Onde você se vê em cinco anos?
Em 1972, David Bowie lançou a obra prima intitulada "The Rise and Fall Of Ziggy Stardust". O álbum conceitual, que dispensa comentários (leia mais aqui e aqui, mas, antes de tudo, baixe o disco aqui), abre com a faixa "Five Years". O prólogo da história narra a chegada do alienígena Ziggy Stardust à Terra no momento em que a humanidade descobre que o mundo acabará em cinco anos, devido a falta de recursos naturais. Reza a lenda que Bowie escolheu o tempo de cinco anos porque em 1971 sonhou com o seu falecido pai, que disse a ele para nunca mais voar e que morreria em cinco anos. O sonho teve tamanha influência em Bowie que ajudou na criação da música, do personagem e da lenda. Imagino Bowie pensando: "Tenho cinco anos. Vou entrar para a história".
Traçar a nossa vida futura é uma tarefa ingrata. Somos acometidos desta questão normalmente em momentos em que somos questionados sobre nossa vida. Em que ponto do meu crescimento estou agora?. O que alcancei até aqui? Aonde estarei em cinco anos? Essa é uma daquelas perguntas que provocam arrepios na espinha e dão a sensação de que estamos fazendo tudo errado. Somos atacados por uma miopia súbita que impede de ver as coisas claramente. Daí o desespero bate.
E isso não é somente pensando cinco anos à frente. Eu admiro profundamente pessoas que consigam planejar o seu dia a dia de forma metódica e organizada. Sou virginiano mas falho nesse quesito. Me lembro meu irmão comentar uma vez algo como "se um adolescente no ensino médio tem dez coisas para fazer E as suas tarefas do colégio, ele irá fazer todas as outras coisas antes e só então fará as suas obrigações escolares". Porém, essa falta de foco não atinge só os adolescentes.
Sento na minha cadeira de trabalho todo dia, já imerso no ambiente e já com a noção de que tenho coisas para fazer. Porém, eu tenho internet banda larga. E MSN. E Orkut. E Twitter. E blog. E 11.292 arquivos divididos em 975 pastas na minha pasta de músicas. É ÓBVIO que o trabalho será a última coisa em que vou me concentrar. O que se repete todo dia é uma lida rápida de todas as notícias dos sites que acompanho e das postagens mais recentes no Twitter, rotina normalmente interrompida abruptamente pela chegada de um chefe.
Essa falta de foco nos objetivos é normal. Com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, a mesa cheia de papéis, o telefone tocando, as pessoas falando, é difícil saber por onde começar. Não temos nem idéia de como o dia irá acabar. Quem dirá planejar a semana inteira na manhã da segunda-feira e torcer para que dê tudo certo no final da sexta e a semana não invada o sábado.
Planejar cinco anos então, nem se fala...
Eu, pessoalmente, não sei onde estarei em cinco anos. A minha resposta comum (que eu venho dando há mais de cinco anos...) seria: "me vejo sendo músico, tocando por aí e vivendo disso". Um tanto quanto esperançoso, claro, mas sonhar não custa. O que custa é fazer acontecer, mas para isso temos que viver agora, não cinco anos no futuro. O presente é o que importa. Considerando a "estabilidade" de uma carreira artística, não vejo nada muito concreto na minha frente. Mas confesso que fico feliz por isso. Explico.
Sexta passada madruguei assistindo "Rockstar", seguido de "Across The Universe", dois legítimos Movies That Rock (mas que não estavam passando na VH1... ;]). Foi uma noite solitária e divertida; "Across..." eu assisti de novo somente para ver a cena da enfermaria e cantar um pouco de Beatles, o que nunca é demais. "Rockstar", apesar de se passar numa das épocas mais repugnantes do rock and roll, é uma fábula legítima do sonho adolescente (mas que ainda não supera a minha menina dos olhos, "Quase Famosos"), e ao assistí-lo de novo pude ver algumas coisas que já não lembrava mais e que se refletem no que faço. Não me recordava que um dos motivos para o personagem de Mark Wahlberg sair da banda era o fato dele querer seguir como uma banda "tributo", enquanto o resto da banda queria compor músicas próprias, tornando-se uma banda "cover". Tendo eu uma banda tributo e uma banda cover que compõe músicas próprias, achei muito interessante essa questão. E o fato de eu poder seguir pelos dois caminhos só contribui mais ainda para o meu futuro "nebuloso"...
Porém, há uma passagem do filme que tem mais a ver com o assunto tratado aqui. Em certo ponto do filme, Chris / Izzy, personagem de Wahlberg, conversa com o empresário da banda, Mats, interpretado por Timothy Spall (Rabicho!!!) sobre ter decepcionado a namorada, Emily, interpretada por Jennifer Aniston. Chris então questiona Mats sobre como ele entrou para aquela vida. Mats conta que certo dia estava no parque com a namorada e tinha uma vida feliz. Em certo momento, decidiu ir ao banheiro e, enquanto estava lá mijando, teve uma epifania, um momente de iluminação, em que enxergou toda a sua vida traçada a sua frente. De repente ele estaria casado, sua mulher estaria grávida, ele arranjaria um emprego e viveria para sempre em uma casinha sustentando a família. E não era isso que ele queria. Mats acabou o que estava fazendo - lavou as mãos, espero - e deu as costas para a namorada. Nunca mais voltou.
Eu enxergo dessa maneira um dos meus casais de amigos mais próximos. Eles namoram firme há tempos, estão sempre se vendo, fazem coisas juntos, viajam juntos, tem empregos estáveis e fazem a mesma faculdade. Já até trabalharam no mesmo lugar, sendo que foi ela quem conseguiu o emprego para ele. Eu já vi essa cena antes. Meus pais se conheceram trabalhando no mesmo lugar e o atual emprego do meu pai foi minha mãe quem conseguiu. E o futuro dos dois provavelmente será o mesmo que o dos meus pais: eles irão se formar, vão casar, morar juntos, guardar dinheiro durante o ano para viajar nas férias, ter filhos, viajar com eles nas férias enquanto eles são pequenos e depois gastarão na educação dos filhos, sacrificando a sua própria satisfação. Quando os filhos já tiverem dinheiro para se manterem e se virarem e eles dois puderem voltar as suas viagens e diversões, eles já estarão acomodados em sua casinha, provavelmente com uma casa de campo também, e se lembrarão saudosos dos seus vinte e poucos anos, felizes e conformados.
Não há nada de errado nisso. Espero realmente que eles tenham filhos felizes e uma casa de campo (e que me convidem para ir lá passar alguns fins-de-semana ensolarados). Mas eu odiaria saber que minha vida poderia ser traçada em um parágrafo de um blog idiota. Não vivemos um roteiro. É tudo uma questão de escolha. E quem faz estas escolhas, naturalmente, somos nós.
Ilustrando melhor, um outro amigo meu seguia o mesmo exemplo até o ensino médio; nós podíamos traçar detalhadamente sua vida até um futuro próximo. Garoto gordinho que lia bastante e não fazia muito sucesso com as garotas, estudava muito e ia muito bem no colégio. Muito bem mesmo. A sucessão de eventos foi natural. A gente sabia que ele ia passar na faculdade federal de POA. A gente sabia que ele ia se dar tão bem na faculdade quando no colégio. A gente sabia que ele logo ia arranjar um intercâmbio e ia estudar fora. A gente sabia que cedo ou tarde ia se despedir dele, desejando que passasse dois bons anos na França. A gente sabia que logo ia ver o álbum de fotos dele no Orkut detalhando o mochilão que fez durante 15 dias na região de Córsega, acompanhado apenas de sua bicicleta, uma barraca, uma câmera e belas paisagens, dormindo onde esse e acampando quando não arranjasse teto para dormir...
Peraí? O nosso garoto pálido gordinho de óculos que ia bem em física... fazendo um mochilão pela Europa? Acampando? Magro? Não, a gente não esperava por essa...
Mas que orgulho! Fiquei aliviado ao saber que pelo menos um de nós está lá fora, conhecendo o mundo. Enquanto eu estou aqui, em dúvida se primeiro acesso o Twitter ou o 4Shared, ele tá lá, tirando fotos de cidadelas e escrevendo "françeses" e "descançar" no Orkut. Mas tudo bem, eu trocava alguns erros de português por alguns momentos lá, sem dúvida.
A rotina me mata. E garanto que mata muitos também. Olhar cinco anos no futuro e ver algo de concreto é um pesadelo. Esse período de férias, em que trabalho manhã e tarde, é mais ou menos assim. Saber que irei acordar todo dia no mesmo horário, pegarei o mesmo ônibus com as mesmas pessoas, voltarei com as mesmas pessoas pra casa almoçar, irei de volta ao trabalho com as mesmas pessoas, voltarei para casa no mesmo horário... isso é um absurdo! Onde está a novidade, o tesão pela vida! Felizmente, eu trabalho em um lugar e em uma área onde nada é muito correto. Estava desde ontem me preparando psicologicamente para viajar com a agência inteira e trabalhar em Guaporé até tarde, curtindo um estresse bacana e exterminando minha sexta-feira. Hoje, antes do meio-dia, meu chefe disse "tu fica". Agora estou aqui, escrevendo no meu bloguezinho querido, curtindo um fabuloso silêncio e fazendo algo inesperado. Ah, o banheiro tá entupido também. Viva a mudança.
Não esmoreçam. Não deixem a rotina pegá-los. Porém, não percam o foco. Transformem essa miopia repentina em algo novo, criativo, uma nova centelha de vida. Há uma música do Rush que fala "life is just a candle and a dream must give it flame". A vida é apenas uma vela e um sonho deve dar a ela a chama. Com um sonho, Bowie virou uma lenda e começou a entrar para a história. Não se esqueçam dos seus.
E você, onde se vê em cinco anos?
4 comentários:
Cometa!
vsf!
Eu tava justamente pensando as mesmas coisas...
Não sei se tu percebeu, mas realmente, teus "artigos" no blog tem cada vez mais "tocado" as pessoas...
heuehue pelo -, eh o que me parece.
Toda vez que eu leio, eu me identifico... (também tenho um casal de amigos nessa situação e por incrível que pareça também tenho 1 colega que era gordinho e foi viajar!)
Eh incrível como tu tem captado a alma do leitor!
Indiferentemente do sucesso da banda, te digo, continue estudando e escrevendo.
Vai que por acaso a banda não dê certo, vc se desiluda e caia nas drogas.
Conhecendo um travecão viciado, que te levará para o mundo dos sonhos e te mostrara a vida de uma maneira mááágica que vc nunca viu antes???
O que ia ser de ti? hueheuheu
Talvez, quem sabe, em 5 anos ao fazer sucesso com o blog, tu não tenha virado escritor e esteja por ai, viajando também, escrevendo sobre outras coisas???
Ou ainda, use o blog como meio de propaganda da banda?
vai saber!
heuheuehu
Mas cara, sério mesmo, tu ta escrevendo bem!
Continue assim!
Mas sobre a tua pergunta?
Aonde eu me vejo em 5 anos?
Confesso, uma casinha no campo seria legal, principalmente acompanhado da bonequinha perfeita dos sonhos.... viveriamos "felizes para sempre" abraçadinhos e esperando o dia de amanha.
Mas ambos sabemos que existem velhos gordos, bixos peludos e cadélas!
Mas Papai noel, coelinhosda páscoa e princesas, são coisa de conto de fadas.
Caimos na real, o mundo eh cruel, as pessoas são pau nu cu...
Eu não quero saber onde estarei daqui 5 anos...
Eu quero é aproveitar o hoje.
Quero é curtir ao máximo..
Que adianta planejar daki 5 anos isso... daki x dias aquilo??
Se vc pode morrer de gripe suina a qualquer instante??
tudo tudo bem... não extravazemos, mas como eh bom jogar tudo pro alto e ligar o "foda-se" de vez em quando!
Tipo assim... tem uma banda muuuuuuuito fóda.... que comecei a ouvir recentemente que diz o seguinte em uma música:
"I dont know where I am going"
Nem nós!
"But I sure know where I have beeing!"
Chega de perder tempo na rotina, chega de planejar...
enfim..
"I've made up my mind, I aint wasting no more time"
liga o "foda-se!"
Como tu disse.... 5 anos não se pode traçar nd...
eiu não tenho a menor idéia de onde eu vou estar daqui a 5 anos...
ao contrário do que todos pensam...
eu vo saí pro exterior( tenho medo que seja pra india por causa do trabalho ¬¬)
a minha maior felicidADE É Q EU NÃO TENHO A MENOR IDÉIA DE COMO SERÁ AMANHÃ....
já esse casal de amigos.... pode ser que passe essa imagem...mas ninguém sabe... o que os 2 pensam...
e o amigo gordinho..... td mundo sempre soube que ele alçaria voôs longos... não é nenhuma susrpresa...
o q surpreende é ele ter atitude maior que nós....
a vida é ótima pq ela é imprevisivel.. qdo td parece estar certo.....td muda....
ou seja nunca tenha certeza de nada.... até q aconteça...
Professor disse: "Um sábio sempre duvida das coisas, um tolo, tem sempre certeza de tudo!"
Joazinho: "Serio!?? Você acha?"
Professor: "Sim! Eu tenho certeza!"
baaaahhh...
esses dias, no bus, tava lendo um conto sobre isso num livro do Jabor...
nao sobre o casal e muito menos sobre o amigo ex-gordinho, mas sim sobre o querer viver sempre o momento, o presente. seria bom neh... se a gente conseguisse fazer tudo no presente, soh q NÃO DÁ!
o conto, curto mas oportuno, falava sbre a gente criar um "imenso presente", o qual a gente nao consegue viver.
pra exemplificar melhor, ia passar o que foi meu dia hj e a quantidade de coisas q eu deveria fazer... depois ia relacionar isso com o texto do jabor em uma dissertação maravilhosa e ia terminar com uam conclusão soberba falando de como eu amo meus amigos
mas... eu vou assistir lost e deixar as coisas na lista das coisas pra serem feitas no meu imenso presente de amanha...
arthur será sempre nosso orgulho
tu tah realmente escrevendo super bem tche! dizem q eh o sofrimento inspera, é?
mas eu soh muito desorganizado e a chácara nao vai sair mesmo...
té
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