Tempos atrás, assistindo um especial do Michael Jackson depois da morte dele (tenho certeza que você passou por isso também nos últimos tempos) meu irmão, diante de todas aquelas afirmações de que Jacko foi "o primeiro a misturar música branca e negra definitivamente" e que era "um visionário" ou como disse Jorge Mautner "experimental até na cor da pele", pediu para mim: "Mas afinal... quem foi o primeiro? Quem foi o mais copiado?".
Rapidamente acessei o meu banco de memória estocado em minha cabeça e voltamos lá aos idos de 1950, 1960, em que o rock engatinhava ainda. Começamos então a discutir sobre isso e percebi que, para mim, o rock era fácil de ser entendido se dividido em pequenos trios. Pensando bem no mesmo assunto depois de dias, chego na conclusão que explicito agora.
A humanidade tem o dom e o hábito de minimizar as coisas. Ela cria algo genial e o expande de maneira perigosa e duvidosa até o momento em que não consegue mais se conter o que foi feito. Depois do estrago, ela vai lá, minimiza tudo, recolhe os pedaços e começa tudo de novo, para crescer mais do que antes e destruir tudo no final.
E com o rock and roll foi assim. No início, havia a música dos negros e a música dos brancos. A técnica de um e o feeling do outro. Então alguém, não entremos no mérito de discutir quem, foi lá e minimizou as diferenças e criou algo único e novo. Bill Haley estava lá, só para citar um dos primeiros. Mas para mim, no início, eram Elvis Presley, Jerry Lee Lewis e Chuck Berry.
Até por uma questão de influência, já que, além de os três tocarem músicas uns dos outros (Elvis principalmente... ¬¬''), este trio influenciou o próximo, na minha opinião, um dos mais sensacionais. The Who, Rolling Stones e Beatles foram lá e pegaram emprestado a imagem e a postura e esmiuçaram ao máximo, nos seus primeiros anos, a ferocidade e a emoção que o rock apresentava na época.
Mas é claro que, como toda criação humana, os filhos crescem. E foi assim com a música deles. Enquanto John e Paul cresciam e criavam com os Beatles a cartilha do psicodelismo da época, Pete Townshend, pra nossa sorte, já não se contentava em criar apenas canções: queria óperas. Ou melhor, óperas-rock. Já os Stones, como um Rony Weasley da vida, observavam atentamente os dois e se preocupavam em copiar o que eles faziam de melhor, criando sua própria identidade aos poucos.
Mas o sonho acabou. Os Beatles terminaram no fim da década de 70, deixando orfá uma geração em busca de algo novo para acreditar. E então, saindo de uma Inglaterra tão acinzentada e talvez até mais desesperadora do que a Liverpool que eles saíram anos antes, surgia o Black Sabbath, composto por três operários e um Ozzy Osbourne que não queria ser nada além de um... Beatle. Ele não só conseguiu tamanha fama como também criou, ao lado dos conterrâneos e contemporâneos Deep Purple e Led Zeppelin, a santíssima trindade do hard rock, influenciando cada um uma corrente diferente de música nos anos seguintes.
Led, Purple e Sabbath esmiuçaram até o fim seus instrumentos, partindo do ponto de perfeição técnica que os Beatles estavam no fim de suas carreiras em 1970 e dando um seguimento ao que o The Who já se encaminhava também. Muitos dos melhores músicos e das melhores músicas do rock surgiram nessa época (e a maioria estava no Led Zeppelin... xD). O esmero técnico dos solos e das composições deste trio refletiu-se durante muito tempo, mas mais diretamente no rock progressivo que inundou os anos 70 com solos intermináveis e viagens espaciais. Bandas como Pink Floyd deixaram a ferocidade de uma bateria como de Bonham no Led para dar espaço à composições que exigiam mais leveza. O virtuosismo porém foi influenciar bandas como Emerson, Lake & Palmer, power-trio progressivo sinônimo de improviso e técnica, e o Rush (que ao lado de Led e Beatles formam a "minha santíssima trindade" =P), power-trio canadense que surgiu sendo nada mais do que uma cópia do Led Zeppelin mas que fez escola no recém-criado hard prog.
Mas é claro, solos intermináveis e técnica extrema cansam. E se nem todo mundo tem saco de ouvir, ainda menos tem saco pra aprender a tocar tudo aquilo. E se bandas nascem fazendo cover, como fazer pra coverizar um solo de 15 minutos com uma viola de 12 cordas e doze efeitos aplicados em cima dela? A humanidade foi lá e implodiu aquela instituição chamada rock progressivo e minimizou tudo de novo então, trazendo de volta a ferocidade e a simplicidade dos primeiros anos do rock and roll, com uma pegada de revolta social que pairava no ar da época. O resultado: uma nova instituição chamada "punk rock". Ramones, Sex Pistols e The Clash fizeram escola, cada um a sua maneira, a geração mais suicida que já pisou na face da terra.
Mas é claro, naquele início dos anos 1980, nada mais era certo. Perceberam que tudo se renova a cada 10 anos? No início, em 1950, eram Elvis, Chuck Berry e Jerry Lee Lewis. Em 60, Beatles, Stones e Who. Em 70, Led, Purple e Sabbath. Agora, em 1980, tinha para todos os gostos: enquanto na Inglaterra os filhos tardios do Black Sabbath geravam a New Wave Of British Heavy Metal (ou NWOBHM, como gosto de chamar) com nomes como Saxon, Judas Priest e Iron Maiden, na costa leste (ou oeste, não lembro) americana engatinhava o Thrash Metal, com Megadeth, Slayer e Metallica. Porém, o mundo é muito grande e ao mesmo tempo, os anos 80 nos brindavam com os 3's M: Michael Jackson, Madonna e MTV. Isso sem contar as bandas os inúmeros sucessos da época (atire a primeira pedra quem não tem uma coletânea com Wham!, Bonnie Tyler e A-Ha) e David Bowie, que vem desde os anos 60 como um verdadeiro vampiro saído dos livros da Anne Rice (Edward uma ova!), alimentando-se da cultura da década e adaptando-se.
Nessa montoeira de coisas dos anos 80, como renovar? Sendo radical. Assim nasceu o grunge, um último grito de resistência, pronto para quebrar o marasmo e iniciar a década de 90 tão barulhento quanto um tiro na cabeça. Nirvana, Pearl Jam e Alice in Chains, entre outros, puseram Seattle no mapa e levaram sua mensagem a juventude. Me lembro de Eddie Vedder falando "se eu e Kurt somos os porta-vozes dessa nova geração, ela está fudida". Concordo com ele.
E foi assim que essa geração se sentiu quando Kurt a silenciou em 94 com um tiro. O chamado "último rockstar" morreu. O Metallica, depois de ser acusado de se vender com o Black Album, de 91, estava prestes a se perder cortando o cabelo e gravando o Load e o Reload. O Guns and Roses já não encontrava a glória há muito perdida do Appetite For Destruction; "Use Your Illusion", o duplo de 1991 que trouxe ao mundo Don't Cry, Civil War e November Rain, já tinha se perdido em sua grandeza de milhares de pianos e solos (reminiscências do rock progressivo?). O mundo idolatrava Spice Girls, Five e N'Sync. Era como se a beatlemania tivesse voltado e atendesse pelo nome de... Backstreet Boys. O rock and roll... o que era isso mesmo?
Então, revisitando a história, como sempre, os anos 2000 trouxeram novidades. Uma série de bandas começando com "The", desafiando o então rock vigente (Linkin Park e Limp Bizkit - pensar que comecei com o rock ouvindo isso...) decidiu deixar os DJs e as batidas eletrônicas de lado e começar a revolução, minimizando tudo mais uma vez e voltando a simplicidade do bom e velho rock and roll. The Strokes, The Hives, The Vines e The White Stripes (falei que eram bandas com "The") trouxeram novos ares a nova década, sendo logo alcunhadas "a salvação do rock". Inclusive, o White Stripes é pra mim o maior exemplo de minimizar uma banda até hoje...
Chegando neste ponto na conversa, foi a vez de eu questionar o meu irmão: "E nos últimos 10 anos? Estamos chegando em 2010 e eu não vejo nenhuma banda promovendo uma revolução ou trazendo algo de novo. Eu vejo o Metallica lançando um CD enorme e sem nexo, o AC/DC com um CD sem solos, o Rush sem virtuosismo e o Green Day lançando a sua segunda ópera-rock. Mas a última banda que mudou algo na música pra mim foi o Ting Tings".
Meu irmão, com toda sua experiência de iPod, respondeu sabiamente: "de 2000 pra cá, as coisas tem se renovado, mas mais rapidamente. Olha o tanto de bandinhas novas que surgem, lançam dois CDs em dois anos e somem". E é verdade. Apesar da possível qualidade duvidosa, eu ouço muita coisa nova desde o ano 2000. Panic At The Disco, My Chemical Romance, Fall Out Boy, The Fratellis, Franz Ferdinand, Kaiser Chiefs e é claro, Arctic Monkeys e McFly (me chamem de emo se tiverem coragem!). E todas seguem o mesmo esquema: lançam algo novo, fazem um estardalhaço perturbador e depois de um ano fazendo turnê, somem em algum subúrbio da Inglaterra (ou da Austrália, caso sejam ingleses) para se renovarem e lançarem algo novo.
É a velha história de minimizar, destruir e recriar, mas acontecendo mais rápido do que nunca. O problema é que vai chegar uma hora em que as bandas já nascerão com os dias contados, seguindo fórmulas mal-feitas e se extinguindo como fogo de palha. Ou terão de ser apenas "corretas": imitar o que já foi feito de bom, sem inovar. Terão um público fácil, mas não fiel. Ou se for fiel, será burro e não saberá reconhecer que não é novidade; se for inteligente, irá atrás das referências originais.
Enfim, toda essa reclamação foi pra comemorar (apesar de não parecer...) e refletir sobre o Dia Mundial do Rock, comemorado hoje, 13 de julho. Eu pessoalmente acho que não devia ter "um dia" especial; rock é todo dia. E já que estou reclamando, quero dizer que sou contra as faculdades de rock. Rock se aprende não no banco da faculdade, mas indo fazer show na quinta-feira de noite e daí sim, indo pra aula na sexta de manhã quase dormindo, morrendo de ressaca. Mas como nunca mais ouvi falar das malfadadas faculdades de rock, deixo minha opinião aqui só pra encher linguiça.
E queria, é claro, agradecer as minhas duas bandas queridas e a toda a constelação de agregados que circula ao redor delas - amigos, namoradas, fãs, groupies e afins (eu sou apenas um cometinha com órbita inconstante, afinal...) - que toda vez que eu encontro fazem eu entender cada vez mais que rock não tem graça nenhuma se não for compartilhado.
E é isso. Empunhem suas guitarras, calcem seus All-Stars e... keep rockin'!!!
6 comentários:
McFLY
Ja dizia Tom Fletcher "We are look the same in the dark"
pô não só empunhar as guitarras, os baixos também ow....hahaha.....mas concordo belo post e bela reflexão acerca de tal data, apesar de que, como eu tive um princípio de desilusão com o rock justamente pelos motivos citados ao longo do post (principalmente pela falta de inovação), recorri ao jazz e ao blues, onde surge pá de coisas boas e inovadoras periodicamente, aliando o vistuosismo e a criatividade.....XDD
É bom ver um texto de qualidade, mencionando as raízes do bom e velho rock n' roll.
Sempre um prazer ler um texto novo nesse teu blog.
Abraço, cara.
uau sam, post muito bom. Parabéns
poseh... como diria jack black:
tudo começou com o papai blues e a mamae jazz
belo post!
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