(Como sou querido, já aviso: o texto abaixo é grande. Respire fundo caso vá encará-lo. E leia ouvindo Muse, ele foi escrito ouvindo essa banda maravilhosa, uma boa trilha sonora para o... fim =)
Um vírus mortal é lançado no mundo. Começa no México e depois ataca os Estados Unidos. Pessoas morrem.
(Michael Jackson morre. Ninguém mais lembra do vírus.)
As mortes lentamente diminuem na América do Norte. O vírus chega a Europa. Milhares são infectados na Inglaterra. Aulas param. Repartições públicas também.
(Uns dois ou três aviões caem. Ninguém mais lembra do vírus.)
Lentamente (e letalmente), o vírus se espalha por toda a América. Chegando à América do Sul, infecta os países que fazem fronteira com o Brasil. O sul sai prejudicado; é época de frio, todos já estão gripados, com a imunidade baixa. Entre os infectados na Argentina, existem brasileiros. E claro, argentinos que vêm para o Brasil. Logo, pessoas que contraíram o vírus ultrapassam a fronteira.
A gripe está aqui.
Em pouco tempo, uma pessoa morre. Um adulto, sadio e forte. Logo, outra morre. Uma criança. O vírus é como a guerra: não faz distinção de cor, idade, credo. Mata pobres e ricos. As pessoas começam a se desesperar. Pensam em usar máscaras.
Mais pessoas morrem. A prefeitura diz que criará um pacote de medidas para tentar conter a infecção. Os jornais já vão mais longe e estampam uma semana inteira de capas com máscaras, como se, num arrombo de Rorschach, já indicassem em letras garrafais vermelhas "The end is nigh."
Os pronto-socorros estão cheios, sem falar nos hospitais. Um novo hospital é preparado as pressas. Um hospital de campanha. Realmente estamos em guerra, contra um inimigo invísivel. No atendimento ao público, todos começam a usar máscaras, que rapidamente se torna o símbolo do combate a doença. Todos preferem ignorar o fato de que elas duram apenas duas horas.
A prefeitura anuncia medidas preventivas. Depois de sugerir um possível fechamento dos bares, igrejas e cinemas, diz apenas que não é recomendável que pessoas doentes frequentem lugares com aglomeração. Como se alguém com febre de 38° fosse frequentar uma boate. Enquanto os adolescentes e jovens tentam ignorar as ordens, os pais ordenam bravamente em casa "proibidos de sair por duas semanas". Para alegria dos pais, shows, teatros e cinema começam a ser cancelados.
Aos poucos, mais pessoas morrem, em todo o país. Mas a maioria está no sul. Auxiliando no medo, as companhias de ônibus primeiro pedem e depois obrigam os seus funcionários a usar máscara. Para ajudar, além do frio, ventos destelham as casas com uma facilidade incrível. Segundo o jornal, o vírus já está circulando livremente nas ruas da cidade. Com toda essa ventania, ele com certeza já cobriu a cidade inteira. O inverno não perdoa.
Mais pessoas morrem. Muitas, de acordo com a cruel e imperdoável mídia, morrem com "suspeita de contraído o vírus". Mas morrer "com suspeita" é diferente de morrer "por causa" da nova doença. Porém, a sociedade conservadora prefere não duvidar da implacável mídia e o quarto poder consegue mais uma vez. Em breve, a cidade inteira parou, menos os meios de comunicação. Alguém precisa manter a população dentro de casa, com medo, enquanto o vírus está lá fora.
A situação se assemelha a "1984". Com as férias estendidas, as pessoas ficam mais tempo em casa. O mesmo acontece com as crianças. Os gastos com energia, acrescidos dos já tradicionais gastos com o inverno, aumentam horrores: além da estufa e da secadora, para combater o frio, temos mais TVs, computadores e videogames ligados em casa. A juventude perdida tem que se ocupar com alguma coisa, já que não pode sair de casa. Porque livros quando temos internet?
Nas famílias com menos dinheiro, os filhos, agora em casa, perdem o almoço que ganhavam no lugar onde frequentavam. Enquanto alguns estocam comida para não precisar mais sair de casa, outros não tem mais com o que se alimentar.
O tempo caótico provoca novas tempestades, causando mais estragos. Caem postes, ocasionando a falta de luz. A casa com estufa, secadora, computador e videogame entra em conflito quando todos são obrigados a se contentar com a cara uns dos outros para passar tempo.
As locadoras nunca lucraram tanto. As pessoas se obrigam a arranjar algo para passar o tempo e recorrem diretamente a elas. Morbidamente, filmes como "Extermínio", "Resident Evil", "Serenity" e a série dos mortos-vivos de George Romero nunca foram tão locados. A humanidade é maquiavélica.
Coincidemente, a situação dos filmes é similar a das ruas, apenas com a ausência dos zumbis infectados por uma praga maligna. As ruas desertas dão o tom da situação: todos estão em casa, a ponto de explodir.
E isso logo acontece. Com mais mortes sendo anunciadas com alarde pela mídia e a falta de explicações, um grupo de pessoas se organiza para protestar maiores informações. Inclusive, não faltam pessoas dizendo que é tudo uma farsa, uma conspiração. O protesto, organizado naturalmente pela internet, meio livre dos vírus humanos, acontece no mesmo dia em que um grupo de protestantes decide ir as ruas para protestar por mais remédios, melhores médicos e mais cuidados. Eles se encontram em frente ao maior hospital da cidade. Enquanto uns dizem que é uma farsa, outros, vestindo camisetas dos parentes mortos e molhando as máscaras de lágrimas, perguntam se os velórios já realizados foram uma farsa.
Conflito.
A polícia é chamada para deter os manifestantes. Além dos hospitais, a delegacia fica cheia. Alguns são mandados diretamente para a prisão. Ao chegarem lá usando mascára, alguns prisioneiros não tem muito tempo para se explicar. Ou pedir clemência. Rapidamente, a prisão continua sem casos de gripe.
Julho e agosto terminam tensos, dignos de meses do cachorro louco. Logo vem setembro, e com ele, a primavera. A administração decide então criar um evento para acalmar os ânimos. Uma celebração ao início da primavera, no parque, porque não? Com ajuda da mídia, que recebeu um puxão de orelha (e algumas ameaças) para tentar levantar a moral da população, um bom público se reúne no parque.
As orquestras de música clássica da cidade são chamadas. No dia da celebração, todos estão lá, sorridentes, tentando esconder o fato de que todos os ensaios gerais foram feitos com máscaras.
O prefeito, recém chegado das férias em um estado que não teve muitos casos de gripe, sobe ao palco antes do concerto para tentar falar algumas palavras animadoras. A multidão corajosa aplaude, ansiosa. Algumas palavras inseguras depois, o prefeito faz o que ninguém esperava.
Ele tosse.
A multidão entra em um silêncio mortal. O prefeito sua. Ele tenta fazer algum comentário espirituoso, mas nada vem a mente. Logo, um assessor corajoso toma o microfone das suas mãos e pede o início do concerto.
Ao som do primeiro acorde, uma ventania atinge o local. Enquanto algumas senhoras seguram os chapéus que utilizavam para proteger-se do sol, alguns jovens lembram-se que na primavera, os ventos auxiliam na polinização das flores, levando os grãos de pólen de uma flor para o estigma de outra flor. Alguém então se lembra dos ventos do inverno, que talvez pudessem ter auxiliado na transmissão do vírus pela cidade, e se questiona se naquele momento, com aquele vento, aquilo poderia estar acontecendo de novo.
A informação logo se espalha na multidão. Logo, os comentários se tornam um ruído, que chega a atrapalhar a apresentação da orquestra. Então, alguém avista de alguma maneira, no meio da multidão, um jovem de máscara.
As pessoas começam a olhar torto. Alguém faz um comentário estúpido. A pessoa de máscara não dá atenção. Logo, um outro corajoso empurra a pessoa de máscara, como se ela pudesse ser a culpada de uma possível contaminação de todos ali. A pessoa levanta e tenta se conter. Outra criatura imbecil sai da multidão e empurra ela de novo. O jovem de máscara se defende. O primeiro atacante tenta atacá-la de novo, mas é impedido por alguém que a defende. Logo, a multidão se divide em dois lados e começa a brigar, porém, em poucos segundos, se esquece do motivo da briga. A insegurança ainda está presente. O medo é mais forte do que todos.
A orquestra demora a perceber o tumulto e continua tocando, criando a trilha sonora para a briga, transformando a cena em algo tétrico, cinematográfico. As autoridades locais presentes logo são deslocadas para sua segurança e a polícia então se mobiliza na tentativa de conter o conflito. Depois de muitas prisões e muitos feridos, é localizado o jovem de máscara, pisoteado no chão. Morto.
A mídia logo tenta cobrir o caso, dizendo que ele estava doente, por isso estava de máscara. Alguns grupos porém, tentam dizer a verdade, que aquela tinha sido a primeira vítima da ignorância da gripe, e não da gripe em si. A família do jovem é encontrada e questionada porque ele estava de máscara. Segundo eles, ele tinha acabado de retornar de uma viagem ao campo e viu as capas sensacionalistas dos jornais, dizendo que a máscara era um meio seguro de se proteger da gripe. Tinha acordado mais tarde naquele dia e, ao saber que os pais tinham se dirigido ao parque, resolveu ir encontrá-los. Porém, influenciado pelos jornais, assustadores, resolveu por a máscara.
Ele não estava doente. Estava se protegendo.
Até o fim do ano, mais mortes acontecem, algumas pela doença, algumas por falta de informações, e algumas por estupidez mesmo. O verão chega e com ele a dúvida se é mais seguro ficar em casa ou partir ao litoral. A insegurança logo chega a estrada, com as pessoas fugindo da cidade como se assim estivessem fugindo do vírus. As barreiras nas rodovias, porém, trazem de volta o fantasma da doença.
2010 chega, sem fogos de artifício na praia. Um ano inseguro se inicia.
Mas é claro, tudo isso é um cenário hipotético pré-apocalíptico, criado por uma mente doentia nerd que adora cenários apocalípticos. Não há nada a temer, afinal, estamos seguros.
Não estamos?
6 comentários:
já vejo a frase que seguiria depois do título: "baseado em fatos reais".
Acho que lendo este texto tive um dejavú... Presenciei isso, mas acho que estava sonhando...
hehehehehe (riso amarelo...)
Eu repito a minha pregunta :
O que vc anda tomando O.O?
Mas eu adorei ahsuihais
beijooos =**
Ouvir Muse dá um clima bem maléfico e no início eu achei que era verdade ¬¬
Eu ri na parte em que as pessoas seguraram os chapéus pra não voarem. É estranho.
Foi legal a postagem.
que coisa doentia...mas legal.
Sim, eu fui lendo aos poucos... Mas cenário apocalíptico inventado por ti não podia ser chato. Valeu a pena.
Afude o post!
ABraço
Postar um comentário