar do lado baterista de Neil já é o suficiente pra admirar o cara. Mas ele é mais foda ainda. Neil é o principal letrista da banda, e letrista de uma banda como Rush não é pouca coisa. Desde o primeiro álbum da banda que participou, "Fly By Night", de 1975, Neil já exibia os traços épicos que usaria pra roteirizar as músicas do Rush durante a carreira. Foi na música "By-Tor & the Snow Dog", que conta a história de uma batalha entre um guerreiro Snow Dog e o malvado By-Tor
By-Tor & the Snow Dog
No próximo álbum, "Caress of Steel", de 1975, a epicidade continua. "Fountain of Lamneth", o primeiro épico do Rush a retratar o tema que depois viraria recorrente nas canções da banda, sobre o homem incapaz enfrentando o sistema para provar suas ideias. Com seus mais de 20 minutos, a canção é um clássico de 7 partes. Apesar disso, minha música favorita do álbum é "Bastille Day", uma aula de história sobre a Queda da Bastilha.
Bastille Day
Ainda no álbum "Caress of Steel", na música "The Necromancer", Neil traria de volta o vilão By-Tor da canção do álbum anterior (dessa vez como herói!), transformando isso em um pequeno easter egg para os fãs da banda que curtiam suas letras. Mas o melhor ainda estava por vir: fã da escritora Ayn Rand, Neil utilizaria um livro seu para dar vida ao álbum mais clássico da banda e que formaria o caráter de muitos air drummers, air bassists e air guitars da história. Senhoras e senhores: "2112".
A abertura de "2112", na "intimidade"
A música, que depois da introdução matadora aí de cima começa descrevendo os Sacerdotes do Templo de Syrinx e termina com uma voz mecânica anunciando "ATTENTION ALL PLANETS OF THE SOLAR FEDERATION: WE ARE ASSUMING CONTROL" é um clássico não só do hard rock progressivo como da ficção científica. Eu não sei como ela não virou um filme até hoje. Ou um episódio de Doctor Who. Eu já tentei transformar ela em RPG umas cinco vezes e sempre que posso copio alguma ideia da sua história pras minhas.
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Então nesse momento, temos um baterista, letrista, fã de ficção científica. Eu seria fã de Neil se ele tivesse apenas uma dessas características; imagina as três. Veio então a melhor parte: pesquisando sobre a vida da banda, fui olhar a data de nascimento de Neil Peart. DOZE DE SETEMBRO.
Baterista, letrista, fã de ficção científica e virginiano.
Lembro de ter anotado na minha agenda do colégio a data de aniversário de Neil Peart. Era algo que ia definir para sempre minha relação com os artistas: descobrir os seus signos para me identificar com eles. Eu desde o início me identifiquei com Neil, em todas as suas funções, e descobrir que ele era virginiano só corroborava essa identificação. Não foram poucos os momentos em que pensei "eu posso ser como esse cara".
(só pra constar, Elvis Costello também é outro virginiano que eu sou apaixonado)
Desde então, Neil fez parte da minha vida e eu fiz parte da vida dele. Sofri junto com ele ao reler as histórias sobre a morte de sua esposa e filha; sobre o seu exílio de motocicleta em que cruzou 88.000km sozinho (esses bateristas que gostam de ficar sozinhos...); sobre o livro que escreveu na volta. Me emocionei ao descobrir que no meio dos anos 90, no auge da fase hard rock do Rush, Neil tirou um tempo para FAZER AULAS DE BATERIA e se reinventar com o baterista Freddie Gruber. Porra, quem ganha sete vezes consecutivas o prêmio de melhor baterista do mundo e vai fazer aulas depois? É muita humildade.
"you can have a beautiful body and look marvelous, but if you're not breathing... it's not a life"
Freddie Gruber, baterista de jazz, Yoda das baquetas e gênio
Cena do documentário "Beyond the Lighted Stage"
O bacana de ficar fã AMIGO de um artista é que de repente você tem uma vida inteira de lições para aprender e foi exatamente isso que aconteceu comigo em relação ao baterista do Rush. Entendi sua dor, suas motivações, sua timidez, seus gostos literários, e de quebra, ainda tinha sua MÚSICA. Algumas noites eu passei com o rádio ligado na cabeceira da cama, a coletânea do Rush tocando e eu tocando minha bateria imaginária, mimetizando o que eu conseguia daquele mestre que eu tinha recém ganhado.
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Hoje, Neil Peart está completando 60 anos. E tocando mais bateria do que eu tocaria em toda a minha vida. Lançou com o Rush recentemente o 19º álbum da banda "Clockwork Angels", um álbum-conceito que eu ainda não tive chance de viver com toda sua intensidade e está lançando um romance sobre o álbum, juntamente com o escritor e amigo de longa data Kevin J. Anderson.
Neil Peart é uma daquelas pessoas que simplesmente faz tudo o que eu quero fazer da minha vida. Ele começou com 22, eu estou a dois dias de completar 24, mas mesmo assim, vale o exemplo dele de que tudo é possível. Basta olhar para a carinha serena que ele apresenta aos 60 anos pra ter certeza de que estar em harmonia com si mesmo é parte importante no processo de alcançar seus objetivos e ser feliz. Se eu chegar aos 60 metade do que ele é, fico feliz. Mas tenho certeza que ele me diria: você pode ser muito mais.
Parabéns Neil Peart. E obrigado.
1min9s: EU ENTENDO COMO ELES SE SENTEM
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Sam está tocando Rush no ar nesse momento
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